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Da antiga morada do escritor
|| por Vinicius Martinelli Jatobá
Há 13 anos vivendo em São Paulo, o escritor carioca Rodrigo Lacerda se debruça em seu quarto livro, Vista do Rio, sobre sua cidade natal. A estrutura fragmentada do romance, não cronológica, diz, é resultado da “vontade de espelhar a forma com que nossa memória se organiza”. A cidade ou a vista que o protagonista tem dela é percebida do “Estrela de Ipanema”, marco da arquitetura moderna.
Coordenador da coleção de literatura brasileira da editora Cosac & Naify e vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Romance, por O mistério do Leão Rampante, Rodrigo Lacerda falou ao Paralelos sobre o processo de estruturação de Vista do Rio, a união de literatura e arquitetura e sobre sua dupla função de escritor-editor.
Rodrigo Lacerda, o que me chamou atenção no seu texto é um evidente cuidado com a palavra, um trabalho de criar um fluxo narrativo envolvente, sem maiores problemas para a leitura, ainda que se tenha um texto fragmentado, e isso naturalmente force uma atitude menos passiva do leitor. Quanto tempo levou para ser escrito esse romance? Você poderia nos falar um pouco do processo?
Levei dois anos e meio para fechar uma primeira versão deste romance, e foi bem difícil encontrar o tom adequado para a história. Em meu livro anterior, Tripé, que foi publicado em 2000, havia feito uma espécie de laboratório, mesclando crônicas, roteiros e contos. Estava na “muda”, e não sabia muito bem para que lado ir, por onde seguir. Só resolvi qual encaminhamento daria a Vista do Rio quando decidi que o romance seria mesmo narrado em primeira pessoa. A partir daí, dessa escolha, fui adequando minha linguagem ao narrador. Ou seja: clara, organizada, culta, embora evitando ser pedante, muito pontuada, como se ele quisesse controlar o fôlego do leitor e o ritmo da leitura nos mínimos detalhes.
Quanto à fragmentação, ela se deve mais a minha vontade de espelhar a forma com que nossa memória se organiza, ou seja, em flashes, e não numa seqüência cronológica perfeita. Mas me recordo que, na primeira versão, da qual fiz uma pequena edição privativa, essa fragmentação era ainda mais radical. Por exemplo, toda a ação passada no hospital era narrada apenas através de fragmentos de diálogos. Eles foram cortados na versão definitiva exatamente porque, para muitos dos meus leitores do manuscrito, distanciavam o leitor da emoção dos personagens.
Um dos poucos aspectos da expressão humana devidamente explorados pela literatura é a arquitetura. Há livros inteiros escritos sobre motivos musicais, e somente Proust me vem em mente quando penso em algum autor que tenha dado devida importância às relações entre arquitetura e a idéia de humano que a criou em sua época. A primeira parte de seu livro tem longos fragmentos dedicados justamente à descrição do prédio onde o narrador e seu amigo passaram a infância. Você poderia discorrer um pouco sobre essa sua escolha, narrar uma época pelas suas construções arquitetônicas? E, também, discorrer um pouco justamente sobre o seu envolvimento com estudos de arquitetura e artes plásticas. Como editor da Cosac & Naify, o intercâmbio entre essas duas artes deve fazer parte da pauta de discussões já que os livros são primorosamente editados e recuperam uma tradição editorial perdida: livros ‘adultos’ ilustrados.
Este romance nasceu de um texto sobre o edifício Estrela de Ipanema, que de fato existe. Morei lá. Fiz uma planta de cabeça e fui rascunhando sobre o tema, descrevendo. Para minha surpresa, à medida que escrevia, consegui entender os princípios por trás de cada detalhe da construção. O projeto moderno brasileiro, as linhas futuristas, os ideais de uma nova sociedade, estava tudo ali. Então o edifício virou, no romance, uma espécie de símbolo do descompasso entre a vanguarda e a realidade brasileiras. Ou do fracasso da vanguarda, se assim preferirmos. Mas é também um símbolo do conflito entre cultura e natureza, e, no mundo contemporâneo, da pulverização das relações familiares e do distanciamento entre as pessoas em geral. Sou historiador de formação, e estudei um pouco de arquitetura, claro que não de um ponto de vista técnico. Meu avô era professor de História da Arte, com um doutorado sobre A controvérsia da ogiva nas catedrais medievais, e creio bebi um pouco nessa fonte. Aqui na “Cosac & Naify” reproduzimos a ligação entre artes e arquitetura, que sempre existiu, e que só mais recentemente na história da humanidade vinha sendo negada. É um trabalho de recuperação.
