Trechos | Dicionário de termos históricos
Impressionismo
Movimento que revolucionou o cenário das artes plásticas francesas durante a segunda metade do século XIX e que iniciou o ciclo da arte moderna. O termo impressionismo inspirou-se no título de um quadro de Claude Monet, um dos mais importantes pintores do movimento, que se chamava “Impressão: Nascer do Sol”, de 1872. Curiosamente, o termo foi criado com uma intenção pejorativa pelo crítico de artes Louis Leroy, ao comentar a primeira mostra coletiva dos impressionistas em 1874.
Combatendo os métodos e os resultados das escolas acadêmicas de arte, considerados sentimentalistas, inspiradores de um historicismo grandiloquente e meros imitadores de formas e cores pré-estabelecidas, o impressionismo buscava representar na pintura a fugacidade da realidade visual, fosse nas paisagens, nos objetos ou nas figuras humanas. Os elementos representados na pintura impressionista não possuíam, portanto, uma essência identificável através de suas formas e cores, mas eram, isto sim, representações circunstânciais de um objeto sob determinada luz, em determinado momento. Por isto, ao contrário dos acadêmicos, que faziam anotações sobre uma paisagem para depois irem pintá-la em seus ateliês, os impressionistas necessitavam do ar livre, da observação direta do objeto retratado.
Embora as perspectivas tradicionais e a igualmente tradicional proporção das figuras estivessem mantidas no impressionismo, a técnica da pincelada visível, ou não homogeneizada, e a luminosidade pura que seus adeptos obtiveram, tornou-o um movimento de enorme destaque na história da arte. Embora a produção francesa seja, de longe, a mais importante, o impressionismo alcançou outros países da Europa, como a Itália, a Holanda, e chegou, inclusive, à América do Norte.
Nascidos entre as duas Grandes Guerras*, os pintores que integraram as fileiras do impressionismo descendiam, basicamente, de dois grupos. Um deles formado na Académie Suisse, de onde saíram Paul Cézanne(1839-1906) e Camille Pisarro (1830-1903), e o outro no Atelier Gleyre, que reuniu, entre outros, Claude Monet (1840-1926) e Auguste Renoir (1841-1919). A esta curta fase de aprendizado dirigido, seguiu-se na vida destes artistas um período de experimentação livre e de combate individual às academias, independência esta punida com sistemática recusa de suas obras nos salões e nas exposições coletivas de maior renome no cenário artístico parisiense. Finalmente, em 1874, a constituição do grupo foi oficializada, através da montagem de sua primeira exposição coletiva e, paradoxalmente, da crítica de Louis Leroy, que terminou de batizá-lo. Outras exposições, em sua maioria de menor vulto, foram realizadas em 1876, 1880, 1881, 1882 e 1886. Anteriormente, porém, em 1877, o movimento havia chegado a seu apogeu, com nova grande exposição coletiva.
Em 1880, exatamente quando começou a ter aceitação junto ao grande público, o grupo deu os primeiros sinais de sua dissolução. Na década de oitenta, os postulados impressionistas foram expandidos em direções diferentes. Cézanne semeou os alicerces do Cubismo*, Gauguin (1848-1903) os do Fauvismo* e Van Gogh (1853-1890) os do Expressionismo*. O Neo-Impressionismo, também conhecido como Divisionismo ou Pontilhismo, embora tivesse suas origens no movimento e tomasse emprestada sua pincelada visível e seu colorido, rejeitava a subordinação do desenho à luz e à intuição subjetiva do pintor, bem como a transitoriedade manifesta na pintura impressionista, buscando uma arte mais sólida e construtiva, preocupada com os aspectos duradouros, para não dizer imutáveis, da natureza.
O termo Impressionismo também se aplica a uma determinada linguagem musical, surgida na última década do século XIX. O pintor Auguste Renoir foi o primeiro a fazê-lo, numa carta em que comentava sobre “os impressionistas da música”. Em comum com os ideais plásticos do impressionismo, verifica-se nestas composições uma índole econômica e contida, um colorido que resulta do fascínio dos compositores pelo mistério e pela beleza dos timbres em estado puro (como as cores nos quadros), a borradura da divisão entre melodia e acompanhamento (como entre o objeto pintado e sua iluminação), uma orquestração exótica e uma radical experimentação com o sistema harmônico, baseada na sucessão livre de acordes isolados e independentes (como as pinceladas dos pintores). Os grandes compositores da música impressionista, embora nem todas as suas obras sigam tais estruturas, foram Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937).
Modernismo
Nas artes, o modernismo designa dois movimentos distintos, surgidos na América Latina: o modernismo hispânico e o brasileiro. Anterior cronologicamente, o modernismo hispânico surgiu em fins do século XIX, abandonando os modelos da literatura espanhola e deixando-se influenciar pelo culto à forma, característico do parnasianismo, e pela rejeição ao positivismo científico-mecanicista (v. Positivismo) e ao Simbolismo*, outro movimento contemporâneo que estourava na França.
