Um médico rural | Entrelivros

Um médico procura um cavalo para atender a uma emergência, pois o seu animal havia morrido congelado “consumido pelas fadigas do inverno”. O narrador mobiliza Rosa, sua criada, para ajudá-lo na empreitada de achar um animal que o leve até o paciente. Ao fundo, uma tempestade de neve e o cadáver do cavalo. A emergência paira no ar. 

Esse é o argumento colocado já nos primeiros parágrafos do conto “Um médico rural”, que dá nome a um livro com outras 13 histórias. A maioria dessas “pequenas narrativas”, como o próprio Kafka as chamava, foi escrita entre 1916 e 1917, numa pequena casa na rua dos Alquimistas que a irmã do escritor, Ottla, alugara e mobiliara para que ele tivesse onde escrever. Sabe-se que, em agosto de 1917, o livro estava pronto. Em julho desse ano, porém, o escritor já recebera uma carta de Kurt Wolff, o mesmo editor de O foguista, lançado em 1913, e de A metamorfose, publicado em 1917. Esse editor, com justiça, entraria para a história como o primeiro a apostar suas fichas na genialidade do jovem tcheco. Kafka, ao contrário do que costumava fazer, não hesitou em publicar a coletânea de histórias intitulada O médico rural. Após muito trabalho de organização do volume e de revisão das provas, além de alguns entreveros com o editor relativos à natureza e à seqüência dos textos, o livro veio a público no início de 1920, tendo  o frontispício permanecido datado de 1919.

Pois bem, voltando ao enredo do conto-título desta pequena obra-prima, o homem, confuso, vai atrás de um novo cavalo, como se um pesadelo o conduzisse, e chega a uma espécie de curral. Lá dentro encontra um homem acocorado, de “rosto aberto e de olhos azuis”, pronto a servi-lo, que pergunta: “Devo atrelar?”.

Aliviado, o narrador vê o homem do curral, que se revela um cavalariço, apareceu com dois belos animais. O preço do “achado”, no entanto, cairá todo nas costas de Rosa, a criada. Quando ela estende ao cavalariço os arreios do veículo ao qual os cavalos devem ser atrelados, o homem crava uma mordida em sua bochecha. “A jovem dá um grito e se refugia em mim”, diz o médico-narrador, “duas fileiras de dentes estão impressas em vermelho na maçã do seu rosto.”  

O narrador reage com violência, gritando com o cavalariço: “Animal! Quer que o mande chicotear?”. No entanto, quase que ao mesmo tempo, ele reconhece a valiosa ajuda do homem e sente-se sinceramente agradecido pela bela parelha de cavalos que lhe fora oferecida. E o cavalariço, por sua vez, também não se ofende com o xingamento. Comenta o narrador:

“Como se conhecesse os meus pensamentos, ele não leva a mal minha ameaça, mas apenas se volta para mim, sempre lidando com os cavalos.

– Suba – diz ele.

Efetivamente está tudo pronto. Noto que nunca viajei com uma parelha tão bonita e subo contente.”

O que essa estranha empatia entre o médico e o cavalariço quer dizer? Talvez que, a partir daí, o “pesadelo” do serviçal e o “pesadelo” do narrador vão confluir tacitamente em direção à pobre criada, que tem o “justificado pressentimento de não poder escapar ao destino” – logo se verá por quê.

O médico diz ao ajudante que faz questão de dirigir o coche, visto ser o único a saber o caminho até a casa de seu paciente, mas o cavalariço, surpreendentemente, não apenas aceita essa exigência, como na verdade recusa-se a acompanhá-lo na viagem, dizendo que prefere ficar ali com Rosa. Mas a jovem criada, agora apavorada ante as evidentes intenções do cavalariço para com ela, corre para a casa do médico, passa a corrente na porta e apaga todas as luzes, com o intuito de se proteger.

