Thecho | Sobrevoando Canudos
Os primeiros anos após a proclamação da República, em 1889, foram de extrema indefinição e agitação na vida brasileira. Ao Sul, teve início a Revolução Federalista, em 1893. Nesse mesmo ano, no Rio de Janeiro, eclodiu uma rebelião na Marinha. Ao Norte, desde 1872, em torno da figura do padre Cícero Romão Batista, um movimento aliava conteúdo religioso a reivindicações de ordem social.
A passagem do regime monárquico para o republicano foi um momento propício para que alguns projetos de sociedade alternativos e minoritários ganhassem expressão. Essa efervescência estava indiretamente ligada à concessão de maior autonomia aos Estados, dada pela nova Constituição, e à ruptura dos equilíbrios políticos regionais que existiam durante o Império. Com o novo sistema eleitoral, de voto não obrigatório e não secreto, as oligarquias de cada Estado viram-se obrigadas a redefinir seu jogo de forças, não apenas no sentido de uma substituição no poder, mas inclusive rede tinindo o perfil dos poderosos.
Também a reforma do sistema fiscal contribuiu para essa rearrumação das forças políticas no interior dos Estados. Com a República, uma parcela maior dos impostos foi revertida aos municípios. Estes, em contrapartida, ficaram encarregados de proceder à arrecadação de forma direta, para tristeza dos contribuintes espalhados pelas regiões pobres. A ampliação da parte dos impostos atribuída aos municípios, somada às novas responsabilidades arrecadadoras das oligarquias municipais, e mais a desigualdade social, a precariedade dos instrumentos democráticos, a virtual inexistência de serviços sociais, contribuíram decisivamente para o fortalecimento daquilo que se convencionou chamar de “coronelismo”.
Situados na unidade administrativa que servia de base tanto à conformação política quanto à financeira de cada Estado, os coronéis funcionavam como fontes importantes de dinheiro e de votos, que revertiam aos governos estaduais. Seu poder era relativizado apenas pelos próprios governadores, de quem dependiam para beneficiar seus “currais eleitorais”, e por algumas correntes políticas de natureza essencialmente urbana, sobretudo a dos jacobinos, republicanos radicais centrados no Rio de Janeiro, provenientes da baixa classe média e de pequena parte do operariado e do Exército.
A essência do projeto republicano era descentralizar a administração, o que, num primeiro momento, deu margem a um federalismo exacerbado, no qual se estabelecia uma competição feroz entre os Estados. Apoiados pela opinião pública, os militares eram identificados com o caráter progressista do sistema republicano, ainda que desde 1889 viessem governando ditatorialmente o Brasil. Mas foi no mandato de Prudente de Morais, o primeiro presidente civil a tomar posse, em 1894, que os eventos no longínquo arraial de Canudos, um lugar perdido no sertão da Bahia, a nada menos que 700 quilômetros de Salvador, refletiram de forma peculiar todos os elementos da política brasileira da época.
A Bahia havia sido um dos Estados mais prejudicados com todas as mudanças pelas quais passava o Brasil. O Estado se ressentia de seu moroso desenvolvimento industrial, de sua acanhada base econômica e de um alto índice populacional. Vivia, em resumo, um momento de estagnação nas finanças e de empobrecimento geral. Além disso, a nova forma de operação do sistema fiscal e político criara divisões no interior das elites baianas. E, como se tudo isso já não bastasse, o final do século XIX ficou marcado por um rigoroso ciclo de secas que atingiu sem piedade o interior do Estado, criando seriíssimas dificuldades para a economia açucareira.
A história de Antônio Conselheiro começou em 13 de março de 1830, dia de seu nascimento, em Santo Antônio do Quixeramobim, Ceará. No registro, ganhou o nome de Antônio Mendes Maciel. Seu pai era um ex-boiadeiro que enriquecera, dado a rompantes de violência, a reincidentes crises de alcoolismo, e que vivia então como comerciante sertanejo de médio porte. Sua mãe, Maria Maciel, foi a segunda esposa do pai e a responsável pela rígida disciplina religiosa que Antônio e suas duas irmãs receberam na primeira infância. Recebeu igualmente dos pais sua primeira educação. Os relatos que existem descrevem-no como um menino tímido e estudioso, de aparência fraca e pálida, apesar da tez morena. Quando tinha apenas seis anos, morreu-lhe a mãe. O pai, por sua vez, mergulhou num longo processo de decadência, que compreendeu uma série de reveses comerciais, e terminou perdendo-se de vez no alcoolismo. Apesar dos pesares, o menino freqüentou o colégio, onde recebeu uma instrução melhor que a da maioria.
Aos 25 anos Antônio perdeu o pai e tomou posse do pouco que havia sobrado do patrimônio familiar. Em 1857 casou-se com uma prima de quinze anos, analfabeta. Endividado, hipotecou a casa e vendeu tudo o que o pai lhe tinha deixado. Tornou-se professor na Fazenda Tigre, a algumas léguas de Quixeramobim. Tentou o ramo do comércio, mas faliu. Foi balconista, foi rábula.
Supõe-se que teve um filho em 1859, mas, afora a cultura oral, não há documentação que comprove isso. Um segundo filho nasceu em 1860, em Tamboril, cidade próxima dali. Tempos depois, Antônio foi abandonado pela mulher, que fugiu com um amante. Remete a essa fase de sua vida a lenda, infundada, de que Antônio teria acidentalmente matado a própria mãe. Segundo a crença popular, a mãe de Antônio o teria advertido de que, todos os dias após ele sair de casa, um homem vestido de preto era visto entrando e saindo pela janela do quarto de sua esposa. Antônio teria ficado de tocaia, observando, e ao enxergar o vulto negro que saía de dentro de seu quarto o teria alvejado mortalmente a tiros de espingarda. Em seguida, tirando-lhe o disfarce, teria descoberto o cadáver da mãe.
