Tribuna da Imprensa | A dinâmica das larvas


JORNAL: Tribuna da Imprensa
DATA: Rio de Janeiro 27 de agosto de 1996
SEÇÃO: Tribuna BIS

A transformação como partida
Rodrigo Lacerda recebe prêmio com primeiro livro e já lança o segundo.
|| Por Cristina Lacerda

Rodrigo Lacerda é o que se pode chamar de um vitorioso. Aos 27 anos é historiador, editor e, principalmente, um escritor premiado, tendo recebido na Bienal do Livro em São Paulo o Prêmio Jabuti de literatura por seu livro “ O mistério do leão rampante”, publicado em junho de 1995 pela Ateliê Editorial. Simultaneamente ao prêmio que recebe pelo primeiro, Rodrigo está lançando seu novo livro – “ A dinâmica das larvas” – pela editora Nova Fronteira. Rodrigo Lacerda fala de seus dois livros com exclusividade para a Tribuna e exorciza suas fantasias sobre ser escritor e sobre o sofrimento inerente às metamorfoses contínuas a que a vida nos obriga.

Tribuna Bis – Rodrigo, como nasceu seu livro premiado, a novela “ O mistério do Leão Rampante”?
Rodrigo Lacerda – é uma novela farsesca, que nasceu de um trabalho na Faculdade de História sobre a época elisabetana. Comecei a ler a literatura dessa época. E descobri um episódio no qual uma mulher que assistia a uma peça vai ao camarim de determinado ator e o convida para um encontro amoroso. Só que impõe uma condição: que ele fosse ao encontro disfarçado de rei, personagem que interpretava. E o próprio Shakespeare teria ouvido esse diálogo, segundo a crônica, e se apresentado ao encontro meia hora antes do ator, também disfarçado de rei. A moça não percebeu que se tratava de outro “rei”. Depois que ele usufruiu dos encantos da moça, chega o outro ator, com roupa de rei, brasões etc. E a história segue, com feitiços, o Shakespeare falando… É preciso um certo suspense, não devo contar todo o livro. Esse episódio me pareceu muito eloqüente para ver como a concepção elisabetana de individuo surgiu, num mundo em que a aparência externa é que determinava a identidade das pessoas. Então essa confusão dos brasões dos trajes de rei, dos dois atores que de repente se encontram, e um deles é o próprio Shakespeare, e de você tirar as máscaras de um elemento externo e procurar a verdadeira identidade olhando para dentro e não para fora expressa uma concepção nova de individuo, na época elisabetana. Eu peguei esse episódio e expandi. Em vez de centrar meu livro em Shakespeare, centrei na moça. E crio todo um ambiente ficcional. No final, o ficcional se encontra com o anedótico, com a crônica histórica. Uma outra ponta é que a moça se acha vítima de um feitiço. Acha que esse feitiço impede o lado amoroso, a sexualidade dela.

É aí que seu livro ficou com um tom feminista?
É. Tanto que eu falei para minha mulher, para minhas amigas, que meu segundo livro ia ser bem machista, bem cafajeste…

E no entanto, o seu segundo livro, “ A Dinâmica das Larvas”, acabou sendo só mais acido que o “ Leão Rampante”. Mas é igualmente “ uma comédia trágico – farsesca”, como você põe no subtítulo. E em ambos, me parece, poderiam figurar as epigrafes que você pos no segundo: A de Peter Shaffer “ Se foi para negar-me o talento, porque implantar o desejo?” e a de Umberto Giordano “ E, num só abraço e num só beijo, a toda gente amar!”. Mas vamos falar desse seu romance que está saindo do forno e que tem a marca da originalidade no titulo mágico e insólito de “ A dinâmica das larvas”
Das duas experiências profissionais marcantes da minha vida: uma experiência como editor numa editora privada, atuando na parte editorial, e uma experiência de trabalho em uma editora publica, uma editora de universidade. E me lembrei muito de uma frase do Mick Jagger no anos 70: “ Se eu fizer 50 anos cantando Satisfaction, dou um tiro na cabeça”

E ele fez uma dessas duas coisas: não deu um tiro na cabeça as canta até hoje, com mais de 50, a mesma música…
É. E dessa frase eu me disse: “ Se quando eu fizer 50 anos, tiver ainda este mesmo dilema profissional, o que vou estar achando dele”?

