Vampiros
– É sério…
– Sério, Guedes? Como é que um convite desses pode ser sério?
– Quem lê esse tipo de coisa, lê achando que é o assunto mais sério do mundo.
– Duvido. Sempre vi filme de vampiro e nunca achei aquilo a coisa mais séria do mundo.
– Mas os verdadeiros vampirófilos acham.
– E você está organizando uma antologia de contos para vampirófilos!? Quantos eles são? Uns três, mais ou menos…?
– Você que pensa.
– Dez?
– São milhares, Ricardinho, milhares e milhares de jovens no Brasil. Grupos na internet, encontros, festas a fantasia, jogos de RPG. Os darks, os góticos… é gente que não acaba mais.
Os dois amigos, por um instante, se calaram. O bar havia acabado de abrir, eles tinham acabado de chegar, e só tinham bebido um mísero chope escuro cada um. No começo da noite, ao fim do dia de trabalho, ainda era cedo para ir mais fundo na discussão. Ficaram em silêncio, um pensando, o outro sentindo a eficácia de seus argumentos.
Veio a segunda rodada. No pescoço dos copos, colarinhos cremosos e amarronzados inflavam como suflês. Ao terminar o primeiro gole, os dois amigos sentiram nos lábios a umidade e o frescor dos bigodes de espuma.
– Tudo bem. Vou pensar – sucumbiu parcialmente Ricardo. – Mas nunca escrevi um conto de terror, e acho que não levo muito jeito.
– Ricardinho, vai por mim. A grana compensa o prazo curto. A gente já escreveu tanta coisa mais difícil por tão menos dinheiro. É ter uma boa idéia e botar no papel, só isso.
– Como se fosse fácil ter uma boa idéia…
Os dois amigos tomaram mais um gole de chope. Ricardo, enquanto sentia o gosto amargo da bebida, pensava se valia mesmo a pena participar da antologia. Bem que precisava do dinheiro. O salário que recebia, para editar os livros dos outros, até que já tinha sido suficiente, mas a moleza acabara na pensão da segunda ex-mulher. Como driblar a convicção de que seu conto seria uma droga? Já não sentia a compulsão de publicar qualquer coisa a qualquer custo, como se a tinta no papel fosse a única manifestação indiscutível de sua vocação literária.
O Guedes, que vivia de frilas publicitários, lamentava que tantos jovens escritores – ou nem tão jovens, como eles – encarassem o ofício com tamanha sacralidade. Ainda que escrever um bom conto sobre vampiros exigisse mesmo menos talento do que fazer um conto psicologizante, por exemplo sobre relação homem-mulher; e daí? Desde quando isso era motivo para não escrevê-lo? Por que a literatura não podia ser uma coisa leve, para divertir. Por que, para se acharem escritores “sérios”, eles precisavam ter sempre uma atitude compenetrada e austera? Só se fosse para agradar a um modelo de crítica… Além do mais, um bom conto sobre vampiros, capaz de prender o interesse até do leitor especializado, arrepiando-lhe os cabelos da nuca pelo menos uma vez, era tão ou mais difícil que um conto “cabeça”. No conto de terror, tudo tem de fazer o máximo sentido. Já na psicocoisa, quando o resultado é algo absolutamente inverossímil, o escritor tem sempre a desculpa de que é autobiografia.
– A Academia Brasileira de Letras já está reunida? – ironizou uma voz, se aproximando. Era Vicente, o terceiro membro oficial do círculo, que acabava de chegar.
– E aí, bonitão? – elogiou Ricardo, recepcionando o amigo.
– Essa beleza toda é pra mim? – provocou o Guedes.
Vicente, mantendo o tom provocador, respondeu:
– Guedes, meu querido, a beleza física é um acaso. Nem eu mereço castigo por tê-la, e nem você deve se torturar inutilmente.
Todos riram. Eram amigos desde os tempos do colégio. Na faculdade, Ricardo fez História, Guedes, publicidade, e Vicente, jornalismo, mas nunca perderam contato e a imensa intimidade. Ricardo e Guedes tinham em comum a vontade de se firmar como escritores de ficção, e trabalhavam por ela nas horas vagas. Vicente nunca perdeu tempo com isso, tinha outras prioridades.
