Shakespeare & Cia
Shakespeare A to Z. Carlos Boyce.
“A concisão é a alma da sabedoria”, dizia Polonius, o conselheiro do tio de Hamlet. Pode parecer estranho que a resenha de um livro com 742 páginas inicie com essa frase, mas não se trata de uma ironia, absolutamente. Dada a multiplicidade dos temas que se propõe a cobrir, o dicionário de Shakespeare lançado pela editora inglesa Laurel, de autoria de Charles Boyce, é até muito econômico. Economia que, de resto, editores e diretores teatrais não têm tido nos últimos anos, particularmente no Brasil, quando se trata de falar do bardo de Strattford-upon-Avon. Só no ano passado, foram lançados o livro de ensaios Sobre Shakespeare, de autoria de Northrop Frye (Edusp) e a biografia do dramaturgo inglês escrita por Jean Paris (Ed. José Olympio). Isso, sem se falar nas montagens teatrais. No eixo Rio – São Paulo, foram encenadas nada menos de que seis peças de Shakespeare, entre leituras clássicas e adaptações livres. De fato, o autor de Macbeth continua tão atual quanto na época de Elizabeth.
Voltando a Shakespeare A to Z, enquanto estudiosos, os chamados scholars, são capazes de gastar quilos de papel, digamos, na primeira cena de Rei Lear, Boyce analisa toda a peça num verbete de apenas sete páginas, que inclui uma sinopse cena por cena, um panorama geral das linhas interpretativas desenvolvidas até hoje, um mapeamento dos temas principais, uma lista das fontes de Shakespeare, uma avaliação da confiabilidade de cada um dos “originais” existentes e, por fim, uma descrição da trajetória teatral da peça ao longo dos séculos. Todas as peças recebem igual tratamento, além de verbetes específicos para cada personagem, mesmo os mensageiros, porteiros, serviçais, soldados e outros figurantes imprescindíveis. Nos verbetes são encontradas informações sobre a psicologia dos personagens e a função dramática que desempenham na estrutura de cada obra. Já os verbetes sobre os poemas narrativos e sonetos descrevem basicamente as circunstâncias em que foram escritos, as fontes, as interpretações e, no caso de alguns dos sonetos, as inevitáveis polêmicas sobre a autoria. As obras dramáticas se juntam às obras poéticas para configurar as categorias elementares na divisão do livro de Boyce. Mas não repousa nelas a maior virtude desse livro. Informações sobre as peças de Shakespeare e seus respectivos personagens, ou sobre seus sonetos e poemas narrativos, estarão sempre disponíveis nas famosas edições críticas da Penguin e da Oxford, Longman e Signet, ou na suprema Arden, ainda que nunca reunidas num só volume e dispostas de forma muito menos concisa, clara e direta. Sendo assim, são outros os conjuntos de verbetes que fazem desse dicionário uma obra de suma importância e de natureza inédita até hoje.
O primeiro deles fala sobre os parentes e contemporâneos, lato sensu, de Shakespeare e representa uma fonte excepcional para que se conheça a forma como ele se relacionava com os que o cercavam, e portanto para a compreensão do homem Shakespeare, além de fornecer dados pitorescos e curiosos sobre sua vida. Um deles conta como Shakespeare penou com seu genro, um tal de Thomas Quiney, marido de sua filha Judith. Dono de uma taverna e com fama de libertino, Quiney conseguiu, no espaço de algumas semanas, ser excomungado pela Igreja e cair na boca do povo devido à morte de uma de suas amantes durante o parto de um filho que, por sinal, todos na pacata cidade de Strattford acreditavam ser dele. Para culminar, Quiney era um péssimo homem de negócios, com vocação natural para a bancarrota. Os desgostos causados pelo genro coincidiram com a morte do poeta, ocorrida apenas dois meses depois do casamento de sua filha, mas não sem antes ter bloqueado Quiney no direito, à herança. Alguns pequenos episódios, aparentemente desimportantes, podem no entanto servir para que se descubra como, ou até que ponto, Shakespeare filtrava a realidade antes de integrá-la a sua obra, como é o caso de outra saborosa história contemporânea, a de Rodrigo Lopez. Cristão-novo que fugiu da Inquisição portuguesa, ele tornou domicílio em Londres e foi nomeado o médico real. Sua felicidade durou pouco. Acusado de planejar o envenenamento da rainha, Lopez foi enforcado, mesmo sem provas contra ele, gerando uma onda de anti-semitismo na Inglaterra. Boyce menciona a teoria segundo a qual Shakespeare estaria aludindo ao pobre doutor quando o judeu Shylock, de O Mercador de Veneza, é insultado nos seguintes termos: “Thy currish spirit/ Governed a wolf who, hanged for human slaughter…” (ato 4, cena 1). O nome Lopez deriva do latim lúpus e não se tem notícia de que lobos fossem enforcados, logo…
Mas a despeito dessa hipótese, a evocação a esse animal não foi gratuita. Não fica dito que o lobo era, antes de tudo, um leitmotif, uma imagem constante, um símbolo recorrente do mal. O dicionário deixa de mencionar esse fato. De modo geral, seriam úteis verbetes que analisassem a composição e os desdobramentos desses “signos”, pois o artifício do leitmotif era bastante usado por Shakespeare. Ele é mais facilmente detectável quando inserido no contexto de uma determinada obra, como é o caso das alusões à natureza em Rei Lear, ou à honestidade em Hamlet. Mas numa segunda esfera, alguns destes signos remetem a uma continuidade poética intrínseca a todo o cânone shakespeariano. O próprio exemplo do lobo nos levaria a várias outras peças, em cada uma delas sendo acrescentado um novo elemento na simbologia macabra do animal, ora uma menção a sua covardia ou a sua astúcia, e assim por diante.
