Trecho | Vista do rio
Difícil, importar um beija-flor até o Estrela de Ipanema. Feito isso, o resto foi exatamente a parte boa. Sem ninguém saber.
Virgílio enfiou-o dentro do liqüidificador e encaixou a tampa. O bicho, a princípio, só se debateu um pouco, quase parado no ar.
Quando Virgílio apertou o botão — velocidade baixa — aí sim vimos a primeira faísca de adrenalina riscar seu corpo minúsculo, metalizado de verde e azul. Assustado com o barulho da rotação das lâminas, ele aumentou o ritmo da batida de suas asas e a força dos choques que dava contra as paredes.
Olhando o copo de plástico do liqüidificador, eu o vi aflito. Olhando a tampa, reparei nas unhas e na palma das mãos de Virgílio, tão mais claras que o resto de sua pele. Dedos finos, o movimento aparecendo.
Qualquer passarinho serviria, mas não como os beija-flores. Espírito lúdico, gozo sádico e curiosidade científica perfeitamente integrados. Sempre gostamos dos animais.
Adorávamos os ratos comprados em loja, sedados e dissecados no quarto. O bisturi rasgava o couro fino de suas barrigas. Saía um cheiro azedo, confundindo-se ao do éter usado na anestesia geral e na limpeza dos instrumentos. Adorávamos os girinos do aquário, fetos expostos e minúsculos, pretos, com olhos engraçados, transformando-se, ganhando patas como se fossem deformações provocadas in vitro, enquanto seus rabos diluíam-se lentamente. Ou as formigas que encostávamos em pedras de gelo, enrijecendo-as por um tempo, para depois botarmos para ressuscitar no sol, na beira da janela. Às vezes, com sucesso. E mais ainda o laboratório comportamental inventado por Virgílio, que montávamos na Praça Nossa Senhora da Paz. Uma grande bacia com água até a metade, algumas pedras fazendo as vezes de ilhas, formigas de espécies diversas e gravetos-pontes. As formigas circulavam apressadas, retidas no arquipélago instantâneo, matando e morrendo pelo privilégio de devorar os cadáveres em que se iam transformando e as gotas de sorvete intencionalmente postas ali. Era comum o suicídio, com elas se jogando desesperadas na água.
Uma excitação. O corpo metálico, musculoso e pequeno, foi cansando. A carapinha de Virgílio parecia eletrificada. O verde dos olhos acendeu.
— Ele é forte — eu disse.
Virgílio não respondeu.
Sorrimos de nervoso, um sopro no coração.
Capítulo à parte, os gatos e cachorros da rua. Era divertido amarrá-los nos pára-choques dos ônibus. Incapazes de acompanhar a velocidade, se embolavam nas patas, caíam e iam sendo arrastados pelo cimento afora. Ou sufocá-los com sacos plásticos, observando enquanto seus rostos iam embaçando numa careta. E, nas grandes ocasiões, incinerá-los com álcool e fósforo, pois eram sempre exuberantes no momento final. As chamas na caçamba de entulho vinham fácil. Jogada a vítima, tapada a fuga, Virgílio saboreava a contagem, enquanto os guinchos atravessavam as chapas de ferro, 5. . . 4. . . 3. . . 2. . . Ligados os pontos entre o medo, a antecipação e o fato, estava aberta a passagem para uma bola de fogo em disparada.
O bairro todo virou quintal. Ipanema, em Tupi, é elogio?
Quase esgotado, o beija-flor foi se entregando, largando, descendo. Desistir começou a ser uma opção. Bastou o rabo encostar nas hélices, contudo, que suas energias voltaram. Com sorte roto, com azar já ferido, o bicho subiu de novo. Suas asas ocuparam um espaço maior que elas, num frenesi que só o medo da morte é capaz de provocar. Convulsão, taquicardia, e os olhos pretos, do tamanho de uma cabeça de alfinete, ganharam expressão. Ele se debateu contra a tampa e as paredes de plástico, à sombra de Virgílio, que, satisfeito, retapava o liqüidificador.
O segundo botão fez as hélices girarem imediatamente mais rápidas e mais gritantes. O barulho de motor doía nos ouvidos.
— Se fosse um escorpião já teria se matado — disse Virgílio.
O pássaro nunca poderia ter imaginado. As flores eram de plástico, a água, adoçada artificialmente, a sombra, armadilha; seu mundo inteiro o traiu.
Era natural que ele caísse. Desabou. As lâminas emudeceram por um instante. Quando a força de seu giro afinal venceu a resistência, jogaram contra as paredes de plástico uma pasta grossa e molhada, vermelha escura — algumas penugens metalizadas ainda vagamente identificáveis; partes duras, alvas, moídas, no meio da coisa —, e o barulho do motor, um pouco só mais grave, retomou o volume normal.