Uma vez formados, o Ricardo casou, teve filho, separou, casou de novo, com uma mulher vinte anos mais jovem que a ex, teve mais filho, separou de novo, e estava a um passo do terceiro casamento. O Guedes casou muito cedo, e teve filhos, no plural triplo, sem nunca ter separado. Até onde os amigos soubessem, nunca tivera qualquer coisa com outra mulher além da esposa, a idolatrada Valéria. Nem um escorregãozinho. Já o Vicente, quando completava no máximo um ano com alguma namorada, perdia imediatamente o controle sobre sua inquietude peniana (um acidente natural, como a sua beleza). Acabava o namoro de dois jeitos: ou simplesmente anunciando o fim, uma delicadeza menos comum, ou arrumando um caso e um jeito da namorada titular ficar sabendo da reserva em ascensão. Quando tinha crises, de culpa ou de isolamento, se amparava nos amigos. Mas as crises passavam rápido. Filhos?, jamais sequer cogitara a hipótese.
Um novo chope geral foi trazido, e junto com ele veio o trabalho, a primeira descarga. O que cada um estava fazendo, quem estava mais de saco cheio do seu respectivo emprego, quem já estava pensando em mudar etc. A noite estava começando e a sede era grande. Veio mais uma rodada.
Vicente, que era assessor de imprensa de um deputado, puxou um papo sobre política. Mas só ele, no Brasil, levava a política a sério a ponto de ainda ser idealista. A corrupção era tanta, tanta, que só pessoas absurdamente teimosas discordariam do fato de que o Brasil jamais terá solução. E, como se sabe, onde há consenso o papo não progride. Os três amigos logo perceberam que estava na hora de falar de mulher.
Vicente, claro, tomou a iniciativa. Afinal, era o único assunto do qual entendia mais do que os outros dois. E sempre tinha história novas para contar. Dias antes, por exemplo, saíra com uma modelo de 19 anos.
Ricardo gostava, se divertia com aquela luxúria cotidiana. Já o Guedes, às vezes, se aborrecia, condenava o amigo egocêntrico e hedonista.
Mas o Vicente estava acostumado aos pruridos cavalheirescos do Guedes, e ficou bons minutos enumerando os atributos físicos que havia eleito na moça. Finalmente arrematou, com chave de ouro:
– … o topetinho dela era em estilo mohicano!
O Ricardo achou graça, maliciosamente, até um pouco invejoso. O Guedes apenas sorriu. Percebendo isso, Vicente perguntou, com maldade:
– Você já comeu alguém com topetinho mohicano, Guedes?
– Olha a provocação… – contemporizou o Ricardo.
– Deixa ele – falou o Guedes.
– Você sabe que eu adoro te provocar, né Guedes?
– A verdadeira felicidade amorosa, Vicente, não é pra qualquer um.
– Você não vão começar de novo – interrompeu Ricardo, com o máximo de firmeza que pôde.
– Pro Guedes, a “verdadeira felicidade amorosa” é tipo um amuleto, que você bota no bolso e carrega pra cima e pra baixo – continuou Vicente.
E o Guedes respondeu no ato:
– Um dia, quem sabe, Vicente, você encontra a mulher da sua vida.
– Gente, já ouvi essa discussão mil vezes – insistiu o Ricardo.
– E daí? – rebateu Vicente.
– É isso mesmo – ecoou o Guedes –, e daí?
Ricardo deu de ombros:
– Vocês que sabem…
Vicente, mais esperto, logo retomou o duelo:
– E então, Guedes, você já comeu alguém com topetinho mohicano?
– “Tapetinho”?
– “Tô”, Guedes, topetinho…
O Guedes ficou sem saber o que dizer. O Vicente explicou:
– Sinônimo de gramadinho, capô de fusca, velcro, bolacha.
O Guedes continuou na mesma.
– Nem a terminologia específica você domina – reclamou Vicente.
– Você acha que entende muito de mulher, né? – respondeu o Guedes, saindo da letargia. – Pra mim, entender de mulher é mais do que ser um tiosinho comedor.
– Pois pra mim – disse Vicente –, continua sendo um mistério como alguém que só comeu uma única buceta na vida pode encher a boca para dizer que encontrou a “verdadeira felicidade amorosa”.
Constatando que seus piores receios se confirmavam, o Ricardo, a seu modo, protestou:
– Iiihhh…
Mas os dois amigos não lhe deram atenção.
– Você não desvenda esse mistério – retomou o Guedes – porque nunca sentiu nada parecido. Só por isso.
– Outra coisa que eu também não entendo é por que o fato de eu ter várias mulheres te deixa tão incomodado.