“– Você vai junto”, diz o narrador ao cavalariço, “ou então desisto de viajar, por mais urgente que seja. Não cogito em entregar a moça como preço pela viagem.”

Mas o cavalariço toca os cavalos, e o veículo é arrastado, nas palavras do narrador, “como madeira na correnteza”. Enquanto tem início a viagem, o médico pode ouvir a porta de sua casa sendo derrubada pelo cavalariço mal-intencionado.

Kafka, com sua economia costumeira, faz então uma bela transição para a próxima cena: “(…) depois olhos e ouvidos são tomados por um zunido que penetra uniformemente todos os meus sentidos. Mas por um instante apenas, pois como se diante do portão do pátio se abrisse o pátio do meu doente, já estou lá; os cavalos estão quietos; a neve parou de cair; o luar em volta; os pais do doente saem correndo da casa, a irmã dele atrás; quase me arrancam do carro”.

Chegando ao quarto do enfermo, o narrador se depara com um jovem magro, sem febre, os olhos vazios, que lhe sussurra aos ouvidos: “Doutor, deixe-me morrer”. O médico olha em volta, constrangido, mas percebe que nem os pais do paciente nem a irmã ouviram seu estranho pedido.

O médico desenvolve então um raciocínio que ele próprio considera uma blasfêmia. Ele pensa que os deuses o atraíram ao quarto de um doente voluntário, dando-lhe não apenas um cavalo, e sim uma bela parelha, mais um cavalariço, quando na verdade deveria estar a 10 milhas dali, em sua casa, salvando a criada Rosa do provável estupro. Esse expediente de deixar as coisas suspensas, de sugerir uma situação e largá-la para ameaçar usá-la mais à frente (embora muitas vezes as coisas permaneçam flutuando) é comum na obra de Kafka.

Os cavalos parecem querer testemunhar o que acontece na casa, e pelas janelas enfiam a cabeça para dentro do quarto de ar quase irrespirável. A cena avança entre relinchos e bafejos dos animais. O médico, a princípio, julga infundada a histeria da família, pois na verdade o jovem não sofre de nenhum mal físico. “O melhor seria tirá-lo com um tranco da cama”, pensa o médico, refreando-se, no entanto: “Não sou reformador do mundo, por isso deixo-o deitado. Sou médico contratado pelo distrito e cumpro meu dever até o limite, até o ponto em que isso quase se torna um excesso”.

O tema do funcionário público exemplar, cujo trabalho subitamente perde o sentido de ser, é recorrente na obra de Kafka. “Escrever receitas é fácil”, diz o médico rural, “mas entender-se no resto com as pessoas é difícil. Bem, minha visita está terminada aqui, outra vez me chamaram sem necessidade, estou acostumado com isso, o distrito inteiro me martiriza valendo-se da sineta para os chamados à noite.” 

Mas dessa vez, além da aparente inutilidade do chamado, o médico deixou a criada Rosa – “essa bela moça que durante anos viveu na minha casa sem que eu a percebesse” – à mercê de um cavalariço com instintos de estuprador. Ele então fecha a valise na qual guarda seus instrumentos e pede o casaco para ir embora. A família observa seus atos; o pai, desconfiado, a mãe, decepcionada, a filha, sofrida, segurando um lenço cheio de sangue.

Então, num último olhar para o doente, o médico revê seu diagnóstico: “No seu lado direito, na região dos quadris, abriu-se uma ferida grande como a palma da mão. Cor-de-rosa, em vários matizes, escura no fundo, tornando-se clara nas bordas, delicadamente granulada, com o sangue coagulado de forma irregular, aberta como a boca de uma mina à luz do dia. (…) Vermes da grossura e comprimento do meu dedo mínimo, rosados por natureza e além disso salpicados de sangue, reviram-se para a luz”.

O rapaz está condenado, avalia o médico. Ao ver que o doutor agora se convenceu da gravidade da situação e entrou em atividade, Kafka nos diz que a “família está feliz”.

