Sobre O subterrâneo do morro do Castelo, de Lima Barreto

\Lima Barreto, em primeiras obsessões.


Em “ O Subterrâneo do Morro do Castelo”, a prosa ligeira anuncia o grande escritor, embora guarde traços do esteticismo literário vigente. 

Nada como um texto de formação, esquecido por décadas e subitamente  resgatado, para que se encontre a pedra bruta em cima da qual um escritor veio a lapidar sua visão de mundo e seu estilo literário. O Subterrâneo do Morro do Castelo oferece aos conhecedores da obra de seu autor, Afonso Henriques de Lima Barreto, ou, simplesmente, Lima Barreto (1881-1922), exatamente essa ambígua sensação de estranhamento e reconhecimento.

Os textos que agora vêm compor o volume foram publicados de 28 de abril a 3 de junho de 1905, no jornal O Correio da Manhã, quando seu autor tinha apenas 24 anos. Eles se dividem em dois planos narrativos, diferenciados de várias formas, mas cujo tema central e a ordem alternada de publicação tratariam de unificar.

O tema responsável por conferir unidade ao volume seria a descoberta de galerias subterrâneas sob o convento jesuíta instalado no alto do Morro do Castelo, no Rio de Janeiro. Isso de fato ocorreu, em 26 de abril de 1905, durante as obras de construção da Avenida Central, atual Avenida Barão de Rio Branco, no centro da cidade. O interesse do tema para os contemporâneos era a suspeita de que os jesuítas, ao serem expulsos do Brasil 200 anos antes, tivessem escondido parte dos tesouros da Ordem nos subterrâneos do convento, aguardando um bom momento para resgatá-la.

O primeiro plano narrativo é, portanto, pretensamente jornalístico. Acompanha as escavações no morro a partir da descoberta da primeira galeria subterrânea e inventaria as movimentações das autoridades públicas em torno das escavações e suas expectativas de resgate do tesouro jesuítico. Nesse plano narrativo, estão patentes três características importantes da obra posterior de Lima Barreto. Uma delas é a ironia em relação aos poderosos, que garante boas risadas até hoje. Outra é a defesa do patrimônio público, uma obsessão desse escritor que se tornou um porta-voz das classes populares. A terceira é a prosa mais ligeira que o normal da época, construída de forma menos rebuscada, preocupando-se menos em obter uma sonoridade retumbante e um ímpeto grandioso.

Nesse primeiro plano narrativo, sempre sob o disfarce da prosa jornalística, se constrói uma trama de investigação, na qual o narrador encontra um pesquisador erudito capaz não apenas de confirmar a existência de tesouros escondidos no subsolo carioca, mas também de reorientar as escavações no sentido de acelerar a chegada à galeria onde estariam escondidos. É num dos manuscritos possuídos por esse pesquisador que está a ponte para o segundo plano narrativo.

Este se abre sob a forma de um documento do século 18, escrito em italiano, que narra um triângulo amoroso entre a anti-heroína d. Garça, um ex-cortesão convertido em jesuíta e o comandante da esquadra francesa que invadiu o Rio de Janeiro em 1710. Aqui não temos nenhum resquício da acidez e da ironia que marcam o quadro anterior mas sim um tom desbragadamente folhetinesco. Pode-se encontrar todos os elementos obrigatórios do gênero, até mesmo as fórmulas clássicas de fecho, criando suspense para a leitura no jornal do dia seguinte, do tipo “amanhã contaremos aos leitores esta bizarra e maravilhosa história”.

Neste segundo plano, não apenas a estrutura da narração se adapta ao gênero do folhetim, mas também a linguagem sofre modificações. Uma vez que a entrada para o segundo plano narrativo é um documento de época, é preciso que seu tom evoque a época na qual se passam as ações descritas. Lima Barreto aborda essa mudança de registro explicitamente. “Guardando no tom geral da versão o modo de falar moderno – embora imperfeito para exprimir paixões de dois séculos atrás, aqui e ali, procuramos com um modismo, uma anástrofe, ou com uma exclamação daquelas eras, tingir levemente a narração de um matiz arcaico”, justifica-se.