– É porque eu gosto de você, e tenho pena de te ver eternamente caindo nas mesmas armadilhas. Começa se gabando e depois, quando bate a solidão, fica se lamentando, “não quero mais isso pra mim”, “preciso de uma companheira” etcetera e tal.
– Nisso ele tem razão, Vicente – concordou o Ricardo. – O pior defeito no seu estilo de vida é essa instabilidade.
– E daí? – respondeu Vicente, de novo num tom petulante.
O Guedes, sentindo que havia tocado num ponto fraco, desdobrou o raciocínio:
– A sua estabilidade, Vicente, é tão grande quanto a sua capacidade de lidar com a crítica.
– Foda-se.
– Tá vendo?
O Ricardo riu, divertido com o duelo verbal. Mas o Vicente não se rendeu. Espalhou a brasa, atingindo aos dois amigos de uma vez:
– O que vocês chamam de instabilidade eu chamo de inconformismo, de recusa à acomodação.
Uma nova rodada de chopes interrompeu o papo, mas só por instantes. Assim que o garçom se afastou, os amigos recomeçaram. A noite agora tinha pegado embalo.
– Inclusive tenho de confessar a vocês – falou o Vicente –, que desenvolvi uma nova tara.
– Qual? – deixou escapar Ricardo, imediatamente interessado.
– Guedes, eu ofendo a tua sensibilidade se responder a pergunta? – perguntou Vicente.
– Fala logo e não enche.
– Bom, vocês sabem que paquerar mulher acompanhada sempre me deu o maior tesão…
– Sabemos – responderam os amigos em uníssono.
– Basta eu ver um casal que já me interesso. Fico esperando a mulher me olhar. Quando ela olha, dou aquela secada. Encaro mesmo. Ainda mais quando os dois estão se beijando. Adoro paquerar uma mulher enquanto ela beija outro cara.
– Que horror – disse o Guedes.
– Mas eu já vi dar certo, Guedes, aqui nesse mesmo balcão – testemunhou o Ricardo.
– Lembra? – perguntou Vicente, orgulhoso.
Ricardo assentiu, solene, e bebeu o último gole do seu chope. Vicente sinalizou para o garçom, já pedindo uma nova rodada. A bebida descia rápido. O Vicente continuou a falar:
– Eu adoro vê-las embaraçadas diante do namorado, quando não me dão corda. E, claro, tenho um prazer duplo quando me dão.
– Essa é uma das coisas mais perversas que eu já ouvi – afirmou o Guedes.
– … mas agora estou me dedicando a uma coisa muito mais perversa.
– O que pode ser mais perverso do que isso? – perguntou o Guedes, com uma entonação quase retórica.
– Paquerar mulher grávida – respondeu Vicente.
Pela segunda vez naquela noite o Guedes e o Ricardinho ficaram em silêncio. Então se entreolharam. Vicente não se fez de rogado, e detalhou:
– A mulher grávida é a conquista mais difícil que pode haver. Vocês já pensaram nisso. Qualquer homem, se descobre que a mulher o chifrou, desconfia dela para o resto da vida, mas em geral consegue conviver com o fato. Mas se descobre que ela o chifrou durante a gravidez, aí acho difícil ele suportar. E elas sabem disso, e não vão querer perder o marido justamente numa hora dessas. Mas quando dá certo…
– E já deu alguma vez? – perguntou o Ricardo.
– Outro dia peguei uma de sete meses.
– Vicente! – exclamou o Guedes. – Você não tem vergonha?
– Do quê? Quem tava grávida era ela!
– Como alguém tão idealista na política pode ser tão cínico nas relações amorosas?
Os novos chopes chegaram, e o Guedes tomou metade do seu num gole só. Quando pousou o copo novamente, resmungou:
– Só bebendo…
Enquanto isso, Ricardo quis detalhes e o Vicente não se fez de rogado:
– Começou no clube onde faço natação. Eu já estava de olho nela há tempos. Sempre a via chegando de carona com o marido. À medida que foi crescendo aquela barriguinha, só pra ver no que dava, fui cada vez mais em cima.
– E aí? – perguntou o Ricardo.
– Levei pro motel.
– Vocês transou com uma mulher grávida de sete meses? – perguntaram os dois amigos.
– Bom, não deu pra ter penetração – explicou o Vicente, orgulhoso do interesse. – Primeiro chupei ela todinha, depois ela me fez um boquete campeão.
– Que grotesco – comentou o Guedes, desconsolado.
– Grotesco é bater punheta no chuveiro – rebateu o Vicente.
