Site Jornal do Brasil | Vista do Rio
SITE: www.jb.com.br
DATA: 30 de março de 2004.
Suave podridão
Rodrigo lacerda faz obra realista do ponto de vista dos ‘incluídos’
|| Por Cecília Giannetti
Quem cobrasse coerência ao político e jornalista Carlos Lacerda, acabava ouvindo uma de suas máximas: “Mudo, sim. Só os loucos têm idéias fixas”. Seu neto, o escritor Rodrigo Lacerda, de 34 anos, lembra a frase ao se referir às diferenças entre os seus livros, desde o lançamento do primeiro, O mistério do leão rampante (Ateliê Editorial), vencedor do Prêmio Jabuti em 1996 na categoria Romance, escrito enquanto o autor fazia um mestrado em que discutia como história e literatura se cruzavam. Depois que abandonou o curso, seguiram-se outros livros: A dinâmica das larvas e a coletânea Tripé são parte do processo de mutação porque passou o texto de Rodrigo para chegar à Vista do Rio, lançado este mês pela Cosac & Naify.
Meu avô tinha essa filosofia: a única coerência que o preocupava era a de mudar de idéia toda vez que tivesse uma idéia melhor. Aplico isto à literatura – explica Rodrigo, por telefone. Carioca, o autor hoje mora em São Paulo, onde trabalha como editor para a Cosac. Para construir seu terceiro livro, teve que vasculhar a memória à procura de imagens e acontecimentos dos 20 anos passados no Rio.
Se em Leão rampante fez uso da voz satírica para mexer com personagens como William Shakespeare e uma jovem inglesa do século XVII, o novo livro distancia-se do burlesco em troca de um olhar mais realista sobre a cidade e dois amigos que cresceram juntos nela em fins dos anos 60 e na década de 70. O narrador, Marco Aurélio, mergulha em lembranças que atravessam o edifício Estrela de Ipanema, onde conheceu Virgílio ainda na infância. A construção futurista do Estrela abriga incesto, alcoolismo, política e as contradições da dupla, que vaga entre agonias do passado e do presente.
Na cena de abertura, os dois, ainda meninos, colocam um beija-flor vivo dentro de um liquidificador e observam sua luta pela vida até que ceda e se tome “uma pasta grossa e molhada, vermelha escura – algumas penugens metalizadas ainda vagamente identificáveis”. À frente na história, cada qual será moído por dores próprias: na vida adulta, Virgílio é consumido pela AIDS no hospital enquanto Marco Aurélio acompanha da cabeceira todo o processo.
Os torturadores daquele primeiro capítulo serão os torturados em outro plano. Não só Virgílio, que está doente, mas Marco Aurélio, que absorve com mais dificuldade ainda as frustrações – explica Rodrigo. Ao dissecar a relação dos dois, garante que não tomou emprestado da própria vida para construir o desencantado narrador. A descrição do beija – flor triturado, no entanto, é fato ouvido de um conhecido; há outros elementos que parecem carregados de referências auto-biográficas, insinuadas nas relações familiares do narrador, ou explícitas nas suas visões do Rio da década de 70. No terceiro capítulo, surge a figura do avô político da personagem: “Quando veio a última ditadura, meu avô foi preso por ser um agitador histórico; meu pai foi em cana de graça, por mera relação de parentesco. Dormiu na cadeia. Para ele, uma noite interminável. A minha herança política”.
Escrevi sobre tipos que conheço, sobre os quais eu saberia falar alguma coisa – conta.
Enquanto predomina na literatura chamada neo-realista a ótica do excluído, Rodrigo preferiu falar da cidade desgovernada pela violência pelo prisma da classe média alta. Virgílio, por exemplo, freqüenta na juventude a boate People Down, cujo nome o onipresente Marco Aurélio condena ironicamente como “bastante apropriado” para o ambiente. O autor passa a uma condução mais linear para descrever a decadência do mundo que conhece. Confessional, deixa escoar rancores que atravessam gerações e culpa uma construção maior que o prédio pela falência dos seus sonhos: “No fim, deu tudo no mesmo. Deu que o Brasil derrubou todas as nossas projeções”, escreve, a caminho de alcançar um objetivo: tornar-se um realista suave.