*
Virgílio voltou antes da hora. O elevador parou em dois andares, mas ninguém abriu a porta. Chegando em casa, foi direto à cozinha beber água. O sol ia morrendo lá fora, embora o calor ainda fosse grande. Um bilhete na bancada da pia, da empregada para o marido, anunciava o supermercado. Virgílio chegara até ali sem se preocupar em ser silencioso, mas também não se preocupando em fazer barulho.
Alguma coisa, abafada e sutil, estava no ar. A porta de vidro jateado, entre a cozinha e a área de serviço, totalmente aberta. Passando-a, ele viu, perfiladas à direita, ao longo da parede de tijolos, as três portas-venezianas que protegiam os quartos dos empregados. Nada se via através. A primeira, contudo, entreaberta, deixava à mostra uma televisão preto-e-branca, desligada, e a tábua de passar, ao lado de uma cadeira cheia de lençóis e roupas empilhados. Não tinha ninguém ali. Virgílio ouviu o pio de um passarinho. A segunda porta estava fechada, mas ele sabia de cor o que estava do outro lado. A cama do casal no meio, o crucifixo simetricamente dividindo o espaço acima dela, e as páginas de revista coladas nas paredes como decoração. Continuou, o som não vinha dali.
Virgílio pensou no cachorro, no barulho que fazia ao roer as coisas. Não era igual. Intrigado, abarcou num olhar a área de serviço do apartamento, toda enfeitada pelos vasos de samambaia da Fátima e pelos canários engaiolados do Jairo. Ela conversava com as plantas. Ele adorava os passarinhos. Lembravam-no do Ceará e do pai, morto antes da vinda para o Rio de Janeiro. O Estrela de Ipanema, afirmativo que fosse, abrigava afinal alguns corações nostálgicos. A cozinheira e o motorista, casados, pareciam gozar de uma felicidade pré-industrial, recebida de graça e não como prêmio. Tinham um filho; Miguel, doze anos. A vida era estável e simples.
Fátima era uma baiana alegre, com sorriso de mulata forte. Sempre havia sido cheia de corpo, mas agora, beirando os quarenta, arredondara de vez. Aprendera a cozinhar como quem é gênio: sem regra. O bom humor e seu talento faziam a diferença.
Jairo era um cearense alourado, baixo, troncudo, de mãos grandes. Tinha o temperamento mais sério que o da mulher, e justamente por isso vivia de quatro por ela. Ria sempre, ora embevecido, ora fingindo que desaprovava suas loucuras. Era discretamente bom. Escondia uma peixeira no carro, embaixo do banco do motorista, por pura machice sem conseqüência, ou mera evocação do agreste. Delicado, tratava os passarinhos com zêlo paternal, trocando diariamente a água das gaiolas, compondo uma alimentação adequada para cada fase de suas vidas. Tinha-os de várias cores — amarelos, laranjas, marrons e pintados —, todos com os bicos curtos e incisivos da espécie. Acariciava-os, dava-lhes comida na boca, falava com eles. Sabia exatamente quando os amedrontava como um gigante assustador, ou quando era o momento de esticar sua mão e deixá-los vir, convencidos. Estando em casa (no apartamento), sem serviço, ia sentar na janela da área, silencioso, tomando com gosto o café que Fátima passava, e deixando que as aves minúsculas o levassem para muito longe. “Os machos cantam mais e melhor que as fêmeas” — dizia, explicando quem era quem no emaranhado de gaiolas. Eu e Virgílio nunca aprendemos a distingui-los. Nem pelo canto, nem pela cor; e misturávamos os nomes. Jairo nunca desconfiou de nossa queda por beija-flores.
A brisa marítima, ao entrar pelo décimo-primeiro andar, balançava sutilmente as pequenas jaulas, e os canários quicavam de um poleiro a outro. O fim da tarde pintava o céu de rosa e laranja. O morro Dois Irmãos, ao fundo, recortava um perfil de sombras no horizonte. As aves piaram rapidamente, todas ao mesmo tempo, conspirando, e Virgílio deixou de escutar qualquer outra coisa. Ficaram quietas, então.
No terceiro quarto, o que de cara atraiu seu olhar foi a bunda de fora. Bonita, pensou. Depois, vendo que era de homem, reparou na calça abaixada, nas costas, nos braços musculosos. E nas mãos, segurando carinhosamente as ancas magras de um menino; arranques lentos, ritmados, mal se deixando imprimir pelos dedos.
Virgílio, de onde estava, não viu nitidamente os rostos, mas os corpos estavam calmos, em pé, distentidos, exalando o vapor morno de suas respirações. O filho com as pernas abertas. O pai, Jairo, beijando seu pescoço.
*
Do lado oposto da estrada, vimos uma pequena guarita. Virgílio tirou o carro do asfalto, subindo num quase acostamento, até que confirmássemos nossa localização. Logo percebemos vários carros alguns metros à direita. Era o estacionamento dos visitantes. A partir dali, turistas e curiosos em geral seguiam a pé. Só quem fosse voar tinha direito de levar o carro até um outro estacionamento, próximo à rampa. Havíamos chegado ao Caminho da Pedra Bonita, a segunda parte da viagem.
