Sofrer para escrever | Entrelivros

Uma saúde precária, uma situação financeira calamitosa e traumas de todo o tipo deram à literatura russa o maior especialista na alma humana

Ao longo de sua vida, Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (1821-1881) conheceu um vasto cardápio de brutalidades, tragédias e vícios. Sua juventude foi marcada por pelo menos três traumas essenciais, que moldariam a sua sensibilidade e seu entendimento do mundo. E nisso não estou incluindo o temperamente irrascível e autoritário do pai, ou a morte da mãe, quando ele tinha apenas dezesseis anos. Ou a infância passada nas dependências reservadas para a família no Hospital Marisnki para os Pobres, no qual o pai trabalhava, em Moscou.

O primeiro deles, que o próprio Dostoiévski chamou de “minha primeira afronta pessoal”, ocorreu por volta de 1837, quando o jovem se preparava para ingressar na Escola de Engenharia de São Petersburgo. É assim narrado por Joseph Frank, o principal biógrafo do escritor:

“Pela janela, [os irmãos Dostoiévski, Fiódor e Mikhail] viram quando chegou, feito um furacão, um correio do governo, vestindo o imponente e rebuscado uniforme da época. O correio, um homem extraordinariamente robusto, correu até a estação para beber vodca, voltou rapidamente e pulou para dentro de uma nova tróica. Mal acabara de se instalar, levantou-se e começou a bater com os punhos na nuca do cocheiro, um jovem camponês. Os cavalos arrancaram em desordenado galope, enquanto o cocheiro os chicoteava freneticamente, e quando a diligência desapareceu ao longe só se viam os punhos do mensageiro subindo e baixando mecanicamente, num ritmo incessante, enquanto o chicote subia e baixava na mesma cadência.”

Quase trinta anos depois, o escritor registra numa carta: “Esta cena rápida era uma espécie de símbolo, por assim dizer, de algo que tinha um nexo de causa e efeito. Cada golpe no animal nascia de cada golpe desferido no homem. No final da década de 1840, na época dos meus sonhos mais transbordantes e apaixonados, subitamente me ocorreu a idéia de que, se algum dia viesse a fundar uma sociedade filantrópica [que no contexto russo da época significava “radical”], não deixaria de mandar gravar no sinete da sociedade, como emblema e lição, aquela diligência de correio”.

O segundo trauma essencial deu-se dois anos depois, durante o curso de engenharia. O pai, aposentado após a morte da mãe, retirara-se para uma pequena propriedade rural e tornara-se alcoólatra. De lá, mandara os filhos para boas escolas e sustentava seus gastos pessoais e com os estudos. Logo, porém, a ruína se instalou na fazendola do pai, que enfrentou colheitas piores a cada ano. A fome já ameaçava a ele e a todos os seus mujiques, os servos camponeses. Pelas cartas trocadas entre Dostoiévski e o pai, via-se que ele fazia constantes demandas aos depalperados cofres paternos, às vezes devido a gastos de fato importantes, mas outras devido a seu esforço em aparentar uma situação financeira melhor perante os colegas. É nesse contexto que, em 1839, o jovem Dostoiévski recebe a notícia de que o pai foi assassinado pelos camponeses de sua propriedade. O trauma é profundo. Fiódor tinha razões concretas para sentir-se culpado. O nexo de “causa e efeito” novamente se montou em sua cabeça: explorando o pai, obrigara-o a explorar seus camponeses.

Antes da tempestade

Entre o segundo trauma essencial de sua juventude e o terceiro, muita coisa aconteceu. Ele terminou os estudos e arrumou um emprego de funcionário público em 1843. Nos anos seguintes, deu seus primeiros passos na literatura, com uma tradução de Balzac e duas peças inacabadas. Até que, em 1846, publicou com sucesso seu primeiro livro, Pobre gente, uma fábula naturalista de evidente mensagem social, que o encheu de glória entre a intelectualidade russa. O maior crítico literário o elogia tanto que ele mesmo se pergunta: “É possível que eu seja tão grande?”.

Incentivado pelo sucesso, ele se demitiu do cargo público em 1844 e desandou a escrever para se sustentar. Entre 1846 e 1849 terminou e publicou nada menos do que onze obras, entre contos, novelas e pequenos romances. Entre os títulos dessa primeiríssima safra estão Noites brancas e Nietócha Niezvânova. Contudo, a fama e o sucesso precocemente conquistados se esvaem diante das críticas negativas.

Seu interesse pela essência do socialismo francês aproximou-o de algumas das tais “sociedades filantrópicas”, apesar de seu desencanto com a práxis do movimento. A partir de 1847, freqüentou o círculo do intelectual Mikhail Petrachévski, pródigo em críticas ao poder central e à Igreja Ortodoxa. Dois anos depois, o czar Nicolau I, preocupado com a onda revolucionária que ameaçava chegar a Rússia, manda prender todos os membros do círculo, inclusive os recalcitrantes, como Dostoiévski. O processo se arrasta por meses, enquanto os prisioneiros aguardam na fortaleza de Pedro e Paulo. “Aproveito conforme posso o tempo de que disponho”, escreve Dostoiévski ao irmão, “Já imaginei três novelas e um romance”. Finalmente, entre idas e vindas, o processo chega ao fim, mas da pior maneira: o escritor e seus colegas são condenados à morte.

