Sobre O informe de Brodie, de Jorge Luis Borges

\O livro dos duelos


Num de seus últimos livros de contos, Borges reúne 11 histórias de duelo, em que o realismo e a narrativa simples e direta às vezes encobrem um contato com o mundo mítico dos pampas 

Jorge Luís Borges publicou O informe de Brodie em 1970, quando tinha 71 anos. No Brasil, sua tradução mais recente, e a melhor, é assinada pelo escritor, crítico e estudioso da literatura argentina Davi Arrigucci Jr. No prefácio que escreveu para o livro, o escritor argentino diz ter se inspirado no estilo de um de seus autores preferidos, o inglês Rudyard Kipling. “Aquilo que um jovem genial concebeu e executou pode ser imitado sem imodéstia por um homem à beira da velhice, conhecedor do ofício”, admite Borges.

O que ele assumidamente busca recriar é um estilo narrativo despojado, simples e direto, cujos contos almejam “distrair ou comover, e não persuadir”. De fato, as 11 narrativas que compõem O informe de Brodie são, efetivamente, curtas e aparentemente simples. Os enredos se desenvolvem linearmente, a partir de pontos de vista ou explicitados pelo autor ou, no mínimo, logo identificáveis. O tom geral é de conversa com o leitor. Em vários contos, inclusive, Borges é ele próprio, um escritor a quem as pessoas vêm contar suas histórias por saber que ele se encarregará de passá-las adiante, isto é, de mantê-las vivas. Quando porventura há dois narradores, a passagem de um para o outro é anunciada com absoluta clareza, sem exigir do leitor nenhum grande esforço ou sensibilidade para acompanhar tal passagem.

Mas também é importante perceber que, apesar dessa “simplicidade” intencional ser apresentada como uma novidade, o livro guarda características comuns a muito do que Borges escreveu antes. Duas merecem destaque. A primeira é a reelaboração de certa mitologia do passado rural argentino, que atualiza uma forte linhagem literária do país. A maioria dos personagens transita no espaço, entre o campo e a cidade, e também no tempo, entre as últimas décadas do séc. XIX, ou as primeiras do XX, até o momento da narrativa, no qual chegam em geral por intermédio de seus descendentes, ou de seus antigos conhecidos, ou pela fama de seus atos. Tais evocações recuperam um código que valoriza a coragem individual, a masculinidade e a têmpera diante dos golpes do destino. Por isso as histórias falam de laços de amizade e de ódio, de renomados pistoleiros e de duelos mortais.

A tensão entre o mundo real e o mundo literário é um segundo elemento característico da obra de Borges a reaparecer. Embora no prólogo ele afirme que estes contos são “realistas”, que seguem as “convenções do gênero”, logo nos alerta que nada é simples em literatura, e que as histórias são deturpadas pelas versões. Um narrador está sempre sujeito à “tentação literária de acentuar ou acrescentar algum pormenor”. No conto “História de Rosendo Juárez”, o protagonista chega a procurar o escritor para corrigi-lo e dar os motivos reais de ter fugido do duelo.

Sete duelos 

De saída, seria importante dizer que este é, essencialmente, um livro de duelos. Quase todas as histórias se articulam em torno do confronto entre dois personagens. Em “A intrusa”, dois irmãos, vaqueiros másculos e acostumados a dividir tudo, inclusive a própria identidade, pois eram chamados de “os dois vermelhos”, devido a seus cabelos ruivos, passam um dia a compartilhar o amor por uma mulher. Um deles chega a dizer, quando numa oportunidade estava de saída: “Deixo aqui pra você a Juliana; se quiser, pode abusar dela”. Contudo, aos poucos, o ciúme começa a se insinuar entre eles. Temendo o ódio que pode nascer daí, decidem expulsá-la de casa, levando-a para um bordel. Mas isso ainda não basta, pois, um escondido do outro, eles continuam a visitá-la. A solução que acabam encontrando é radical, ou melhor, mortal, e Borges encerra a história dizendo: “abraçaram-se chorando. Agora outro vínculo os unia: a mulher tristemente sacrificada e a obrigação de esquecê-la”.

 Em “História de Rosendo Juárez”, o protagonista procura o escritor para deixar bem claros os motivos que o fizeram largar a vida de pistoleiro. Ele conta então que vencera um primeiro duelo de morte, assim afirmando sua força e coragem. Ao invés de ser preso, foi beneficiado por um arranjo das autoridades, que lhe arrumam um trabalho de guarda-costas. Mas a vida continuou a testar sua masculinidade, com uma situação de duelo se apresentando após a outra, sem que jamais ele pudesse ter paz. Finalmente, Rosendo se convence que: “Não tenho medo de passar por covarde. (…) Para me salvar daquela vida, me mandei para o Uruguai, onde me tornei carroceiro”.

Duelos são também o tema principal de outros contos. “O encontro” mostra um jogo de pôquer que leva dois amigos a duelar; “Juan Muranã”, um credor inclemente enfrentando o vingador de uma família necessitada; “O duelo”, duas pintoras que acompanham a carreira uma da outra com mal disfarçado espírito competitivo; “O outro duelo”, dois homens passando a vida presos pelo ódio que sentem um pelo outro; e finalmente, “Guayaquil”, no qual dois historiadores disputam o privilégio de ir buscar e transcrever um inédito e importante documento histórico.

Escapadas fantásticas 

Apesar da alegada adesão às convenções do gênero realista, Borges admite que duas das histórias de O informe de Brodie podem ser lidas como fantásticas. Ele, em seu prólogo, faz mistério sobre quais são, mas sempre é fácil arriscar um palpite. Os vaqueiros que decidem duelar por causa do jogo de pôquer, em “O encontro”, pegam emprestado duas facas de uma coleção existente na casa. Anos depois, uma testemunha do duelo descobre que as facas haviam pertencido a arruaceiros famosos, inimigos um do outro, e conclui: “as armas, não os homens, duelaram. Tinham dormido, lado a lado, numa vitrine, até que as mãos as despertaram”.

A outra história passível de ser lida como fantástica seria “Juan Muraña”. Também aqui uma faca parece determinar os atos de seu proprietário, pois ela parece ser capaz de dominar e dar força à viúva do pistoleiro Juan. Ela, quando sua família está falida e prestes a ser expulsa da casa que alugava por falta de pagamento, assassina o senhorio impiedoso com a mesma adaga que pertencera a seu falecido esposo.

Ao continuar listando suas escapadas do registro realista, Borges afirma que o conto-título é o mais fantasioso de todos. O texto fala de um bibliófilo que se propõe a traduzir o manuscrito de um missionário escocês chamado David Brodie. Nele, os costumes de um povo primitivo são descritos com fino humor: “Para se chamarem, jogam lama uns nos outros. (…) Escondem-se para comer ou fecham os olhos: o resto fazem à vista de todos, como os filósofos cínicos”. Ainda que a história se volte contra a sociedade atual, por um paralelismo que todo leitor estabelece, qualquer fachada realista de fato desaba diante dos absurdos relatados pelo escocês.

Por fim vale citar ainda o conto “O evangelho segundo são marcos”. É a história de um jovem da cidade acidentalmente isolado numa fazenda e obrigado a conviver com uma família de rudes camponeses. Como passatempo, lê para eles o evangelho. Ao final, os camponeses realizam uma trágica crucificação, ao que parece acreditando trazer para o mundo concreto a purgação dos pecados prevista nas Escrituras. Como se vê, mesmo num livro auto-denominado realista, Borges afirma a predominância do literário perante o real de várias formas.

[2009, publicado em O Estado de S. Paulo]