Suspeita-se que Lima Barreto já tivesse feito esboços da história de d. Garça antes de sua aparição nas páginas de jornal, em 9 de maio de 1905, 11 dias depois da estréia do folhetim. A história esboçada anteriormente teria então sido aproveitada para vir a compor o segundo plano do folhetim. Entretanto, O Subterrâneo do Morro do Castelo teve sua publicação interrompida pouco mais de um mês depois de sua estréia, o que leva a crer que sua recepção na época tenha sido ou má ou péssima. Algumas hipóteses poderiam esclarecer esse desastre comercial.

Uma possível explicação seria a falta de uma trama sólida no primeiro plano narrativo. O contato com o misterioso possuidor de manuscritos é por demais automático, simples e descomplicado para render as atrapalhadas costumeiras à literatura do gênero. No mais, o que se tem são ou descrições repetitivas do andamento das escavações ou então farpas e mais farpas contra as autoridades públicas da época. Interessantes se olhadas retrospectivamente e entendidas dentro do universo criativo de Lima Barreto, mas por demais panfletárias e inconseqüentes para os leitores de então.

Talvez também a mistura de linguagens tenha contribuído para que esse folhetim não decolasse. No primeiro plano narrativo, a linguagem despojada de Lima Barreto já está presente, mas ainda não está inteiramente coesa, amadurecida. Aqui e ali as frases guardam ainda lugares-comuns pobres para o seu gênio posterior e ainda reproduzem traços do esteticismo literário da época, e que o próprio Lima Barreto mais tarde viria a condenar tão veementemente, funcionando assim como uma espécie de profeta do modernismo. Diz ele, quando o engenheiro da obra atinge a galeria principal: “O engenheiro Dutra pronunciou o Sésamo, abre-te naquela furna de Ali Babá; a sua picareta demolidora foi a varinha mágica que tirou o encanto do morro, despedaçando o modelo resistente, abatendo com fragor grandes moles de granito, levando a eletricidade irreverente ao soturno âmbito dos subterrâneos, onde a voz humana ecoa hoje…” Isso certamente não é o melhor que Lima Barreto produziu.

De outro lado, no segundo plano narrativo, a estratégia de salpicar o texto com um sabor de português arcaico soa ainda mais artificial. “Os quatro remeiros, em língua indiática onde se misturam vagas sonâncias portuguesas, entoam uma melopéia nostálgica.” Precisa dizer mais? O jovem escritor ainda faria muitos progressos até o ano de 1909, quando lançou seu primeiro romance, o notável Recordações do Escrivão do Isaías Caminha, que aliás satirizava sua experiência no Correio da Manhã, e cuja conseqüência prática imediata foi sua demissão sumária do jornal. 

Finalmente, para os leitores de hoje; há ainda mais um porém a se fazer. Como n3o teve sucesso, o folhetim provavelmente foi interrompido às pressas. Isso se pode deduzir tendo em vista o pouco desenvolvimento que tem a trama do primeiro plano narrativo e a precipitação dos acontecimentos na trama do segundo. Mesmo a costura entre os dois planos narrativos fica prejudicada, pois embora as galerias subterrâneas apareçam na história de d. Garça sua importância lá é quase nenhuma, entretanto que, na seqüência de pseudo-reportagens, a procura pelo tesouro nelas escondido é a única coisa que sustenta a narrativa.

Conhecendo a índole de Lima Barreto seu justo ressentimento pela discriminação que sua pele mulata sofria, seu purismo ideológico e artístico, que o fariam colocar como condição essencial a todo escritor “a mais cega e absoluta sinceridade”, não deve ter sido fácil engolir o orgulho e aceitar a tarefa de escrevei um folhetim. Ele escreveria apenas mais um até  morrer, Clara dos Anjos, 18 anos depois desse. Poder-se-ia até especular se o recurso à linguagem arcaica tanto em algumas passagens do primeiro plano narrativo mas sobretudo no segundo não foi uma provocação subliminar dos amantes do gênero do folhetim e do parnasianismo formal. Mas, pior que produzir um folhetim, é fracassar ao produzi-lo. Que danos tal fracasso teria produzido no ego já vulnerável de Lima Barreto? Jamais saberemos ao certo. Para os leitores de hoje, o livro vale como uma curiosidade, um tubo de ensaios no qual se forjou uma das vozes ficcionais mais autênticas e “modernas” de toda a nossa literatura.



JORNAL:  Jornal da Tarde – SP
DATA: 06 de dezembro de 1997
SESSÃO: Caderno de Sábado
PÁGINA: 7