Virgílio deu uma acelerada repentina, cruzando ambas as pistas e apontando diante da guarita. À primeira vista, parecia vazia. Reparei imediatamente nas paredes tortas, carcomidas pela umidade do lugar, e, sobre a pintura branca e gasta, no desenho colorido de um homem com cabeça e asas de pássaro, em pleno vôo demoníaco. Enfim percebemos dois vigias, sentadões no meio-fio, guardando aquela construçãozinha miserável.
Sem pressa, eles se levantaram e vieram até nosso carro. Meu amigo explicou que estava sendo esperado lá em cima por um instrutor, “Alexandre”. Sabiam de quem se tratava. Ao nos deixarem passar, levantando uma cancela enferrujada, avisaram para que subíssemos buzinando, pois a pista era estreita.
Já fora da estrada principal, foi a minha vez de acender o baseado. Virgílio enfiou a mão na mochila e pegou outra cerveja (àquela altura, a primeira já estava amassada e rolando no chão do carro). Abri uma também, encorajado pelos efeitos hipoteticamente restauradores do sanduíche.
Rapidinho, no entanto, a maconha foi travada e as cervejas vieram para o meu colo. A pista era mesmo estreita, como os vigias haviam dito, mas o simples alerta verbal não dava idéia do que encontramos. Buzinar a cada metro não era apenas recomendável, era fator de sobrevivência. Todas as curvas, de repente, ficaram absurdamente íngremes, verdadeiros joelhos pontiagudos. Crateras, sem exagero, brotaram do asfalto. Os pneus subiam e desciam, aos trancos. A cada sacolejo mais forte, eu sentia minhas costas arderem, e agarrava no painel; Virgílio trincado no volante. O asfalto puído começou a fazer um barulho tenebroso. O mato invadiu a pista. Verde e escorregadio. Umidade até nos troncos, até nas pedras. O campo de força dos barrancos entrou em ação.
Agora, vamos ser francos: só entende o Rio quem, das fronteiras entre a perfeição natural e a instável ordem urbana, souber extrair um estilo de vida, uma ética muito sutil e peculiar. Eu me revoltava, tinha ataques de indignação cidadã, de onipotência civilizatória. Já Virgílio era um adepto fervoroso do modelo.
Tanto que adorou a adrenalina. Eu a suportei. Para mim, a melhor coisa daquela estrada foi sua curta extensão. Um quilômetro depois, no máximo, acabou. Demos num canteiro de pedras, circular e aterrado até a boca, que deveria ter uns dois metros de diâmetro por um e meio de altura.
Nele, acima do chão, uma velha jaqueira ocupava lugar de honra, com uma dinâmica própria e muito curiosa. Em função da sombra de suas folhas, as outras plantas, mudinhas raquíticas de mangueiras e palmeiras, eram condenadas à mais completa insignificância. Pareciam brotos ralos de grama. Mas a árvore, comparada a jaqueiras normais, era também subdesenvolvida. Havia pouco espaço para suas raízes. Duro destino, da pobre criatura egocêntrica, claustrofóbica, esquizofrênica, vítima e vilã. Gostei dela.
O canteiro dividia a pista em duas, que o circundavam e se reencontravam logo à frente, no estacionamento exclusivo dos voadores. Lá, mais carros. Paramos o nosso. À direita, uma porteira levava a três ou quatro casas enfileiradas, de funcionários do parque (só podia ser). À esquerda, num barranco, havia uma escada tosca, feita com grossos dormentes de madeira, que continham a terra úmida e assim formavam os degraus. Era o acesso à rampa.
Virgílio, saltitante, recomeçou a falar sobre seus planos, sonhos, profecias, esperanças e delírios, sem parar. “Vou dirigir meu primeiro curta”, “montar uma companhia”, “escrever um manifesto”, “trepar loucamente com todo mundo”, “você vai ver”.
Eu vinha alguns degraus atrás, incomodado pela ardência nas minhas costas e pelo enjôo renitente no meu estômago. O sol, o sanduíche, a maconha e a cerveja não me haviam feito tão bem quanto seria de se esperar. Ainda por cima, estava aflito, sentia-me indisposto, pessimista, melancólico. . . Virgílio e seu destino, o vôo; o meu próprio destino, que faria dele? Do medo de esconder mostrando demais? Poeta sem coragem de fazer poemas.
Nossa amizade, mantida por um passado de experiências comuns, que resultaram em temperamentos opostos, o que seria dela?
Por sorte Virgílio trouxera a mochila de cervejas, e resolvi curar o enjôo com tratamento de choque. Emborquei o que restava da minha primeira cerveja e, segurando meu amigo no meio da escada, catei mais uma latinha.
Tive então a má idéia de perguntar:
— Qual a cara desse instrutor?
— Sei lá. Só falamos por telefone.
— E como vamos saber quem é?
