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O “realista suave” vê o Rio

|| por Vinicius Martinelli Jatobá

Ainda está para ser escrito um romance que dê conta dos destinos trágicos do Brasil das décadas de 60 e 70; não é o que se propõem Rodrigo Lacerda, em seu ‘Vista do Rio’, mas são sintomáticas nele as conseqüências desse período nos sonhos de duas gerações. Marco Aurélio, o narrador, é alguém em busca de si mesmo. Para reconstruir seu passado, ele se apóia em três pontos. Virgílio, seu melhor amigo; a arquitetura do prédio onde passou sua infância, o ‘Estrela de Ipanema’; e uma rememoração de sua família: sua mãe, seu pai, um almoço na casa dos avós, um passeio, uma conversa ocasional. Os fragmentos, alguns não ocupando sequer uma página, tentam dar conta desses três nós – o sucesso da narrativa depende claramente do diálogo entre os silêncios e sugestões de sua prosa, que gravita com sensibilidade e tato pelo corpo de vários assuntos e tempos distintos, inclusive no espaço breve de um mesmo capítulo. Mas antes de discorrer melhor sobre o livro, seria melhor alcançar algumas questões mais assessórias, porém não pouco importantes – nem sempre a menor distância é uma reta.

A literatura brasileira contemporânea tem problemas ainda a serem solucionados com mais maturidade; está próxima desse momento, falta algo que começa a se desenhar um pouco a cada novo livro, a cada nova discussão pública. Do significativo grupo de autores que publicaram na última década – e da qual Rodrigo Lacerda faz parte –, fica claro que cada um vem buscando construir sua própria poética; as vozes se tornam mais firmes e seguras, e uma geografia rica de dicções toma corpo. Mesmo que ainda exista muita experimentação desnecessária, e outro tanto de alarde publicitário, são inegáveis o esforço e curiosidade estética de boa parte dos escritores que vem ganhando algum destaque hoje na mídia, e que justamente por isso começam a buscar alguma filiação (mesmo o isolamento, ao contrário do que se pensa, é uma forma de filiação). Defende-se outras tradições, agride-se o cânon, são reeditados livros substâncias para a compreensão das novas vozes e retóricas. Novas editoras são abertas; coleções de jovens autores foram inauguradas com algum sucesso. E, nesse passo, o ambiente vai de dividindo e tornando-se mais claro. Dentro dessas estratégias, porém, seria correto afirmar que a construção de uma pretensa marginalidade mostra-se tão digna de críticas quanto o retorno alienado à tradição, que vem se mostrando problemático, e também adquirindo resultados mistos. E isso, longe de ser um transtorno, é sinal de saúde, de agitação e, principalmente, desejo de expressar o mundo contemporâneo tão multifacetado e contraditório. Tem-se a impressão de que a violência se tornou o tema normativo da literatura feita hoje, mas há muito espaço para o afeto e lentidão; há ainda belos livros escritos com frases longas e espiraladas sendo publicados, assim como a brevidade e sentenças curtas de modo algum impedem o surgimento de textos complexos. Esse é um fenômeno de nosso tempo: agora que a vanguarda se mostrou uma fase gloriosa do modernismo, agora que o marginal se tornou um rentável produto de consumo dentro do sistema que não apenas o aceita, como o estimula, agora que um profundo esgotamento expressivo abarca todas as áreas da criatividade humana – pintura, música, literatura –, é nesse tempo presente, destituído de pré-valores, de pré-noções e preconceitos, que justamente aquilo de melhor de cada um pode ser colocado no seu meio de expressão.

A luta contra a burguesia não é mais um atestado de valor; a máquina fácil do texto-citação demonstra finalmente o quanto de artificial possui; as intenções humanísticas não são suficientes para o vigor de uma construção estética. Hoje, cada imaginação só tem seus próprios termos para servir de apoio – é um tempo exigente, o nosso. Mas é justamente nesse contexto que a maturidade abraça as vozes dos antes irregulares Rubens Figueiredo, Marçal Aquino, Bernardo Carvalho e Adriana Lisboa (entre outros); é nesse contexto que começam a se esboçar consistências nos textos de Reiners Terron, Nelson de Oliveira e João Batista Melo (entre outros). Há novos valores como Amílcar Bettega Barbosa, Altair Martins, Adriana Lunardi e João Paulo Cuenca, que podem não se concretizar caso caiam na excessiva vaidade, mas que possuem apenas o céu como limite; e, nesse turbilhão de acontecimentos, também há espaço para a ressonância tranqüila de um romancista como Milton Hatoum, cuja voz narrativa destoa tanto do meio literário da qual faz parte que parece escrever em outra língua, estar em sintonia com um tempo apenas seu, particular. Os mais antigos – Nélida Piñon, Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca – publicam novos romances e coletâneas de contos, escrevem prefácios. Um cenário positivo demais para ser denominado de decadente, como fazem certos críticos; e com uma ebulição frenética demais, carregada de muitos impasses delicados, para ser celebrada com cego e intransigente entusiasmo, como fazem alguns escritores. A impressão que se tem é de que a literatura brasileira irá até aonde quiser, desde que se troquem as polêmicas por um trabalho mais cuidadoso com a linguagem, e que se substitua certa auto-indulgência por humildade e um espírito crítico mais consciente da responsabilidade ética de se expressar no mundo. Que um livro seja escrito apenas para si mesmo, que a arte se entenda apenas nos termos da arte, que o indivíduo se expresse exclusivamente por vaidade e excessiva auto-valorização, essas são atitudes que não estão no coração da literatura: ao menos, da boa literatura. Mas essa é só uma opinião, provavelmente equivocada. Rodrigo Lacerda, com ‘Vista do Rio’, dá duas cartadas em apenas um movimento certeiro: de um lado, se define em contraste com o corpo literário contemporâneo; de outro, retoma sua trajetória com um tom e projeto diferentes, num texto bem mais maduro e equilibrado.