O dilema entre ser editor num mercado onde o livro é só mais um objeto de consumo ou ser escritor seguindo o seu desejo mais forte? E, no livro, isso é vivido também, não é? Só que em tom de caricatura, de realismo fantástico…
É, no livro esse problema vem caricaturado, e adotei uma linha pessimista. Digamos que , ao 50 anos, eu estivesse odiando essas experiências profissionais. Mas é que, ao 27 anos, a idéia de você fazer uma opção de vida inteira é muito pesada. Só que a vida exige que você faça opções. Se não para a vida inteira, pelo menos de muito longo prazo. Quando você vai fazer vestibular também é pesado, só que você tem mais tempo pela frente. Mas ao 27 anos, você esta num momento de encruzilhada, você tem que assentar. Os dois personagens que deram origem à “ Dinâmica das Larvas”, nessa reflexão pessimista, são editores. Um editor empresário que não agüenta mais correr atrás de dinheiro. Ele não agüenta mais, cansou. Ao mesmo tempo, ele só quer dinheiro. Mas o fato é que ele trabalhou a vida inteira e não ganhou dinheiro. E um editor universitário, que não agüenta mais ler teses. Os dois editores se debatem com suas insatisfações e se envolvem numa trama da qual fazem parte uma agente literária e um escritor. Esses são os personagens básicos.

E amor, tem?
Não, nenhum. Justamente porque é um livro pessimista. É uma comedia trágica, porque retrata o mundo claustrofóbico. Os personagens estão insatisfeitos com as suas profissões e com suas vidas. Há um prêmio literário em jogo, e os personagens se envolvem numa trama em torno do prêmio e tentam resolver suas vidas. A publicação de um livro é o ponto de fuga das expectativas dos quatros personagens, que têm origem na minha fantasia pessimista do que vai ser o meu futuro profissional. Porque eu não sei o que vai ser, e espero que ele não seja tão ruim como o livro mostra.

Ganhar o Premio Jabuti de Literatura com “ O Mistério do leão Rampante” no mesmo ano em que Chico Buarque e Jô Soares publicaram romances e, nesse mesmo ano, ter uma filha linda chamada Clara, a meu ver, apontam para um futuro de borboleta e não de larva. E aquela agente literária meio lady Macbeth, “ alma poderosa no crime”, como diz Baudelaire, que você põe no livro? Ela pode ser um exemplo dessas mulheres pós – feministas, competitivas, tratores, pragmaticamente ferozes?
É, a personagem mulher é feroz. No meio editorial, acontece um fenômeno muito curioso. Existe uma categoria absolutamente dominada por mulheres: 95% dos agentes literários importantes são mulheres fortíssimas, poderosíssimas, e a minha personagem quer se tornar uma mulher dessas.

E o titulo? Sem prejudicar o suspense, você pode falar mais sobre o titulo?
O personagem principal é um biólogo que faz uma nova hierarquização do reino animal, e nessa hierarquização do reino animal, na obsessão dele, as larvas seriam os animais mais perfeitos e mais belos, porque elas lidam melhor do que qualquer outra criatura com a transformação. A transformação humana é sempre incompleta, muito sofrida .As larvas não se angustiam. Elas não sentem o tempo passar, elas não se arrependem muito mais pacificada do que os homens. Todo os meus fantasmas existenciais, profissionais estão nesse livro. As larvas não precisam mudar para viver. Mesmo que tenham que mudar, mudam de uma só vez. É assim que eu gostaria que acontecesse.