— A asa dele é branca, com três faixas diagonais, uma vermelha, uma laranja e uma amarela.
— Você conhece alguém que tenha voado com ele?
Virgílio me chamou de “Marcagão”. Explicou que Alexandre era piloto profissional, vivia de fazer vôos duplos. Gabando sua competência, chamou-o de Alexandre, o Grande, dizendo assim ser ele conhecido na tchurma dos voadores. E já fora, voando, de São Conrado ao Cristo Redentor.
— De São Conrado até o Cristo, Virgílio, peraí. . .
Desprezando minha incredulidade, meu amigo apontou no alto da rampa. Eu cheguei logo depois.
Num mirante superior, duas torres metálicas brilharam ao longe. Microondas sobrevoando a cidade, um novo Sumaré.
A clareira era bem menor do que eu esperava. Até acanhada, pode-se dizer. E o verde ali tinha um quê cenográfico. Uma cortina de folhas fazia a volta no platô, apenas interrompida na frente da rampa de decolagem. Mas não era a floresta. Atrás dos arbustos, quinhentos metros de vazio.
À esquerda de quem chega, a própria rampa parecia pequena, além de grosseira e precária. Seus pilares desciam por quatro ou cinco metros, aos pares, em meio ao capinzal. Reles estacas.
Os voadores eram tão informais quanto o lugar de onde pulavam. Eu os imaginara em roupas transadas, cheios das proteções, botas e capacetes. Coisa nenhuma, tudo bem mais improvisado. Iam de short e sandália.
Aqui e ali, várias birutas tremulavam, estufadas pelo vento, que vinha do mar em direção à montanha.
Lá embaixo, iluminada pelo sol e instigando o espírito aventureiro da burguesia carioca, a vista de São Conrado reinava. O azul do mar, a faixa branca de espuma e areia, o traçado cinza do asfalto, o verde fofo do Gávea Golfe Clube. Alguns saltadores, com suas asas de cores berrantes, já se preparavam para voar. Outros, também prontos, esperavam sei lá o quê. Olhando aquilo tudo, tive um medo enorme de pular de repente, sem motivo ou equipamento.
A excitação de Virgílio era óbvia. A altura realmente o fazia crer que todos os seus sonhos dependiam da próxima bolha térmica. Ao avistar a asa descrita pelo instrutor, trocou acenos com o desconhecido mais próximo a ela. Fomos até o sujeito.
— Qual de vocês é o Virgílio?
Meu amigo se apresentou e, depois, a mim. O tal Alexandre me olhou com desconfiança, secando minhas roupas e meu sapato. Arrisquei um comentário amigável, sobre a coincidência de nós três termos nomes de vultos célebres da Antigüidade: Virgílio, Marco Aurélio e agora Alexandre, o Grande. O instrutor deu um sorriso superior, satisfeito em sua ignorância. Virgílio olhou para o chão. Minha observação, menos culta que infeliz e pedante, gerou uma sintonia imediata entre os dois. Nem sei por que fiz comentário tão idiota.
Virgílio era uma pessoa de amizades instantâneas, exceção feita a nossa. Muitas vezes se aproximava dos chatos por um interesse prático, como agora, ou por curiosidade antropológica. Quando cansava, descartava-os sem a menor cerimônia. E eu, que havia aprendido a manter distância das pessoas, mas não conseguia cortá-las tão rente, sofria por tabela essas idas e vindas.
O instrutor nos apresentou um colega, Zé Emílio, outro piloto profissional. Seu rosto era um pouco mais inteligente; seu discurso, menos rudimentar. Ele incentivou Virgílio, relembrando as sensações do dia em que havia pulado pela primeira vez. Em seguida, gabou a maestria de Alexandre. Meu amigo se disse excitado e sem medo.
Outro voador, Fábio, se juntou ao grupo. Alexandre apresentou-o a quem interessava:
— Ele é que vai fazer o duplo comigo.
Virgílio, já o centro das atenções, depositou em meus braços a mochila. Escutei o entrechoque convidativo das últimas latinhas de cerveja.
Eu estava ali como reles acompanhante, figura secundária e inexpressiva. Não foi dito, não ficou explícito, mas os voadores souberam transmitir a mensagem. Depois de um tempo, mal me olhavam. Meu jeito — roupas e reações —, não batia com o deles. Eu não voava.
Enquanto os assistia conversando, me sentindo podre por dentro e por fora, um voador levantou para a decolagem, atrás de nós.
— Cabeçaaaaa!
Nosso pequeno grupo se dividiu, dando passagem à asa, de uns três metros de envergadura. Aproveitando a chance de me isolar, saí de fininho. Fingi que fui ver a vista e me apartei. Não sentiriam minha falta.
