Trecho | Resumindo Hamlet

Ao receber o convite para vir aqui, falar com vocês sobre mais essa obra-prima da literatura, recebi também de nosso anfitrião e organizador, Manuel da Costa Pinto, a incumbência de, antes de elucubrar livremente sobre a peça, contar em linhas gerais sua história para aqueles de vocês que não a conhecessem. Só então eu estaria autorizado a chafurdar nas filigranas do texto e da bibliografia altamente especializada, isolando certos temas e discutindo-os em seus mínimos e mais “esotéricos” detalhes. Tal incumbência pareceu, a princípio, fácil de ser desempenhada. Só depois vi o tamanho da encrenca em que tinha me metido. Resumir o Hamlet provou-se uma tarefa muito mais difícil do que imaginei. Pela qualidade do texto, claro, pela profundidade da visão de mundo que ela traz, pela multiplicidade de seus pontos de interesse, mas também pela quantidade, isto é, pelo tamanho mesmo da peça. Hamlet é um mundo. Montada sem cortes, pode chegar a ter seis horas de duração. Tem cinco atos e quatro mil linhas, mil linhas a mais do que qualquer outra obra do autor. Graças a Deus essa minha palestra, que inicialmente havia sido marcada para outubro do ano passado, foi adiada para hoje. Ou o meu resumo seria ainda mais canhestro. Custei a enxergar um eixo em torno do qual pudesse fazê-lo.

Enquanto procurava, lembrei de uma piada que vi naquelas histórias do Hagar, o horrível, um personagem viking, que tem um filho chamado Hamlet, mais ou menos na mesma fase de vida que o personagem renascentista, ou seja, em tempo de universidade. Na piada, esse filho está do lado de um amigo, que lhe pergunta como foram as suas férias. E então ele responde a verdade: “Você não faz idéia. Primeiro, papai morreu e mamãe casou com titio. Aí apareceu o fantasma do papai e me disse que titio é que o havia assassinado e que eu, por isso, deveria matá-lo. Aí eu me fingi de louco, mas sem querer matei o pai da minha namorada e ela enlouqueceu de verdade…” E ia nessa batida, até que o amigo estivesse totalmente acachapado por aquela narrativa tão terrível e provocada por uma perguntinha tão singela. E, de fato, se o Hamlet tivesse sobrevivido à própria tragédia, e, de volta à escola em Wittemberg, alguém lhe perguntasse como haviam sido suas férias, seu relato não seria muito diferente.

Só que eu não podia dizer tudo o que se precisa dizer sobre essa peça assim, bruscamente, como aquele conhecido chato a quem você pergunta, de forma absolutamente protocolar, se está “tudo bem”, e ele não só diz que não está como ainda explica nos mínimos detalhes por que não está. A piada dos quadrinhos era boa, mas não resolvia minha vida. Remexi na bibliografia, quase toda concentrada nos dilemas existenciais do príncipe, ou formulando falsas perguntas, entre as quais a mais célebre: “Será que ele está louco mesmo ou apenas fingindo?”. A peça não deixa dúvida quanto a isso, veremos a seguir. Mas inventar dilemas externos às obras é mania de crítico, mais uma daquelas difíceis de entender, e que levaram Oscar Wilde a perguntar: “Será que os críticos estão loucos mesmos ou apenas fingindo?”.

Finalmente, pensei em apresentar aqui uma versão menos usual da peça. Digo isso porque a tradição romântica, segundo a qual Hamlet é um personagem ensimesmado, monologando ao léu enquanto se vê devorado por suas próprias angústias existenciais, tornou-se um lugar comum que, embora parcialmente verdadeiro, não faz justiça à riqueza do personagem, e sobretudo à da peça. Hamlet não é um “pisa-no-buraco”, pelo menos não um qualquer.

A meu ver, assim como o Hamlet romântico, visto isoladamente, é uma fabricação, também o são o Hamlet moralista, incapaz de traçar uma clara fronteira entre o bem e o mal; o Hamlet intelectual, que precisa encontrar razões cada vez mais concretas antes de agir; o Hamlet filósofo, niilista, para o qual a própria existência do mundo é algo duvidoso. Todos esses existem num outro Hamlet, o Hamlet político, que foi preterido na linha sucessória do reino, em favor de seu tio, e participa de um embate em nome do poder, embate este que não é apenas pano de fundo para suas investigações existenciais.

Aqui, portanto, pretendo me concentrar no plano político da trama, bem menos badalado, mas que é importante, pois é o verdadeiro fio condutor da peça, e dele se depreende uma concepção de história muito bela e, a meu ver, muito mais verdadeira que as concepções idealistas que vieram antes de Shakespeare, e as materialistas, que vieram bem depois. E que, acho eu, nestes nosso tempos de geléias ideológicas, de ausência de paradigmas claros e totalizantes, muito se aproxima da nossa realidade.

Para tentar reproduzir para vocês esse plano político, farei uma recapitulação geral da ação da peça, mas usarei como pilares da análise três cenas capitais, as três em que a corte inteira se reúne: Ato I, cena 2; Ato III, cena 2; Ato V, cena 2. Essas três cenas marcam as viradas, e tudo que vem antes delas prepara-as e tudo que vem depois é sua conseqüência.

I. A trama política em Hamlet

Quando começa a peça, as sentinelas estão nas muralhas do castelo de Elsinore, sede da monarquia dinamarquesa. Junto com elas está um jovem que tem estudo, Horácio, e que é o melhor amigo do príncipe Hamlet. Ele foi convidado a, junto com as sentinelas, esperar a visita do fantasma do rei recentemente falecido, que há duas noites aparece na mesma hora, no mesmo ponto das muralhas. E de fato o fantasma é pontual, chega na hora marcada, porém, sem nada dizer que esclareça o motivo de suas aparições. A dedução mais lógica, para a época, pelo menos, é que o fantasma é um mau augúrio para o reino.

E por falar em maus augúrios, um dos guardas, preocupado com a movimentação bélica que ocorre no reino, pergunta ao jovem Horácio:

“Por que esta severa e estrita guarda

Todas as noites fica aqui, atenta;

e por que cada dia os canhões chegam

Com outros apetrechos para a guerra;

E por que convocar tantos ferreiros,

Cuja rude missão não vê domingo?”

E Horácio responde:

“O velho Rei,

Cuja imagem há pouco aqui tivemos,

Foi provocado pelo Fortinbrás

Da Noruega, em seu ferido orgulho,

Para um combate; e o nosso bravo Hamlet

(Que assim o chama toda a nossa gente

Matou a Fortinbrás que, por promessa

Ratificada pela lei e a heráldica,

Perdia, com a vida, as terras todas

Em sua posse, para o vencedor:

Outros terrenos, em contrapartida,

Empenhou nosso Rei, para legá-los

Como direito de herança a Fortinbrás,

Fosse ele o vencedor. Pelo emprazado,

E em razão dessa cláusula citada,

Herdou-as Hamlet. Pois o filho agora,

Com ardor juvenil e mal guiado,

aqui e ali nas fraldas da Noruega,

Juntou alguns velhacos sem abrigo

Em troca de alimento numa empresa

Que muito tem de ousada: nada mais

Como tão bem percebe o nosso reino –

Busca recuperar de nós, com a força,

E em termos compulsórios, essas terras

Perdidas por seu pai; isso, eu suponho,

É o motivo de tais preparativos,

A razão desta guarda, e a principal

Razão deste apressado movimento.”

Pois bem, por meio desta rápida conversa ficamos sabendo que há um inimigo externo ameaçando a Dinamarca. O pai do príncipe Hamlet, recentemente falecido, havia conquistado terras da coroa norueguesa – reduzindo o reino vizinho a um apêndice sob sua zona de influência – e matado o rei adversário. Agora, um príncipe norueguês, filho do antigo rei e sobrinho do atual, parece arregimentar um exército de mercenários para recuperá-las e vingar a morte de seu pai. A legitimidade da antiga guerra de expansão nos é assegurada pela fala de Horácio. E a Dinamarca é uma potência militar das grandes, considerado o tamanho dos preparativos e o repertória de sua vitórias militares citado ao longo da peça.