Um ano após a fuga da esposa, Antônio deixou os filhos sob a guarda de sua sogra. Mudou-se então para o Crato, trabalhando como um mascate itinerante que acompanhava pastores evangélicos em suas erranças pelos sertões. Ao longo do ano de 1862, teve um terceiro filho, cuja mãe era uma artesã de Santa Quitéria. Entre 1867 e 1868, presumivelmente, continuou em seu trabalho de vendedor ambulante. Residiu em Várzea de Pedra de 1869 a 1871, quando foi processado por dívidas não pagas. Depois disso, seus rastros desapareceram até 1872, quando ressurgiram em São Mateus, no Ceará, onde já vivia da caridade pública e levava vida de penitente.
Vagou nos anos seguintes pelos sertões de Pernambuco. Em 1874, na Bahia, já era identificado como “Irmão Antônio” ou “Antônio dos Mares”. Além de religioso, era considerado sábio, daí o título de “ConseIheiro”, que foi cunhado nessa época. Já o seguiam alguns fiéis na oportunidade em que foi preso, na vila de Itapicuru de Cima, acusado de haver matado a mãe. A polícia enviou-o de volta ao Ceará. Comprovada sua inocência, foi posto em liberdade e retomou suas peregrinações.
Proveniente de uma população cujo catolicismo era em boa dose autodidata e inserido numa tradição de penitência auto-flagelante, característica dos pregadores leigos que erravam pelo sertão, Antônio Conselheiro praticava jejuns prolongados e levava uma vida de absoluta retidão moral. Em 1876, suas atividades foram assim descritas pela Folhinha Laemmert, um anuário do Rio de Janeiro: “Apareceu no sertão no norte um indivíduo que se diz chamar Antônio Conselheiro e que exerce grande influência no espírito das classes populares servindo-se de seu exterior misterioso e costumes ascéticos. [00'] Vive a rezar terços e ladainhas e a pregar e dar conselhos às multidões que reúne, onde lhe permitem os párocos; e, movendo sentimentos religiosos, vai arrebanhando o povo e guiando-o a seu gosto” .
Tido como orador fascinante e de voz sonora, o Conselheiro pregava um estoicismo messiânico – baseado na frugalidade e na esperança de uma redenção divina -, por meio de sermões usualmente iniciados com algumas frases em latim e que alternavam momentos de forte cadência rítmica com outros de entonação tranqüila, beatífica. Apesar do caráter hermético de algumas de suas prédicas, costumava abordar temas diretamente ligados à vida dos sertanejos: as dívidas, a moralidade, o Governo e o destino de cada um. Em certos momentos, deixava-se ficar extático diante da platéia, como se em transe. Essa era também a sensação que seus sermões inspiravam aos espectadores. Um sobrevivente de Canudos disse que, ao ouvi-lo, “parecia inté que a gente tava em riba das nuvem (voando pro céu)”.
Para quem vinha das cidades, em vez de placidez espiritual, o Conselheiro transmitia inquietude. O tenente-coronel Durval Vieira de Aguiar, que o encontraria anos mais tarde, apenas insinuou o próprio estranhamento: “… sujeito baixo, moreno, acaboclado, de barbas e cabelos pretos e crescidos, vestido de camisolão azul”. Mas seu “exterior misterioso” ficou registrado nos jornais do Rio e dos demais centros urbanos do litoral. Euclides da Cunha, em boa parte responsável pela repercussão do episódio de Canudos, foi explícito ao descrever um “anacoreta sombrio, cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa, face escaveirada, olhar fulgurante”. De fato, a essa altura da vida, o Conselheiro adquirira uma compleição esquelética e, além do camisolão, vestia um chapéu de abas largas, calçava sandálias, apoiava-se num bordão e tinha às costas um surrão de couro com livros religiosos e material para escrever.
Por serem os quadros da Igreja insuficientes para zelar pela população mais afastada dos grandes centros, Antônio Conselheiro movimentava-se com liberdade e era bem-recebido por onde passava, pregando e organizando mutirões para a construção ou reconstrução de igrejas e cemitérios, bem como para a construção de cisternas, pequenas represas, etc. Costumava ser bem-vindo mesmo nas vilas onde residiam membros do clero regular, e há inúmeros depoimentos de padres atestando a pureza de suas pregações, que, segundo eles, em nenhuma questão teológica contradiziam a religião oficial. De acordo com alguns contemporâneos, no entanto, essa receptividade dos padres era movida pelo medo de alguma reação dos fiéis, que em grande número acorriam a seus sermões e que poderiam se revoltar caso o Conselheiro fosse impedido de falar. Não obstante, até então, não tinha havido nenhum registro de violência cometida pelo Conselheiro ou promovida em obediência a um comando seu.
Até 1882, ele cruzou os sertões da Bahia, de Pernambuco, Sergipe e Ceará sem conflito direto com instituições políticas ou religiosas. Nesse ano, contudo, o arcebispo de Salvador enviou uma carta a todos os párocos da Bahia proibindo que concedessem ao Conselheiro o direito de pregar em suas paróquias. Essa iniciativa não era dirigida exclusivamente ao Conselheiro, estando inserida no contexto mais amplo da reforma episcopal iniciada alguns anos antes pelo papa Pio IX (184678), que visava reafirmar o controle dos bispos sobre suas jurisdições e eliminar, por mais remota e menos controvertida que fosse, qualquer corrente heterodoxa dentro da comunidade católica. Ainda assim, muitos padres continuaram a receber o missionário sertanejo, talvez por medo de seus jagunços, mas com freqüência por acreditarem nos propósitos religiosos dele.
