Sobre o Zicartola, de João Antônio
Sete Textos de Nostalgia
Não é fácil ser artista e viver da própria arte. Se a sua família, contudo, está na base da pirâmide sócio-econômica, como a de João Antônio estava quando lhe veio o desejo de virar escritor, as coisas ficam ainda mais difíceis. Seu pai, embora um trabalhador relativamente qualificado, levava sempre a pior nos negócios em que se metia, e a cada tropeço afundava um pouco mais a situação familiar. Sua mãe, uma dona de casa que mal sabia escrever, era incapaz de evitar a derrocada. Seu único irmão, mais novo, não tinha idade, nem recursos pessoais, para se sair muito melhor que a geração anterior. Resultado: além dos estudos, João Antônio logo precisou trabalhar para fazer algum dinheiro. Viabilizar a carreira de escritor, naqueles tempos, era uma hipótese remota.
Desde cedo, porém, seu amor pelas letras ficou evidente. Na infância, era ele quem lia a Bíblia para todos em casa. Na adolescência, chegava a passar noites em claro e fins de semana inteiros trancado no quarto, lendo os clássicos da literatura brasileira e mundial, cultuando os poetas espontâneos do samba, com destaque para Noel Rosa.
Foi assim, nas horas vagas do trabalho, então como redator publicitário, que lá pelos dezenove anos ele colheu sua primeira safra de contos. Junto com ela vieram os primeiros contatos, por carta, com pessoas do mundo intelectual e editorial. Estes contatos logo se multiplicaram, o que lhe permitiu a veiculação dos contos em cadernos literários e revistas de prestígio. Finalmente, em 1963, já bastante enturmado e com padrinhos poderosos no meio, conseguiu ser publicado em livro, aos 26 anos. Diante da ótima recepção crítica a Malagueta, Perus e Bacanaço – que reunia a primeira safra de contos mais o longo conto homônimo ao livro – o Jornal do Brasil convidou João Antônio para ser repórter-especial de seu famoso suplemento de cultura, o “Caderno B”. O novo emprego catapultou-o de Presidente Altino, na periferia de São Paulo, onde morava com os pais, até Copacabana, a dois quarteirões da praia.
Esta primeira fase de sua carreira é uma história de predestinação, afora uns empurrõezinhos que o próprio João deu no destino…
Mas o destino, em contrapartida, lhe pregou duas peças fundamentais, que mudaram o seu jeito de escrever e organizaram a maior parte de sua produção em torno de um sentimento predominante. São estas duas “armadilhas” que ajudam a entender a índole e a estrutura deste Zicartola.
A primeira armadilha: o sucesso de crítica permitiu a João Antônio trocar a redação publicitária pelo jornalismo, mas, como não veio acompanhado do sucesso de público, não lhe deu a estabilidade financeira que precisava para viver apenas escrevendo literatura. Ou seja, ele conseguiu ser escritor, mas não a ponto de viver da própria arte, e continuava dependendo de um emprego para se sustentar. Inevitavelmente, a carreira jornalística logo perdeu o glamour. Além de pagar mal, os textos seguiam padrões restritos, dando a João Antônio a sensação de ter voltado à condição de simples redator.
Diante disso, a opção mais lógica seria voltar ao esquema de antes: trabalhar o mínimo indispensável para pagar as contas e, nas horas vagas, escrever literatura. Mas ele não foi por esse caminho. Era teimoso demais para se conformar e sabia que uma outra forma de fazer jornalismo estava pairando sobre a sua geração. Ela havia aparecido nos EUA, anos antes, e chegaria com força ao Brasil no fim da década de 60. Era o Novo Jornalismo, que pregava o tratamento literário aplicado ao texto e pautas mais livres, menos presas a notícias de circunstância. Seguindo tais diretrizes, as fronteiras entre jornalismo e literatura diminuíam consideravelmente.
Como o emprego no Jornal do Brasil apenas raramente lhe permitia semelhantes experimentações, João Antônio decidiu mudar de vida. Quando seu único filho nasceu, trouxe a família para São Paulo, indo morar na chamada Boca-do-Lixo, e arrumou um emprego na revista Cláudia. Foi ali que, pela primeira vez, teve maior liberdade para escrever matérias que combinavam notícia e literatura. Talentoso como era, e esperto, logo fez contato com a equipe de outra revista que funcionava no mesmo prédio, a Realidade. Esta era uma pioneira em todos os aspectos: na seleção das pautas, no aspecto gráfico e, claro, no tratamento literário que os textos costumavam ter. Entre 1967 e 1969, João Antônio passou de colaborador eventual a membro fixo da revista. Esta foi a fase mais feliz de sua vida.
O regime militar, vitaminado a partir de 1968, embora tenha provocado o desmantelamento da primeira equipe de Realidade, reforçou no escritor a tendência a fundir literatura e jornalismo. A censura, na mesma medida em que cerceava o trabalho nas redações, involuntariamente conferia à literatura a responsabilidade de escrever o que os jornais não podiam, sobre os atores sociais que o regime desejava esconder. E João Antônio abraçou esta missão – tão afeita às suas necessidades financeiras e desejos particulares – em vários jornais e revistas, agora como free-lancer. Focando sua obra nos excluídos do Milagre Brasileiro, ou os “merdunchos”, como ele os chamava, fez uma literatura propositalmente impura, que se afirmava no “corpo-a-corpo com a vida”.