Assim chegamos à primeira das cenas capitais nessa análise. Nela, toda a corte está reunida num salão do castelo de Elsinore (Rei, Rainha, Hamlet, Polônio, Laertes Voltimand, Cornélio, lordes e séquito), e Claudius, o novo rei, irmão do antigo, abre a cena com uma longuíssima fala, pela qual ficamos sabendo que este novo rei era irmão do falecido, e que se casou com a cunhada, Gertrudes, assumindo o trono com a aprovação do Conselho Real. O tamanho da fala, a imponência e a firmeza do discurso, indicam sem dúvida uma coisa: esse rei está dando a sua versão da sucessão e da situação política do reino, querendo que ela se torne oficial e generalizadamente aceita. O reino da Dinamarca está, então, oscilando entre o luto (pela morte do velho Hamlet), a alegria (pelas bodas reais) e a guerra. E o rei, a quem não interessa que tal oscilação perdure, continua e introduz o assunto da ameaça norueguesa, dando novamente sua versão:

“Acontece que o jovem Fortinbrás,

Num fraco avaliar da nossa força,

Ou pensando que, à morte do meu mano,

Nosso país seria desmembrado;

Juntando a isso sonhos ambiciosos,

Não hesitou em nos mandar ameaças,

No sentido da entrega dessas terras

Perdidas por seu pai, dentro da lei,

Para o nosso valente Rei e irmão,

Sobre isso, basta. E quanto a nós, reunidos

Nesta assembléia, aqui vos informamos

Desse assunto: Escrevemos sugerindo

Ao tio desse jovem Fortinbrás –

Que impotente e acamado mal conhece

A empresa do sobrinho – que suspenda

a marcha contra nós, porquanto as tropas,

Com tudo o que as equipa, são tomadas

De suas possessões. Ora enviamos

Cornélio e Voltimand, quais mensageiros

De nossa saudação ao Norueguês;

A ambos dando autoridade estrita

Para tratar com o Rei, quanto requeiram

e permitam tais cláusulas ingratas.

Adeus; cumpri depressa esse dever.”

Não difere muito da versão que ouvimos de Horácio no alto das muralhas. Ficamos sabendo, entretanto, que o rei decidira agira: destacara dois embaixadores, Cornélio e Voltimand, para irem à Noruega falar com o verdadeiro rei, tio do jovem Fortinbrás, irmão do rei vencido e morto pelo pai de Hamlet, e pedir a ele que acalme o sobrinho belicoso. Segundo Claudius (embora isso pareça estranho, por mais doente que o tio pudesse estar), o sobrinho agia sem o conhecimento do rei norueguês, ainda que seu plano implicasse o ataque a uma grande potência vizinha, como já vimos que a Dinamarca era.

Também é interessante é perceber duas outras coisas. Uma, a insistência em dizer que a conquista das terras norueguesas foi legítima. Pela segunda vez a conquista é mencionada, pela segunda vez sua legitimidade é defendida. É bom manter isso em mente. A segunda é a referência à hipótese de, morto o rei, pai de Hamlet, o reino se dividir e esfacelar. Isso era uma fantasia tipicamente renascentista, e característica do pensamento político da monarquia inglesa, ou seja, a idéia de que o reino era um corpo, e que se algo acontecesse com a cabeça, todo o resto padeceria. Um personagem secundário da peça exprime essa idéia da seguinte forma, pra lá de eloqüente:

“A Majestade

Não sucumbe sozinha; mas arrasta

Como um golfo o que a cerca; e como a roda

Posta no cume da montanha altíssima,

A cujos raios mil menores coisas

São presas e encaixadas; se ela cai,

Cada pequeno objeto, em conseqüência,

Segue a ruidosa ruína. O brado real

Faz reboar a voz universal.”

Ora, se isso é verdade, o momento de sucessão real torna-se crucial para o bem-estar coletivo e para a manutenção da paz política. Com a morte do velho Hamlet, só poderia haver dois possíveis pretendentes à coroa: o irmão, que de fato a pôs na cabeça, e o filho do falecido rei, que perdeu a corrida rumo ao trono. Mas o que fez a escolha do Conselho Real pender para o irmão? Bom, o casamento com a rainha, em primeiro lugar. Em segundo, a juventude e a inexperiência do príncipe. Em terceiro, a habilidade política de claudius, da qual teremos inúmeras provas ao longo da peça. A seu favor, no caso, Hamlet, além da lógica sucessória mais elementar, tinha apenas uma coisa: popularidade. Na peça, há mais de uma referência à popularidade do jovem príncipe. E ainda mais credibilidade elas têm quando são ditas por outros que não o próprio. Mesmo assim, o Conselho Real optou pelo irmão, Claudius, e fez dele o novo rei.

Uma pista logo é dada sobre a habilidade política de Claudius. Ele tem um aliado preferencial no Conselho, o conselheiro Polônio. Isso é o que ficamos sabendo quando Laertes, o filho desse conselheiro, pede ao rei permissão para, agora que terminaram os festejos do casamento, voltar à França e completar seus estudos. A resposta de Claudius ao pedido é reveladora do quanto ele sabe cultivar tal aliança:

“Falaste num pedido; o que é, Laertes?

Nada podes pedir ao soberano

Que não obtenhas; qual a tua súplica,

Que eu não mude em oferta, e não em pedido?

A idéia não é mais ao coração,

A mão mais instrumento para a boca,

Que o trono desta mesma Dinamarca

Para o teu pai.”

Ou seja, o rei e o pai de Laertes, o conselheiro Polônio, eram unha e carne, cabeça e coração, mão e boca de um mesmo projeto político. Claro que Laertes ganha sua permissão para o retorno à boa vida parisiense.

Mas o rei não tem nada a ganhar deixando que o outro candidato à coroa, o pretendente preterido, fique por demais insatisfeito. Além disso, o príncipe é filho da rainha, e o amor de Claudius por Gertrudes é um dos fatores que evitam sua transformação em um rei caricatamente malvado. Ele de fato a ama e de fato cuida dos interesses do filho dela, desde que não atravessem os dele, claro. E então, ao reparar que o jovem príncipe é a única pessoa que ainda veste luto, e em cuja expressão ainda o pesar predomina sobre a alegria, Claudius faz nova fala pomposa e longa, usando de toda sua habilidade no exercício da postura pública:

“Nós te pedimos,

Lança por terra essa tristeza inútil,

Pensa em nós como um pai: pois saiba o mundo

Que és o herdeiro mais próximo do trono;

e que não é menor o nobre afeto

Que aquele que um pai dedica ao filho;

Que eu te dedico. Quanto ao teu intento

De voltar para a escola em Wittemberg,

Isso é muito contrário ao nosso anseio:

Nós te rogamos, fica ao nosso lado,

No conforto e no calor da nossa vista,

Primeiro cortesão, e nosso filho.”

A rainha, Gertrudes, também pede ao filho que não volte para a escola. Seu lugar agora é na corte, ao lado dela e do tio-padrasto. Ela também fica incomodada com suas roupas pretas e sua cara triste e pesada:

GERTRUDES: Mas se é fatal [a morte dos pais]

Por que é que te parece algo anormal?

HAMLET: ‘Parece’, não Senhora; é, não ‘parece’.

Não é apenas meu casaco negro,

boa mãe, nem solene roupa preta,

Nem suspiros que vêm do fundo da alma,

Nem o tristonho aspecto do semblante,

Com as formas todas da aparente mágoa

Que mostram o que sou: esses ‘parecem’,

Pois são ações que o homem representa:

Mas eu tenho no peito o que não passa;

Meus trapos são o adorno da desgraça.”

Ou seja: o filho não está a fim de colaborar. O reino passa por um momento instável internamente, provocado pela morte do antigo rei, e ainda mais perigoso no âmbito externo, pois um exército está sendo montado para invadi-lo; mas o jovem Hamlet, que o Conselho Real já preteriu na linha sucessória, continua fazendo muxoxo, e um muxoxo ostensivo. Talvez por isso mesmo Claudius tenha querido que ele ficasse por perto, “sob o calor da sua vista”, para que não fizesse bobagens ainda maiores.

Após Hamlet atender ao pedido de permanência na Dinamarca, rei, rainha e séquito vão embora. O príncipe fica sozinho, faz seu monólogo de abertura, lamentando a morte do pai e não se conformando com a atitude da mãe, de cair logo nos lençóis adúlteros e incestuosos do irmão do marido. Inclusive, para ele, o tio é um bêbado, mau hábito que várias vezes o príncipe explicita ou insinua.

Então chega Horácio, o melhor amigo do príncipe, que estivera nas muralhas na noite anterior, à beira do penhasco sobre o mar gelado. Ele conta a Hamlet do fantasma de seu pai, e pede-lhe que vá lá aquela mesma noite, conferir. O príncipe, claro, aceita.

