Sobre A Madona do futuro, de Henry James
Henry James e a histeria da influência.
Conto do autor busca inspiração em Balzac para abordar o choque entre a arte do passado e o espírito moderno. Por Rodrigo Lacerda.
A Madona do Futuro, do escritor americano no Henry James (1843-1916), é um conto publicado pela primeira vez em 1873, e que sofreu inúmeras revisões até 1908, quando foi incluído pelo autor na seleção de seus contos preferidos e/ou mais representativos. Agora publicado no Brasil, esse conto vem reforçar a imagem cult que caracterizou toda a carreira literária de seu criador.
Henry James nunca foi um autor propriamente popular. Seus livros eram apreciados pelos entendidos. A razão mais forte para esse fenômeno, provavelmente, foi a extrema sutileza de sua escrita. Ele foi um pioneiro na inversão básica que caracterizaria a literatura do século 20, a qual consistiu no abandono dos imbróglios farsescos e dos personagens simples, quase tipos, e que privilegiou tramas simplificadas, extraídas do cotidiano, a serem recheadas pelas nuanças psicológicas dos personagens. O resultado dessa vocação inovadora foi que, para a maioria dos leitores de seu tempo, seus personagens pareciam escarafunchar demasiadamente a própria psique, em prejuízo do drama que estava sendo narrado, ou, nas palavras do também romancista H. G, Wells, pareciam “…um magnífico mas sofrido hipopótamo decidido, a qualquer custo… a. pinçar uma ervilha agarrada entre os seus dentes”.
Em contrapartida, para cabeças mais avançadas, como o poeta Êzra Pound, ou a escritora Gertrude Stein, os livros de Henry James eram admiráveis retratos das sociedades da época; do papel que as mulheres nela exerciam; dos dilemas mais profundos da consciência; do choque entre a tradição cultural européia e a força moral dos americanos, etc.
É justamente esse choque entre a arte do passado e o espírito moderno o tema de A Madona do Futuro. Um turista americano, em viagem a Florença, trava contato com um auto-intitulado gênio da pintura. O homem também é americano, porém já está inteiramente transplantado para a cultura européia, dominado por seus modelos e referências. Ele se diz capaz de, sob a influência dos mestres renascentistas e de sua musa, reproduzir a suprema beleza das pinturas de outrora. O turista oscila entre acreditar no seu gênio e desconfiar da obra-prima nunca realizada. Durante vários dias, os dois passeiam por Florença, com o pintor assumindo o papel de guia e comentador, enquanto conversam sobre arte, sobre as dificuldades e os desafios do fazer artístico. Então, em consulta a uma mecenas da cidade, o turista americano descobre que seu amigo pintor, entre a comunidade artística, é tido como um sonhador, um inútil, que jamais havia apresentado qualquer obra de real valor. Um belo dia, com o estreitamento da amizade entre os dois, o pintor decide apresentar sua musa ao turista e o leva até sua casa. Lá, para a surpresa do americano em férias, ele conhece uma mulher já velha e sem qualquer distinção espiritual ou intelectual que justificassem a idealização que dela faz o amigo pintor. Finalmente, ao conhecer-lhe a musa, constata que o amigo passou a vida se preparando para um quadro que nunca pintou. Os acontecimentos que se seguem levarão a uma tomada de consciência, por parte do pintor, de suas limitações como artista.
Na apresentação que fez para o livro, o crítico e tradutor Arthur Nestrovski resumiu assim a essência do fracasso do pintor: “…nesse instante de separação (o início do século), cada vez mais rápida, entre o privado e o apresentável, ele ainda acredita em uma conclusão comum. O mundo se esvai numa visão, e o pintor não será capaz nem de voltar a ele, nem de atingir o incondicionado, o inexplicável…”. Acrescente se a isso o que Nestrovski chamou de “a histeria da influência”, pois o pintor é incapaz de afastar-se de seus modelos, o que acaba sufocando sua própria capacidade criativa.
Aqui vale mencionar a principal fonte do escritor americano para a composição de A Madona do Futuro. Ela foi publicada em 1831, com o título de A Obra-Prima Desconhecida, por Balzac. Essa novela monta para o personagem do pintor uma situação idêntica à do conto de Henry James. Absolutamente convicto de seu gênio, ele é subitamente confrontado com o descrédito geral e com a sensação de fracasso. Mas no texto de Balzac há duas diferenças importantes. A primeira é que a tela não está vazia, um quadro foi pintado. Os observadores não entendem o que vêem, pois o quadro é abstrato e somente um pé de mulher sobreviveu à decomposição da figura, mas isso é outro problema. A segunda é que o pintor, após um momento de catarse depressiva, se reergue, enfrenta as criticas e reafirma a excelência de sua obra.
No entanto, é interessante ver como esses dois grandes artistas realizam tarefa bastante parecida, e com estilos absolutamente distintos. Henry James, apesar do pouco espaço que o conto permite, dá a seus personagens maior profundidade psicológica. Já Balzac utiliza um jogo dramático mais elaborado, que revela os personagens sobretudo por meio de suas ações. Cada mestre com sua especialidade.
[década de 1990, publicado no Jornal da Tarde]