De longe, pude reparar melhor nos novos amigos de Virgílio. O Alexandre era alto, muito bronzeado, tinha cabelos compridos, corpo de atleta e mãos grandes. Estava sem camisa, só de bermudão e tênis. O segundo, Zé Emílio, usava camiseta branca, calça de abrigo e chinelos. Fábio, o mais claro deles, estava com uns óculos de lentes espelhadas, tinha o nariz e os lábios cobertos por uma pasta branca e, sem camisa, usava apenas um short, que revelava uma tatuagem sinistra na batata da perna.
No entorno, vi duas mulheres sentadas no chão, poucos metros adiante. Estavam juntas, acompanhando alguém. Quem? Seria um daqueles figuras? Qual? Quais? Melhor não saber. As duas tinham olhos claros, eram jovens, atléticas e lindas, com uma cor de pele maravilhosa. Nunca beleza, força e saúde foram tão indissociáveis. A loura segurava pela coleira um imenso cão dinamarquês, cinza malhado de cinza escuro, com a barriga e as patas brancas. O bicho era uma presença bizarra no topo da montanha, de uma agressividade surrealista. A outra, morena, estava de bermudinha e sem camisa, apenas com a parte de cima do biquíni. Cogitei uma explosão de sexualidade animal. Mas eu era eu. E depois, o dinamarquês não iria deixar.
A turma de voadores conversava junto às estruturas de alumínio, sob a quase sombra dos retalhões sintéticos e coloridos, roxos, vermelhos, laranjas, amarelos, marrons, verdes. Vazando através das cores, a luz tingia as pessoas, o chão, o ar. Por todo o lado, eu enxergava uma filosofia de vida que jamais poderia ser a minha, uma espécie de coloração espontânea, que eu simplesmente não tinha e nem poderia adquirir. Olhando meu corpo, meu bronzeado artificial, antinatural, a própria natureza me dizia isso. Naquele grupo, a obrigatoriedade de se estar sempre alegre, a beleza física, o tônus muscular e a agressividade eram sinônimos de auto-realização. Sinais de poder em meio ao caos urbano. Tudo entre aqueles homens e mulheres esportistas me parecia abrutalhado, até o amor. “Primitivos corpóreos”, costumava dizer Virgílio, que por puro culto à idiossincrasia nos levara até ali.
No ponto da decolagem, encravado no alto da montanha, revivi este desconforto intimíssimo, apesar de óbvio para qualquer estranho que, por um segundo, me analisasse com calma. Minha cruz. Nem a beleza do dia de verão a tornava mais leve. Nem a nova cerveja que eu acabara de abrir.
A raiva nos dá as armas? A sede pelo poder? O egocentrismo? A cobiça? Até poderia acreditar nisso, mas e eu, então? Era desprovido de raiva?
Infelizmente, esse auto-engano ia além da cota permitida. A pergunta correta era: por que a minha raiva não se convertia em força? Por que ela se embotava no ressentimento?
O sanduíche do posto de gasolina se retorceu aqui dentro, repassado em cerveja e maconha.
Quando mexe, frio,
Parece em conserva.
Sente prazer, incômodo,
A dor o abraça e dilui.
E se um espelho reflete, triste,
Ele inverte o real.
Mas o corpo está chamando. . .
Lembrei de um dos meus poemas. Se algum dia eu perdesse o medo de escrever, realmente. . . Desejo amedrontador, mesmo isolado, e ainda mais levando-se em conta os possíveis resultados. Não havia como saber quando eu estaria pronto, eu supunha, em nenhum momento da vida.
Quando não dorme, constante,
Sonha mais a madrugada.
Nos dias em que não come, magro,
Acaba falando grosso.
Por vezes é até bom de cama,
Goza limpo, só.
O corpo que vai passar.
Algo roncou bem errado no meu estômago.
Contrito, fui passeando pela rampa. Suas longas tábuas disparavam rumo ao precipício, mexendo comigo.
Reparei num altarzinho coberto, próximo à escada, e fui checar em devoção a que santo fora erigido. São Conrado, pintado em azulejos, rezava uma oração protetora aos praticantes do vôo livre.
Na cabeceira da plataforma de decolagem, a luz da tarde dourava suavemente a pele escura de Virgílio. Seus olhos muito verdes contra o sol. Suas narinas largas, puxando com força o ar fresco da montanha. O vento fazia tilintarem suas trancinhas pretas; antenas vivas, irriquietas e elétricas. Seu corpo franzino e esguio se agitava. O oposto da presença estudada, atarracada e máscula do instrutor e dos colegas, que lhe davam conselhos numa impostação truculenta, ou verificavam concentrados minúcias dos quesitos de segurança.
Virgílio, tão estranho àquele mundo quanto eu, paramentava-se com uma alegria inconseqüente, aprontando-se para o vôo a dois. À vontade, como sempre. Inadequado e desbocado, mas com seu jeito especial de desarmar as pessoas. Acabava querido nos grupos mais improváveis. Enquanto era amarrado na asa, fazia graça com as recomendações do Grande Alexandre, ridicularizando sua própria inexperiência e gozando os jargões que ouvia: barra de controle, “odeio gente ciumenta”, longarina do bordo, “a puta do navio”, cabo de tensão, “Você também é chegado?”.