Não fosse esse encontro com o fantasma, talvez Hamlet logo se conformasse em esperar a morte de Claudius para assumir o trono, deixando o muxoxo pra lá. Talvez ele se concentrasse em namorar Ofélia, jovem, bela e bem-educada cortesã, filha do mesmo conselheiro Polônio, irmã de Laertes, a quem ele vinha paquerando, ainda que contra a vontade do pai e do irmão da moça, sabedores dos interesses maiores envolvidos nos casamentos dos monarcas. Mas, ao se encontrar com o espectro do pai, ao ouvir o que ele tem a dizer, a cicatrização de suas mágoas torna-se impossível. A conversa adiciona um ingrediente explosivo na trama política que se desdobrará ao longo da peça:

“Agora, Hamlet,

Escuta: Dizem que eu, quando dormia

No meu jardim, fui vítima da raiva

De uma serpente que tirou a vida

De teu pai; e assim, na Dinamarca

Toda, essa história em torno de mim forjada

Foi repetida como verdadeira.

Mas tu, meu nobre jovem, toma nota

De que a serpente que tirou a vida

De teu pai, usa agora a sua coroa.

(…)

Essa víbora, adúltera e incestuosa,

Cujos feitiços, cujos dons traiçoeiros,

Pérfidos dons, que prendem e seduzem,

Souberam conquistar para a luxúria

A aparente virtude da Rainha.

Oh, Hamlet, que terrível queda!”

“Oh, minha alma profética; meu tio!”, urra o jovem príncipe do alto das muralhas. Aproveitando o embalo, a perturbação visível que promoveu no príncipe, o fantasma pede-lhe vingança, insta-o a não permitir que:

“o leito real da Dinamarca

Ser guarida do incesto e da luxúria.”.

Por fim, o fantasma pede a Hamlet que se vingue do tio, mas que não aja contra a própria mãe. Que a deixe a encargo da justiça divina.

Algumas coisas precisam ser consideradas neste ponto. A primeira é que o príncipe, àquela altura, não pode ter certeza de que o fantasma esteja falando a verdade (embora o deseje com todas as forças, pois vai ao encontro do que ele mesmo sentia em relação ao tio, ao casamento da mãe, à morte do pai e à perda do trono). Desde a primeira cena, como vimos, o fantasma é visto, predominantemente, como um mau augúrio. Assim uma sentinela relaciona aquela aparição com outras:

“No altíssimo e feliz torrão de Roma,

Antes da queda do possante Júlio,

Os túmulos mostraram-se agitados,

e as figuras estranhas dos defuntos

Gritavam e andavam pelas ruas;”

Mas não só. Era também um espírito das profundezas, algo infernal, ou seja, algo que só podia provocar o mal. Um dos soldados caracteriza o imaginário sobre as criaturas do além-túmulo:

“Dizem que quando chega a estação

Que celebra o Natal do Salvador,

A ave da aurora canta a noite toda

E não deixa os espíritos à solta;

As noites são saudáveis; os planetas

Não ardem, nem as bruxas, feiticeiras,

Têm o poder para exercer encantos,

Tão sagrado e tão doce é esse tempo.”

E, ao ver o fantasma e decidir falar com ele, Hamlet deixa bem claro que não sabe exatamente a índole da aparição; em bom português, se ela é do Bem ou do Mal:

“Anjos e forças celestiais, guardai-nos!

Sejas um bom espírito ou demônio;

Tragas contigo auras de paraíso

Ou rajadas de inferno; sejam puros ou

Maus os teus intentos, vens com forma

Tão cara e tão estranha que eu desejo

Falar contigo: eu vou chamar-te Hamlet;

Rei, pai, Dinamarquês real: Responde!”

Embora, após a revelação do crime, Hamlet tenha ficado extremamente excitado, e dado de barato que

“Quanto à visão, é um fantasma honesto;

Isso eu vos digo”,

ele é um príncipe renascentista, e não um homem medieval, totalmente dominado pelas influências externas. Ele, numa cena seguinte, que acontece tempos depois do encontro com o fanastama, talvez meses depois, volta a questionar a veracidade do que o espectro disse:

“O fantasma talvez seja um demônio,

Pois o demônio assume aspectos vários

E sabe seduzir; ele aproveita

Esta melancolia e esta fraqueza,

Já que domina espíritos assim,

Para levar-me à danação.”

Para se entender por que se fala de Shakespeare como inaugurador, no teatro inglês, se não ocidental, de uma nova concepção de indivíduo (o que já se tornou um lugar comum), e de Hamlet como um personagem divisor de águas na história da literatura, pois ícone de seu tempo, pode-se tomar esta busca por provas de que o fantasma fala a verdade como uma situação exemplar. No teatro medieval, os protagonistas eram arquétipos do homem comum, chamavam-se mesmo Everyman, e toda a trama era calcada nas influências externas que entidades corporificadas exerciam sobre eles. A Bondade e a Maldade, a Ganância e a Generosidade, e assim por diante, usavam o Everyman como um campo de batalha moral, moral esta de inspiração religiosa. Isso é exatamente o que não acontece com Hamlet. Para saber se deve ou não seguir as instruções do fantasma e se vingar do tio, para saber a justiça de seus atos, não basta a Hamlet decidir entre as influências externas, ele precisa comprovar, no mundo material, a culpa do tio. É isso que ele passará os próximos três atos fazendo. Hamlet está num estágio intermediário de cristalização da consciência individual, ou seja, não é mais o Everyman, joguete de forças externas a si próprio, de entidades, mas ainda vive num universo repleto de religiosidade, de superstições, de fantasmas e bruxas e mitologias mágicas.

Esteja o fantasma falando a verdade ou não, do ponto de vista político, agora, realmente, há algo de podre no reino da Dinamarca. E o que está podre é o fato do candidato preterido ao trono estar ainda mais instigado contra o novo rei, e suspeitando da legitimidade de sua ascensão à coroa. A legitimidade de um rei, num sistema político tão simbólico e centralizador como a monarquia, é tudo. O ambiente político da Dinamarca não poderia estar mais sombrio.

A segunda coisa a se notar no diálogo entre o fantasma e o príncipe é que, se o que a aparição diz é verdade, o pai de Hamlet tinha pecados a pagar. Diz o próprio fantasma:

“Sou o espectro de seu pai;

condenado a vagar durante a noite,

Por algum tempo, e a jejuar de dia

Preso no fogo, até que este consuma

E purifique as faltas criminosas

Que cometi em vida.”

E ainda:

“Dormia eu, pois, quando essa mão fraterna

Roubou-me a vida, o cetro e a Rainha:

Ceifou-me em plena flor dos meus pecados,

Sem sacramentos, sem extrema-unção,

Sem ter prestado conta dos meus erros,

cheio de imperfeições em minha mente.”

E que importa isso, no que estamos chamando de plano político da peça? Será explicado adiante. Por enquanto, apenas admitamos que o velho Hamlet não era o modelo de rei que seu filho quer acreditar que fosse.

Passa-se algum tempo, entre o primeiro e o segundo atos. Desde o encontro com o fantasma, Hamlet vem fingindo-se de louco. Ele avisara a Horácio que iria fazê-lo, ainda nas muralhas do castelo, logo após o diálogo sobrenatural. Seu intuito é ganhar tempo, até encontrar uma maneira de testar a culpa do rei. E a falsa loucura também lhe serve para esconder seus verdadeiros sentimentos.

Mas, por outro lado, seu comportamento estranho chama atenção, e ele começa a ser vigiado. Ofélia é o primeiro instrumento usado para espioná-lo. Seu pai, o conselheiro Polônio, mantém-se informado sobre a paquera do príncipe. Seguindo os conselhos do irmão e as ordens do pai, ambos dados ainda no primeiro ato, ela vinha repelindo as cartas que Hamlet lhe escrevia, e isso faz Polônio supor que a aparente loucura do príncipe nada mais seja do que uma manifestação de sua frustração amorosa. Polônio chega a se recriminar por não ter levado a sério o amor do príncipe pela filha.

Seu aliado político, o rei Claudius, não fica totalmente convencido quanto à veracidade dessa hipótese. Para tirar a dúvida, coopta dois colegas e amigos de Hamlet, Rosencrantz e Guildenstern, para espioná-lo ainda mais de perto (vale notar que Claudius nem mesmo tenta usar Horácio, pois sabe que aquele laço de amizade será mais forte que a cobiça por qualquer recompensa).