Em 1886, nova carta pastoral incitou os padres a proibirem as pregações do Conselheiro. Data desse mesmo ano o ofício encaminhado pelo delegado de Itapicuru ao chefe de polícia da Bahia, no qual era relatado um desentendimento entre os conselheiristas e o vigário local. No ano seguinte, o arcebispo de Salvador voltou a acusar o Conselheiro e seus fiéis de pregarem “doutrinas subversivas”.
Com sua circulação dificultada pelo crescente cerco eclesiástico, o Conselheiro fundou uma primeira cidade santa, em 1890 ou 1891. Instalando alguns seguidores nas fazendas abandonadas Dendê de Cima e Dendê de Baixo, no sertão da Bahia, ele esboçou um modelo de vida comunitária, tendo iniciado a criação coletiva de cabras e galinhas, além de construir uma igreja e algumas cisternas. O nome desse primeiro assentamento conselheirista era Bom Jesus, e ficava a 217 quilômetros de Salvador. Imediatamente, um grande afluxo de sertanejos começou a chegar e logo Bom Jesus se tornava o centro do Município de Crisópolis. Não se sabe como, quando ou exatamente por que esse primeiro arraial foi abandonado.
Foi em 1893 que os conselheiristas cometeram seu primeiro ato indiscutivelmente subversivo, o qual muito os comprometeu junto às autoridades laicas de Salvador. Ao passarem por uma pequena vila baiana, ironicamente chamada de Bom Conselho, o Conselheiro incitou a população local a enfrentar a cobrança direta de impostos, levando-a a incendiar publicamente as tábuas em que estavam afixados os editais de cobrança. Foi a partir desse acontecimento que Canudos passou a ser tema de discussões na Câmara dos Deputados da Bahia.
Será sempre controvertida a exata dose de anti-republicanismo contida nos atos e nas pregações de Antônio Conselheiro. A queima dos editais de cobrança dos impostos parece realmente sinalizar nessa direção. Também a separação entre Igreja e Estado, promovida pelo advento da República, era impensável na sociedade ideal pregada por sua teologia e posta em prática nos dois assentamentos que fundou. No entanto, muitos analistas ponderam que, se existia realmente, a rejeição ao sistema republicano era não a base de sua visão política e social, mas sim a conseqüência de suas crenças e das piores condições de vida no sertão, após o advento da República. O poder crescente dos coronéis, a cobrança excessiva de impostos das classes menos favorecidas, o caráter laico dos casamentos e dos registros de nascimento e de óbito, estes, sim, eram motivos de forte desagrado para o Conselheiro e seus fiéis. Os motivos que poderiam fazê-los rejeitar o novo regime eram, portanto, ligados às dificuldades e às rearrumações da vida cotidiana que ele provocou, sem que a preservação da figura imperial, no âmbito simbólico, e do poder mediador que os imperadores exerciam, no âmbito político, fossem indispensáveis a sua concepção de sociedade. De qualquer forma, os republicanos mais aguerridos da época, os jacobinos, usaram o episódio de Canudos como ponto de honra ideológico, de modo a justificar a radicalização do processo de transformação sócio-política, e, no mínimo, ajudaram a criar a fama de monarquista que o Conselheiro adquiriu.
Após a queima dos editais, teve início uma gradual aproximação do alto clero do Estado, já francamente contrário aos conselheiristas, com as oligarquias coronelistas baianas, a partir de então incomodadas pelo potencial de desobediência civil dos fiéis sertanejos.
Saindo de Bom Conselho, Antônio Conselheiro e mais aproximadamente duzentos fiéis retiraram-se para o Norte, perseguidos por uma força de polícia de trinta praças. Foram alcançados na localidade chamada Masseté, onde se deu o primeiro combate propriamente dito entre as forças regulares, derrotadas, e os conselheiristas, vencedores. Sua fuga então prosseguiu, novamente à procura de um lugar mais protegido para a fundação de uma cidade santa. Escolheu o dito lugar ainda no ano de 1893. Lá existira antes um rancho, incrustado num vale no sertão da Bahia, a 700 quilômetros de Salvador, localizado entre os rios Vaza-Barris (ou Irapiranga) e Itapicuru e cercado. por escarpas que permitiam excelente defesa natural, entre elas a Cana Brava, a do Poço de Cima, a Cocorobó, a Vermelha, a do Vigário e a do Angico.
Recomeçaram as pregações sobre uma terra santa no meio do sertão. Seu nome era Belo Monte, ou Canudos, apelido este que remetia, no entender de alguns, ao nome de uma espécie de cachimbo de barro, de 1 metro de extensão, usado pelos sertanejos do local.
À medida que corria a notícia da existência de um novo assentamento conselheirista, as multidões afluíam rumo a Canudos. Em apenas dois anos, tornou-se a cidade mais populosa da Bahia, reunindo aproximadamente 5.200 domicílios, entre casas e casebres. As estatísticas apontam, no auge do assentamento, para um total de 25 mil a 35 mil residentes, entre homens, mulheres, velhos e crianças, bastando para isso que houvesse uma média de cinco pessoas em cada uma das casas. Não resta dúvida de que a maior parte dessa população era de típicos sertanejos, pobres, pardos e iletrados. Quanto à presença indígena em Canudos, ainda falta um estudo mais aprofundado, porém um médico que acompanhou a expedição disse, em suas memórias, ter visto muitos soldados feridos com flechas. Mas parte considerável da população residente era formada por famílias de posses, muitas vezes não formalmente integradas às atividades religiosas de Antônio Conselheiro, mas que vendiam seus bens e se retiravam para a próspera cidade.