William, o Conquistador
Outro grupo de verbetes que desperta especial interesse é o que fala de atores, profissionais do teatro, compositores e músicos, contemporâneos de Shakespeare ou não, que ao longo de suas carreiras tiveram contato com a pessoa ou com a obra do dramaturgo inglês. Entre os contemporâneos do próprio, a utilidade óbvia é a de servir como um grande manancial de informações sobre o mundo teatral da renascença inglesa: quem eram os principais atores, autores e quais as principais companhias. Em meio a tudo isso são feitas as menções obrigatórias a James Burbage, construtor do primeiro teatro londrino, e a seu filho Richard Burbage, astro da companhia e amigo pessoal para quem Shakespeare escreveu Ricardo III, Othello, entre outras. Conta a única anedota da época, registrada pelo cronista John Manningham, que, certa vez, uma ardorosa fã de Ricardo III, papel que Burbage então representava nos teatros londrinos, convidou-o para visitá-la uma noite, com a condição de que fosse vestido a caráter. Shakespeare teria ouvido a conversa, se fantasiado e chegado antes do amigo no rendez-vous. Quando o poeta já experimentava as gentilezas da anfitriã, foi anunciado o rei Ricardo III. “Diga a ele que Guilherme (William, em inglês), o Conquistador, chegou antes”, ironizou Shakespeare, referindo-se ao rei normando que invadiu e governou a Inglaterra de 1066 a 1087.
Atores e Músicos
Na mesma seção, verbetes menos obscenos falam dos grandes atores shakespearianos de todos os tempos. Nomes como Laurence Olivier, John Gielgud, Orson Wel-les e Franco Zefírelli, para citar os expoentes do século XX, têm suas mais importantes interpretações ou montagens comentadas. São apontados inclusive os marcos na interpretação de certos personagens. Como exemplo, a ênfase na sensualidade de Lady Macbeth, inédita até a interpretação da atriz francesa Sarah Bernhardt no século passado. Por fim, um levantamento raro e valioso das peças musicais baseadas em obras de Shakespeare. Destacam-se aí os compositores românticos, que se identificavam com a ampla representação da vida, com os temas universais e com a força poética do dramaturgo renascentista. Entre eles, Beethoven, Schubert, Verdi e sobretudo Hector Berlioz, que, além de compor várias peças sinfônicas de inspiração shakespeariana, queria escritas em sua lápide as pessimistas frases de Macbeth: “Life…/is a tale/ Told by an idiot, full of sound and fury/ signifying nothing” (ato 5, cena 6).
Os verbetes sobre críticos, escritores, tradutores, artistas, gráficos e editores, novamente contemporâneos ou não, são também de grande interesse. Eles tratam das obras e dos homens que influenciaram Shakespeare, desde os filósofos da Antiguidade até os university wits – um grupo de dramaturgos com educação superior que confeccionou as bases daquele tipo de teatro – passando por Geoffrey Chaucer, autor de quem Shakespeare aprendeu á já mencionada técnica do leitmotif.
