Vista do rio

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Só entende o Rio quem, das fronteiras entre a perfeição natural e a instável ordem urbana, souber extrair um estilo de vida, uma ética muito sutil e peculiar.” Isto é o que diz Rodrigo Lacerda, e a precisão com que soube formular esta frase, verdadeiramente lapidar mostra que sim, ele se inclui na privilegiada categoria dos escritores que entendem ou entenderam o Rio de Janeiro. Uma categoria ilustre, sda qual fazem parte escritores como Machado de Assis, Lima Barreto e Rubem Fonseca, cronistas como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, poetas como Vinícius de Moraes, dramaturgos como Nelson Rodrigues. O Rio é um tema inesgotável, mas é também um desafio, sobretudo para ficionistas: é um cenário grandioso demais, variado demais, contraditório demais.

Mas Rodrigo Lacerda está à altura do desafio. Ele já o havia demonstrado em suas obras anteriores, O mistério do leão rampante, A dinâmica das larvas, Tripé. É um escritor jovem, mas com notável domínio do texto. E, datalhe importante, nasceu e cresceu no Rio de Janeiro. Seu estilo, ainda que sem expressões de gíria ou recursos equivalentes, é visceralmente carioca. Mas não é apenas uma crônica da cidade, o que ele faz em Vista do Rio; é uma história humana, uma história que fala de sonhos, de aspirações e de frustrações (muitas frustrações) de brasileiros vivendo na cidade que é um paradigma do Brasil atual. “Contar, contar sempre”, diz Virgílio, que, nesta narrativa, equivale um pouco ao personagem de Dante. Contar não apenas no sentido de narrar, mas de revelar, e revelar através da arte ficcional. A cena do vôo de asa-delta, por exemplo, é de grande beleza – e de um simbolismo eminentemente carioca.

Vista do Rio é um título modesto. Vista, talvez; mas vista importante, porque os olhos que vêem são os olhos de um talentoso escritor que, com esta obra, dá um passo decisivo para a consolidação de sua obra literária.

|| Moacyr Scliar