Na época, a explicação que a imprensa e a maioria da população urbana encontraram para essa enorme migração foi, pura e simplesmente, o fanatismo religioso e a proteção de bandidos contra os braços da lei. Mas Canudos não era nem de longe um simples refúgio para fanáticos, criminosos foragidos e índios selvagens. Além dos talentos carismáticos do Conselheiro e do eventual passado criminoso de algum seguidor dele, vários fatores contribuíram para tamanho afluxo populacional. Eis quatro importantes: 1) a presença ameaçadora do sistema coronelista; 2) as pressões das dificuldades econômicas; 3) a perseguição da Igreja a todas as práticas religiosas não ortodoxas; 4) a fertilidade de Canudos, que, além dos rios, oferecia água em açudes e poços, estes caváveis no chão com simples cacimbas, ou nas pedras porosas de suas escarpas, raras no resto do sertão mas presentes no vale.
Como da outra vez, os conselheiristas iniciaram, em regime de trabalho coletivo, a construção de sua cidade sagrada. Reservatórios de água, escolas, armazéns, depósitos de armas e, naturalmente, duas igrejas, a Igreja Nova e a do Bom Jesus, cuja obra, entretanto, nunca chegou ao final. Começaram a criação de animais, além de algumas culturas, que nem sempre eram somente de subsistência. Não se deve imaginar que conselheiristas e simpatizantes vivessem inteiramente isolados, apesar das proteções naturais do vale e do caráter peculiar da sociedade que se constituiu em Canudos. Havia constante comunicação entre eles e os povoados do outro lado das montanhas.
O desenho de Canudos era primitivo. Uma rua principal, a Campo Alegre, o atravessava do começo ao fim. No mais, consistia num denso emaranhado de ruelas tortuosas. As casas e casebres de taipa, quase todas idênticas, tinham um só andar, em geral com apenas dois cômodos, e telhados de cobertura vegetal ressecada; as casas de telhas, pouquíssimas,eram sinônimo de status. Ligando as casas por baixo da terra, vários túneis foram encontrados. Devem ter servido de depósito ou esconderijo, mas não se sabe se já existiam no plano original da cidade ou se foram construídos mais tarde, especialmente para enfrentar o cerco militar.
No que dizia respeito ao cotidiano, Canudos era uma cidade na plena acepção da palavra. As transações comerciais faziam parte da vida, inclusive com os povoamentos vizinhos. As moedas nacionais circulavam livremente e tinham seu valor absolutamente reconhecido. Além das atividades agrícolas de subsistência, o povoado abrigava comerciantes estranhos à comunidade, que ali exerciam sua profissão como se em qualquer outra vila. Havia pleno direito à propriedade privada, sendo os bens mais valorizados a terra, o gado e a moradia. A desigualdade social era aceita e tida como natural. Os despossuídos, em contrapartida, alimentavam-se da produção extraída das áreas, rebanhos e manufaturas coletivos que existiam. A pobreza era considerada injusta e odiosa, mas seus males poderiam ser superados graças à religião.
O Conselheiro representava o ponto máximo da hierarquia de poder em Canudos. O líder espiritual dedicava-se às suas obras e pregações, servindo como modelo de comportamento e ditando os preceitos morais exigidos no arraial. Seu braço direito se chamava João Abade. Nas reuniões político-administrativas, era o representante da autoridade que emanava do Conselheiro, e ainda cumpria a função de chefe de sua segurança pessoal. O posto ocupado por João Abade era o de “comandante de rua”.
Usualmente, concorda-se que o Conselheiro recusava ser visto como santo, ou profeta, ou divino de qualquer maneira, e que o epíteto de “conselheiro” denotava intencionalmente sua condição de homem de carne e osso. Assim o nome do cargo de João Abade. No entanto, o conteúdo messiânico presente nos sermões e nas práticas de Antônio Conselheiro é evidente, o que torna difícil precisar em que medida o papel de João Abade possuiria, ao menos oficiosamente, uma conotação “sacerdotal”. Sabe-se que, abaixo dele na hierarquia da sociedade canudense, alguns cidadãos mais influentes e com acesso ao Conselheiro eram sugestivamente chamados de Apóstolos e que a milícia comandada pelo próprio João Abade, a segurança pessoal do Conselheiro, recebia nomes de conotação religiosa explícita, como Guarda Católica ou Companhia do Bom Jesus.
Outra nuança que seria desejável, outra que jamais será atingida com perfeição, refere-se ao grau de veracidade nas acusações de banditismo imputadas aos conselheiristas, incluindo assaltos a vilas e cidades, que os fazendeiros de uma ampla zona em torno de Canudos registraram às dezenas. A imprensa da época foi incapaz de fornecer avaliações imparciais desse e de alguns outros temas relacionados com Canudos, enfatizando exageradamente os argumentos dos setores contrários aos sertanejos, fossem os coronéis, a população urbana ou os militares.
Quanto à atuação da imprensa, vale ressalvar, no entanto, que o personagem Antônio Conselheiro foi alvo de inúmeras reportagens, alusões e mesmo propagandas nos jornais a princípio baianos e depois de todo o país, e isso muito antes de Canudos. A campanha militar também recebeu ampla cobertura – pois Canudos foi o primeiro acontecimento dessa importância sobre o qual as notícias puderam ser transmitidas via telégrafo: Apesar de suas limitações históricas, juntamente com Os sertões de Euclides da Cunha, foi a imprensa responsável pela marca profunda que Canudos causou na consciência nacional.
