Trilha escorregadia
Em algum ponto do segundo semestre passado, pareceu que os dois principais partidos da oposição, PSDB e PFL, teriam a opção de levar adiante, ou não, o processo de impeachment.
O PSDB, de saída, refugou, com medo de que o vácuo do poder sugasse para a poltrona presidencial um “aventureiro” (leia-se, o Garotinho danadinho que governa o Rio de Janeiro). Os tucanos, chiques e gelados, queriam punir o presidente Lula aos poucos, prolongando o castigo até as eleições, sem maiores violências, para então abatê-lo com um peteleco higiênico.
O PFL jogou mais duro, querendo “se livrar da raça” petista por uns vinte anos, como declarou seu ilustre presidente sangue azul, Jorge Bornhausen. Não foi, porém, até o fim.
Passam-se os meses, o reveillon e, surpresa!
Aos olhos do eleitorado, Lula não virou um monstro tão feio quanto a oposição gostaria. O presidente, há semanas, não pára de subir nas pesquisas de intenção de voto. Ao PSDB e ao PFL, resta apenas a certeza de que perderam a chance de aplicar a “solução definitiva” de Bornhausen.
Embora reste pouca dúvida de que eram verdadeiras as acusações do nosso Pavarotti do cerrado, Roberto Jefferson, a verdade é que ficou muito difícil provar, sem qualquer sombra de dúvida, a existência do mensalão. As transações financeiras deixaram rastros, os gambás engravatados deixaram sua marca no ar, mas os deputados responsáveis pelas CPIs são investigadores de circunstância, por mais bem intencionados que sejam, e corrupto não passa recibo.
Um eleitor ingênuo, puro feito um gringo recém-chegado, concluiria que o presidente deu a volta por cima provando sua inocência. O eleitor experimentado, homem do mundo, que sabe como as coisas realmente são, deduziria que uma manobra política pe$ada tenha calado algumas bocas. Mas só o eleitor realmente crédulo acreditaria na solução craniada pelo governo para escapar do gancho. O presidente admitiu um crime menor, defendendo a tese de que toda a “moeda circulante” dizia respeito apenas a dívidas de campanha, e jamais à compra de votos no Congresso ou à montagem de uma maioria propino-parlamentar.
Lula explicou tudo invocando um ilícito que políticos dos outros partidos também fazem, em maior ou menor grau e com exceções quase milagrosas. Ao fazê-lo, perdeu o brilho de sua estrela, é verdade, mas plantou a semente da vitória, que agora está brotando. Supõe-se que o dono da idéia tenha sido o ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos. Viva ele!
Para melhorar as coisas, dois episódios recentemente levantados prometem virar o esguicho de lama na direção do PSDB, do PFL e de quem mais se aproximar.
Primeiro, o governo conseguiu as assinaturas necessárias para instaurar a CPI das Privatizações, retroativas até o governo FHC e, provavelmente, ao Luiz Carlos Mendonça de Barros, o quase ministro-superpoderoso de Fernando Henrique, que foi abatido em pleno vôo, fazendo, no segundo mandato tucano, o papel que agora pertence ao José Dirceu.
E depois surgiu a chamada Lista de Furnas, uma relação de políticos cujas campanhas teriam recebido dinheiro de caixa dois. Dela fariam parte, inclusive, os dois maiores adversários em potencial de Lula: Geraldo Alckmin e José Serra. É munição de sobra para o presidente contra-atacar ao longo da campanha, se for verdadeira.
Tudo isso me faz lembrar a Trilha do Barroso. Este é o nome da brincadeira preferida de minha filha quando vai para a colônia de férias. Deu para adivinhar do que se trata? Consiste no seguinte: as crianças botam tênis velhos, roupas gastas, de preferências rasgadas ou manchadas, e têm de andar dois quilômetros em uma estrada que é um atoleiro completo, do começo ao fim. As crianças, claro, gargalham a cada escorregão, emporcalhando-se sorridentes no barro e fazendo guerrinhas de lama entre si. Chegam ao fim exaustas, com lama até os cabelos e radiantes.
A campanha que se aproxima, vai ser parecida. Lula e seu adversário principal, o candidato da coligação PSDB-PFL, vão, com certeza, acabar imundos. De lama até os cabelos ou, pior ainda, até a alma.
Sua Excelência o presidente Lula começa em vantagem, pois já está sujo mesmo. O Serra, se entrar nessa trilha, já sabe que uma ou duas panquecas de lama na cara vai levar. Dizem que ele não tem espírito esportivo, vamos ver. Mas, se a oposição vier de Geraldo Alckmin, é melhor alguém avisar para ele tirar os óculos, pois, como ele mesmo dizia quando se elegeu governador, o importante agora é “amassar o barro”.
Rodrigo Lacerda
06/02/06