A narrativa, quando centrada em Virgílio, torna-se bem mais dinâmica. Virgílio é, acima de tudo, um ótimo personagem: instigante e divertido, humano, é a figura mais dimensional do romance. A narrativa ganha em energia sempre que se ocupa com as loucuras e opiniões do dramaturgo e diretor de vanguarda; e a sua decadência física, sugerida brilhantemente na primorosa capa, chega realmente a incomodar e comover. São os fragmentos mais despretensiosos do romance, e aqueles que ficam por mais tempo na cabeça do leitor. A anestesia, o ponto de transição, acontece com as descrições do ‘Estrela de Ipanema’; a morosidade do olhar pode até causar certo tédio, mas quando se percebe, conforme a leitura avança, a intenção de Marco Aurélio nessas palavras substantivas, na cor de sua descrição detalhista, um interessante espaço para reflexão é aberto. Rodrigo Lacerda capta um pouco do espírito hegemônico das décadas de 60 e 70, e com isso desenha, sem nunca carregar nas tintas, alguns dos possíveis argumentos para explicar o desencontro com o mundo daqueles cujos pais abraçaram a ideologia ‘positiva’ por trás dessa arquitetura, e que foram criados para um Brasil que não existe, ainda. O fim dos direitos democráticos, a onda de violência, isso não está presente no romance – a infância de Marco Aurélio foi feliz, e naturalmente não sofreu conseqüência direta da última Ditadura. Seu pai foi preso, mas apenas por uma noite, ou melhor, dois parágrafos. Porém, aquilo que justificava o momento político, tão bem representado ideologicamente do projeto ‘Estrela de Ipanema’, aquela crença no desenvolvimento, na civilização, na urbanização, no milagre econômico, são as causas de todo desconforto e mal estar do narrador, um mal estar, até certo ponto, de uma parte significativa de sua geração. O Brasil prometido pelos ideólogos do progresso não se concretizou, e somente agora, depois de exatos quarenta anos, a democracia retorna ao seu funcionamento pleno.

E isso tem conseqüências. Todo esse imenso corpo de reflexões está imerso no tecido silencioso do romance, e toma força em alguns pontos. Está ali, poderia ser dito, mas é um ponto conquistado, e um valioso mérito. Os propósitos do narrador são outros; isso fica evidente. A rememoração familiar do narrador, sua relação com seu pai, com a mãe, são esses os fragmentos onde Rodrigo Lacerda conseguiu seus resultados mais mistos. A crise de sua mãe, mencionada algumas vezes, nunca é explorada. E seu pai, talvez o melhor personagem do livro, fica com seu mundo pela metade – ao menos o resenhista sentiu falta desses elementos, até mesmo para compreender com mais ressonância alguns dos conflitos que perturbam o narrador. Desse modo, é o leitor que acaba por imaginar o material das lacunas que Marco Aurélio poderia lhe brindar. Cada um termina, nesse ponto, com alguns dos rostos do romance completamente particularizados, como se o leitor tivesse que completar o tracejado apenas sugerido por Marco Aurélio de seu modo, enfatizando aquilo que melhor lhe interessar. Porém, mesmo com todos seus impasses, ‘Vista do Rio’ é um bom livro, uma boa aposta do autor.