Data de 1895 o primeiro livro escrito por Antônio Conselheiro, Preceitos, uma reunião de comentários sobre o Novo Testamento. Em 1897, já durante o último confronto com o Exército, Antônio Conselheiro escreveria um segundo livro, intitulado Tempestades que se levantam no coração de Maria por ocasião do mistério da Anunciação.
Ainda no ano de 1895, o arcebispo de Salvador enviou a Canudos uma delegação pastoral com o objetivo de recolocar o rebanho do Conselheiro sob o controle da Igreja. Tiveram recepção cordial e total liberdade para pregar, em praça pública, durante os dias que lá ficaram. Malsucedidos, tudo indica que tenham saído de lá por livre e espontânea vontade. No entanto, a versão comunicada pelo arcebispado às autoridades estaduais foi a de que teriam sido ridicularizados por uns e ameaçados por outros, até finalmente serem expulsos. Esse episódio, embora duvidoso, parece ter esgotado a paciência da Igreja oficial com o pregador dos sertões.
Já as autoridades laicas da Bahia utilizaram outro pretexto para justificar a primeira ação direta contra os conselheiristas, acontecida em 1896. Oficialmente, ela ocorreu devido a um desentendimento comercial entre canudenses e um fornecedor de madeiras de Juazeiro. A administração central de Canudos já havia pago antecipadamente a mercadoria, que, entretanto, não lhe foi entregue. Imaginando que o Conselheiro e seus seguidores – todos em Canudos e, portanto, a 200 quilômetros de Juazeiro – reagiriam com violência ao ser informados da quebra de contrato, e visando conter o êxodo da temerosa população local, o município de Juazeiro solicitou a proteção do Governo Estadual. Sabe-se que a família do então governador da Bahia, Luís Viana, era proeminente na região de Juazeiro; e o coronel que requereu o envio das tropas, o coronel Pereira e Meio, era um aliado importante dos Viana. Mas não havia em seu pedido nenhuma explicação sobre o desaparecimento da madeira. Segundo o registro de Euclides da Cunha, a notícia da iminente chegada das tropas acelerou o êxodo dos residentes de Juazeiro, ao contrário do que seria de se esperar.
Assim como nesse incidente, os conselheiristas são freqüentemente descritos como amedrontadores. Muitas são as menções ao uso ostensivo de armas que faziam, o que explica o temor dos contemporâneos. Mas não seria o porte de armas e facões algo corriqueiro nos sertões do final do século passado? Até que ponto os seguidores do Conselheiro representavam uma ameaça à paz pública? Onde há fumaça, há fogo, ao menos em tese, ainda que se deva desconfiar da documentação oficial emitida na época. Mas esse é outro ponto que permanecerá controvertido.
Porém, mais do que a pressão da Igreja, mais do que uma simples questão comercial ou um discutível desrespeito à segurança pública, o que de fato parece ter levado o governo baiano a declarar guerra a Canudos foi seu papel desestabilizador na composição das forças produtivas de uma área imensa, que se estendia não apenas pelo sertão baiano, mas alcançava o Sul de Sergipe. Atraída pelas promessas de redenção espiritual e de proteção social que emanavam do vale, a mão-de-obra normalmente resignada e dócil abandonava as fazendas dos proprietários rurais e terminava por ameaçar o equilíbrio econômico da região.
O governo enviou ao vale uma força de cem praças, em outubro de 1896. Sem conhecerem a topografia do percurso que os levaria de Juazeiro a Canudos, os soldados foram obrigados a contratar guias entre os jagunços da cidade. No segundo dia de marcha forçada, através de um deserto escaldante, chegaram em Lagoa do Boi. Lá encontraram alguma água, mas constataram que os poços e as fazendas das redondezas estavam abandonados. Em Uauá, um vilarejo miserável próximo dali, decidiram acampar.
Durante a noite, porém, enquanto os soldados dormiam, toda a população abandonou a cidade e boa parte dela fugiu rumo a Canudos, onde chegou na manhã seguinte, dando o alerta. No dia 21 de outubro, entoando cânticos e segurando estandartes em formação de procissão, a Guarda Católica saiu do vale para enfrentar seus inimigos, armada tanto de mosquetes e facões quanto de ícones religiosos e imagens de santos. Sabe-se que ela reunia algumas centenas de homens, mas as versões existentes falam de mil, de quinhentos ou mesmo trezentos. Também não se sabe exatamente qual o número de mortos entre os seguidores de Antônio Conselheiro. Ainda assim, as dez baixas e os dezesseis feridos entre o contingente policial o obrigaram a bater em retirada.
As notícias veiculadas pela imprensa inflamaram a opinião pública nas capitais do litoral. Luís Viana, o governador da Bahia, ligou para o presidente em exercício, Manuel Vitorino, pedindo ajuda. Vitorino, agindo sem o consentimento de Prudente de Morais, que se encontrava acamado, determinou pela primeira vez o envio de contingentes regulares do Exército numa expedição a Canudos. Isso ocorreu durante o ano de 1897. Comandados pelo major Febrônio de Brito, perfaziam um total de 543 soldados, que partiram de Monte Santo rumo ao vale em 12 de janeiro. Entre eles iam catorze oficiais, dois cirurgiões e dois canhões.
Logo no início da jornada, ao saírem de seu acampamento em Frei Apolônio de Todi, foram cercados pelos jagunços conselheiristas sob as ordens de João Abade. Bateram em retirada de forma humilhante. O Exército, principal responsável pela implantação do novo regime, fora desafiado pelas movimentações ao modo das guerrilhas executadas pelos sertanejos.