Os pioneiros do modernismo hispânico foram o poeta colombiano José Asunción Silva (1865-1896) e o poeta, jornalista e político cubano José Martí (1835-1895). Em 1888, com a publicação do livro Azul, consolidou-se como a grande figura do movimento o poeta e ficcionista nicaragüense Rúben Dário (1867-1916). Além das influências gerais já citadas, sua obra está impregnada do romantismo de Victor Hugo, o que resultou na mescla do esteticismo ao lirismo e, portanto, no assentamento dos pilares fundamentais do modernismo hispânico.
Reunida em torno da revista homônima ao livro de Dário, a primeira geração de modernistas cultuava seus ídolos franceses e seus temas, igualmente estranhos à realidade americana. Suas inovações estéticas revolucionaram a cena literária na América Latina, chegando inclusive a atrair muitos poetas espanhóis, com destaque para Salvador Rueda (1857-1933). Após regressar de uma temporada na Europa, em 1893, Dário formou o núcleo da segunda geração de modernistas e deu continuidade a sua militância literária. Nesta segunda geração destacaram-se o poeta mexicano Amado Nervo (1870-1919) e o romancista venezuelano Manuel Díaz Rodríguez (1871-1927). No campo teórico, o maior ideólogo do modernismo hispânico foi Enrique José Rodó (1872-1917).
A profunda influência da mitologia e dos valores culturais europeus na produção do modernismo hispânico manifestava-se em vários de seus elementos, como o satanismo, o exotismo, o erotismo, a valorização da cultura antiga e do Renascimento*, e o orientalismo. Isto fez com que, nos dias de hoje, a literatura modernista hispânica seja vista por muitos críticos como escapista, voltada para realidades ideais, contraditória em relação à verdadeira condição da América e de seu povo. Com o início da Primeira Guerra Mundial (v. Grandes Guerras) e o colapso inevitável de qualquer idealização da cultura européia, além do surgimento de inúmeras outras formas de experimentações artísticas, o modernismo hipânico foi abandonado por seus próprios seguidores.
No Brasil, o modernismo teve como marco inicial a Semana de Arte Moderna realizada no Teatro Municipal da cidade de São Paulo, em 1922. Lá foram expostos quadros e realizaram-se sarais lítero-musicais. Na literatura ficcional e ensaística, os expoentes do movimento, entre outros, foram Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Graça Aranha e Oswald de Andrade; na música, Heitor Vila-Lobos; na escultura, Victor Brecheret; na pintura Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Vicente do Rego Monteiro.
Embora houvesse uma enorme gama de ramificações internas no movimento, ora mais político, ora exclusivamente estético, em alguns casos mais rígido e programático, em outros mais livre e independente, os modernistas provocaram um momento de enorme efervescência da cultura brasileira, no qual a diversidade interna não impediu a existência de alguns valores comuns. Desprezando o ideário romântico, parnasiano e realista, considerado europeizante e deformador da verdadeira identidade nacional, o modernismo brasileiro caracterizava-se por uma busca de novas formas de representação da vida, da língua, dos personagens e das paisagens do Brasil.
Continuando a ter seu núcleo mais forte na capital de São Paulo, cujo instrumento mais contundente de atuacão foi a revista Klaxon, o modernismo não demorou a expandir-se para o interior de São Paulo e, depois, para Minas e Norte-nordeste.
Paradoxalmente, embora a essência do modernismo brasileiro seja, em sua valorização de tudo que fosse autenticamente nacional, a antítese do modernismo hispânico, ele também sofreu as consequências da turbulenta situação política internacional. A partir de 29, a economia brasileira foi drasticamente afetada pela crise mundial, vendo-se incapaz de evitar o fim do período áureo da produção cafeeira. Em meio a estes acontecimentos, as diferenças entre as diversas correntes do movimento pulverizaram-se, diluindo, se não extinguindo, o movimento.
Muitos dos artistas envolvidos deixaram-se seduzir pelo projeto político nacionalista do Estado Novo*, enquanto outros, diante da falta de popularidade, assumiram uma atitude elitista, segundo a qual o público não os compreendia por estar colonizado cultural e intelectualmente pelos europeus. Não obstante esta certa dose de adesismo ou de auto-louvação, a herança deixada pelo modernismo para a cultura brasileira é da maior importância. Como disse Mário de Andrade, certamente o maior teórico do movimento, o modernismo assegurou: “o direito permanente à pesquisa estética: a atualização da inteligência artística brasileira; a estabilização de uma consciência criadora nacional e, notadamente, a conjugação desses três elementos num todo orgânico de consciência coletiva.”