Tribuna da Imprensa | O mistério do Leão rampante

JORNAL:Tribuna da Imprensa – Rio de Janeiro
DATA: 29 e 30 de junho de 1995
PÁGINA: 03

Popular e sofisticado a um só tempo

O mistério do leão rampante de Rodrigo Lacerda, e uma grande lição de amor. Por João Antônio.
Pode parecer escusado reafirmar que certos livros não carecem de crítica imediata para se porem de pé e ganhar o público. Por uma espécie de fatalidade ou justiça do tempo chegarão a ele, e dele só depende a sua permanência.

A história da literatura dá exemplos estranhos. Um deles, incrível que pareça, é “Moby Dick”, publicado em novembro de 1851 e, mesmo o autor sendo conhecido, Herman Melville, o grande romance da Baleia Branca só começou a acontecer mais ou menos depois da I Guerra Mundial…
Assim, uma frase-síntese de, Melville soa hoje como um certeira ironia sobre a fama, a glória, o prestígio: “Tento todas as coisas: concluo com êxito o que posso”.
Mas hoje, de um lado e do outro do mundo, ouve-se com frequência perguntas como esta:”Onde diabo andava a crítica com os olhos para não ver a, grandeza monumental da história do Capitão Acab e da Baleia Branca?”.

Pode a crítica interessar e motivar leitores?

Com os seus aplausos, as suas restrições ou as suas reservas, uma obra cai ou não no gosto dos leitores e, então, está feita a sua carreira.

Se boa, a obra é redescoberta a cada leitura nova, como é “Moby Dick”, de Herman Melyille. E um livro novo, voltou dos abismos do esquecimento. E oferece valores surpreendentes, como raros no nosso tempo.

Há estréias que nos chegam, como se não fossem estréias.

O achado do autor, por talento, competência ou elaboração, nos aparece, já na primeira vez, de modo acabado. A obra, pelo seu nível de abrangência, consegue ser “popular” e sofisticada a um só tempo e com um dom profissional indiscutível e até inusitado.

Fica neste caso, para o meu entendimento, o recente lançamento de “O mistério do leão rampante”, de Rodrigo Lacerda, pela Ateliê Editorial, de São Paulo , sobremodo, um achado.

E é obra comovente por vários ângulos, mesmo sob a ótica restritamente intelectual. Uma narração que envolve e não larga o leitor, uma erudição que escorre naturalmente, de quem ama o tema (e até, de algum modo, esconde a erudição), um senso estético primoroso e uma visão fortemente humanística e um livro incomum e seu autor pertence, desde sempre, à família universal dos grandes narradores. “O mistério do leão rampante”, bem traduzido, faria êxito em qualquer país civilizado. E não apenas na Inglaterra.

Para sorte do leitor, é melhor para todos nós, esse autor é um homem culto. Ainda mais: culto e livre nas idéias.

Há um leque de traços curiosos neste “O mistério do leão rampante”. Um deles é a marca definitiva de um escritor de verdade pratica a literatura como um jogo lúdico, também. Ele diverte e se diverte? Resposta: o leitor, decerto, se diverte. E a literatura é escrita, em principal, para leitores.

De alguma forma tem uma visão bem-humorada da vida e uma crença grande nas possibilidades da transformação do ser humano. Evitemos carimbos tão à mão e tão indesejáveis. Fácil e superficial classificar um autor como o de “O mistério do leão rampante” de shakespeariano. Em principal, o Shakespeare das comédias, claro. Isso é evidente em excesso.

Rodrigo Lacerda tem a sua personalidade de escritor e, claro, seus orgulhos de estilista, para exemplificar isto, excele – mesmo por que gosta – em parágrafos o autor. Francos, não ameaçam longos e é um cioso da linguagem, aprecia desenvolver um acabamento de ourivesaria. Mas sustenta um permanente jogo de ação e sua prosa nunca é arrastada ou monocórdia. Sabe, e bem o que é ritmo. É bem humorado e sensual, à media que tem cadência o tempo todo, na proporção em que faz, também um jogo lúdico no seu exercício das palavras.

Ainda curiosidade: Rodrigo Lacerda começa a trabalhar no pequeno universo de uma anedota da Inglaterra do século XVII (Renascimento inglês) – a única em que se cita nominalmente Shakespeare – e chaga a um clima universal e atualíssimo: todo preconceito deve ser derrubado, ou, pelo menos, driblado.

Certos livros não enganam

Há livros que não enganam. Nem sobre si mesmos, nem sobre o autor. Francos, não ameaçam ser ou estar, são e estão. Livro e autor, pela força da marca dessa autenticidade, perfazem uma só personalidade.