O sistema de segurança do arraial baseava-se sobretudo no profundo conhecimento que seus defensores tinham da região e não apenas em seu aspecto topográfico. Vigias armados postavam-se em todas as entradas do vale, batedores eram enviados às redondezas e uma eficaz rede de informações ficava permanentemente alerta, a fim de que Canudos estivesse preparado para um eventual próximo ataque. Os homens eram divididos em pequenos grupos armados, que se.movimentavam rápida e sorrateiramente para atacar de surpresa. Além disso, como defesa, os canudenses haviam espalhado a destruição num raio de 10 quilômetros do arraial, com sítios e fazendas queimados, poços aterrados, etc.
Alguns registros mostram que Antônio Conselheiro não era uma unanimidade entre os residentes de Canudos. Muitos não o perdoaram por haver decidido enfrentar o Exército, outros o acusaram de passividade política, que o teria impedido de obter alianças que viabilizassem a manutenção do arraial. Seja como for, não há traço de insurreição organizada contra sua autoridade ou contra seus representantes e comandantes militares.
A terceira expedição foi organizada literalmente a toque de caixa, em menos de um mês. Partiu entre fevereiro e março de 1897, comandada pelo general Antônio Moreira César. Este havia ganho notoriedade entre os militares, ainda um jovem, pelo assassínio de um jornalista que ofendera a corporação. O crime, ainda que imbuído de um heroísmo delirante, provocou seu afastamento até a tomada do poder pelo Exército, quando da proclamação da República. Em 1893, havia debelado a revolta no seio da Marinha, ocorrida no porto do Rio de Janeiro. Sua passagem por Santa Catarina, durante a Revolução Federalista, determinou em última instância o imenso prestígio de Moreira César nos meios militares. Para entender por que, basta dizer que voltou de lá com o apelido de “Marechal de Ferro”. Interveio nesse Estado com brutalidade, aprisionando inocentes, pilhando seus bens e autorizando a execução de oficiais, entre eles um herói da Guerra do Paraguai.
Na aparência, Moreira César não correspondia à sanha de seu temperamento e a sua arrogância. Era baixo, gordo, sem qualquer virilidade física e ainda tinha pernas tortas. Mesmo assim, no imaginário da época e das páginas dos jornais, constituiu a única figura capaz de polarizar com o caráter imensamente carismático do Conselheiro.
Essa terceira expedição contava com 1.300 homens. Durante a jornada, Moreira César foi acometido por uma crise epiléptica, sem entretanto deixar que isso atrasasse a chegada à frente de batalha. A autoconfiança sem limites de Moreira César aparentemente contagiou a todos e os levantamentos dos engenheiros militares acabaram sendo feitos sem o devido cuidado; as apurações sobre a oferta de água, o perfil do terreno e as condições do solo ao longo do trajeto foram levianas, tomando por base indicações imprecisas fornecidas pelos habitantes das vilas e dos povoados por onde passavam. Desprezando os constrangimentos do relevo e do clima, Moreira César imprimiu uma marcha acelerada através do árido sertão, exaurindo suas próprias tropas. Os carros com suprimentos atolaram na areia, os poços não puderam ser abertos por inadequação do material levado.
Já nas proximidades do arraial, ao acordarem após uma noite de descanso, os soldados encontraram fogueiras e restos de comida nas vizinhanças de seu acampamento, o que indicava terem eles sido observados pelos conselheiristas sorrateiramente. Acamparam no meio do dia e foram surpreendidos por uma repentina tempestade que molhou seus equipamentos e os atolou na lama. Em meio às atrapalhações quase patéticas da expedição, alguns homens a cavalo foram vistos se aproximando e o pânico rapidamente se espalhou entre os soldados. Para sorte do Exército, eram jagunços a mando de um proprietário de terra da região, com novos suprimentos. Os soldados retomaram a marcha, na forma de uma coluna com quilômetros de extensão. Todas as dificuldades enfrentadas, segundo relatos de participantes, não haviam sido suficientes para diminuir o otimismo das tropas e a arrogância de seu general.
Quando as tropas lega listas alcançaram a Fazenda Pitombas, os conselheiristas atacaram. Terminado o tiroteio, Moreira César e seus batalhões avaliaram erradamente o poder de fogo do inimigo, subestimando-o. Partiram novamente em marcha acelerada rumo ao arraial. Moreira César, ainda penando com os efeitos da epilepsia, ordenou que seus homens avançassem com velocidade até as montanhas Umburunas, já ao alcance das balas inimigas. Os soldados chegaram ao monte Favela, de onde se via o emaranhado de ruelas que formava a cidade.
Quatro canhões foram apontados na direção do arraial e logo começaram a bombardeá-la, destruindo algumas casas e iniciando incêndios em alguns pontos. Os conselheiristas reagiram apenas com um traiçoeiro silêncio. Homens portando rifles foram vistos entrando e saindo dos prédios públicos do arraial, enquanto mulheres e crianças buscavam abrigo atrás das paredes da nova igreja.
A infantaria atacou com ampla cobertura, mas de forma atabalhoada e imprudente. As ruelas que se multiplicavam, estreitas e tortuosas, acabaram favorecendo a defesa do arraial, se é que não haviam sido construídas daquela forma exatamente com essa intenção. Logo impediram que a artilharia do Exército, do alto dos morros, identificasse quem era quem no coração da refrega, e obrigaram-na a cessar o fogo. Além disso, mesmo quando as sólidas estruturas de taipa tombavam perante o canhoneio, seus escombros atravancavam a movimentação dos invasores, facilitando as emboscadas promovidas pelos comandantes conselheiristas e tornando os soldados alvos fáceis para os franco-atiradores estrategicamente espalhados pelo arraial. Já pressentindo a derrota, Moreira César ordenou a carga da cavalaria, que entretanto foi prejudicada pela resistência dos cavalos em penetrar na névoa de sangue e pólvora que pairava sobre Canudos.