– No plano amoroso, Vicente, falando sério, acho que sou de outro tempo – admitiu o Guedes. – Ou de outro material. Acho a sua sexualidade predadora uma agressão a qualquer pessoa emocionalmente saudável, a manifestação doentia do seu narcisismo.
– Mas o cara fala bonito… – ironizou o Guedes.
– Guedes – contemporizou o Ricardo –, também não exagera. Você idealiza demais as mulheres. Você acha que elas não têm prazer também? Por que você sempre as vê como vítimas?
– O sexo pra você – emendou o Vicente – é sagrado. As mulheres são puras. Eu sei. Mas, Guedes, nada disso é verdade. A minha vida sexual é a prova de que você está errado.
O Guedes, sem se deixar acuar, atacou por outro lado:
– A tua obsessão por sexo, Vicente, é só uma forma de projetar a felicidade num objeto externo a você. A felicidade está sempre naquilo que você precisa conquistar. E assim não se constrói nada. Você nunca vai ter família, nunca vai ter filho, nunca vai ter porra nenhuma. O pior é que você não se esforça para mudar, prefere o tesão de estragar o que os outros têm.
– No caso da grávida, eu não estraguei nada, pode ficar tranqüilo. Hoje mesmo ela chegou de carona com o marido, como sempre, e eles se despediram com a mesma bitoquinha carinhosa, na bochecha. Nada pode ser mais estável do que isso.
– Eu duvido que você vá ser feliz um dia – decretou o Guedes.
– Guedes, eu já sou feliz.
– Duvido.
– Eu também duvido da felicidade nesse seu casamento eterno… – retrucou o Vicente.
– Duvida?
– Duvido. Será que ainda é amor o que você sente pela Valéria? Você não tem saudade da sensação de estar realmente apaixonado, de não agüentar ficar longe da pessoa, de não agüentar ficar perto sem querer tocar, beijar, trepar? Você não tem saudade de ficar de pau duro até à distância? Não é possível! É o melhor sentimento do mundo; traz alegria, traz energia, dá uma sensação se juventude como nada mais.
– Eu concordo, Guedes – concordou o Ricardo. – Já casei e separei duas vezes, e sempre valeu a pena.
– Eu amo a minha mulher há mais de quinze anos – declarou o Guedes, solenemente. – Se vocês acham isso impossível, lamento.
– Você ama o conforto – retrucou o Vicente. – Você ama o fato da Valéria estar sempre por perto, de ter aquela bucetinha garantida à disposição, depois do jantar e antes do café-da-manhã. Enquanto ela ama o fato de ter um maridinho que faz da auto-castração um motivo de orgulho, um maridinho subserviente, um pai atento, que mora onde ela quer, que no domingo almoça na casa da sogra. Em resumo: não é mais a Valéria que você ama, e não é mais a você que ela ama. Um ama o papel que deu para o outro representar na sua vida, só isso.
O Guedes, após ouvir atentamente o amigo, negou tudo aquilo sem piscar:
– Não é verdade. Admito que o casamento exige compromissos; claro que eu adoraria ter o melhor dos dois mundos: ser casado e trepar por fora. Mas isso tem conseqüências.
– Se ela não souber, não terá – insinuou o Ricardo.
– Olha só quem fala – disse o Guedes. – Foi pensando assim que você pôs fim ao seus dois casamentos. E mesmo depois disso não aprendeu que, quando a gente leva alguém pra cama com alguém, nunca sabe até onde aquilo pode ir. O adultério é uma daquelas situações em que, com certeza, pelo menos um dos envolvidos vai se machucar, quando não dois, quando não todos os três. Pois eu dou valor aos meus sentimentos e aos sentimentos dos outros. E você, Guedes, enquanto ficar só ouvindo sambinha, na hora da Nona Sinfonia não vai conseguir se concentrar. Você desperdiça a sua reserva emocional, e sem ela vira um refém dos próprios impulsos sexuais.
– Quem disse? Eu também já senti grandes amores. Acontece que, para mim, a força do amor é inversamente proporcional a sua duração.
– Que grandes amores foram esses? Você não ama, você arranca o prazer. E ainda acha engraçado quando se alimenta da fraqueza de mulheres casadas, virgens, grávidas, freiras, sei lá o que mais.
– Freira? Essa história eu não conheço! – brincou o Ricardo.
Vicente, porém, mal o ouviu, e foi logo se defendendo:
– Você pode achar que eu destruo a felicidade alheia, Guedes, mas, pra mim, você vampiriza a sua própria. E a Valéria, a dela. Em nome de uma pureza, de uma ética e de uma estabilidade que não existem. O modelo familiar tradicional é uma tara muito mais chocante que todas as minhas juntas.