Esse grupo de verbetes contém ainda referências aos homens que se envolveram na divulgação da obra de Shakespeare, imprimindo cópias de seus trabalhos, traduzindo- os, editando-os, parodiando-os, e finalmente criticando-os. Estes últimos guardam um acervo delicioso de aberrações, como a frase em que o poeta inglês T. S. Eliot considera Hamlet um “fracasso artístico”, ou a de George Bernard Shaw, que dizia: “Com a única ‘ exceção de Homero, não há escritor eminente, nem mesmo Sir Walter Scott, a quem desprezo tão completamente quanto a Shakespeare”. T. S. Eliot porém reconhecia que “sobre alguém tão grandioso como Shakespeare, nunca se pode estar certo; e já que nunca se pode estar certo, deve-se mudar de vez em quando a maneira de estar errado”.
No levantamento feito por Boyce está incluída uma generosa lista de lugares, sejam eles puramente fictícios, sejam relacionados com acontecimentos da época e da vida de Shakespeare, ou os dois. Nesse caso destaca-se o equilíbrio invejável entre informação histórica e literária. E o que acontece com os verbetes sobre a floresta de Arden, a cidade de Windsor, e principalmente no de Agincourt. Nesse último ficamos sabendo que a batalha milagrosamente vencida por um debilitado exército inglês realmente aconteceu, mas que ela não representou o início de um domínio da Inglaterra sobre a França, e que o mérito da vitória não se deveu a Deus como alega Henrique V na peça homônima, ou na bravura pessoal de Henrique como indica Shakespeare, mas a uma bateria de longbows, os arcos mais compridos que alcançaram a cavalaria francesa à distância.
Lacunas Históricas
Com isso, o livro desemboca necessariamente na seção que procura cobrir as lacunas de caráter histórico, importantes para se compreender o contexto cultural em que Shakespeare viveu e escreveu. Contudo, seu sucesso é relativo, como evidencia o verbete que fala da Guerra dos Cem Anos. Este, apesar de também relacionar de maneira satisfatória fatos e literatura, demonstra uma análise pouco correia do verdadeiro sentido da guerra, ao dizer que, ao final do conflito, estava a “França, finalmente livre da colonização inglesa…” O termo colonização é forte demais para denominar o que foi simplesmente a posse de vários territórios no continente por Henrique II da Inglaterra, anexados através de seu casamento com Eleanor da Aquitânia. Um historiador francês diria que, se em algum momento houve “colonização” de um sobre o outro, foi da França sobre a Inglaterra, iniciada séculos antes com a invasão normanda de Guilherme, o Conquistador (aquele que Shakespeare menciona na piada com Burbage). A partir dessa discussão, talvez a guerra recomeçasse.
Além desse deslize de terminologia, a seção de história ressente-se da ausência de qualquer verbete que analise as questões religiosas provocadas pela Reforma protestante, tão importantes para a compreensão da obra shakespeariana e de seu tempo.
O Teatro Elisabetano
Contudo, tais deficiências não chegam, nem de longe, a comprometer uma obra que almeja dominar tão vasto leque de temas. Outro sinal dessa amplidão é a existência de verbetes explicativos para termos literários e teatrais. Merecem destaque os que falam do método de “reconstrução” dos originais de Shakespeare, e os que procuram dar uma idéia geral de como funcionava o teatro elisabetano, discorrendo sobre sua arquitetura, seu funcionamento administrativo, seus métodos de interpretação, o lugar do teatro na sociedade da época e, por fim, o relacionamento entre escritores, atores e companhias.
O dicionário de Boyce contém ainda duas outras seções de verbetes. Uma delas relativa a obras afins, sejam elas fontes usadas por Shakespeare que recebem aqui um breve comentário, sejam obras cuja autoria é atribuída a ele, umas com mais, outras com menos verossimilhança. É pena que essas informações resultem inúteis no Brasil, pois as edições desses textos são raras mesmo na Inglaterra. A outra seção descreve documentos e artefatos relacionados com Shakespeare: pinturas, ilustrações, manuscritos e seu brasão.
Não obstante as críticas possíveis, o livro de Boyce é uma grande contribuição ao estudo do maior dramaturgo de todos os tempos e de sua obra, com algumas informações difíceis de encontrar mesmo nas edições especializadas mais conhecidas.Os eventuais lapsos de informação apenas comprovam a amplidão e o gigantismo do projeto. Pode ser fácil indicar lacunas num dicionário ou dar sugestões para possíveis verbetes, mas deve-se ter em conta a qualidade do material efetivamente levantado, que é ótima nesse caso. Com um texto simples, conciso e saboroso, Boyce chega perto do mais alto prêmio que um dicionário pode almejar, o status de um livro de leitura corrida, e não “apenas” o de uma obra de referência.
JORNAL: Caderno de leitura.
DATA: janeiro/ fevereiro de 1998
SESSÃO: Resenha
PÁGINA: 14 – 15