A história registra, além de João Abade, alguns outros líderes militares importantes entre os canudenses. Entre eles Pajeú, caboclo forte e alto; Pedrão, mestiço excepcionalmente alto; Joaquim Macambira, que morreu ao tentar capturar um dos canhões trazidos pelo Exército.
A noite havia caído. As tropas, exaustas, bateram em retirada, atirando-se à caatinga desordenadamente. Horas mais tarde, contrariando a determinação de seu febril e debilitado general, os oficiais sobreviventes votaram pelo retorno à capital. Com sua disciplina interna dilacerada, os soldados foram facilmente caçados pelos conselheiristas enquanto recuavam, ou simplesmente fugiam, largando para trás suas armas, seus feridos e até o corpo do próprio Moreira César, enfim liquidado pela epilepsia. O general foi encontrado e queimado pelos conselheiristas. Também acabou morrendo o oficial que tomara a liderança da expedição, Pedro Nunes Tamarindo, que, ao ser ferido, pediu a seus homens que o executassem.
A terceira expedição resultou num desastre total. Não só foi derrotada, mas deixou para trás enorme quantidade de armamento e munição. Deixou também prisioneiros e desertores em poder dos conselheiristas, que seriam postos para treinar os jagunços em táticas militares.
Nas três primeiras expedições, percebe-se uma tendência a subestimar a capacidade que o arraial tinha de resistir. Se sua população era de fato tão grande, como os militares poderiam imaginar que ganhariam a guerra facilmente? Seria isso apenas o resultado inevitável da presunção das classes urbanas e dos militares, que se sentiam como o lado positivo numa luta da Civilização contra a Barbárie?
Há quem pense diferente. Segundo uma versão menos aceita entre os historiadores, os números disponíveis a respeito da população de Canudos foram majorados pelo próprio Exército, como uma desculpa para seus fracassos. Como cidade propriamente dita, dona de população residente e fixa, Canudos seria bem menor do que o até hoje convencionado. Outra explicação para a impressão geral de densidade demográfica – que o Exército insistia em ignorar, e sem nenhuma explicação plausível que não sua própria autoconfiança – seria a existência de um fluxo populacional que ia e vinha da cidade, lá aparecendo e dormindo nos dias de pregação do Conselheiro, mas residindo nos povoados da redondeza. Dessa forma, Canudos seria em parte um povoado-dormitório. Para os historiadores que acreditam nessa corrente revisionista, não seria possível ao vale, por mais fértil que fosse, alimentar por volta de trinta mil pessoas. A tradição historiográfica predominante, porém, confirma as fabulosas proporções do arraial, tanto no número de casas quanto no de residentes.
O novo trauma militar caiu como uma bomba no coração da República nascente e da opinião pública dos principais centros urbanos do país. Enquanto isso, a figura de anticristo que Moreira César assumira diante dos sertanejos, após a derrota, era cantada com certa ironia pelos poetas populares. Como, por exemplo, na quadra a seguir:
Moreira César,
Quem foi que te matou? Foi a bala de Canudos
Que o Conselheiro mandou?
Ou então nos versos:
Capitão Moreira César
Nó de cana caiana,
Tomou chumbo nas Queimada Foi morrer nas Umburana.
Capitão Moreira César
Foi à guerra e não venceu;
Está com oito que vence
Nos nove arubu comeu.
Capitão Moreira César
Chama-se bota lombriga,
Pois o chumbo é bom prugante
Pra limpeza da barriga.
No Sul, a opinião pública sentiu-se ultrajada pela desfaçatez dos canudenses. Alguns jornais monarquistas foram incendiados, um gerente de dois deles, José Gentil de Castro, foi assassinado por republicanos sedentos de vingança. Idêntico foi o sentimento entre as classes políticas. Há um movimento geral de engajamento na luta contra os jagunços de Antônio Conselheiro, que afrontavam a República brasileira.
Esse ir e vir de tropas sertão adentro e de jornalistas em seu rastro, pousando em cidades de índice populacional muitas vezes decrescente, fazia a alegria dos comerciantes. O mesmo acontecia em Salvador, onde os fornecedores de gêneros alimentícios e armamentos faturavam alto com o conflito. Mas a presença dos soldados, simultaneamente, era constante motivo de arruaças e desobediências civis. No sertão, Canudos continuava atraindo sertanejos para suas fileiras.
Enquanto isso, uma quarta ofensiva era organizada. Levou três meses para que ficasse pronta para o combate, reunindo 25 batalhões de linha, além da cavalaria, dos canhões e mais 3 mil homens, que perfaziam um total de 6 mil a 10 mil soldados, variando conforme a fonte. Isso equivalia a algo próximo à metade do efetivo nacional e, em termos de comparação, significava mais homens do que os enviados à Guerra do Paraguai.
A quarta expedição partiu para Canudos em junho de 1897. O próprio ministro da Guerra, marechal Bittencourt, assumiu a função de responsável pela logística das tropas, que deveriam estar sempre em contato com as bases e sempre sendo supridas dos víveres e equipamentos necessários. Dois fatores contribuíram para que essa expedição tivesse melhor sucesso que as anteriores. Em primeiro lugar, ela contava com milhares de sertanejos uniformizados mais ou menos à força, mas que sempre conheciam a região, estando assim aptos a enfrentar suas mazelas de clima e relevo. Em segundo, a quarta expedição não possuía comando único.