Já a rainha, Gertrudes, é incisiva ao tentar adivinhar as causas da “loucura” do filho:

“Duvido que não seja o mesmo sempre:

A morte de seu pai e este apressado casamento.”

De fato, ela não erra. Mãe é mãe. Apenas sua explicação não é completa, pois não menciona um terceiro motivo: o regicídio cometido por Claudius. Será que ela sabe as verdadeiras circunstâncias da morte de seu antigo marido? Ela acredita mesmo que uma cobra o picou enquanto dormia na estufa? Essa é outra variável no jogo político que se desenrola ao longo da peça.

A esta altura, retornam à Dinamarca Cornélio e Voltimand, os dois embaixadores enviados ao rei norueguês, tio do jovem Fortinbrás. E os termos da negociação são os seguintes:

“[o rei da Noruega] retribui cumprimentos e bons votos.

Logo que nos ouviu, mandou sustar

As hostes do sobrinho, que supunha

Serem preparações contra a Polônia.

Mas, reparando, viu que realmente

Se erguiam contra Vossa Majestade.

Sentindo que o iludiam – velho e fraco –

Chama por Fortinbrás: este obedece,

Aceita a repreensão, e jura ao Rei

Nunca mais contra vós armar-se em guerra.

O velho rei, tomado de alegria,

Dá-lhe por ano trinta mil coroas

E investe-o da missão de ir combater

A Polônia com os mesmos elementos

Alistados por ele contra nós;

e envia a petição que aqui vos trago,

De permitirdes que essas mesmas tropas

Atravessem em paz e segurança

Vossos domínios para a operação,

Conforme aqui se propõe.”

Para muitos comentadores shakespearianos, que consideram as circunstâncias e os termos de tal pacto bastante estranhos, toda a idéia de uma ameaça externa é suspeita. Em primeiro lugar, duvidam que o rei norueguês não soubesse que seu sobrinho estava arregimentando um exército para atacar a maior potência da região. E, ao descobrir fato tão grave, o premiasse com uma grande quantia em dinheiro e o mandasse lutar outra guerra, em outro lugar, sem qualquer motivo aparente que não o de mudar o alvo da belicosidade do sobrinho. Por fim, é de se estranhar que Claudius, por mais nobre e respeitado que seja o velho rei norueguês, deixe um exército, até ontem montado para atacá-lo, atravessar seus domínios. Exército esse que continuaria sendo liderado pelo mesmo jovem que, sem o conhecimento do tio, pretendia usurpar seu trono. Diante dessas “inconsistências”, segundo estes comentadores, a ameaça externa é apenas uma farsa, uma estratégia de Claudius para desviar a atenção das alterações no curso natural da linha sucessória, para militarizar seu reino, forçar uma unidade em torno dele próprio, fortalecer seu exército e dar a seu poder a expressão física por excelência: as armas. Afinal, além de uma moeda comum, o outro elemento fundante no sistema monárquico como um todo, e de qualquer reino em particular, era o monopólio da violência exercido pelo exército real. Isso permitiu a superação da estrutura de poder fragmentada do período medieval, na qual cada senhor feudal mantinha seu próprio exército e sua própria rede de alianças militares.

Outra possibilidade se forma quando somados alguns elementos: 1) a preocupação de todos em frisar que a conquista, pelo pai de Hamlet, de parte das terras norueguesas, foi absolutamente legítima; 2) o fato de que o espectro admite ter culpas e pecados (quase nada sabemos da vida do pai de Hamlet, e o que sabemos é pela boca do filho, que, como já vimos, não tinha o distanciamento necessário para avaliar a figura do pai; 3) a decisão do jovem Fortinbrás de recuperar as terras perdidas por seu pai. Teria a conquista de parte das terras norueguesas sido realmente tão legítima assim? Não estariam nela as culpas do pai de Hamlet (já que, segundo as informações que temos, era bom pai, bom marido e bom rei para seus súditos)?

De qualquer modo, Hamlet assiste à evolução das negociações diplomáticas sem nelas tomar parte ou partido, pelo menos por enquanto. Está muito ocupado, pensando num jeito de testar a culpa do tio e resistindo às mais variadas estratégias de espionagem que sofre. Mesmo na antiga namorada ele não pode mais confiar, e pede-lhe que se retire do mundo corrompido, trancando-se num convento. É de fato cruel com Ofélia.

Finalmente, então, ocorre-lhe o jeito de comprovar a veracidade das acusações feitas pelo fantasma: um grupo de atores chega à corte dinamarquesa, e o príncipe pede-lhes que represente determinada peça, a cujo texto ele acrescentará algumas linhas. O enredo desta peça, primeiro em mímica e depois numa representação completa, repete as circunstâncias da morte de seu pai. Fazendo com que o rei e a rainha assistam à encenação, Hamlet poderá ler suas reações e tentar fazer algum juízo mais sólido, que ratifique a justiça de sua vingança.

“Mas ergue-te, meu cérebro:

Ouvi dizer que quando os malfeitores

Assistem a uma peça que os imita,

Sentem na alma a perfeição da cena

E confessam de súbito os seus erros.

Pois o crime de morte, sem ter língua,

Falará com o milagre de outra voz.

Esses atores, diante de meu tio,

Repetirão a morte de meu pai;

Vou vigiar-lhe o olhar, sonda-lo ao vivo;

Se trastejar, eu sei o que farei.

(…)

Preciso encontrar provas menos duvidosas.

É com a peça que penetrarei

O segredo mais íntimo do rei.”

Se nossa adesão natural, como leitores ou espectadores, às suspeitas do príncipe, já não bastasse para que ficássemos contra seu tio, embora não tenhamos nenhum elemento que categoricamente prove-lhe a culpa, Shakespeare já aguçara nossa suspeita, uma cena antes, com uma frase que Claudius diz de lado, como um comentário íntimo a uma frase de seu conselheiro Polônio. A frase de Polônio, leviana, refere-se à Ofélia:

“Muitas vezes

Temos culpa e, com ares de devotos

E atos piedosos, estamos pondo açúcar

Sobre o próprio demônio.”

Mas Claudius, de repente, parece ter um momento de fraqueza, e diz com seus botões reais:

“Isso é verdade. (à parte)

Como me ferem a alma essas palavras!

A face da rameira, embelezada,

Não se torna tão feia às suas tintas

Quanto o meus ato diante das palavras

Que uso para mentir e disfarçá-lo.

Oh, dura carga!”

Assim chegamos a um segundo momento do embate político. Se antes a balança estava inteiramente pendida para o lado de Claudius (ele estava armando seu exército, conseguira seduzir a rainha, conquistar o apoio do Conselho Real, e assim desviar a linha sucessória natural e ascender ao trono), ela vem sendo gradativamente equilibrada. Se no front externo as coisas caminharam bem (seja qual for a leitura que se faça da intriga diplomática), no interno elas parecem desandar. O príncipe, seu herdeiro, mas seu adversário na disputa que o levou à coroa, está nitidamente tramando algo. Claudius não se deixa enganar pela falsa loucura, apenas não consegue identificar o Xis do problema.

“Há qualquer coisa

Na qual se escuda essa melancolia;

E eu prevejo que, abertas as comportas,

Venha o perigo; temos que evitá-lo,”

E Claudius não é de perder tempo. Embora Polônio insista na hipótese de que Hamlet sofre é do mal de amor, Claudius prefere, pelo sim pelo não, afastá-lo do reino, dando-lhe uma missão diplomática na Inglaterra. “Promovido e removido”, como diz a máxima latina. Claudius jamais deixa de ter consciência de sua crise estrutural de legitimidade política:

“E eu tomo agora a determinação

De mandá-lo à Inglaterra sem demora,

Em busca do tributo que nos devem.

A viagem por mar, as novas terras,

Com várias sensações, expelirão

Esse ponto cravado no seu peito;”

Como se vê, Hamlet agora não está mais vestido de preto pelos cantos, fazendo muxoxo. Insinuantemente, ele já demonstra ser uma ameaça ao rei. Cada duelista tem agora uma carta na manga: Claudius tem a viagem compulsória à Inglaterra, Hamlet, a peça. Agora eles se enfrentam de igual para igual.