Eu, que acredito nas palavras, jamais colocaria minha vida na dependência de coisas cujo nome não entendo. Meu sonho sempre foi usar palavras simples para dizer o que penso.
Eu podia sentir a ligação entre o autoconhecimento e a minha resignação em ser comum.
Diante de nós, a paisagem faíscava em toda sua glória, como um espetáculo imponente, esfuziantemente iluminado. Na praia do Pepino e na cidade, o sol se multiplicava nos corpos seminus (a impossibilidade carioca do anonimato), nas gotas de água do mar, na areia branca, nos tonéis de limãozinho e mate, no papel alumínio que embrulhava os sanduíches naturais, nas matracas do vendedor de pirulitos, nos isopores de sorvete, nos biscoitos de polvilho, nos óculos escuros, nos tabuleiros de cocada, nas barracas coloridas, nos plásticos, nas latas, nos lixos, no vidro dos prédios, nos carros que passavam; um ricocheteio de raios velozes e intensos.
Dava para imaginar o asfalto, armazenando calor há horas. Quem cresceu no Rio sabe. A gente atravessa a rua descalço, saindo ou chegando da praia, e sente a sola do pé grudando no asfalto amolecido.
Na formação mais distante do maciço, o morro Dois Irmãos, com a Rocinha debruçando-se sobre a cidade. Do lado de lá, Ipanema, Copacabana, mar azul. Uma segunda montanha, mais próxima à rampa, chamava-se, segundo apurei por ali, Crocaine. Seria um apelido dado pelos voadores — fiz um trocadilho mental com cocaine —, ou Cochrane, em homenagem a algum saudoso imperialista das antigas? Havia uma rua lá por baixo, ou estrada, dita dos ingleses. . . Era, de todo modo, uma senhora montanha.
À direita, quase às nossas costas, ficava a Pedra da Gávea. Misteriosa e solene.
Quando olhei o mar, o dono do horizonte a minha frente, tive medo. Podia engolir meu amigo. Um pingo de gente, literal, caindo na água infinita.
Olhei para os lados. E se Virgílio caísse nas montanhas em volta? Era morte certa, igualzinho. Migalha no carpete verde.
Se fosse comigo, pensei, eu teria um medo ainda pior: a queda imediata. Tudo acabar no primeiro salto, rápido e sem tempo para refletir (eu não gostaria de viver nem minha morte sem consciência). Um tombo estrondoso e patético. Como aquelas cenas de pioneiros da aviação, dirigindo trapizongas aceleradas e se estabacando feito personagens de o Gordo e o Magro.
Caminhei cuidadoso pela rampa, em passos lentos, olhando a minha volta, para enxergar um sentido nas coisas que via, naquelas pessoas tão jovens e bonitas; naquela paisagem maravilhosa, de uma cidade fodida. Naquele dia lindo, de calor insuportável. Na estranha combinação de sol e mar, praia e montanha, asfalto e favela, insignificância humana e imensidão da natureza. No fato de ser jovem e me sentir um velho. Naquela boa vida tão difícil, tão corrida e tão presa.
Continuei andando, meio tonto, aéreo. Tinha fumado e bebido demais. Ao chegar na beira da rampa, ainda em pé, olhei para baixo. Vi o abismo, abrindo.
Fugi, olhei para o céu. Ele se abriu também. Tornei a fugir, voltei-me para o alto da rampa. Vi meu amigo, sem saber o que pensar.
Virgílio, só alegria, estava prestes a cometer aquela modalidade disfarçada de suicídio. Ele e os voadores vibravam com a cerimônia radical de iniciação. Com sorte, sairia voando num retalhão de náilon, amarrado nuns tubos michas de alumínio e sem qualquer treinamento prévio. Quem o visse não acreditaria que o abismo era de verdade. Pensando bem, lá de cima a imensidão parecia mesmo um cenário fora do mundo, uma dimensão grandiosa demais, incompatível com a realidade cotidiana, comparada à qual a vida e a morte das pessoas é uma besteira. E, no entanto, eu estava preocupado.
Terminei mais uma cerveja. À beira da rampa, fiquei um tempinho na esperança de curar o enjôo com o vento que batia na minha cara. Tentei segurar a ansiedade. Depois, respirei fundo e subi para junto dos outros. O coração batendo, os olhos baixos, estranhados, envergonhados de tudo. Vi que Alexandre também já se prendera à maldita asa. Ensaiava com Virgílio os movimentos de decolagem, assistido pelos colegas.
Intimidado, cheguei perto de Virgílio:
— Você vai mesmo?
Assim que terminei a pergunta, o instrutor me fuzilou. Os outros voadores me encararam também.
— Já fui, cumpádi — ironizou meu amigo, carregando no sotaque marginal.
Nisso ele era especialista: preocupar as pessoas mais queridas, nunca se preocupando com nada.
