Sobre o romance Antonio, de Beatriz Bracher

\Texto de apresentação para o livro Antonio, de Beatriz Bracher

Nos seus dois primeiros romances, Beatriz Bracher demonstrou conhecer bem diferentes formas de narrar. Em Azul e dura (2002), a protagonista que nos conta a história é ora escandalosa, ora atormentada, ora emocionada, mas sempre direta. Já em Não falei (2004), o professor-narrador é um ímã tortuoso. Suas divisões interiores dificultam a compreensão de sua personalidade.

Agora, em Antonio, a autora aprofunda seu trabalho de dissolução da voz narrativa. De saída, eliminou o narrador em primeira pessoa. Não se contentando em adotar um narrador externo (onisciente ou não), ela pegou a voz que sempre dava aos protagonistas e distribuiu-a entre os demais personagens, emudecendo quem antes falava sozinho.

Neste novo livro, Benjamim, o protagonista, ao descobrir por acaso um grave segredo familiar, decide saber dos envolvidos exatamente como tudo se passou. Três deles já morreram: sua mãe, Elenir, seu pai, Teo, e seu avô, Xavier. Mas três ainda estão vivos: a avó, Isabel, Haroldo, o melhor amigo de seu avô, e Raul, o melhor amigo de seu pai. É de suas bocas, capítulo por capítulo, que ele escutará a história de sua família.

Essa estrutura, em que mais de uma voz conta a mesma história, é sempre de difícil execução. Beatriz Bracher, porém, consegue um ótimo resultado. Ela evita diferenças psicológicas esquemáticas e traços de fala óbvios demais em cada um de seus personagens. Assim, preserva a autonomia dos narradores e não deixa a atenção do leitor ser devolvida a um narrador único, o escritor, o que desmontaria toda a graça.

Nessa tensão de uma trama narrada em diferentes versões, nas quais os fatos deslizam entre a memória e a história, o protagonista e os leitores de Antonio se vêem, curiosamente, na mesma condição: a de ouvintes emocionados, incapazes de tomar a palavra.

“Na família somos um eu-mesmo esparramado e complexo” – avisa a avó do jovem-adulto Benjamim. Ele, entretanto, insiste. Na iminência da paternidade, precisa conhecer e dominar os paralelismos trágicos entre o avô e o pai, protegendo a si próprio e ao filho, Antonio, que está para nascer e a quem, em última instância, este relato também alcança.

A linhagem familiar, num sentido muito além do aristocrático, pode servir a Benjamim como chave para a compreensão dos diferentes planos da vida humana: das características físicas às relações sociais, passando pelos sentimentos e pelas idéias. Nessa busca, para que a linhagem se forme, é preciso que passado, presente e futuro se tornem uma coisa só. A história de Benjamim é também a história de sua família, antes e depois de sua vida.

Esse viés totalizante não rejeita as peculiaridades históricas – políticas, comportamentais etc –, porém redimensiona-as no âmbito dos conflitos familiares. Os pais dos anos 40, em crise com os filhos jovens nos anos sessenta, que são os pais dos anos 80, em crise com os filhos e com a sua própria condição, e por aí vai, tanto para frente quanto para trás na árvore genealógica.

Embora a linhagem que o protagonista procura reconstituir não tenha nem começo nem fim, ela tem seus pontos de inflexão, nos quais a passagem do tempo se afirma. Viagens, rupturas, casamentos, e, acima de todos, o nascimento e a morte.