Assim chegamos à segunda cena em que toda a corte se reúne, segundo ponto de inflexão no embate político dinamarquês. Ela acontece novamente num salão do castelo. Na abertura, Hamlet conversa com os atores, dando-lhes conselhos sobre como atuar. Não obstante serem conselhos muito bons, válidos até hoje, essa abertura serve, sobretudo, para construir suspense e, ao mesmo tempo, dar um alívio à platéia. Por meio de Polônio, Rosencrantz e Guildenstern, Hamlet confirma que o rei e a rainha estarão presentes. Então entra Horácio, a quem Hamlet faz uma declaração:

“Tu és o homem mais justo e equilibrado

Com quem jamais privei.

(…)

Desde que esta alma foi capaz de escolha,

E pode distinguir os homens, ela

Marcou-te para si; pois sempre foste

Diante das dores, como quem não sofre,

Um homem que recebe como idênticos

Golpes ou recomendas da Fortuna,

E igualmente agradece; abençoados

Aqueles cujo sangue e o julgamento

Tão bem comungam, pois não são brinquedos

Nos dedos da Fortuna, tão volúveis,

Dançando ao seu prazer. Dá-me esse homem

Que não se torna escravo da paixão,

e eu o trarei no fundo do meu peito,

No coração do próprio coração,

Como eu te tenho.”

E faz um pedido:

“Há hoje um espetáculo a que o Rei

Vem assistir. Uma das cenas mostra

A morte de meu pai, que te contei:

Peço-te quando vires essa cena,

Que uses da mais aguda observação

Sobre o meu tio. Se o seu crime oculto

Não se denunciar em certo ponto,

Então é um mau fantasma que nós vimos,

E as suspeitas que tenho, mal forjadas

Nas forjas de Vulcano. Atenta nele.

Pois meus olhos estarão bem fixos

No seu rosto; e depois compararemos

Nosso juízo de suas expressões.”

Então entram o rei, a rainha, Polônio, Ofélia, Rosencrantz, Guildenstern, nobres e a guarda do rei. Hamlet continua afetando sua loucura, com trocadilhos, provocações veladas e provocações grosseiras à pobre Ofélia que, se o traiu, e de fato o fez, foi por ser fraca perante o pai, e não por falta de um sentimento real pelo jovem príncipe.

A encenação se dá, nos mesmo termos descritos pelo fantasma: o rei na estufa, dormindo, o irmão entra, derrama-lhe veneno nas orelhas, casa com a rainha etc.

Ficamos, nós, Hamlet e Horácio grudados em Claudius, nos seus mínimos gestos e reações. Então, com frases curtas, falas entrecortadas, indiretas, Shakespeare nos mostra o que acontece:

OFÉLIA – O rei se levanta.

HAMLET – O quê, assustado com falso fogo?

RAINHA – Como passa o meu Senhor?

POLÔNIO – Parem a peça!

REI – Dêem-me luz! Vamos.

POLÔNIO – Luzes, luzes, luzes.

(Saem todos menos HAMLET e HORÁCIO)”

Não é difícil imaginar que conclusões Hamlet e Horácio tiram daquela estranha reação de Claudius. Claro que as palavras do fantasma ganham maior credibilidade. Mas o diálogo entre os dois amigos é curto. Rosencrantz e Guildenstern entram, anunciando a cólera do rei e o pedido de Gertrudes para que o filho vá a seus aposentos. Era uma visita já programada por Polônio e o rei, enquanto a viagem para a Inglaterra não acontecesse, de modo a propiciar-lhes mais uma oportunidade para espionar o príncipe, mas agora ela ganhara nova importância e urgência. Antes de ir ao encontro da mãe, no entanto, Hamlet “descasca” esses dois falsos amigos, que o espionam a mando do tio:

“A mim quereis tocar, meus controles, parece que conheceis; quereis arrancar o âmago do meu segredo; fazer-me soar da minha nota mais baixa até o alto da minha escala; e há muita música, voz excelente neste pequeno órgão, e no entanto não podeis fazê-lo falar. Por Deus, pensais acaso que sou mais fácil de tocar do que uma flauta?”

Mas Polônio entra, apressando Hamlet e dizendo que a rainha o espera. Ele vai a seu encontro.

Enquanto isso, em outra sala do palácio, Claudius apressa seu plano de mandar Hamlet para a Inglaterra, escoltado por Rosencrantz e Guildenstern, que aceitam a missão. Ao saírem de cena, entra Polônio, dizendo que irá se esconder no quarto da rainha, para ouvir o diálogo entre mãe e filho. Ele então sai também. E, finalmente, temos uma confissão de Claudius. Finalmente temos certeza de que matou o irmão. A encenação de seu crime deixou-o profundamente abalado, e ele remói suas culpas, tentando rezar para aliviá-las:

“Meu crime é como um cancro; fede aos céus;

Tem toda a maldição das velhas eras –

A morte de um irmão – Rezar não posso,

Embora o meu desejo seja intenso,

Meu pecado é mais forte que esse intento

E, como um homem preso a dois negócios,

fico indeciso à escolha do primeiro

E ambos desprezo. Se o fraterno sangue

Tornasse escura a mão maldita,

Não haveria chuva que bastasse

Nos doces céus para torna-la branca?

(…)

A minha falta é coisa do passado –

Porém, que forma de oração me cabe?

Perdoai-me o assassinato cometido?

Não serve. Estou de posse dos proventos

Pelos quais fiz o crime – eis a coroa,

Minha própria ambição, minha Rainha.

Pode-se obter o perdão, guardando-se a ofensa?

(…)

Alma enredada,

Lutando por livrar-se e sempre, sempre,

Mais confundida! Oh, anjos, ajudai-me!

Tentai! Curvai-vos, joelhos obstinados!

Coração de aço, faz-te tão suave

Quanto os tendões de algum recém-nascido.”

Hamlet, a caminho do quarto de sua mãe, vê o rei, de costas, ajoelhado, e com as mãos postas em reza. Pensa em matá-lo, ali, naquele exato instante, mas decide esperar um momento em que sua alma não esteja em contato com Deus, para então despachá-lo para o inferno, sem escalas.

“Quando o vires dormindo, embriagado,

No prazer incestuoso do seu leito,

Jogando, blasfemando ou cometendo

Um ato que não tenha salvação.

Derruba-o então; de pernas para os céus;

E que sua alma seja negra e horrenda

Como é o inferno.”

Se Hamlet soubesse que, na verdade, Claudius não estava conseguindo rezar… Assim que o príncipe sai, o rei se lamenta:

“Voa a palavra, a idéia jaz no chão;

Palavras ocas nunca aos céus irão.”

Bem, o que temos agora é uma guerra declarada entre o tio e o sobrinho, entre o vencedor na disputa sucessória e o preterido. Pior que isso, vai se formando o golfo de destruição de que falamos antes, quando a cabeça do organismo social, a coroa, está corrompida. Afinal, Claudius cometeu um duplo crime, contra a natureza, matando o irmão, e contra a sociedade, matando o rei. Se o imaginário monárquico estava certo, não havia como evitar grandes tragédias.

A conversa com a mãe começa com Hamlet enfurecido. Num determinado momento, a mãe supõe que o filho tenciona matá-la, e grita por socorro. Polônio, que estava escondido atrás de uma cortina, grita também, e Hamlet, vendo-se mais uma vez espionado, saca uma adaga e espeta o vulto que se move do outro lado do pano. Mata Polônio, pensando que matava o rei. A conversa e afúria continuam, e então o fantasma reaparece, para fazê-lo acalmar-se. Seu pedido de vingança não incluía a mãe. Gertrudes, que não pode ver o fantasma, mas que vê o filho falando com o ar, só pode entender o filho continua enlouquecido.

Ao que tudo indica, para Hamlet, o crime da mãe era sobretudo contra a razão, não de ordem apenas moral. Como sentir desejo sexual por um homem daqueles? A mãe é o exemplo máximo da impulsividade que Hamlet tanto condena; da não-reflexão. Da mesma forma, sua impulsividade faz com que ela, mais de uma vez, mencione uma antiga fantasia de casar Ofélia com Hamlet. Tal fantasia não passava de mais um impulso romântico-passional, que subestimava as implicações políticas de um mau casamento do filho. Nem o pai e o irmão da garota achavam tal casamento conveniente para os interesses da coroa dinamarquesa. Assim como, de certa forma, Gertrudes parece subestimar a gravidade das conseqüências políticas de seu casamento com o cunhado. Era antes de tudo uma fraca, sempre levada por arroubos de sensualidade e romantismo.

