Sobre Um toque de limão, de Julian Barnes
BELEZA SIMBÓLICA
Julian Barnes, autor da recém-lançada reunião de contos Um toque de limão, é normalmente incluído na micro-lista dos três ficcionistas mais importantes em atividade na Inglaterra, dividindo posição com Ian McEwan e Martin Amis.
McEwan é o romancista da incrível sensibilidade poética, cujo ponto de partida realista adquire beleza simbólica a todo momento. Amis é o rebelde, o autor dos livros-denúncia, o desafiador altivo do establishment literário, que já investiu até contra o próprio pai, Kingsley Amis, também escritor, mas fora de moda. Sendo assim, coube a Julian Barnes, nesta Santíssima Trindade, o papel do erudito. Por seus pais terem sido ambos professores de francês, por ele ter morado na França, estudado a língua e publicado um livro chamado O papagaio de Flaubert, Barnes ganhou o epíteto de “o mais francês dos escritores ingleses”. Segundo este raciocínio, em seu estilo ele conciliaria a clareza, prerrogativa supostamente anglo saxã, à “profundidade”, atributo alegadamente francês por excelência. Sua formação, assim duplamente qualificada, lhe teria dado, além do bom e velho talento narrativo, o tino para as grandes questões, e o aparato técnico mais moderno para lidar com elas (recursos de meta-linguagem, jogos de palavras, citações etc.). Como piada, o epíteto acerta 100%. Mas, e como crítica literária? Ele serve, por exemplo, para se entender este toque de limão recém-lançado? A resposta é: mais ou menos.
Ainda que em alguns pontos o epíteto se confirme, ele já não contém todas as chaves necessárias para a literatura de Barnes, e muito menos a palavra mágica para abri-la de vez. É sempre curioso ver o quanto, ao longo de um livro, ou de sua carreira, um escritor se aproxima e se afasta da imagem que fazem dele.
O novo livro se organiza em torno do um tema: a velhice. Muitas vezes implicando a proximidade da morte, daí o título (o limão é um símbolo funesto entre os chineses). Mas a velhice, em todas ai onze histórias, de um jeito ou de outro, e o eixo principal.
É Barnes quem diz, numa de suas entrevistas recentes: “Uma noção em particular que eu queria questionar é a idéia de que a terceira idade é uma época de serenidade. Para mim, os idosos são tão guiados pela emoção (e nem todas elas boas, ou úteis) quanto os jovens”. E ele vai mais longe: “Eu queria explorar o que acontece quando o coração, a mente e o corpo envelhecem, mas em velocidades diferentes. O que acontece quando o corpo se revolta contra o coração, ou o coração contra o corpo, ou a mente contra ambos?”
Ou seja, o desafio artístico que Barnes se colocou repousa, sobretudo, na sua capacidade de construir uma boa quantidade de pontos de vista sobre o tema eleito, revirando-o, analisando-o por vários ângulos, registrando suas diferentes manifestações. Para vencê-lo, precisava recriar, por meio de cada história e de cada personagem, pelo menos uma amostra considerável do infinito rol de emoções que a vida continua provocando em nós, quando velhos. Somente assim conseguiria “quebrar” a imagem estereotipada da velhice, vista como período de estéril e inexorável esfriamento emocional.
Tamanha variedade de pontos de vista, sobre um mesmo tema, não é coisa simples de se obter, para nenhum escritor. E nisso, que se diga, Barnes saiu-se muitíssimo bem. Os elementos que compõem as histórias são incrivelmente variados – cenários, grupos sociais etc.- e elas todas têm verossimilhança. Os personagens são muito diferentes entre si— no sexo, na idade, nos dilemas etc. —, e também todos ficam de pé.
Para obter esse efeito de autenticidade básica, direta -esteja ele escrevendo sobre um moribundo reprimido internado num hospital em Falum, no interior da Suécia, ou sobre um par de viúvas da classe média que idealizam seus falecidos esposos num salão de chá nos Estados Unidos -, Barnes nunca é didático, mas é quase. Os dados básicos para a compreensão do enredo, da biografia passada e presente do personagem, são sempre explicitados mais cedo ou mais tarde, em geral mais cedo.
Isso torna a leitura do livro, além de interessante, muito agradável. Barnes faz uma literatura de boa qualidade e fácil de acompanhar. Desta sua alquimia pessoal, que lhe dá o poder de construir narradores e protagonistas simples e bastante variados entre si, mas com boa com densidade e verossimilhança, certamente faz parte a “clareza”, alegadamente uma virtude inglesa
Já no quesito “profundidade”, tal como entendida pelos críticos e por eles apontada como uma distinção francesa, Barnes fica a meio do caminho. Em alguns contos ela se verifica. Mas em outros o escritor parece manter alguma distância em relação ao drama de seus personagens, ou então adiciona a ele algo que interfere em seu sentido dramático puro. De fato, embora sensível, Barnes não é nunca tão poético quanto McEwan, e nem seus mergulhos psicológicos são tão profundos. Não há, nele, uma aceitação humanista absoluta. Ele ainda é capaz de olhar criticamente seus personagens. Talvez seja um espírito crítico mais sutil que Amis, porém é critico assim mesmo.
E é exatamente a natureza desta crítica que o afasta, pelo menos neste livro, do epíteto com que o rotularam. Isso porque ela se apóia, sobretudo, no mais típico humor britânico; torto, ligeiramente perverso, ferino e elegante ao mesmo tempo. Nesse caso, seu conceito de “profundidade” não se assemelharia ao sentido “cabeça” que os francófilos dão à palavra, e sim, num nível menos escrachado, ao de um Thackeray e de um OscarWilde, dois reis das farpas, das frases maldosas e elaboradas.
Este elemento fundamental na obra de Barnes, embora comum a várias destas histórias, fica óbvio ululante no conto ‘Apetite”. Neste, um velho gourmet, doente e senil, é cuidado pela esposa transformada em enfermeira, que lê para ele, todos os dias, seus livros de receita preferidos. A cada frase da esposa, o velho, apresentado quase como um velho babão, repete o nome do último ingrediente, quase como um impulso neurológico primário. Mas então, de repente, ele interrompe a leitura e agride-a com as mais cruas ameaças sexuais. O perfil do personagem é tragicômico, quase satírico, e o efeito da alternância entre senilidade e fantasias brutais puxa também para a comicidade. É através dela que Barnes reconstrói o drama de seu protagonista Trata-se de um tipo muito inglês de profundidade – para uns leitores, parecerá mais leve e divertida que a dos franceses, para outros, menos ambiciosa. Mas é este elemento, enfim, o responsável pelo equilíbrio estilístico muito pessoal do escritor, neste mais que bom livro de contos.
[década de 2000, publicado no Correio Braziliense]