— Vai arriscar a vida, à toa?
— Marcovarde. . .
Virgílio e sua mania de estropiar meu nome. Daquele jeito, na frente daquela turma, era um insulto. Respondi secamente:
— Fala.
— Beijo na bunda, e até segunda.
Típica leviandade, típica. Todos riram. Virgílio, nos momentos mais críticos, fingia que nada de grave estava acontecendo. O que valia era a “radicalidade”.
Saí de perto, puto, enjoado, ardido, envergonhado. Fui para trás da asa. Não tinha nada a ver com aquilo. A idéia do vôo não era minha, eu não sabia quem eram aquelas pessoas, não confiava nelas, não me sentia acolhido e já tinha tentado arrancá-lo dali. E mais, não pedi para vir, estava quieto na minha casa. Quer voar? Voa, filhadaputa.
Não demorou muito. Virgílio e o instrutor deram os primeiros passos. O triângulo colorido balançou, grandalhão. Os dois começaram o trote. Aí a corrida, curta ainda, buscando sincronia. Em seguida mais larga. Um já sombra do outro. O horizonte se alargou — respiração —, a altura — galope —, e ouvi o barulho na rampa. . .
Cobri o rosto quando Virgílio se projetou no ar. As vozes ao meu redor pararam de repente. Não deu para entender o que havia acontecido. Quando olhei, não vi asa nenhuma no céu.
Fui correndo até a beira da rampa e olhei para baixo. O verdadeiro espírito científico preferiria a dúvida, mas eu não, embora a bebida me tivesse roubado um pouco a agilidade e a firmeza. O vento bateu no meu rosto, porém, e não vi nada outra vez.
Então, um movimento invisível no abismo. Meus olhos correram atrás. Estavam lá; inteiros, por milagre. Deu para sentir quando pegaram a corrente e se firmaram. Durante algum tempo, embasbacado, assisti-os galgar as bolhas de ar quente. Tinha dado certo. Improvável, mas aconteceu. A asa ganhou altura.
Alívio, ou, pensando bem, eu era mesmo um bundão.
Olhei em volta, e ninguém levara o mesmo susto. Decepcionado comigo, sentei onde estava. Zé Emílio e Fábio, graças a Deus, me deixaram sozinho. Vi de longe suas comemorações, seus cumprimentos de coreografia espalhafatosa, cheia dos braços levantados, taponas estaladas, polegares dançantes. Por trás de cada voador, surfista, skatista, ou erudito, um quadro psicopatológico. Ser normal é uma vocação difícil, duvidosa e muito solitária.
Olhei para baixo, intensamente. Dava para se jogar. Rio de Janeiro, cidade contra a qual me protegi a vida inteira. É isso aí: protegido contra. Eu sentia aquela terra ferver.
Caberia a mim, dali a pouco, descer a montanha de carro e buscar Virgílio na praia. Ou seja, entrar no inferno de ar condicionado ligado. E, importante, respeitando o limite de velocidade, botando seta, olhando sempre pelo retrovisor, tudo direito. Sem carteira, mas dirigindo feito um domingueiro senil. De um bom-mocismo enojante.
Meu pai uma vez me perguntou qual de duas máximas latinas eu preferiria como filosofia de vida: “Aproveita o dia” ou “Áurea mediocridade”. Contando a Virgílio, ele se derramou em elogios à maneira como meu pai me educava. E quando retruquei, dizendo que tinha dúvidas se a contradição explícita nas opções era mesmo obrigatória, ele me respondeu: “Sofisma, machinho sensível, sofisma. Teu pai não era Deus pra te ensinar isso”.
Há quem diga que a vida vale não pelo que se vive, mas pela forma como é vivida. Sendo assim, uma biografia minimalista como a que eu vinha construindo poderia ser de grande profundidade. O sedentário poderia ter uma trajetória existencial tão rica quanto o aventureiro, o casto e o devasso idem, o pintor e o cego idem idem, e por aí vai. Embora achasse esta uma bela idéia, e quisesse muito aplicá-la na vida, não conseguia sentir que fosse verdadeira. Para mim, era uma racionalização atraente, mas um tanto falsa. Mesmo usando, constrangido por circunstâncias externas e internas, a máscara de pessoa equilibrada, eminentemente contemplativa, sentia latente uma ambição desmedida que me humilhava, uma inquietação, uma ânsia de agir, de fazer, de construir um futuro cheio, de vida, de experiências, de permanente e simultânea excelência artístico-ético-sexual, ou sexo-ético-artístico, ou, se tudo desse errado, pelo menos ético-alguma coisa. Diante de tanta cobrança, diante de tantas limitações, qualquer possibilidade de pacificação, é claro, ficava completamente afastada. Era a minha angústia.
A asa manobrava tranqüila no espaço. Manobras largas. Muito alto, muito longe, como se não corresse perigo nenhum.