Do ponto de vista da trama política, há duas questões que importam nessa conversa entre mãe e filho. Uma seria saber se Gertrudes era cúmplice do assassinato do primeiro marido, ou se fora apenas seduzida pelo assassino depois do crime. Não chegamos ainda a uma certeza definitiva. O texto, verdade seja dita, parece indicar que a primeira hipótese é a mais provável, ou seja, de que ela não é cúmplice de Claudius. Ela se espanta quando Hamlet fala de assassinato, e não parece estar fingindo. Menos mal para o príncipe. A outra é saber se Hamlet conseguirá trazer a mãe para o seu lado na briga com o rei criminoso. Afinal, o fato dela se ter deixado seduzir pelo tio, se não decisivo, certamente ajudou a vitória de Claudius na disputa sucessória. O filho lhe conta que sua loucura era fingida, que estava apenas esperando a certeza que agora tem. Hamlet aguça a culpa da mãe de todas as maneiras, reprovando sua luxúria, seu mau julgamento dos homens, que logo esqueceu um dos grandes por um corrupto e vil, e por fim ele pede:

“Não, por Deus, te peço,

Não continues a embalar tua alma

Nessa ilusão que é minha loucura

Que fala no lugar das tuas faltas.

Isso seria um bálsamo nas úlceras,

Enquanto a corrupção te vai minando,

Invisível, cruel. Confessa aos céus,

Contrita, o teu passado. Evita os males

Que virão, e não ponha mais estrume

Nas ervas más.”

(…)

“Deixa que o fátuo rei te leve ao leito,

Te belisque na face com luxúria,

e uma carícia no pescoço obtenha

De tia a história toda deste caso,

Que eu não sou louco, mas apenas finjo.

É bom que lhe confesses tudo isso;

Pois quem, não sendo mais que uma rainha

Bela, virtuosa e casta, esconderia

de um sapo, de um chacal, de um velho gato,

Tão boas novas? Quem faria isso?”

Pois bem, além do pedido para que ela não se corrompa mais, indo para a cama com o tio, há um segundo pedido em sua fala, um pedido arrevezado de que ela não conte ao rei a verdade sobre sua falsa loucura. E este segundo pedido será atendido. Por um desses dois motivos, ou ambos: 1) por ter visto o filho falando com o ar, e de um assassinato que ela jamais imaginou possível, Gertrudes pode de fato ter ficado acreditando que o filho estava perturbado; 2) mas também é possível que, para protegê-lo, ela tenha omitido essa notícia do marido, e isso implicaria no início de uma gradual reaproximação entre a mãe e o filho.

Ao final da cena, Hamlet despede-se da mãe, dizendo que a viagem para a Inglaterra é uma cilada, na qual será assassinado. Ele realmente conhece bem o tio que tem, pois nós, leitores e espectadores, só vemos o rei admitindo tais intenções duas cenas adiante, depois que é informado pela rainha da morte do conselheiro Polônio. Diz Claudius:

“Mandei buscá-lo, e procurar o corpo.

Que perigo, deixá-lo assim à solta!

No entanto, não podemos castigá-lo:

Ele é querido pela multidão,

que não segue a justiça, mas os olhos,

Vendo apenas o peso do castigo

Nunca o do crime. Para sossegá-la,

Esta partida deve parecer

Deliberada e calma decisão.

Doenças graves, quando em desespero,

Serão curadas por violentos choques,

Ou não têm cura.”

A situação, como se vê, deteriorou-se ainda mais. Hamlet, de sua parte, radicalizou, matando o conselheiro (e Claudius nem fica sabendo que, ao fazê-lo, o príncipe acreditava estar matando o próprio rei); enquanto o rei, por sua vez, decidiu livrar-se de uma vez por todas do concorrente ao trono, cujo comportamento estranho ameaça o equilíbrio político do reino. Assim ele nos expõe seu plano:

“E se, Rei da Inglaterra, algo me prezas –

E meu grande poder deve valer-me,

Já que inda tens sangrentas cicatrizes

Da nossa espada, e rendes homenagem

Do teu respeito – não verás sem zelo

Este ato soberano, que consiste

Em cartas, que explicam nosso intuito,

De pronta morte para o pobre louco.

Fá-lo, Inglaterra; pois igual à tísica

Ele raiva no meu sangue, e vais curar-me.

Até que eu saiba o meu mandado feito,

Não terei um só dia satisfeito.”

É importante notar a maneira como Claudius age no caso de mais este assassinato. Ele não conta nada a ninguém; nem à mãe de Hamlet, claro, e nem mesmo aos dois amigos/espiões encarregados de escolta-lo à Inglaterra, Rosencrantz e Guildenstern. Ele age inteiramente em segredo, como provavelmente agiu no assassinato do irmão, o que parece aliviar Gertrudes de qualquer responsabilidade no primeiro crime. Esse será um padrão de seu comportamento daqui para a frente e até o final da peça (seus aliados são instrumentalizados sem que divida com eles suas reais intenções), o que realmente parece indicar que a rainha foi apenas mais uma vítima do poder de sedução do atual marido, mas que não teve culpa ativa na morte do velho Hamlet.

A seguir, Hamlet, sendo escoltado até o navio que o levará à Inglaterra, encontra pela primeira vez o jovem Fortinbrás e seu exército, que marcham cena adentro. Estamos em uma planície da Dinamarca, e as tropas norueguesas atravessam o reino dinamarquês para atacarem a Polônia. Curiosamente, o eixo da cena é a inutilidade da guerra em que o futuro rei norueguês se está lançando:

HAMLET – Vão contra toda a terra da Polônia,

Ou para alguma fronteira?

CAPITÃO – Para falar a verdade, sem rodeios,

Vamos tomar uma pequena terra

Que nada vale além do simples nome.

Nem por cinco moedas a quereria

Pra cultivar; e o resto da Polônia

Ou a Noruega não teriam mais

Se a vendessem em livre operação.

HAMLET – A Polônia não há de defendê-la.

CAPITÃO – Sim, ela já se acha guarnecida.”

A análise da política externa entre esses três reinos fica ainda mais difícil agora. Se as circunstâncias da negociação entre a Dinamarca e a Noruega já levantaram suspeitas de que tudo não passava de um inimigo externo fabricado por Claudius, agora a inutilidade dessa guerra parece de fato comprovar essa tese; como se esta fosse uma guerra inventada, promovida única e exclusivamente por pressão do próprio Cláudius sobre o reino vizinho, novamente para justificar seu esforço de militarização e, em última instância, de fortalecimento de sua posição política interna.

Seja como for, Fortinbrás aparece aqui como um nobre general, respeitador dos acordos e respeitoso para com o rei que antes pensava atacar.

Enquanto isso, na corte, traumatizada pela morte do pai, Ofélia enlouquece. As desgraças se acumulam. É o próprio Claudius quem o diz:

“Esse veneno de profunda mágoa

Vem todo do desgosto de ver morto

O pai. Vê tu, Gertrudes, oh Gertrudes!

Os males nunca vêm como escoteiros,

Mas em massa. Primeiro o assassinato;

Depois o exílio do teu filho; o povo

Perturbado, confuso, remoendo

A morte de Polônio – e nós erramos

Sepultando-o sem pompas. Hoje Ofélia

Fora de si, perdida a lucidez,

Sem a qual somos como os animais.”

E Shakespeare adiciona aqui mais um ingrediente na deterioração do cenário político:

“Não menos grave a volta inesperada

Do irmão, que aqui chegou secretamente,

E se nutre de dúvidas estranhas.

Não faltam vozes que encham seus ouvidos

Da morte de seu pai; falho de provas,

Não sentirá escrúpulos em dar-nos

Como culpados, e de ouvido a ouvido

Isso irá, qual ribombo de canhão.

Vejo a morte soprar por muitos lados,

Minha cara Gertrudes.”

Ou seja, Laertes, sabendo da morte do pai, voltou à Dinamarca incógnito, e ao saber que o pai não fora enterrado com pompa e circunstância condignas de sua posição na corte, julga que o rei foi o culpado do assassinato. Por isso conspira contra a coroa junto ao exército. Assim fala um mensageiro a Claudius:

“Senhor, ponde-vos a salvo.

O oceano, quando passa os seus limites,

Não lambe a terra com maior violência

Do que o jovem Laertes, com um bando

De vossos oficiais. Chamam-no Chefe,

E como se a nação recomeçasse,

Esquecido o passado, em novos hábitos,

Retificados por palavra e atos,

Gritam ‘Façamos de Laertes rei!’”

