Um velho tipo de amor

Fomos ao cinema na mesma noite; eu convidei. O tempo até ela ir embora era muito curto, já o filme, longo demais. Mas a sua companhia foi deliciosa. Com a Mayumi do meu lado, até o funcionamento de uma usina de reciclagem de lixo se tornaria um espetáculo digno de ser visto. Quando saímos na rua, o céu estava claro, a brisa estava fresca; e quando fomos jantar, ela riu das minhas piadas. A primeira noite foi a noite das amenidades.

No dia seguinte, fomos ao Jardim Botânico. Lá, o temperamento técnico da minha princesa oriental ficou evidente outra vez, e outra vez me espantou. Ela não apreciava o mundo natural como eu. Ela não sacralizava nada, cientificizava tudo. Eu embarcava na poesia da ignorância. Era um iludido de bom coração. Não perguntava os porquês da natureza, só me deixava deslumbrar.
Quando via uma borboleta azul, especialmente linda, como a que encontrei sobre o canteiro perto do lago, ou um inseto desconhecido, especialmente estranho, meus olhos se maravilhavam como se estivessem diante de um milagre.

A Mayumi, não. Somando seu espírito científico a sua cultura milenar e minimalista, estava atenta a detalhes. Reagia de forma prática ao que tinha diante dos olhos. Quando via um inseto curioso, formulava a composição química da queratina que recobria seu “esqueleto externo”.

Eu, quando via uma árvore daquelas gigantescas, que fazem de um homem uma coisinha ridícula, me desmanchava em admiração. Respirava com mais largueza, abrindo os braços, e sentia os raios do sol no meu rosto, como se eu também fosse uma criatura privilegiada pela natureza. É sério. Sempre fui assim, piegas profissional. A Mayumi, diante da mesma árvore, tecia considerações sobre a evolução genética da espécie.

Ela era a fusão perfeita de dois mundos que eu imaginava absolutamente incompatíveis: o cientificismo e a feminilidade. Terminei o passeio impressionado.

Mais tarde, tomando um sorvete de frutas, me ocorreu que aquele meu jeito desbundado de ser talvez estivesse na raiz da crise com a faculdade de História.
– Você acha? – ela perguntou.
– Eu não tenho espírito científico. Não investigo por que as coisas são como são. Eu sinto que elas são, e fico nisso.
– Não parece tão terrível.
– Você que pensa. Quando a gente nasce assim, tem mil crises. Você, por exemplo, com a sua atitude científica, alguma vez já teve crise com a faculdade?
– Pra falar a verdade, não.
– Viu? Você não imagina como é ruim. E a crise nem é o pior.
– Não?
– O pior é ter a crise e não saber por quê.

A Mayumi deu mais um daqueles seus risinhos oblíquos, e não disse nada. Terminamos o sorvete nos olhando, amorosamente nos estudando.

À noite ela iria reencontrar uma velha amiga, e não me convidou para ir junto. Quando a deixei em casa depois da sorveteria, e nos despedimos, não parecia tão animada com o programa. Gostei de pensar que sentiria a minha falta. Marcamos um almoço no dia seguinte. Eu estava decidido a grudar nela o máximo de tempo, até aparecer uma chance de dizer o que estava sentindo. E ela parecia estar achando isso bom.

Nos encontramos por volta do meio-dia. Fomos a um restaurante simpático e baratinho. Aproveitei para perguntar mais sobre o seu trabalho. Queria de fato entender. Queria sentir aquela profissão da mesma maneira com que eu admirava os animais e as plantas do Jardim Botânico. Não consegui inteiramente, confesso, porque era racional demais, tecnológica demais para essa minha cabecinha lesada. Mas, ouvindo-a falar das pesquisas que fazia, não odiei química e biologia pela primeira vez na vida. Num certo momento, senti até uma onda de gratidão pelas ultra-sonografias computadorizadas; eram uma invenção inestimável para as ambições imortalizantes da espécie humana. Eu queria viver toda aquela parafernália científica também como uma maravilha da natureza. Eu queria igualar os nossos mundos, evitando qualquer ruído na comunicação.

Não que tivéssemos alguma discordância problemática, mas eu queria afinidade ainda maior do que a da boa convivência entre nossas diferenças. Eu queria apagar as distâncias. A colméia das abelhas não é uma coisa inacreditavelmente linda e bem bolada? Então por que a ultra-sonografia computadorizada não pode ser? Ambas são igualmente criações de criaturas da natureza.

Na terceira noite, fomos ao Teatro Municipal. Sim, pois, apesar das diferenças, tínhamos gostos em comum. Sorvete era um deles. Nós dois achávamos sorvete, sem favor, a melhor sobremesa da história da humanidade. Das hecatombes em homenagem aos deuses gregos, passando pelas orgias dos imperadores romanos, até os menus-degustação dos milionários do mercado financeiro, nenhum produto do hedonismo humano jamais ficou tão gostoso quanto sorvete. Sorvete, no nosso modesto entender, era compulsão.

Outro gosto que eu e a Mayumi tínhamos em comum: literatura. Tudo bem que ela não era de ler os clássicos, meus preferidos, e se interessava mais por escritores novos. Uma bela hora, num daqueles primeiros dias, recitei de cabeça, por mera provocação, o começo do Guarani, do José de Alencar:

É o Paquequer: saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na várzea e embeber no Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito.

… ela riu e disse que sempre tinha achado José de Alencar uma coisa de outro mundo.
– Você não gosta?
Eu, não.
– Jura? – perguntei, levemente desapontado.
– Esse tipo de literatura não me diz nada, Pedro.
– Não pode ser. José de Alencar é a maior glória da civilização brasileira depois do Pelé. O amor do índio Peri com a donzela Ceci é o auge do romantismo. Você não é nem um pouquinho romântica?
– Não como eles.
Inconformado com o seu juízo sobre o Alencar, recitei mais um trecho:

Que sublime linguagem não falavam aqueles olhos inteligentes, animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéia de sentimento e de abnegação não havia naquela muda e respeitosa contemplação?

– E aí, gostou? – perguntei.
A Mayumi, sorrindo, negou, como uma adulta diante de uma criança tentando impressioná-la:
– Ainda não foi dessa vez.
– Posso continuar tentando?
– Espero que você não se decepcione no final…

Foi a princípio um sorriso que adejou-lhe nos lábios. Depois o sorriso colheu as asas e formou um beijo, por fim o beijo entreabriu-se como uma flor e exalou um suspiro perfumado.

Para minha alegria, quando terminei, ela disse:
– Esse estava quase bonito. Mas o “adejou-lhe” estraga o efeito, é brega.
– Me dá uma última chance? – insisti.
– A última?

Ela embebeu os olhos nos olhos de seu amigo, e lânguida reclinou a loura fronte. O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face. Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e límpidos sorrisos: os lábios abriram como as asas púrpuras de um beijo soltando o vôo.

Para um prejudicado mental, até que havia recitado direitinho. Nem sabia que eu lembrava de tanta coisa do Guarani (Deus abençoe aquela minha professora de português da oitava série!). Acho que fiquei inspirado, porque a causa era nobre. Olhei para a Mayumi seco por um sinal de aprovação. Foi em vão. Ela, com uma negativa gentil, disse:

– Não existe mais esse tipo de amor, Pedro.
– E desde quando as coisas precisam existir para nos emocionar? – perguntei num impulso, surpreendendo a ela e a mim mesmo com a minha lógica ilógica.