Ainda falando de seu trabalho a frente uma coleção de literatura que tem publicado ótimos trabalhos, como sua função de editor influência a sua própria escrita? Muitos autores costumam seguir várias indicações de seus editores, e chegam inclusive a reescrever trechos depois de mostrar seus textos a esses leitores mais técnicos, profissionais; como você solucionou essa questão?
Muitas pessoas me dizem que é impossível conciliar o trabalho de editor e escritor, mas não sei exatamente a que estão se referindo. Claro que, por escrever ficção, você acaba desenvolvendo certas preferências estilísticas, mas quem disse que o leitor comum também não às possui? No fundo, não é porque sou escritor que só vou publicar quem escreva parecido comigo, a minha “turminha”.
Na relação com os autores, acho que o fato de ser escritor facilita muito o diálogo. Trabalhamos bastante com eles aqui, eu e o Augusto Massi, que é nosso editor-chefe. Sugerimos cortes e inclusões, discutimos os personagens, apuramos o estilo dos textos. Um trabalho cuidadoso. Em livros de contos, fazemos ainda a seleção daqueles que devem entrar e sua seqüência ideal. Tudo isso, claro, em comum acordo com o autor, que, acredito, recebe nossas sugestões muito melhor por sermos escritores – eu prosador, o Augusto poeta -, do que receberia caso fôssemos apenas editores.
A Zona Sul carioca, especialmente Ipanema e Leblon, tem uma forte presença em crônicas e reportagens, mas possui pouca tradição em narrativas de maior ‘volume’. Em quem você se inspirou criticamente para construir a sua Ipanema? Dentro da tradição literária carioca, há algum autor que você destacaria como determinante para a sua escrita?
Minha inspiração para recriar a Ipanema dos anos 70 e 80 foi simplesmente a minha vivência. Porém, apesar das aparências, pelo fato do livro ser em primeira pessoa, afirmo que existe muito pouco de autobiográfico no livro. Por outro lado, os cenários certamente fazem parte da minha vida, foram locais que freqüentei. O edifício onde moram os protagonistas, o bairro de Ipanema, a vista da Pedra Bonita, a cidade e a natureza cariocas, tudo faz parte de minha vida. Não tinha nenhum escritor específico em mente enquanto escrevia o romance. Agora, poderia citar algumas referências: Machado, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, João Antônio. Mas o meu narrador tinha uma voz muito própria, e precisei achá-la sem maiores guias, mais por intuição.
No material de divulgação da editora, há uma entrevista. Nela, você se afirma como um ‘realista suave’. No contexto, essa definição surge da seguinte forma: Marco Aurélio afirma não ter seguido desenho pela sua propensão a caricaturas; no fundo, por ter desejado ser um ‘realista suave’, abandonou o desenho já que ele era hiperbólico, quase anti-natural. O que existe nessa definição de resposta ao cenário contemporâneo da literatura? E, também, quais seriam as preocupações de um ‘realista suave’?
Não sou eu que me defino como um realista suave, é o narrador. Por ser um livro em primeira pessoa é que a confusão se estabelece. Mas ao ver a primeira cena do livro, em que Virgílio e Marco Aurélio torturam um beija-flor colocando-o no liquidificador, vê-se que ela não é nem propriamente realista (embora a descrição seja, a ação, em si, é meio improvável, pois é de difícil execução), e muito menos suave, é inclusive bastante agressiva.
Mas, por outro lado, o narrador quer ser um realista suave. As caricaturas que desenhava deformavam a realidade dos outros, e ele faz um esforço por enxergar os outros de maneira um pouco menos alterada. Sem julgá-los; é daí que vem na suavidade de seu olhar, desse desejo.
Outra possível leitura dessa idéia é dizer que a realidade social brasileira tornou-se tão desequilibrada que, em boa parte da literatura contemporânea, aparentemente as classes sociais estão separadas por abismos intransponíveis. Sabe, até certo ponto isso é verdade. Porém, também há sentimentos e conflitos intrínsecos à condição humana, e há tragédia em qualquer classe social. Então, aqui, a suavidade seria a aceitação de pontos de contato, que superam as diferenças sociais, e que às vezes são esquecidos nas expressões literárias do nosso caos social.
É natural a pergunta pelo próximo livro. Ele segue o mesmo caminho de ‘Vista do Rio’, em quê ele difere?
