Vocês Vão Perder o Sono

De todas as notícias lamentáveis que nos chegaram de Brasília desde o início da crise do Mensalão, a pior, disparado, foi descobrir que o Roberto Jefferson cantava ópera.

A ópera, um gênero já tão atacado pelos conceitos estéticos da contemporaneidade, não merecia mais essa.

Uma cena que não me sai da lembrança é a de jornalistas do lado de fora do prédio onde mora (ou morava?) o ilustre presidente do PTB. Estavam todos ouvindo-o e gravando-o enquanto castigava o gogó durante uma aula de canto.

O que há de tão lamentável nisso? Bem, primeiro, eu me senti ultrajado, porque, no chuveiro, canto ópera muito melhor que ele. E, no entanto, nunca o jornal Nacional se deu ao trabalho de ir me gravar para a posteridade.

Segundo porque ele, na ocasião, assassinava a sangue-frio uma das minhas árias preferidas. Devo admitir, contudo, que a letra da música se encaixava perfeitamente bem às circunstâncias. Dizia o seguinte:

Calaf:

Ninguém irá dormir! Ninguém irá dormir!

Ó princesa casta em sua fria janela,

Olhando as estrelas que tremem

De amor e esperança!

Mas o meu mistério se esconde em mim,

O meu nome ninguém saberá!

Não, não, apenas para a sua boca eu direi,

Quando vier o esplendor do amanhecer!

E o meu beijo romperá,

o silêncio que te faz minha!

Vozes Distantes:

O nome dele ninguém saberá.

E nós devemos, ai de nós, morrer. Morrer!

Calaf:

Que a noite se vá! Recolham-se estrelas!

Recolham-se estrelas! Na aurora, eu vencerei!

Vencerei! Vencerei!

Rodrigo Lacerda, 2005