Laertes irrompe palácio adentro, liderando uma rebelião. Quando a situação parece ter fugido ao controle do rei, Claudius, no entanto, revela-se uma vez mais um homem extremamente habilidoso. Explicando ao filho de Polônio as circunstâncias reais de sua morte, e justificando a falta de um funeral condigno como uma forma de não fazer crescer a instabilidade, tentando portanto abafar o fato de que o príncipe-herdeiro matou o principal conselheiro da coroa, o rei pede a Laertes um voto de confiança. Ele joga Laertes contra Hamlet.

Enquanto Claudius faz malabarismos para se manter no poder, Horácio recebe uma carta de Hamlet, pedindo-lhe que vá encontrá-lo onde está escondido e contando o que aconteceu desde que embarcara rumo à Inglaterra e à morte. Seu navio foi perseguido por piratas; Hamlet fugiu do navio em que estava, virtualmente prisioneiro, e pulou para o navio inimigo, negociando com eles um resgate caso o devolvessem ao solo dinamarquês.

Hamlet envia, por intermédio de Horácio, outra carta, esta dirigida ao rei, que a recebe exatamente enquanto conversa com Laertes. Nela, o príncipe diz que está de volta ao reino, incógnito, e que só no dia seguinte irá se apresentar ao castelo.

Se uma rebelião estava ponto de ser sufocada, outra agora parece desenhar-se no ar. Hamlet, com toda sua popularidade, agora é ainda mais perigoso; não há mais chance de acordo entre ele e Claudius. Isso leva o rei a conceber um novo plano. Novamente seduzindo Laertes, Claudius gaba-lhe várias qualidades, até mencionar sua excelência como esgrimista. Combinam um desafio entre ele e Hamlet. Só que, enquanto Hamlet usaria uma espada sem ponta, Laertes trocaria a sua por uma espada verdadeira, e fingiria matar o príncipe por acaso. Lertes, por sua vez, acrescenta ao plano a idéia de molhar a ponta de sua espada em um veneno mortal, para garantir que o objetivo fosse alcançado: a morte de Hamlet.

A cena, e este penúltimo ato, terminam com a rainha entrando e anunciando o suicídio de Ofélia por afogamento. Esta fala, de pouca importância no desenrolar da nossa intriga política, é entretanto bastante eloqüente no que se refere à verdadeira essência do teatro shakespeariano e elisabetano como um todo. Merece um pequeno parêntese na exposição. Muito pobre de recursos cênicos, de figurino, com homens e meninos representando os papéis femininos, e ao mesmo tempo retratando, no palco, grandes cenas de corte, outras ocorridas em locais públicos e cheios de gente, e até mesmo batalhas campais, a única opção para esse teatro era compensar suas deficiências materiais por meio das palavras. Não havia uma índole realista no teatro shakespeariano. Por isso as falas são tão carregadas de imagens, transformando os autores metade em dramaturgos, metade em verdadeiros poetas. Não havia como representar a ação no palco, e, portanto, é com a beleza dos versos neste trecho, com a riqueza de detalhes e o poder de sugestão nas imagens, que Shakespeare compensa as limitações de seu teatro. No caso da morte de Ofélia, no entanto, essa estratégia é levada a seu paroxismo, pois a descrição do afogamento, que a rainha ouviu de alguém não identificado, é tão detalhada que nos faz pensar: se viram, por que não evitaram?

“Onde um salgueiro cresce sobre o arroio,

E espelha as flores cor de cinza na água,

Ali, com suas líricas grinaldas

De urtigas, margaridas e rainúnculos,

E as longas flores de pupúrea cor

A que os pastores dão um nome obsceno

E as virgens chamam “dedos de defunto”,

Subindo aos galhos para pendurar

Essas coroas vegetais nos ramos,

Pérfido, um galho se partiu de súbito,

Fazendo-a despencar-se e às suas flores

Dentro do riacho. Suas longas vestes

Se abriram, flutuando sobre as águas;

Como sereia assim ficou, cantando

Velhas canções, apenas uns segundos,

Inconsciente da própria desventura,

Ou como ser nascido e acostumado

Nesse elemento. Mas durou bem pouco

Até que suas vestes encharcadas

A levassem, envolta em melodias,

A sufocar no lodo.”

Mas, retomando o nosso eixo político… A cena seguinte abre o último ato de forma cômica. Dois coveiros mantêm um diálogo repleto de pequenas piadas e jogos de palavras. Chegam Hamlet e Horácio, o primeiro, incógnito. Hamlet mantém o tom cômico enquanto conversa com o coveiro. Em seguida entra o cortejo fúnebre de Ofélia, com rei, rainha, Laertes e outros. Hamlet, então, se apresenta, de forma ameaçadora para Claudius:

“Aqui estou eu,/ Hamlet, o Dinamarquês.”

Trata-se da fusão entre o rei e seu reino, característica do linguajar monárquico; em outras palavras, Hamlet está dizendo que é o verdadeiro rei da Dinamarca. Laertes se revolta e o amaldiçoa, fecha o tempo entre as cabeças coroadas. A turma do deixa disso separa aos dois jovens, mas Claudius encerra pedindo a Laertes, no pé do ouvido, que guarde sua raiva para o momento do duelo, do qual Hamlet não terá chance de sair vivo.

Chegamos então à terceira cena em que toda a corte está reunida no palácio, e que marca a derrocada de Claudius e a renovação do trono dinamarquês. Num salão do castelo, entram Hamlet e Horácio. Do ponto de vista do imbróglio político, a informação mais relevante desse primeiro diálogo é o fato de Hamlet, antes de haver abordado o navio dos piratas, ter tido a oportunidade de ler a carta de Claudius ao rei da Inglaterra, ordenando-lhe a morte do príncipe. Hamlet, portanto, não tem mais uma gota de hesitação; ele sabe que ou mata Claudius ou será morto. E mais: Hamlet substituiu esta carta por outra, na qual comandava a execução de Rosencrantz e Guildenstern. E o príncipe não parece ter qualquer culpa em relação a isso. Ele aprendeu já que o exercício do poder não pode ser pautado apenas pelo bom coração. E já interiorizou a responsabilidade do homem de Estado. Pode-se dizer que, agora sim, Hamlet está preparado para reinar.

Diz ele:

“Eles buscaram

Esse desfecho. A minha consciência

Não me pesa; a derrota que os aguarda

Cresce por culpa deles. É um perigo

Para os fracos postar-se entre a passagem

E as pontas venenosas do inimigo.”

(…)

“Pensa um pouco,

Não é forçoso para mim agora –

Diante daquele que matou meu pai,

Maculou minh mãe e se insinuou

Entre o meu fado e as minhas esperanças,

Quis cortar a minha própria vida,

Isso com tal ardil – não é justiça

Que eu o faça pagar por minhas mãos?

Não é crime deixar que novos males

Sejam feitos por esse cancro humano?”

Entra um cortesão afetado, transmitindo a Hamlet o convite para o desafio com Laertes. Ele aceita, embora a fama de bom espadachim esteja mais do lado de Laertes. Logo entram rei, rainha, séquito e Laertes. Hamlet tenta desculpar-se, mas Laertes não aceita desistir do duelo. Começa a luta. A espada de Laertes tem ponta, que está envenenada, e a taça de vinho de Hamlet é envenenada por Claudius. Mas Hamlet surpreende a todos, lutando melhor e ganhando os primeiros toques. Por um acidente, Gertrudes bebe do copo reservado ao filho, antes que Claudius possa evitá-lo.

Incapaz de atingir Hamlet honestamente, Laertes o ataca fora de hora, ferindo-o com a espada envenenada e selando o destino do príncipe. Em meio à reação de Hamlet, os dois trocam de espadas, e Hamlet fere Laertes; mortalmente, graças ao veneno, mas sem o saber. A morte da rainha, entretanto, rasga de vez a fantasia real de Claudius. Em seu último suspiro, Gertrudes denuncia o marido:

“O vinho, o vinho, meu querido Hamlet!

Estou envenenada.”

Ao assistir essa cena, Laertes como que se dá conta de seu erro, do quanto foi manipulado pelo mal e do tamanho do estrago que sua ingenuidade cometeu. Ele então anuncia a existência do veneno na ponta da espada, e por conseqüência a condenação dele e do príncipe.

“Está perdido, Hamlet.

Nenhum remédio poderá curá-lo.

Não tem nem meia hora mais de vida;

O instrumento mortal está nos seus dedos,

Violento e envenenado. A vil ação

Voltou-se contra mim. Aqui tombei

Para não mais me erguer.

Sua mãe foi morta

Pelo veneno. Eu não posso mais.