No dia 22 de dezembro, os condenados são conduzidos à praça Semiônovskaia, onde a sentença seria executada. Eles sobem no patíbulo, são amarrados aos postes, vêem o pelotão alinhando-se à sua frente, apontando-lhes as espingardas, e então são vendados. “Fogo!”, grita a voz de comando. Segue-se um silêncio aterrador. Estranhamente, os tiros não ecoam. O que se houve são clarins, comandando a retirada do pelotão, e uma voz, anunciando: “Em sua inefável clemência, Sua Majestade, o czar, concede-vos a graça da vida”. Tudo não passava de uma encenação, um castigo extra, determinado pelo czar, antes de comutar a pena dos condenados; no caso de Dostoiévski, para quatro anos de trabalhos forçados em Omsk, na Sibéria, e mais um tempo indeterminado de serviço militar. Este foi o terceiro trauma essencial na juventude do escritor.

A Bíblia era a única leitura permitida aos prisioneiros, formados por ladrões e criminosos de toda a sorte. O convívio com escória da sociedade russa, à luz do Evangelho, reviraria o enquadramento ideológico do escritor para sempre. Ele escreveu: “Posso testemunhar que no ambiente mais ignorante e mesquinho encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva”; e consolidou seu espírito nacionalista, para o qual a solução dos problemas sociais russos não viria de modelos importados.

Mulheres e filhos

Também a vida amorosa do escritor foi atribulada, mas pode-se dizer que teve um final feliz, para variar. Seu primeiro grande amor foi a esposa tuberculosa de um amigo, a quem conhecera em 1854, enquanto cumpria a segunda parte de sua pena como soldado na pequena cidade de Semipalantinski. Quando Maria Dimítrievna fica viúva, um ano depois, se casam. No entanto, em 1864, quando ela morre, o escritor admite que o casamento nunca funcionara lá muito bem: “Ela amou-me sem limites e eu a amava também sem medida e, contudo, não fomos felizes; mas embora tenhamos sido verdadeiramente desgraçados, devido ao seu estranho caráter, receoso e morbidamente fantástico, nunca deixamos de nos querer, e quanto menos felizes éramos, mais apego tínhamos um ao outro”.

Uma segunda mulher importante em sua vida é Apolinaria Súslova, ou Paulina, jovem cortesã de dezesseis anos, entusiasmada com idéias progressistas e projetos literários. Ela deve ter se encantado com o escritor mais velho, ele viveu uma arrebatadora paixão sensual. Conhecem-se por volta de 1863, antes portanto de ele enviuvar, e nesse mesmo ano viajam à Europa. Mas ambos se traem mutuamente. Ele a ela, com o jogo, seu maior vício; ela a ele, com outro homem. Separam-se na Itália, como amigos, e o escritor, em outubro de 1863, volta a Rússia. Encontram-se novamente em 1866, novamente no exterior. Ele, já viúvo, pede-a em casamento, mas ela, por causa de outro amante, recusa.

A terceira e última mulher importante em suas vida, com quem afinal teria um segundo casamento, em 1867, chamava-se Ana Grigórievna e tinha 21 anos quando se conheceram, enquanto ele tinha 45. De início, problemas de todo o tipo atormentam o casal. Os sobrinhos do escritor, e a viúva de seu irmão Mikhail, que morrera em 1864, todos sustentados por Dostoiévski desde então, hostilizam sua nova esposa. Para ter um pouco de paz, o casal vai para o exterior. Mas a paz dura pouco. A filha que Anna esperava nasce e morre num intervalo de apenas três meses, em Genebra. Traumatizado, o casal viaja pela Itália. O casal teria mais três filhos, sendo que um morreria de epilepsia aos três anos. Contudo, ainda que marcado por tragédias desse tipo, entre outras, o casamento parece ter sido bem sucedido. Deu ao escritor a estabilidade emocional e doméstica mínima para produzir suas grandes obras da maturidade. E Anna, após a morte de Dostoiévski, não deixa dúvidas quanto a seu amor pelo marido, em cartas e no diário que deixou.

As doenças e o vício 

Duas doenças marcam a vida do escritor. A primeira, na garganta, acometeu-o logo após a morte da mãe, e acredita-se que teria afetado sua voz pelo resto da vida, tornando-a rouca e gutural. A segunda foi a epilepsia.

Embora alguns biógrafos registrem as primeiras manifestações da epilesia de Fiódor apenas mais tarde, há quem acredite em episódios anteriores, já na infância. Seja como for, a partir de 1846 os ataques epiléticos se fazem presentes e nunca mais o abandonrão.