Meus dois primeiros livros tinham uma dicção bem mais solta que Vista do Rio. As frases eram mais longas, a sintaxe mais rebuscada, os parágrafos maiores, o vocabulário menos coloquial. Depois fiz um livro-laboratório, como eu disse, farejando um novo caminho. Vista do Rio é um texto bem mais enxuto, uma exigência da psicologia por trás da voz narrativa. O próximo livro, que se chama Outra vida, é uma espécie de síntese entre esses dois extremos que já percorri. Nesta síntese, por exemplo, solto a estrutura sintática, deixo-a menos picotada, mas mantenho o vocabulário mais próximo do coloquial.
Uma empreitada admirável sua foi sua tradução, junto com Newton Godman, de um dos mais intrincados romances de W. Faulkner, ‘Palmeiras Selvagens’. Poderia falar um pouco dessa experiência?
Acontece que a prosa de Faulkner é completamente oposta da sua, um caudal obsessivo, um rio verbal que chega a ser agressivo muitas vezes, e sua prosa é mais substantiva, de períodos curtos. Há alguma influência, pode-se traduzir impunemente?
Quando fiz a tradução desse romance de William Faulkner, fiquei totalmente deslumbrado com a força do Palmeiras selvagens. Nas minhas malucas categorias literárias, identifiquei Faulkner como uma combinação entre Padre António Vieira e Jean-Paul Sartre, ou seja, uma retórica poderosa e intrincada, uma grandeza espiritual sem limites, mas a serviço dos dilemas existenciais do homem contemporâneo. Sempre fui um leitor dedicado de ambos. Mas a retórica caudal de Vieira, e dos barrocos em geral, já haviam me influenciado antes, como eu já disse, e foi depois que caminhei para um texto mais econômico, como o Vista do Rio. E acredito que com esse trabalho de traduzir Faulkner a retórica mais larga e farta voltou. Não por acaso, achei que poderia encontrar a nova síntese de que já falei. Então eu digo que, nesse caso, foi impossível traduzir impunemente.
Falar dessa tradução é também falar dos cruzamentos entre a profissão de editor, tradutor e o trabalho literário. Entrar em contato com um autor desses é o tipo da coisa que vem fazendo desta minha passagem pela “Cosac & Naify” uma experiência muito positiva, pois vem enriquecendo também o próprio desenvolvimento do meu projeto literário.
À frente de uma boa coleção de literatura brasileira, você poderia adiantar alguns dos projetos e futuros livros publicados?
O próximo livro que iremos publicar será Velórios, do Rodrigo Mello Franco de Andrade. Ele foi um homem dos bastidores da primeira geração modernista, e que ganhou visibilidade por meio do antigo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico. Este seu único livro de ficção reúne oito contos que envolvem a morte, seus rituais, a sociabilidade que se monta ao seu redor, e as surpresas que reserva aos que ficam.
Marco Aurélio, o narrador de ‘Vista do Rio’, é um poeta frustrado; dois poemas dele aparecem no livro. Como foi a experiência de escrever poesia?
Isso foi curioso, e é um dos exemplos mais claros que já tive do quanto a nossa cobrança interior atrapalha quando nos propomos a escrever qualquer coisa. Eu queria escrever as poesias para o meu personagem, mas como ele não era nenhum João Cabral, nenhum Bandeira ou Drummond, sentei na frente da tela sem nenhuma responsabilidade de revolucionar a poesia contemporânea. Se fosse mais ou menos, até se encaixava melhor com o narrador. Então fui sem peso nenhum. Pois bem, não só eu gosto dos dois “poeminhas” que aparecem no romance, como acabei escrevendo quase trinta outros, que pretendo reunir em breve numa edição privativa.
E por que não numa edição propriamente dita?
Quem sabe um dia. Mas assim como fiz com o Vista do Rio, agora quero sempre começar pela edição privativa. Desse modo escuto um pouco as pessoas antes de dar o livro como terminado. Acredito que chega um momento em que perdemos o distanciamento. Ou colocamos o livro na gaveta e o deixamos “assentar”, ou colocamos ele em circulação restrita, para ouvir comentários. É muito importante para um escritor saber ouvir. Se vier alguma sugestão que realmente contribua para o seu aperfeiçoamento, para a melhora do texto, por que não usá-la? Augusto Massi, editor do Vista do Rio, leu o livro e deu as precisas sugestões que me fizeram reescrever os fragmentos do hospital, por exemplo. E não considero isso uma interferência; ao contrário, é um importante diálogo enriquecedor entre leitor/editor e autor.