Apesar do vento, consegui acender o que sobrava do baseado. A liberdade prometida no perfume daquelas brasas. Enchi o peito de fumaça, prendi e soltei. Enchi. Prendi. Soltei. Fui tentando relaxar, esquecer que havia outras pessoas por perto. Mas era impossível. A angústia cresceu.
Lá embaixo, a imensidão, o mar e o asfalto. Lá no alto, deslizando, Virgílio. A vida de cabeça para baixo, o destino se abrindo e se fechando, como uma boca, a armadilha gente grande, niilista, matemática. E ele? Voando, literalmente. Talvez as viradas biográficas, talvez a sorte geral, o tenham feito irreverente assim. Um jeito alucinado de ser amoroso. Solitário assim. Dando-se ao direito de pular em correntes invisíveis de ar, que subiam pelas encostas, rodopiavam e construíam trajetórias, rebatiam, se interpenetravam, mais lentas e espraiadas, ou mais rápidas e ascendentes, fazendo a asa cruzar o céu num balé antigravitacional.
Eu e Virgílio insistíamos em apostar nossa auto-estima numa única fonte de satisfação. Arte. Arte. Arte. Vivíamos o mesmo momento, divergindo totalmente na maneira de enfrentá-lo. De modos diferentes, quase opostos, nenhum de nós havia, até aquele ponto, demonstrado ter o único dom indispensável para se atingir o sucesso artístico, ou seja, o de compor fingindo que está revolucionando.
Acendi novamente o baseado. Estava com medo, ansioso, pessimista e angustiado. A beleza daquela tarde me deprimia. Não conseguia parar de pensar. Percebi que minhas queixas em relação ao passado eram, no fundo, em relação a mim mesmo, em qualquer tempo. Renitentes encarnações anteriores, drenando minhas energias, se intrometendo e barrando o caminho até os verdadeiros problemas. A expectativa da infância, infinita, eternamente promissora, ia sendo confrontada com aquele sombrio desfecho da adolescência. O destino se abria e se fechava, cada vez mais nitidamente. A vida em branco, em preto maldito, funil.
Algumas nuvens passavam ao longe, lentamente. Dilaceradas pela brisa, esgarçavam-se no espaço. E, no entanto, seguiam adiante.
Senti o tempo correndo alucinadamente rápido dentro de mim, ultrapassando minha velocidade real. Eu sempre tive pressa, porém o meu destino não poderia mais ser decidido na base do impulso, do arroubo. Eu sabia que não. Em mim, até a pressa tornara-se um método.
Sorri, melancólico. O perigo era morrer sem viver. Morrer antes de amar sem razão, sem motivo. Antes de amar acima de tudo.
Olhei para o alto, sentado na beira da rampa, tentando fugir de uma súbita vertigem. Piorou. A maconha, a cerveja, a falta de um almoço honesto, o sanduíche, tudo embolou. Vi o céu vazio.
Azul
Sol
Cidade
Futuro
Medo
Céu
Ganância
Caráter
Solidão
Verde
Montanha
Mar
Presente
Uma onda fez meu corpo vacilar. Um formigamento rápido e incontrolável, que subiu das pernas até a cabeça. As cores saíram de registro. O azul ficou azul demais, borrando as fronteiras do céu e do mar; o amarelo do dia ficou amarelo demais, explodindo seu foco redondo e imenso. Minha pele, vermelha, embranqueceu; quente, esfriou. Uma sensibilidade estranha, um sentir ausente. Não era eu tocando as coisas, ou a mim mesmo. Os músculos sem controle. Quis me levantar, mas cambaleei. A consciência prestes a cair. Um teto preto, tomando conta. Fiz força para permanecer enxergando. Lutei contra o meu peso.
Do fundo da tontura, senti Virgílio muito longe, solto no ar. Eu preso no chão. Pensei numa queda formidável e numa rotina sem vida. A partir daquele vôo, nunca mais seríamos tão próximos. Estávamos condenados agora.
Senti engulhos, e isso fez meu peito se retesar. Tossi, virei o rosto. A barriga se contorceu, a boca se abriu, um jato quente e azedo pulou pra fora, me fazendo tremer com força. Minha alma saiu vomitada, junto com a minha infância, com a rejeição da minha mãe e a distância do meu pai, junto com a bebida, com a perna do mendigo, a maconha e a porra da poesia, alma esguichada pra todo lado, junto com a inveja de Virgílio, e o medo, junto com a História, a vergonha, a carne moída do beija-flor, a curra do filho da empregada e o veneno daquela rampa. Junto com meu futuro e as certezas.
Puxei o ar com sofreguidão. O estômago bombeou novo jorro. Meu pescoço endureceu ao botá-lo para fora.
Tomei ar outra vez. Veio um terceiro jorro, mais fraco. Imediatamente meus olhos voltaram a enxergar, minhas mãos reencontraram alguma firmeza.
Suando frio, esgotado, fiquei olhando meu vômito, o abismo. Não sei por quanto tempo.
Onde está escrito que o papel do homem na terra é ser feliz?