“Você vai me salvar?”, pergunta o paciente, que até instante atrás parecia mais do que resignado ao seu sofrimento. Mas não há mesmo salvação. O médico lamenta que, naqueles tempos, as esperanças da vida eterna da religião tenham sido substituídas pelas demandas impossíveis feitas à medicina e a seus praticantes.

Os desdobramentos desse conto, até aqui já repleto de estranhezas, são ainda mais surpreendentes. O narrador, ao refletir sobre o caráter sagrado que sua profissão adquiriu, aceita ele sim com resignação a expectativa desproporcional a seus poderes curativos. Diz ele: “Se abusam de mim visando objetivos sagrados deixo que também isso aconteça comigo; o que mais desejo de melhor, eu, velho médico rural a quem roubaram a criada?”.

O absurdo de sua resignação fica ainda mais evidente quando os anciãos da aldeia, as crianças da escola local, juntamente com a família do moribundo, avançam contra ele e tiram suas roupas, entoando um coro macabro, como uma seita de fanáticos: “Dispam-no e ele curará!/ E se não curar, matem-no!/ É apenas um médico, apenas um médico!”.

Curiosamente, o médico diz conservar uma superioridade em relação a seus atacantes, embora esteja nu e preso pela cabeça e pelos pés, posto na cama, ao lado da ferida de seu paciente. Lembrando brevemente uma espécie de Jesus, ele parece acreditar que os aldeões não sabem o que fazem ao ameaçá-lo com a “crucificação”. O rumo que as coisas tomam parece ratificar a teoria do narrador segundo a qual o médico, na modernidade, ao se tornar o detentor do poder de vida e morte perante seus pacientes, passa a ocupar a função de mediador entre o mundo terreno e o mundo metafísico, e portanto sofre cobranças proporcionais a essa imensa responsabilidade.

Após arrancarem suas roupas, os aldeões saem do quarto, interrompendo o cântico macabro que entoavam. Nesse momento o médico ouve o paciente sussurrar em seu ouvido: “Sabe de uma coisa? Tenho muito pouca confiança em você. (…) Em vez de me socorrer, está tornando mais estreito o meu leito de morte. O que eu mais gostaria de fazer seria arrancar seus olhos”.

O médico não se assusta pelo fato de que alguém detém o segredo das verdadeiras limitações de seu poder, até mesmo concorda com o paciente. Diz que essa é a sina de todos os médicos. O paciente, contudo, reluta em se contentar com essa desculpa, mas acaba admitindo: “Tenho sempre de me contentar. Vim ao mundo com uma bela ferida; foi esse todo o meu dote”.

O conto se aproxima do final, e o médico pontifica ao doente que sua ferida não é assim tão má. Ele invoca sua experiência na profissão para afirmá-lo. O paciente parece se deixar convencer, quando então o médico começa a pensar em como sair dali e se salvar: “Fiéis, os cavalos permaneciam nos lugares. Roupas, pele e valise foram rapidamente reunidas”. Ele pula a janela e põe o coche em movimento pela neve afora. Os cavalos andam, mas não correm como ele gostaria, o que torna sua fuga extremamente aflitiva. O coro das crianças é audível ao longe: “Alegrai-vos, ó pacientes,/ O médico foi posto na vossa cama!”.

No último parágrafo do conto, o médico se diz roubado por um sucessor que, no entanto, não pode substituí-lo. Quem seria? Uma pergunta que fica no ar. Além disso, ele se recusa a pensar em Rosa, a quem abandonou ao cruel prazer de um “asqueroso cavalariço”. De qualquer forma, fica patente que a profissão o levou a menosprezar seus próprios interesses e que as recompensas não estão à altura do sacrifício. “Fui enganado!”, pragueja ele, “Enganado! Uma vez atendido o alarme falso da sineta noturna [com o qual os médicos são acordados] – não há mais o que remediar, nunca mais”.

|| Por Rodrigo Lacerda