Além de seus ares, logo no início, de obra acabada, “ O mistério do leão rampante” de Rodrigo Lacerda, nas suas 90 páginas editadas pela Ateliê Editorial, de São Paulo, com apresentação de João Ubaldo Ribeiro, carrega dentro de si um escritor de um frescor jovem e de “irremediável” vera vocação.

Rodrigo Lacerda, estreante, não estreante, tanto faz. E sua idade não interessa. Ele chega marcado, já escritor adonado de seu instrumento.

O artista pouco importância e significado têm o que ele cria “… já que não existe nada de novo para ser dito. Shakespeare, Homero, Balzac, todos escreveram acerca das mesmas coisas e, se eles tivessem vivido mil ou dois mil anos, os editores não teriam, desde então, necessidade de ninguém mais” – disparou, rente, William Faulkner.

Claramente o autor é conhecedor, admirador entusiasmado deste santo padroeiro universal de muita gente há quinhentos anos, Shakespeare. Mas a sua arte, original, criou dentro do aparente limite de uma anedota da Inglaterra do século XVII, no final do reinado de Elisabete I, uma senhora novela. No bojo dessa anedota “desimportante”, a única em que Shakespeare é citado nominalmente, Rodrigo Lacerda opera e acaba realizando um texto pessoal e saboroso, desenvolvido com um talento de quem é “inarredável” escritor, narrador nato, dono de um bom – humor permanente e de um traço de picardia, somado a um gosto aceso, lúdico pelo ato – de escrever.

Mas um talento ajuizado, também. Entre outras coisas, um amor, um respeito subido pela linguagem levada pelo Alfredo Margarelon, narrador imaginário desta novela que é uma “declaração de 8 de novembro de 1602, na qual o filho adotivo do conde de Shrospshire, em nome de seu pai adotivo, de sua família e de todos os homens de bem, declara sua prima, Maria Margarelon, injustamente caluniada por três elementos nocivos à – ordem e aos bons costumes do rei o inglês”.

Partindo do absoluto particular ou aparentemente grandeza, “O ministério do leão rampante” vai nos enredando num mundo fascinante e de dilemas extremos’ ‘que foi o Renascimento inglês e que marca o papel-limite, difícil e transformador de Shakespeare, consagrado como maior figura literária da língua inglesa. Ou, pelo conhecimento da personalidade humana, “o poeta da humanidade”, como preferiu Anatole France.

Humanismo pelos personagens

“O mistério do leão rampante” não fica, no entanto, numa “homenagem” de um jovem e caloroso admirador shakespeariano, nascido no Brasil, quinhentos anos depois… É uma peça autônoma, saborosa, guiada por um senso estético próprio, uma familiaridade espontânea (e trabalhada) com uma prosa de arte, um gosto apurado, lúdico mesmo, em que palavra, tema, personagens se movem harmoniosamente.

Não interessa a idade, repito, de Rodrigo Lacerda. A atmosfera geral do livro, sim. Tem frescor, uma juventude porejante, um encantamento pela vida e, em principal, um “humanismo” pelos personagens, sejam damas autoritárias, feiticeiros falsos, pilantras, mandriões ou barregãs, religiosos tarados, maridinhos anulados, traídos ou pascácios, cortesãos aproveitadores ou insípidos, doutores de fachada…

Não ter medo da felicidade

Rampante, em heráldica, é o quadrúpede representado na figura que se levanta sobre as patas traseiras, com a cabeça voltada para o lado direito do escudo. Já “O mistério do leão rampante” é – também – um apólogo sobre a liberdade de amar e sobre a fidelidade a esse ato de compromisso com a felicidade. Como na longa fala do personagem “iniciador” para a ex-menina, agora repentina, verticalmente sensual mulher, Maria, trazendo’ uma nova ordem – libertária -, um preceito novo de cavalheirismo:
“Seja lá o que te impedia de amar, acabou, e acabou não graças a Burbage ou a mim, ou mesmo graças ao brasão e ao rei. Acabou porque tu quiseste que acabasse, porque lutaste para reconquistar tua felicidade.

A vida é um palco, minha cara, e não adianta o Autor Supremo determinar as falas, se os atores não subirem nele e as pronunciarem em alto e bom som, com convicção e verossimilhança. Cristaliza teus objetivos em tua mente e luta por eles. Aproveita as oportunidades. Vive e sê feliz! Adeus!”

Clara é a mensagem. A juventude tem o direito e mesmo a obrigação de ser feliz. Isto não é nenhuma pérola do pensamento e fica acima das ideologias correntes hoje, na antiguidade ou em qualquer tempo. E a lei da vida.

De assim, mais do que um escritor legítimo, Rodrigo Lacerda se revela um sedutor na arte de narrar. E, dentro do clima e do universo de seu livro – Deus, o Demônio e as forças auxiliares o protejam.

Porque é bem chegado.