João Antônio procedeu, assim, uma explosão dos gêneros. Foi um longo processo, que abriu entre o primeiro e o segundo livros um intervalo de doze anos. Nesse meio tempo, ele abandonou o formato mais tradicional do conto e o registro ficcional clássico, que o haviam tirado do anonimato, e aplicou sua prosa estilizada ao dia-a-dia das cidades e do país. O caráter de seus escritos tornou-se indefinido.
A primeira armadilha do destino – a impossibilidade de tirar seu sustento dos direitos autorais, não obstante a boa recepção na estréia e seu novo lugar social –, ainda que o tenha obrigado a abandonar os projetos literários stricto sensu, por outro lado lhe mostrou a conveniência financeira e histórica de fundir registros diferentes em sua obra. E mais: ao levá-lo a proceder tal fusão, habilitou-o ao título de expoente da chamada Geração 70, tanto pelo destaque de seus textos na imprensa quanto pela relativa ampliação do público de seus livros.
Sua literatura nunca mais voltaria a ser a mesma. Este Zicartola, quase todo já da década de 80, traz fartos exemplos disso, entre os quais “Feira”, “Santas Teresas”, “Zicartola” e “Querida Praça XV”. Estes textos não são bem contos, nem crônicas, e só funcionam como reportagem de acordo com as circunstâncias. São, pura e simplesmente, textos.
Em compensação, a segunda peça que o destino lhe pregou foi triplamente dolorosa, e não teve solução conciliadora, muito menos final feliz. O processo de ascensão social que viveu graças à atividade literária, se o aproximou de camadas mais altas da pirâmide social, não foi nem de longe suficiente para transformá-lo num dos privilegiados. Mas foi, entretanto, suficiente para afastá-lo – intelectual e, pior ainda, emocionalmente falando – de suas origens no mundo proletário. Ele nunca as renegou, foi um processo de transformação involuntária. O fato, porém, é que João Antônio, no fundo, virou um homem sem lugar, um cidadão sem classe.
Além disso, o submundo que conhecera na juventude e no início da vida adulta foi se deteriorando, a ponto de provocar nele próprio um dilacerante estranhamento. Os marginais à moda antiga, de sapato e terno brancos, que ele idealizava e nos quais apontara, via literatura, uma graça e uma grandeza antes desconhecidas, foram sendo substituídos pelos criminosos urbanos que conhecemos hoje, impermeáveis a qualquer romantização. O tempo em que criminalidade e boemia artística conviviam foi acabando, um fosso se abriu entre os dois mundos. Também nesse aspecto João Antônio ficou deslocado.
Para culminar, o sucesso que a forma literária híbrida desenvolvida por João Antônio teve durante os final dos anos 60 e durante toda a década de 70, enquanto o combate à ditadura e o Novo Jornalismo mobilizavam os leitores e a intelectualidade, começou a minguar a partir de 1980. A linguagem estilizada, com sua sintaxe não subordinada à objetividade e seu vocabulário inusual, deixaram de ser usados no jornalismo. De outro lado, se antes a matéria jornalística recebia um tratamento formal literário, agora era a matéria literária que recebia um tratamento jornalístico. Sobretudo quando o assunto eram os “merdunchos”, a força da nova onda literária estava exatamente no despojamento da linguagem e no máximo de realismo, algo muito distante do refinamento estilístico e do lirismo dos textos de João Antônio.
Tudo isso conferiu à obra de João Antônio, até o fim da vida, um sentimento predominante: a nostalgia. Em Zicartola, essa nostalgia ora ranzinza, ora lírica, mas onipresente, aparece em sete de suas manifestações, uma para cada conto do livro. Há, aqui, a nostalgia da vida quase rural na periferia da maior metrópole brasileira, em “O Morro da Geada”; a das raízes culturais do povo brasileiro, na cama, na mesa e nas artes, em “Feira”; a da sociabilidade quase interiorana e ainda existente num bairro do Rio Antigo, em “Santas Teresas”; a da nobreza austera da velha guarda do samba carioca, infiltrada pelos “fariseus” da classe média da zona sul, em “Zicartola”; a que reage contra a degradação urbana na “Querida Praça XV”; a do tempo menos acelerado que Salvador, a capital bahiana, conservou, em “E Que Tudo Mais Vá Para o Inferno!”; e, finalmente, a das lembranças de cinéfilo que sua adolescência e juventude lhe deixaram, em “Vibrações, Poeiras e Pulgueiros”.
Apenas recentemente a obra de João Antônio voltou a receber o justo apreço do público e da academia. Pena que ele não esteja mais por aqui. Veria o quanto tinha razão ao dizer a si mesmo, tentando se convencer: “Calma, minha memória. Nem tudo é lata velha e ausência doída. Alguma coisa ficou dos bons tempos”.
[2007]