Mas ele não está sozinho. Os impasses de Rodrigo Lacerda, assim como de seus contemporâneos, podem ser resultado do ambiente literário atual, de algumas opções suas feitas em decorrência dele, mas contra do que a favor. Vale a pena se alongar por mais algumas linhas nesse ponto. Vários autores que estavam em dúvida sobre suas vozes tiveram que se definir por causa de um livro em particular – isso é um fato. Sei que já rendeu páginas e páginas o trabalho de editor realizado por Nelson de Oliveira, mas por pior (ou melhor) que tenham sido seus resultados, a simpatia que eu sinto por ele é, sem exagero, a mesma que sinto por Mário de Andrade. O homem lê; o homem se corresponde; e, principalmente, o homem propõe. É questionável sua arrogância quando emite opiniões, e ainda mais a paranóia criada por ele de existir uma crítica ‘conservadora’ atuando contra sua geração – os livros estão aí e não são tão bons, em sua maioria, quanto a propaganda; os projetos estão se definindo, cada um de sua maneira, e começam a dar resultados agora. Porém, onde Mário era compreensivo Nelson se mostra intransigente, e infelizmente perde aos poucos a possibilidade de ser o líder tranqüilo que um momento carente de vozes tanto necessita. Mesmo assim, ainda que seja exagerado afirmar, ‘Geração 90’ pode ser considerado, com algumas ressalvas, o mais importante acontecimento literário da última década. Seu prefácio não é instigante; os contos são desiguais e precipitados em alguns momentos; e não são nada nobres suas intenções, como o próprio Oliveira cansou de afirmar. Mesmo assim, um bom livro ainda terá que ser escrito dentro de uma década sobre esse projeto em particular – sua concepção original, seus critérios de escolha dos autores, a própria edição dos contos e um histórico de sua aceitação junto à mídia. Graças a essa antologia, um grupo considerável de autores desconhecidos teve seus nomes veiculados em jornais de grande circulação, e de um dia para o outro entraram na pauta de discussão. Os críticos honestos, pegos de surpresa, tiveram que ler autores de que nunca ouviram falar, e isso aumentou a circulação de livros, a curiosidade em descobrir quem está por trás daqueles textos, as outras criações citadas nas mini-biografias. Ou seja: sair do conforto, da passividade. (Eu, inclusive, cheguei a alguns nomes graças a essa antologia.)

Evidente que há o lado negativo disso tudo, e alguns resenhistas publicitários quiseram naturalmente sua fatia no bolo e apadrinharam autores, criando cisões no grupo e atrapalhando a seriedade dos debates que poderiam ter sido feitos. Outros resenhistas, após lerem a antologia, acabaram por ignorá-la e preferiram seguir em frente e retomar os clássicos; e alguns outros defenderam uma diferente década de 90, com hipotéticas seleções de ausentes, gerando uma riqueza necessária onde antes havia apenas um gritante desconhecimento. Graças ao trabalho de Nelson de Oliveira, uma rica troca de nomes foi feita, uma válida oxigenação de leituras. Por outro lado, os muitos escritores, incluídos ou excluídos, quase por inércia tiveram que se definir, e acredito que muitos desenharam os alicerces de suas respectivas poéticas nesse momento de crise e debate. Esse parece ser o caso particular de Rodrigo Lacerda. Por exemplo, ao se definir como um “realista suave”, Lacerda pode muito bem estar dando a sua resposta ao ambiente literário onde está inserido. Se o fragmento e as frases curtas estão presentes como possíveis pontos de contato, percebe-se claramente um trato incomum com a linguagem, bem trabalhada e pensada, assim como uma agradável lentidão do olhar em certos trechos, que diferencia sua prosa da retórica média dos escritores mais debatidos hoje. Está de fora, também, qualquer questão experimental, e as referências ao universo de consumo e ícones ‘pop’ que estão presentes em boa parte da criação contemporânea, tanto no Brasil quanto na Espanha ou EUA, são praticamente nulas. Há uma boa quota de dúvidas, o que é saudável, embora em certos trechos a voz de Marco Aurélio soe um pouco didática; ao meu ver, puro reflexo de sua insegurança – ele é um personagem pela metade, cheio de carências e o mundo na maior parte das vezes lhe falta: a certeza é a forma mais agressiva de proteção. ‘Vista do Rio’, de modo bem sutil, marca um retorno de Rodrigo Lacerda após anos de ausência, num tom mais sério e centrado, com um texto bem cuidado e substantivo, direto, econômico, e dentro de um campo imaginativo e dicção que podem ser explorados pelo jovem autor em seus próximos trabalhos.

Afirmar que Lacerda é uma promessa seria injusto; porém, igualmente injusto e insincero seria ver ‘Vista do Rio’ como um romance definitivo, mesmo tendo em consideração o rigor de seu acabamento e revisão. Lendo o romance, fica claro que Rodrigo Lacerda ainda tem muito a explorar, e isso é salutar e desejável – que com o bom ‘Vista do Rio’ Lacerda não tenha realizado todo seu potencial só indica o positivo que ele tem a oferecer pelos anos que se desenham diante de si. E, na pele muitas vezes ingrata de resenhista – essa figura ranzinza e antipática – espero que Rodrigo Lacerda, como seu carismático personagem Virgílio, plane na panorâmica vista que se abre com esse seu romance, sem pressa ou precipitação – seu vôo, de alguma forma, já está desenhado. Há autores que atravessam a vida inteira sem isso.