Os milhares de soldados estavam divididos em duas colunas e eram comandados pelas melhores reputações do Exército brasileiro. Entre elas, além do ministro da Guerra, o comandante geral da expedição, o general Artur Oscar de Andrade Guimarães, florianista histórico; Cláudio do Amaral Savaget, que comandava uma das colunas; e João da Silva Barbosa, que encabeçava a outra. A República empenhava todas as suas forças no intuito de apagar as vergonhosas derrotas dos últimos meses.
Ao penetrarem num raio de quilômetros de distância do arraial, o que os soldados encontraram foi o mesmo cenário de completa ruína que tanto assustou os integrantes da segunda expedição. Os corpos dos soldados mortos, à beira da estrada, balançavam pendurados nas árvores. Entre eles o infeliz coronel Tamarindo, sucessor em comando de Moreira César.
O primeiro combate teve lugar em Cocorobó, no dia 25 de junho, envolvendo do lado militar a coluna Savaget. Graças à astúcia de Pajeú, quatrocentos soldados foram mortos impiedosamente, alvejados por balas que saíam de trás de arbustos. O resto das tropas legalistas acampou em Monte Santo. Os enfrentamentos se multiplicaram, com os conselheiristas menos cautelosos em suas movimentações. Agora eles é que pareciam tomados de um excesso de confiança, insuflados talvez pelo respaldo que as armas apreendidas anteriormente lhes poderiam dar. Aqui e ali, o medo tomava conta de alguns soldados, que preferiam desertar. Mas novos contingentes chegavam para substituí-Ias.
Na esteira dos batalhões, em quantidade substancial, vinham as esposas dos soldados e as prostitutas, que também ficavam nos acampamentos. Havia ainda namoro entre as mulheres do arraial e os soldados.Um oficial da polícia baiana chegou a pedir permissão do comando para casar com uma delas.
Mas o ódio era o sentimento predominante e a área de conflito se alargava. Os conselheiristas assaltavam as cidades mais próximas e os trens que se dirigiam à estação de Queimadas, no interior da Bahia, repletos de bens comestíveis, rifles, munição e, eventualmente, de novos pelotões de soldados. Traições e deserções de ambos os lados foram registradas. O que definiu a sorte da guerra, indiscutivelmente, foi a capacidade inesgotável do Exército de repor os seus contingentes, que, assim como os conselheiristas, se expuseram a numerosas perdas durante os meses de cerco ao arraial. Pouco a pouco, o cerco foi se fechando.
Mortos de fome e de sede, sofrendo com um número crescente de deserções, alguns conselheiristas aceitaram, em setembro, uma proposta de perdão caso se entregassem pacificamente às forças legalistas. Tratava-se de uma armadilha. Os sertanejos foram separados em dois grupos, um deles constituído por mulheres e crianças. Os homens foram degolados a sangue-frio, diante de suas esposas e filhos, ato só muito depois admitido pelo Exército.
O último e decisivo combate ocorreu no início de outubro, portanto quatro meses após começada a quarta expedição. O Exército, sempre repondo suas forças, havia conseguido tomar a dianteira do conflito, apertando o cerco ao arraial até o limite. As forças canudenses se esvaíram em combate ou em mais deserções.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5 de outubro, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.
A famosa descrição que Euclides faz de sua queda, embora excelente do ponto de vista literário, não é fiel. Sobreviveram ao ataque final alguns homens, poucos, e as mulheres e crianças. Mas de uma coisa não há dúvida: o arraial foi inteiramente destruído e incendiado.
Aos olhos da pátria, Canudos simbolizava o atraso, ou mesmo a anticivilização. Sua mera existência abalava a auto confiança da República que nascia, e que precisaria destruí-lo para crescer forte e saudável. Como vingança, deixou ao Exército uma herança duplamente maldita: a vergonha pelas derrotas e a consciência culpada pelos exageros da vitória final contra os sertanejos.
A data oficial, mas questionável, da morte do Conselheiro é 22 de setembro de 1897. Treze dias depois encerrou-se o conflito. O cadáver de Antônio Conselheiro, um velho de quase setenta anos, foi exumado e degolado, tendo a cabeça seguido para Salvador, de modo a servir de enfeite, na ponta de uma lança, durante a parada comemorativa dos militares.
Nas celebrações pela derrota conselheirista aconteceu o único atentado à vida de um presidente na história da República brasileira. Um soldado que havia combatido no sertão tentou assassinar Prudente de Morais. O termo “favela”, nome de um dos morros que cercavam o vale, ganhou seu sentido atual de ex-combatentes que foram viver num morro carioca; ao menos assim reza a lenda. Ainda que não verdadeiro, esse atalho etimológico talvez nos forneça uma imagem do que Canudo.s representava de fato, em toda a sua complexidade social.
No decorrer dos anos, construiu-se no vale um segundo arraial de Canudos, que existiu até 1968, quando toda a região foi alagada pelo açude de Cocorobó, que represou o rio Vaza-Barris. A população mudou-se para um local próximo, onde até hoje existe uma cidade chamada Canudos.
Às vésperas do centenário do último combate, que de tantas datas possíveis foi a escolhida para marcar o episódio, o processo de secas quase permanente no Nordeste dos últimos trinta anos fez ressurgirem as ruínas do segundo e também do primeiro arraial de Canudos. Sobrevoando Canudos, hoje, o que se vê é o passado brotando da terra. Vieram à tona cruzes, ossadas, muros, crânios e peças de artilharia, para assistir conosco aos festejos.
Esse texto foi publicado em:
ALEXANDRE, Isabel M. M & ABDALA, Benjamin (org). Canudos: palavra de Deus sonho da terra. São Paulo: Editora Senac. Boitempo Editorial, 1997; p.21 a 39.