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	<title>Rodrigo Lacerda &#187; impressões</title>
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	<description>site e blog do escritor Rodrigo Lacerda</description>
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		<title>Impressões sobre o &#8220;Outra vida&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Jun 2009 20:00:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rodrigo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[impressões]]></category>
		<category><![CDATA[Outra vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma grande amiga, Beatriz Antunes, editora da Girafinha e escritora bissexta, acaba de me mandar a mais generosa impressão do livro que estou lançando hoje, o Outra vida. Para um primeiro post no meu blog, não poderia haver coisa melhor. Leiam e imaginem a minha alegria:

“Falei muito brevemente ontem sobre o livro e fiquei de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma grande amiga, Beatriz Antunes, editora da Girafinha e escritora bissexta, acaba de me mandar a mais generosa impressão do livro que estou lançando hoje, o <strong><a href="http://www.rodrigolacerda.com.br/outra-vida">Outra vida</a></strong>. Para um primeiro post no meu blog, não poderia haver coisa melhor. Leiam e imaginem a minha alegria:<br />
<br/><br />
“Falei muito brevemente ontem sobre o livro e fiquei de te mandar um e-mail com as minhas impressões. Pois aqui vamos nós.</p>
<p>Eu gostei muito. Primeiro porque me pareceu que você tinha feito um livro bastante diferente do &#8220;Vista&#8221; &#8212; e não só porque naquele havia, de fato, vistas, paisagens e um clima de modo geral mais arejado (um certo sabor de romance de formação), mas porque a escrita desta vez veio trabalhada de um jeito diferente. </p>
<p>Assim: no &#8220;Vista&#8221;, a narrativa apontava prioritariamente para a frente ou para trás, menos para baixo e para cima. O ritmo era dado pelo encadeamento de fatos, acontecia muita coisa, havia ação. No &#8220;Outra vida&#8221;, ao contrário, o texto aponta para dentro, o narrador vai cavando a personalidade dos três personagens e, nesse movimento &#8220;para baixo&#8221; e &#8220;para o fundo&#8221;, o leitor acaba preenchendo as lacunas de toda a história pregresa que leva à cena (em termos de tempo, curta) da rodoviária.</p>
<p>Mas aí é que vem a coisa&#8230; Era de se esperar que, nesse tipo de narração, o efeito conseguido fosse particularizante. Ou seja, que quanto mais o narrador cavasse o personagem, mais o leitor enxergaria a particularidade daquele tipo. E, no entanto, o mergulho para dentro dos três personagens resulta num comentário mais universal que eles três e a filha, mais universal que um casal à beira da separação na rodoviária. Me vi ali diversas vezes, vi gente que conheço e imaginei que algumas atitudes de conhecidos deveriam ter as mesmas explicações que as dos personagens. De alguma forma, então, o mergulho &#8220;particularizante&#8221; resultou &#8220;universalizante&#8221;.   </p>
<p>É um livro comovente, mas não só porque a história seja em si comovente, mas porque é impossível tomar partido. O leitor não tem descanso, é convidado o tempo inteiro a se identificar, a se afastar, a rejeitar ou admirar atitudes muito reais e não consegue fincar a bandeira em nenhum território para observar a guerra de longe. A gente (falo por mim) está o tempo todo sendo atingido, mesmo quando achava que já tinha se definido por um dos lados e que portanto estaria imune a pelo menos metade dos dardos.</p>
<p>Até o capítulo &#8220;A mulher&#8221; eu sinceramente achava que o livro estava pendendo mais pro lado do marido, defendendo as teses dele com mais convição e mostrando as da mulher com certa ironia. Ou com um distanciamento. Tive medo de que no final o livro a &#8220;abandonasse&#8221;. A impressão se dissipa quando ela ganha um capítulo inteiro para dar consistência a sua história. Só assim o livro pode chegar tão bem à cena final em que o pai leva a criança sem parecer o herói e, por sua vez, a mãe pode abdicar da obrigação &#8220;natural&#8221; de manter a filha sem parecer vilã.</p>
<p>Eu ainda poderia falar dos vários trechos que considero exemplos de uma observação muito fina da realidade, mas vou falar só de uma passagem para que esse e-mail não se transforme num livro. Na página 164, você escreve: &#8220;Então, o que é melhor? Perdoar a traição e continuar casado com a mãe de sua filha, com uma mulher que o deixava orgulhoso de si mesmo, ou romper? / Olhando para os peitos, a bunda e as pernas da jovem desconhecida, o homem sente falta antecipada desse orgulho e lamenta o sexo ultimamente morno entre ele e a mulher&#8221;.</p>
<p>A falta antecipada da esposa, sentida pela projeção do sexo com outra, é alguma coisa que explica o que é o sentimento amoroso em termos absolutamente palpáveis e, por isso, precisos. Como se uma parte desse sentimento que gostamos de achar misterioso fosse exatamente este &#8220;pressentir a falta da pessoa amada&#8221; ou ainda &#8220;pressentir falta dela projetando, na verdade, a falta de um status que ela a nos dava estando a nosso lado&#8221;. Nisso, é claro, você acabou dizendo muito dos personagens, humanizando esse homem sempre tão cristão e altruísta (então ele também se ressente de uma aparência perdida, não será somente a mulher). </p>
<p>De todo modo quando cito aqui o trecho é para dizer que esse tipo de observação está presente no livro todo e me impressinou por evidenciar a profundidade e a precisão da sua maneira de observar o mundo. É raro que um autor acerte tantas vezes no ponto quando faz isso, às vezes soa falso, às vezes excessivo. No &#8220;Outra vida&#8221; isso não acontece. Tudo se encaixa.”</p>
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