O garçom chegou com mais uma leva de chopes. Os três ergueram um brinde silencioso. Mas a conversa ainda não tinha terminado.
– Se você acha ruim o modelo tradicional – replicou o Guedes –, encontre um novo. Descubra como pode ser bom pra você. Mas não adianta banalizar os sentimentos a ponto de dizer que eles não têm importância, ou que uma família não faz falta. Isso é merda, é cultura de massa, é assumir a vulgaridade como força da história.
– Que maluquice é essa? – atalhou o Vicente, um pouco ofendido. – Você sabe muito bem qual a força da história para mim. E eu provo isso todo dia.
O Ricardo, para esfriar os ânimos, inadvertidamente tirou um sarro dos amigos:
– Quer dizer que o único homem ao mesmo tempo viril e emocionalmente maduro aqui sou eu.
O Guedes e o Vicente reagiram na hora, rindo.
– Vai nessa – disse um.
– Até parece – disse o outro.
– E não sou? – insistiu Ricardo. – Um, maridinho fiel, reprime seus instintos sexuais; o outro, garanhão priápico, rebaixa seus sentimentos. Falando sério, entre os dois modelos, o meu é mais sensato.
– Ricardinho – começou o Guedes –, desculpe acabar com a tua alegria, mas, de nós três, você é de longe o mais perverso.
– Eu?
– E o mais egoísta – acrescentou o Vicente.
– Eu?… Por quê?
Os dois amigos se olharam, um dando a palavra ao outro. Primeiro falou o Vicente:
– Ricardinho, quando eu decepciono as mulheres, elas, por mais raiva que tenham na hora, são obrigadas a admitir que, lá no fundo, erraram em esperar de mim alguma coisa a mais do que uma boa trepada. Isso as ajuda a me esquecer.
– E a Valéria sabe que, no que depender de mim, o nosso casamento é pra sempre – disse o Guedes. – Isso é uma tranqüilidade para ela.
– Ainda não entendi por que isso me faz o mais perverso de nós três – disse o Ricardo, surpreso com os rumos da conversa. Ele estava acostumado a ver os dois amigos se baterem, eternamente confrontando as mesmas posições. Mas nunca o debate havia se voltado contra ele, pelo menos não com tanta força.
O Guedes tomou a palavra, e começou a explicar:
– Você, Ricardinho, é inteligente, simpático, engraçado, boa gente, saudavelmente fiel, gosta de casar, de ter filho, mas não está “morto”, como se diz. É menos bonito que o Vicente, porém mais bonito do que eu. Não é rico, mas também não é um durango. Enfim, você é o homem que, na média, atende a todos os desejos de qualquer mulher.
– E isso é mau? É isso que me transforma no mais egoísta de todos? – insistiu o Ricardo, com um hesitante triunfo na voz.
– O problema – disse o Vicente, tomando a palavra ao Guedes e desdobrando o argumento – é que se envolver com o homem perfeito tem sempre um preço, e um preço terrível.
– E que preço é esse?
– Depois de você, meu caro, o Dilúvio – respondeu o Guedes.
– As mulheres nunca mais se satisfazem com ninguém – emendou o Vicente. – Você é o último trem para Paris. Mas, quando desembarca suas passageiras, esquece-as no deserto do Saara.
– É isso aí – confirmou o Guedes.
– Vocês estão exagerando – negou o Ricardo, com hombridade, mas sem muita convicção.
O Guedes, acabando com a polêmica, recuperou o histórico matrimonial do amigo:
– Olha as suas ex. Na hora da separação, as duas enlouqueceram. Rasgaram dinheiro, morderam cano, queimaram tua biblioteca, picotaram suas roupas, o que mais você imaginar. Ou não foi?
– E eu sou o culpado? – tergiversou o Ricardo.
– A primeira embalofou e nunca mais teve homem – emendou o Guedes. – A segunda arrumou um cara que bate nela. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar por acidente, Ricardinho.
– Se isso é que é uma boa influência na vida das companheiras – brincou o Vicente –, então eu sou um santo.
O Ricardo ficou mudo. Depois, esperneou:
– Não é que elas fiquem assim por terem casado comigo. Elas já eram assim antes. Eu é que sou um interregno de saúde emocional na vida delas. Por algum motivo, eu me apaixono sempre por mulheres que ou foram maltratadas por ex-namorados ou que abusaram delas próprias com caras horríveis. Falando sério, esse é o mal da minha vida.
