Um atento passo a passo de três séculos de Brasil

Desenvolvido por universitários, o livro de Cronologia de História do Brasil Colonial recupera valores da prática historiográfica.
|| Por Rodrigo Lacerda.


Muito já se falou da revolução que a Escola dos Annales representou para o ensino, o estudo e a pesquisa da história. Já nos anos vinte, e mais enfaticamente a partir dos anos trinta, os afiliados a esta linhagem de historiadores combateram a chamada Escola Positivista que, em seu entender, valorizava excessivamente os eventos políticos, cultuava de forma até ingênua, embora grandiloquente, os grandes personagens históricos, e restringia suas fontes primárias a documentos institucionais, fossem de origem laica ou religiosa.

O que propunham a revista dos Annales e seus colaboradores era uma historiografia mais atenta às atividades econômicas à organização social e à psicologia coletiva. Uma historiografia que fosse capaz de apreender não somente os chamados “fatos históricos”, mas as estruturas de “longa duração”, isto é, as categorias econômicas, sociais e psicológicas mais duradouras, que, embora modificadas ao longo do tempo e de cultura para cultura, mantivessem uma visível continuidade estrutural.

Como desdobramento natural desta nova forma de se entender e praticar a história, surgiu o temperamento aglutinador da ciência histórica, que incorporou vários elementos das demais ciências humanas, entre eles conceitos antropológicos, dados geográficos, categorias econômicas e uma longa lista de etceteras.

No entanto, o que é bom é frágil. As idéias que lastrearam a Escola dos Annales logo foram corrompidas ou por historiadores mal-intencionados, ou por historiadores simplesmente incompetentes. Juntos, estes dois nefastos grupos levaram a um radicalismo obtuso as novas teorias e provocaram, no mínimo, dois males básicos.


Desprezo ò erudição

O primeiro deles foi a institucionalização perversa do desprezo à erudição. De um momento para outro, caiu em total desgraça, sendo vítima de um preconceito oriundo das novas teorias historiográficas, o historiador dos moldes antigos, que recitava a seqüência de acontecimentos marcantes na história das civilizações, que localizava-os cronologicamente com suas datas na ponta da língua e que conhecia detalhes biográficos dos grandes líderes políticos e militares de todos os tempos. Ser erudito, então, tornou-se algo de que o historiador deveria se envergonhar.


Delícias da erudição

O segundo mal criado a partir da deturpação das idéias dos Annales foi a despolitização da produção científica da história. Passou-se a valorizar as “longas durações”, as “estruturas” e, em detrimento do bom-senso, o conteúdo político dos fenômenos históricos, lato sensu, foi esvaziado. Daí os pitorescos, porém esdrúxulos, recortes temáticos que ainda hoje pipocam por aí afora, historicizando os cheiros, as roupas de baixo, as decorações em metal e muitos outros itens culturais certamente interessantes, mas de importância consideravelmente limitada aos olhos de uma ciência que se propõe a ser indispensável na compreensão da trajetória humana. Esta opção por temas um tanto bizarros explica a resistência de um historiador inglês em se deixar contagiar pelos entusiasmos vindos do Continente, dizendo, ironicamente, que “o absurdo sempre soa melhor em francês”.

Nós brasileiros, sempre influenciados pela cultura francesa, engolimos indiscriminadamente tudo que a Escola dos Annales trouxe de bom e de ruim. Por isso é extremamente prazeroso ver que o bom-senso retorna ao ensino da história, e que quatro alunos do curso de graduação da USP – Andréa Slemian, Ariane Cristina Martins, João Paulo Garrido Pimenta e Thomas Wisiak – tenham tido a oportunidade de, antes de mergulharem nas amplas questões da história da vida cotidiana ou nos insights perspicazes da micro – história, saborearem as boas e velhas delícias da erudição, do conhecimento das datas e do ordenamento cronológico dos fatos. E estas delícias são, indubitavelmente, redescobertas e saboreadas nesta Cronologia de História do Brasil Colonial (1500-1831).

O livro dá início à série Iniciação, promovida pelo Departamento de História e que visa publicar o resultado de projetos desenvolvidos por alunos e orientados por professores do próprio departamento. Os quadros cronológicos, muito claros e bem diagramados, dão informações gerais nas rubricas Mundo e América, compreendem uma rubrica Metrópole e, no que diz respeito especificamente ao Brasil, dividem-se em Política/Administração, Conflitos, Territorialidade, Economia e Cultura. Além disto, o livro oferece tabelas populacionais e uma série de mapas que abarcam os aproximadamente três séculos do período que o trabalho se propõe a cobrir. O índice onomástico, a bibliografia e as sugestões de leituras por tema também enriquecem o volume, a um só tempo facilitando a sua consulta e orientando o desdobramento de uma eventual pesquisa.


Obra de referência

Não seria impossível encontrar defeitos no livro, ou afetar uma atitude pedante e resmungar que está faltando isto, que deixaram de incluir aquilo, que a bibliografia não menciona as Efemérides Brasileiras do Barão do Rio Branco – obra afim e que teria sido de utilidade indiscutível para os autores desta nova cronologia -, que a referência seca a determinados eventos poderia ser complementada por um glossário que explicasse em que exatamente eles consistiram, e mais umas e outras reservas não totalmente descabidas. Porém, persiste o fato de que o livro é muitíssimo bem feito, demonstrando seriedade e um trabalho cuidadoso, cujo resultado é satisfatório independentemente das circunstâncias em que foi produzido, ou seja, por alunos da graduação com bolsas de iniciação científica. Em obras como esta, a perseguição ao ideal de se extinguir todas as lacunas obrigaria os autores a uma dedicação vitalícia e resultaria numa produção colossal, impublicável em qualquer país e por qualquer editora. Não há dúvidas que, assim como está, a cronologia servirá maravilhosamente como obra de referência a alunos de história e a curiosos de todas as procedências.

Na apresentação do prof. István Jancsó, orientador do trabalho, são mencionados alguns outros motivos importantes para que um trabalho desta natureza seja publicado e valorizado. O principal deles é que o abandono à história factual nas universidades, quando levado ao exagero, como efetivamente aconteceu em muitos casos, provocou uma total perda de referências por parte dos alunos. Algumas levas de formandos saíram da faculdade sabendo discorrer horas a fio sobre o imaginário do homem colonial, sobre suas práticas culturais, sobre seus hábitos higiênicos, mas permaneceram incapazes de localizar no tempo, por exemplo, as invasões holandesas. Isto desmoralizou e empobreceu a profissão de historiador. Por que, afinal, deveria o historiador rejeitar o papel de depositário deste tipo de informação? Longa vida às cronologias!


JORNAL: USP
DATA: 24 a 30 de abril de 1995
SESSÃO: Cultura
PÁGINA: 14