Sobre O animal agonizante, de Philip Roth
Hedonismo e Erudição
O animal agonizante, novo romance do americano Philip Roth, traz de volta um dos assuntos preferenciais do escritor, o erotismo—seu primeiro grande sucesso, O complexo de Portnoy (1969), não por acaso é uma das primeiras elaborações que fez sobre o tema. E traz de volta também o personagem David Kepesh, que já havia aparecido em dois trabalhos anteriores, O seio (1973) e O professor do desejo(1977).
Kepesh é um professor universitário, da área de Letras, elevado à condição de crítico de arte televisivo, muito culto e sensível para as mais diversas formas de fruição estética. Afora sua especialidade acadêmica, ainda é capaz de citar os nomes de muitos pintores, tocar peças dos maiores compositores no piano, etc. Nascido nos anos 30, foi casado e teve um filho, construindo uma típica vida familiar até a Revolução Sexual dos anos 60 e 70. Ele, então, aproveita o fato de ser um professor relativamente jovem, trabalhando em contato direto com a nata dos revolucionários – seus alunos e alunas em plena apoteose hormonal, e rompe com o bom – mocismo do casamento, afastando-se inclusive do filho. Dedica-se desde então a cultivar seu gosto pelas mulheres, que é requintado como os demais. Também sobre elas seu olhar é o de um crítico esteta; um olhar em busca da beleza, mas com o necessário distanciamento. Coleciona casos com suas alunas como coleciona discos, livros e partituras; são itens de sua erudição essencial. Orgulha-se de ter se libertado das fantasias românticas que subordinam homens e mulheres a vínculos afetivos castradores, e de ter sido capaz de impor, em sua vida, sua tese: a supremacia do desejo sexual sobre todos os outros vetores humanos.
Mas, como diz o título, o animal está agonizante. Nesta sua terceira aparição, Kepesh tem 70 anos, e o jogo sexual está prestes a fugir do seu controle, em mais de um sentido. Primeiro, num sentido físico geral. Segundo, por causa de uma de suas alunas-amantes, Consuela Castillo, de 30 anos. Eles se conheceram e tiveram um caso oito anos antes, quando ele era um homem de 62 anos e ela, uma jovem de 24. Filha de ricos cubanos fugidos da revolução, que se adaptaram precariamente à vida na classe média americana, Consuella não era uma aluna de especial brilho, pelo contrário. Tinha in seguranças de vários tipos. Mas seu corpo era escultural e seus seios, prodigiosos. Reencarnação universitária multicultural de Afrodite, a deusa da beleza, ela conseguiu pôr Kepesh de joelhos, uma primeira vez desde que ele se divorciara. Tempos depois, Consuella decide romper, e a fragilidade inédita na convicção de Kepesh aparece. Incrivelmente, para um mestre do sexo sem amor, a jovem cubana faz falta. Ele cura a súbita crise de carência à base de doses maciças do próprio alimento da sua vida de solteirão, a arte. Agora, passados mais quatro anos, Consuella volta a procurá-lo, confrontando-o, surpreendentemente, e de forma talvez inescapável, com o poder do tempo, do envelhecimento e do medo.
Kepesh nos conta tudo isso em forma de monólogo, na maior parte do livro. Quando outras pessoas falam, é sempre ele lembrando o que disseram. Em certo ponto, no entanto, passa a reagir a falas de um interlocutor desconhecido. Deduzimos o que ouviu pelas repostas que dá, mas não ouvimos a voz externa a ele.
Este interlocutor misterioso jamais será nomeado. E só ouviremos sua voz no fim, quando a decadência física que lentamente consome a Kepesh, num avanço repentino e brutal, se manifesta no mais belo corpo de mulher que ele vira em toda a sua vida. Neste momento, sua convicção na assepsia emocional e na primazia da sensualidade fica prestes a desmoronar. Seu impulso, depois de décadas, é novamente o de se relacionar com Consuella para além do campo sexual. Mas a voz misteriosa o alerta: “Se você for, pra você é o fim”.
Se estender a mão à ex-namorada atingida pela fatalidade, se quebrar a coerência de seu discurso egocêntrico, retomando a uma concepção amorosa que transcende o sexo, talvez nunca mais consiga voltar para a solidão auto-suficiente outra vez. Ligando-se a Consuella, pode vir a perdê-la em seguida e sofrerá nova crise de carência, ou pode ficar com ela e ser privado de seu descomunal amor-próprio. Em ambos os casos, para ele, isso será “o fim”.
Mas Kepesh sabe que seu dilema é ainda pior. Ele sabe que o tempo é um ladrão implacável, pronto para lhe roubar a potência sexual mais dia menos dia. E ao perdê-la, perderá o que acredita ser a essência da vida. Então, já sem laços afetivos por escolha, ele não terá o sexo como fonte vital. Sua vida inteira, apostada na ausência de vínculos, correrá o risco de se tornar um gigantesco vazio; no final, decerto, mas também, quem sabe, olhada em retrospectiva.
Todo este dilema Philip Roth monta magistralmente, à medida que constrói o personagem, por meio de seu próprio monólogo. Enquanto narra, Kepesh aplica no leitor as mesmas estratégias que usa na vida: as exibições cafajestes da sofisticação intelectual com que seduz suas alunas; as associações culturais “espertas”, que nivelam referências eruditas a outras pop, típicas de um professor de cursinho, ou de um intelectual televisivo; as aulinhas entremeadas ao discurso, quando assume um tom professoral; a arrogância com que julga os que ainda não se “libertaram” sexualmente; um empobrecimento intencional do vocabulário, que o deixa no limite da vulgaridade.
O efeito colateral da maestria estilística de Roth é que, aos olhos do leitor, Kepesh periga se tornar um narrador intragável. Sua ideologia, no que se refere à relação entre homem e mulher, é de um primarismo afetivo quase infantil. Para ele, só existe um tipo de relação, aquela na qual há o dominador e o dominado. Não se coloca a possibilidade da alternância; ele, como todo bom inseguro, precisa desesperadamente se afirmar a todo instante. Além disso, a seus olhos, os vínculos afetivos são sempre castradores. A idéia de uma paixão libertadora lhe soa como uma impossibilidade. As relações estáveis não devem começar, pelo simples fato de que um dia devem terminar. A felicidade que se pode alcançar no meio tempo – para muitos mais completa que a do sexo puramente predatório – não existe para ele. Kepesh não resistiria a outro amor, a outro filho, a outro divórcio, e assim por diante. Seu concepção de si mesmo é estática (por isso o envelhecimento o agride ainda mais), e sua concepção de mundo é binária, maniqueísta, cretina.
O animal agonizante, portanto, é um bom romance, cuja voz narrativa é excepcionalmente bem construída, mas que exige leitores de estômago forte. Porque o narrador é um babaca.
JORNAL: Correio Braziliense
DATA: 19 de agosto de 2006
SESSÃO: Caderno Pensar
PÁGINA: 6-7