Mas a principal “doença” na vida do escritor era o vício do jogo, era seu amor pelos cassinos da Europa, em especial os da Alemanha. Sua situação financeira, que nunca havia sido muito boa, poderia ter melhorado bastante ao longo dos anos se não fosse a sua capacidade de desperdiçar tudo o que lhe caía nas mãos, viesse de diantamentos de editores, de somas resultantes da penhora de seus objetos pessoais, dos bens de suas mulheres, de empréstimos de amigos, de saques do Fundo de Auxílio a Escritores etc. Passa a vida acossado por dívidas e perseguido por credores, e só na velhice conhece um pouco de estabilidade financeira.

O episódio mais incrível de sua crônica falta de dinheiro acontece em 1865. Em meados do ano, acossado por dívidas, aceita uma perigosa proposta: seu editor lhe pagaria três mil rublos pela publicação de suas obras, mais uma inédita, a ser entregue até 1o de novembro de 1866. Se não cumprisse tal exigência, reza a lenda, perderia definitivamente o direito sobre toda a sua obra anterior.

Em novembro de 1865, Dostoiévski queima a primeira versão do romance: “Uma nova forma, um novo plano me seduziram e recomecei tudo”. Contudo, os meses se passaram e faltando apenas trinta dias para o prazo junto ao editor se esgotar, ele ainda não tem o romance pronto. Decide então contratar uma estenógrafa para ajudá-lo, que viria a ser sua segunda esposa, Ana Grigórievna. Dita-lhe a novela O jogador, que está pronta no último dia do prazo. O editor, entretanto, desapareceu propositalmente, obrigando o escritor a autenticar a data do término da obra no comissariado de polícia e assim salvar seu maior patrimônio.

A obra

Nos quase dez anos que passou na Sibéria, Dostoiévski escreveu bastante. Destacam-se no período o romance Humilhados e ofendidos e sua diário da prisão Memória da casa dos mortos. Eles viriam a público em 1861, quando ele já readquira sua liberdade. Nesse mesmo ano Fiódor e o irmão obtiveram autorização para publicar uma revista literária e política chamada O tempo. A essa altura, insuflado por seu nacionalismo, Dostoiévski é a favor das reformas moderadas defendidas czar. Mesmo assim, a revista seria proibida em 1863.

No ano seguinte, tentando fazer dinheiro, refunda sua revista com outro nome, A época, mas ela morreria por falta de fundos em 1865. Ali, entretanto, publicaria Memórias do subterrâneo, obra que marcou seu amadurecimento literário e sua maior acuidade na observação dos mistérios da alma humana. Gradativamente Dostoiévski ia recuperando a reputação literária que perdera após Pobre gente e sobretudo depois de sua prisão.

Em 1866 publicou Crime e Castigo, que não lhe trouxe maior sucesso. Dostoiévski publicou O idiota, em 1868 e, em 1870, O eterno marido. Em 1871, o romance Os demônios é publicado. Em 1873, tendo começado a sofrer de problemas pulmonares, ele estréia como redator-chefe da revista O cidadão. O emprego não duraria muito tempo, pois logo no ano seguinte, após alguns problemas com a censura, ele abandonaria suas funções por questões de saúde, mas os artigos que continuou publicando – reunidos em Diário de um escritor – granjeiam-lhe fama, e fazem dele uma referência intelectual importante, membro de instituições literárias russas.

Ele começa a dividir seu tempo entre São Petersburgo e Staráia Russa, província onde o casal irá comprar uma casa, e o escritor faz algumas viagens à estação de águas de Ems, para se tratar. Em 1874 publica o romance O adolescente. Em 1875, uma terceira doença chega para encerrar sua biografia: o enfisema pulmonar. Em 1879, vem a público a última de suas obras-primas, Os irmãos Karamázovi.

Em 1880, Dostoiévski foi escolhido como representante da Sociedade Eslava de Beneficência na cerimônia de inauguração do monumento ao poeta Púchkin, o iniciador da moderna literatura russa. Seu discurso causa sensação. Ele está definitivamente consagrado.

Em 1881, cospindo sangue, o escritor cai de cama. Durante três dias, enfrenta grave crise pulmonar. No terceiro, diz à mulher que acredita em seu fim e pede-lhe a Bíblia. Abre o Livro ao acaso, e seus olhos recaem sobre um versículo do Evangelho de S. Mateus, que diz: “Não me retenhas”. Aos sessenta anos, no dia 28 de janeiro de 1881, às 20:38 da noite, morre de hemorragia pulmonar.

Como se vê, apesar de alguns momentos de felicidade e de uma quase normalidade em sua vida, Dostoiévski fez jus ao conselho que, certa vez, deu a um jovem escritor: “Para escrever bem é preciso sofrer, sofrer”.