Zeus | Coleção Deuses da mitologia

a outra vida

Há aproximadamente 10 mil anos, com o advento da agricultura, a humanidade concebeu uma relação direta entre forças sobrenaturais, fenômenos naturais e suas colheitas. Datam desse período, por exemplo, estátuas de uma primeira deusa da fertilidade, associada à fertilidade da terra. Daí em diante, nenhuma cultura deixou de possuir seus mitos. Estes, no correr dos séculos, ao transcenderem o caráter agrário, passaram a abranger outros aspectos da vida e das sociedades.

Deuses da Mitologia, coleção inicialmente idealizada pelo professor Luiz Marques, é dedicada às principais figuras mitológicas de todos os tempos. Além disso, compõe uma pequena história da arte, tendo os deuses como fi o condutor. Nas ilustrações inseridas ao longo dos textos, ou em dossiês de imagens, recolhemos diversas representações dos mitos e recuperamos a persistência de algumas cenas, relacionando-as aos padrões estéticos das diferentes épocas.

Os primeiros quatro números tratarão de Zeus, Apolo, Afrodite e Baco, protagonistas daquele que é o conjunto de mitos mais difundido no mundo, a mitologia greco-romana. As histórias de que esses quatro deuses tomam parte sempre fascinaram o grande público, e intrigaram os estudiosos… Quando, no século XIX, foram abordadas pelo viés moralizante, influenciado por preceitos cristãos, elas acabaram sendo vistas como “selvagens e absurdas”, obra de um povo ainda primitivo, ignorante e sobretudo devasso. Depois, analisadas levando-se em conta que a função do mito, além de expressar o sagrado, era perpetuar a tradição de uma sociedade, elas estimularam os pesquisadores a buscar no contexto histórico evidências materiais que dessem inteligibilidade ao mito, construindo uma ponte nem sempre muito sólida entre lenda e realidade.

Mais recentemente, no entanto, consolidou-se uma abordagem em relação às mitologias em geral, e à greco-romana em particular, que conjuga história, psicologia, lingüística, antropologia e sociologia. Segundo esta linha multidisciplinar, a verdadeira função do mito seria revelar as estruturas mentais e o modo de funcionamento das sociedades. Para o helenista francês Jean-Pierre Vernant (1914-2007), um dos expoentes dessa escola, o mito “é um sistema simbólico institucionalizado, uma conduta verbal codificada, veiculando, como a língua, maneiras de classifi car, de coordenar, de agrupar e contrapor os fatos, de sentir ao mesmo tempo semelhanças e dessemelhanças; em suma, de organizar a experiência”. Sob essa óptica, o mito ganhou o status de “fato social total”.

Neste primeiro número, sobre Zeus, Luiz Marques nos oferece uma sólida “biografi a” do mais importante dos deuses do panteão greco-romano. Dentre outros assuntos, nos fala de seu pai, Cronos, e de seus irmãos mais velhos; nos conta de seu nascimento, da guerra contra o pai e contra os Titãs, de sua conquista do poder absoluto e do estabelecimento da ordem universal, criada a partir do monte Olimpo; nos permite acompanhar suas transformações e seus amores, que não foram poucos; e relata sua passagem para a civilização romana, quando então Zeus ganha um novo nome, Júpiter, e renova seu papel de destaque no imaginário da chamada civilização ocidental.

RODRIGO LACERDA, editor