O Rei, o Rei é o único culpado.”

Hamlet crava a espada envenenada em Claudius. Este e Laertes morrem. Hamlet pede a Horácio que permaneça vivo e conte sua versão da história, demovendo-o do impulso estóico do suicídio diante da morte de seu príncipe e do fracasso de seus esforços para a regeneração da coroa.

Arautos anunciam a chegada de Fortinbrás, que volta vitorioso da Polônia, e de embaixadores ingleses. Estes anunciarão que Rosencrantz e Guildenstern foram executados, como ordenava a carta que as próprias vítimas apresentaram ao rei inglês. Hamlet, antes de morrer, aponta Fortinbrás como seu sucessor.

O jovem príncipe norueguês, antes de ouvir as explicações que Horácio tem a dar para aquela carnificina, tem uma significativa:

“Vamos ouvir os fatos, sem demora,

E chamar a nobreza como audiência.

Quanto a mim, com tristeza aceito a sorte:

Tenho tradicional direito ao reino,

Que agora sou chamado a reclamar.”

Fortinbrás, apresentado por Claudius como um jovem intempestivo, irresponsável e péssimo entendedor dos homens, mostra-se um líder sensato, que “convoca a nobreza”, e que de fato se acredita legítimo herdeiro do trono dinamarquês. Teria, realmente o pai de Hamlet, usurpado esse trono? Ao que parece sim, ainda mais se acreditarmos na idéia de que, uma vez conquistada e mantida de maneira ilícita, a coroa torna-se um foco de destruição eternamente crescente. A carnificina ali ocorrida, neste caso, seria a conseqüência de um mau ato ocorrido uma geração antes, durante a juventude do velho Hamlet. Este mau ato é que teria provocado seu assassinato, a corrupção de sua rainha, a crescente maldade de seu irmão, que para encobrir um primeiro crime acaba tragado por uma espiral de violência, e tudo o mais, inclusive a morte de seu filho, um príncipe agora apto, como Hamlet agora se tornara. Ao final, quebrado o ciclo de destruição, uma nova e pura casa real desponta na Dinamarca.

II. A concepção de história em Hamlet

Assim como nas peças históricas, também nas tragédias de Shakespeare pode-se depreender sua concepção de história. A melhor definição que conheço é a do crítico polonês Jan Kott, que a entendia a partir do conceito de ‘O Grande Mecanismo”. Diz ele: “A história é uma grande escadaria que um cortejo de reis não cessa em subir. Cada degrau, cada passo até o topo é marcado por um assassinato, perfídia e traição. Cada passo faz que o trono se consolide, ou se aproxime. (…) O último degrau está separado do abismo por apenas um passo. Os soberanos mudam, mas a escada é sempre a mesma. E os bons, os maus, os corajosos e os covardes, os vis e os nobres, os ingênuos e os cínicos continuam a escalá-la.”

Como se vê, os personagens, desse ponto de vista, são vítimas de algo maior, que os obriga a atuar dessa ou daquela forma. Assim como Laertes, ao alertar a irmã para a pouca probabilidade de seu namoro com o príncipe ir para a frente, visto que, “medida sua grandeza, a vontade dele não pertence a ele próprio”, também em outros aspectos os reis não são donos do próprio destino. Eles estão inseridos numa engrenagem maior. Claro que suas características pessoais têm influência na maneira como seus destinos se configurarão, mas independente disso há um curso que os transcende.

Continua Kott: “Pois não há reis maus, nem reis bons; os reis são apenas reis. Ou, dito de outro modo, e para empregar a terminologia contemporânea: somente existem a situação de rei e o sistema. Situação que não comporta liberdade de escolha.. (…) Em shakespeare não há deuses. Há somente soberanos, cada um dos quais é sucessivamente carrasco e vítima, e homens bem vivos, que têm medo. (…) A grandeza do realismo de Shakespeare é que ele sabe perceber o quanto os homens estão comprometidos na história.”

Em pouquíssimas palavras: um rei honesto pode ser o ideal, para determinado momento da história. Mas a honestidade, dependendo das circunstâncias, pode inverter seu sinal, e tornar-se um defeito. E, nesse caso, o rei e o reino arcarão com as conseqüências. O mesmo poderá se dar com um rei criminoso, como o pai de Hamlet. Ele, após o seu crime, fortaleceu-se e sagrou-se rei. Em seguida, tornou-se um rei bondoso e respeitado por virtudes morais, e assim enfraqueceu-se e viu-se usurpado pelo irmão.

Fortinbrás, seja ele bom ou mau, não quer outra coisa que não o mesmo que Hamlet, ou seja, vingar o pai e herdar o trono da Dinamarca que lhe fora usurpado.

A regra em Shakespeare é que não há regra: tudo depende do casamento entre o temperamento do personagem homem-público e as exigências das circunstâncias históricas. É assim que se articula o livre-arbítrio dos personagens shakespearianos – que não pode ser negado e é mesmo a grande força de seu teatro –, e o Grande Mecanismo da história. Aqui, ela não é um pano de fundo, ela é um personagem, em si, atuante, com suas necessidades, seus descaminhos, sua força própria.

A história, em Shakespeare, não parece ter propriamente um sentido. Ela não traz uma verdade ao final. Ela avança repetindo seu ciclo próprio. Ela não é idealista, nem materialista, ela é trágica.

[palestra proferida em 2004]

As fontes mais diretas conhecidas para a história de Shakespeare são: 1- Sêneca e o estilo sanguinolento por exemplo deHércules Enfurecido; mesmo que sua influência tenha chegado a Shakespeare via 2- As Metamorfoses, de Ovídio; 3- o folclore da Islândia, Irlanda e Dinamarca, conectados com a Inglaterra por sinapses culturais imprevistas; 4- a Historia Danica, compilação de tradições orais assinada em 1514 por Saxo Grammaticus, Saxo o Literato, dinamarquês obviamente, e que incluía uma versão de Hamlet; 5- A Spanish Tragedy, de Thomas Kyd, e a tradição das chamadas revenge plays; 6- a peça em inglês, perdida, mas de cuja existência se tem registro indubitável e cuja autoria costuma-se creditar ao mesmo Thomas Kyd, um especialista no gênero; e finalmente, 7- a partir da versão que Saxos fez da história, a tradução francesa de Amleth, feita em 1570 por Francis Belleforest e incluída na antologia Histoires Tragiques; ).

Ato I, cena 1.

Ver também a fala: “Aquela era sem dúvida a armadura/ Que usou contra a ambição da Noruega;/ Estava assim carrancudo, quando em fúria/ Destruiu os polacos sobre o gelo.”. Frase dita por Horácio ao reconhecer no fantasma a armadura do velho Hamlet, ato I, cena 1.

Ato I, cena 2.

Ato III, cena 3. O personagem é Rosencrantz, um amigo de Hamlet usado pelo tio para espioná-lo.

Por exemplo: ato IV, cenas 3 e 7.

Ato I, cena 2

Idem.

Idem.

Por exemplo: ato I, cena 4; ato III, cena 2; e ato III, cena 3.

Ato I, cena 5.

Idem.

Ato I, cena 1.

Idem.

Ato I, cena 4.

Ato I, cena 5.

Ato II, cena 2.

AtoI, cena 5.

Idem.

Ato II, cena 1.

Ato II, cena 2.

Idem.

Ato III, cena 1.

Ato II, cena 2.

Ato III, cena 1.

Idem.

Idem.

Ato III, cena 2.

Idem.

Idem.

Ato III, cena 3.

Idem.

Idem.

Ato III, cena 4.

Ato IV, cena 3.

Idem.

“O rei da dinamarca, pai de Hamlet, matou o rei da Noruega durante uma guerra de rapina em que obteve a vitória. No momento em que Fortinbrás, o filho do rei da Noruega, reúne um exército para uma nova guerra, o rei da Dinamarca é morto por seu próprio irmão. Tornados reis, os irmãos dos reis desaparecidos evitam a guerra: fazem um acordo cujos termos estabelecem que as tropas norueguesas poderão atravessar a Dinamarca para ir saquear a Polônia.” Bertold Brecht, citado em Kott, Jan. Shakespeare nosso contemporâneo, SP, Cosac & Naify, 2003.

Ato IV, cena 5.

Idem.

Idem.

Ato V, cena 1.

Ato V, cena 2.

Idem.

Idem.

Idem.

Kott, Jan. Shakespeare nosso contemporâneo, SP, Cosac & Naify, 2003.