– A gente sabe, mas… – os dois amigos iam dizendo, quando então aliviaram, não levando a frase até o fim.
– Eu sou uma espécie de enfermeiro emocional – continuou o Ricardo, em tom de desabafo. – Vivo curando as vítimas da guerra amorosa. Só que depois, quando eu dou alta, as minhas pacientes se revoltam contra mim. Não tenho culpa.
– Tem sim, Ricardinho, tem sim. Enquanto você encarna o príncipe encantado, enquanto você faz as suas esposas e namoradas absolutamente felizes, você suga toda as chances que elas teriam de ser felizes sem você – sentenciou o Guedes, no que foi acompanhado por Vicente. – Você vicia as mulheres em você.
O Ricardo, abatido, não conseguiu responder. Havia sido pego de surpresa. Tomou um gole de chope, de olhos baixos. Instantes se passaram, mas ele não conseguiu retomar a conversa. Os dois amigos esperaram, observando o efeito do que haviam dito. Enquanto isso, pensaram: “Será que o Ricardinho realmente nunca havia pensado naquela hipótese?”. A verdade era que não, ele nunca se imaginara o culpado pelos descaminhos psicológicos das ex-esposas. Pelo contrário, se achava um bom ex-marido e um bom pai, que pagava boas pensões a todos, que estava sempre presente etc etc.
O Vicente e o Guedes, percebendo o estrago cometido, também não souberam como retomar o papo. Nunca tinham formulado aquela opinião sobre o amigo com tanta clareza, para eles próprios.
De repente, uma voz de mulher interrompeu o mal-estar:
– Vocês moram nesse bar?
Era Sandra, uma amiga. Solteira, nem bonita nem feia, professora universitária. Aos quarenta e poucos anos, tinha um filho de quinze, criado sem pai. Era descolada e divertida. Quando seus namoros terminavam, deprimia um pouquinho, dava para o Vicente um pouquinho, fazia tudo errado por um tempo, até se apaixonar novamente e reaprumar. Mas era bem sucedida profissionalmente, o que ajudava-a a nunca perder o rumo por completo. Também já tivera um caso com o Ricardo, anos atrás, quando ele estava entre a primeira e a segunda mulher (ou teria sido durante um dos seus casamentos?), e quase morreu quando ele quis terminar.
– Estou interrompendo alguma coisa? – ela perguntou, intrigada pelo ar murcho dos três.
O Guedes e o Vicente não falaram. foi o Ricardo quem respondeu, com outra pergunta:
– Sandrinha, foi bom você chegar. Precisamos de um ponto de vista feminino.
– Ôpa. Isso é comigo. Só tenho pontos de vista masculinos de nove às seis. Fora do horário de trabalho, sou totalmente mulherzinha.
Os três amigos se entreolharam. Por um momento, sentiram-se reunidos em volta de um artefato atômico de alta periculosidade. Ricardo não se acovardou, e foi em frente:
– Se tivesse de escolher, que tipo de homem você preferiria amar pelo resto da vida: um maridinho fiel e subserviente, um garanhão prevaricador, ou um homem perfeito que acabaria te largando um dia?
A Sandra até se assustou com a pergunta, exclamando:
– Caralho!
– Disse a princesinha – brincou o Vicente.
– O que você quer, Vicente? Essa pergunta é muito difícil – justificou a recém-chegada.
– Não peça desculpas a mim, Sandra – aliviou o Vicente. – Quem idealiza as mulheres aqui é o Guedes.
Sandra olhou para os três, um por um. Entendeu o clima. Respirou fundo. Então perguntou:
– Será que eu posso tomar um chope antes de responder?
O chope foi pedido imediatamente, e veio muito rápido, dando a ela menos tempo para pensar do que gostaria. Enquanto tomava os primeiros goles, via-se que a Sandra pesava seriamente a questão.
Os três homens foram ficando impacientes:
– Vai, Sandra, fala logo.
A mulher hesitou ainda um pouco, mas finalmente firmou o olhar, sinalizando que chegara a uma conclusão:
– Olha, só posso dizer que, diante dessa tipologia masculina essencial, toda mulher sincera só tem uma resposta a dar.
– Qual?
– Vocês nunca vão entender…
– Claro que vamos.
– Não vão.
– Vamos sim.
Ela fez suspense, mas respondeu com convicção:
Eu queria todos num homem só.
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