Shakespeare: a nova mania nos palcos
Shakespeare . A nova mania nos palcos, com estranhos sotaques.
Várias peças do maior dramaturgo inglês de todos os tempos passaram recentemente pelos palcos de são Paulo e nada menos de quatro continuam em cartaz. Mas nem todas são fiéis ao texto e a poesia do mestre do teatro da palavra.
Recentemente, os teatros foram ocupados por uma mania: que não parece querer ir embora: William Shakespeare. Entre muitas montagens destacam-se, das peças históricas, um “Ricardo III”, “Sonhos de Uma Noite de Verão” representando as comédias e, quanto às tragédias, um “Othello” e. nada menos que duas montagens simultâneas de “Macbeth”!
Mas esses espetáculos são tão diferentes entre si, que o novo público shakespeariano fica a se perguntar como a obra de um só homem pode se prestar a tal quantidade de tratamentos e provocar resultados tão heterogêneos? Em suma, o que diferencia a boa montagem da ruim? A segurança numa reprodução das tradições, ou a originalidade dos arrebatamento experimentais? Nem um, mim outro, é claro. Um espetáculo tradicional pode, caso seja feito sem cuidado, resultar num fiasco, tão grande quanto a encenação mais equivocadamente revolucionária. Qual é então esse indispensável critério norteador, partindo do princípio de que existe um, para reputar o espetáculo que acabamos de ver como um bom ou mau Shakespeare?
Algo esquecido por algumas das recentes montagens é o fato do teatro elizabetano ser, por excelência, o teatro da palavra falada. Desprovido de cenários, com figurinos precários, tendo os papéis femininos representados por garotos adolescentes (uma vez que as mulheres eram proibidas de subir -no palco), encenado à luz do dia, e portanto sem maiores jogos de luz, não é de estranhar que esse teatro tenha buscado no verbo o poder para atingir sua realização, e compensar sua total falta de realismo. Aliada à imaginação de cada um, a poesia seria capaz de tomar plausíveis as tramas, os personagens e as circunstâncias de cada cena. Assim nos diz o coro de Henrique V, em seu primeiro monólogo, “Pensem, quando falamos de cavalos, que os vêem” ou “Com seu pensamento, coloquem de lado nossas limitações”. Nem de longe estou sugerindo que o teatro do século XX deva se despojar de sua tradição realista e de seus recursos cênicos, mas sim que, por uma circunstância histórica, a alma daquele teatro foi colocada no poder das palavras.
A narrativa poética é fundamental, e à observação de sua lógica interna cabe o papel de valor supremo no julgamento dos espetáculos. Um Shakespeare bem montado é aquele no qual o texto é respeitado. Infelizmente, esse respeito ao original nem sempre é fácil de atingir. Tropeços costumam aparecer, qualquer que seja a montagem, inclusive nessas mais recentes, ora em discutíveis critérios de tradução, ora em edições equivocadas do texto, ou ainda na falta de coerência em certas interpretações.
Para não falar dos riscos e desafios das traduções, o primeiro tipo de acidente possível é a má edição do texto. É normal que as peças sejam editadas, para ressaltar determinado aspecto de um personagem ou pelo simples fato de algumas serem longas demais. Mas ao fazê-lo, partes importantes do texto não podem ser amputadas indiscriminadamente, correndo-se o – risco de prejudicar a compreensão da e trama ou dos personagens.
“Macbeth”, por seu formato dinâmico e compacto, não exigiria tais cortes. Ela é’ por natureza uma obra especialmente vulnerável a esse tipo de acidente, como aconteceu na montagem de Ulisses Cruz, estrelada por Antonio Fagundes e Vera Fisher, na metade da peça, Macbeth, ao reunir seus barões para um banquete, é assombrado pelo fantasma de um dos homens que matou, ao longo do sangrento caminho rumo à coroa, caindo então num delírio auto – incriminatório. Lady Macbeth, sua cúmplice e esposa, toma as rédeas da situação e procura minimizar o vexame do marido. Mostra-se uma mulher forte e decidida, se firme e controlada. No entanto, na de próxima cena em que aparece (um ato meio mais tarde!), pasmem, ela já está louca, mergulhada num processo trágico, vagando sonâmbula pelo castelo. Ficamos nos perguntando o que se aconteceu, ou ao menos como aconteceu.
No original de Shakespeare, o enlouquecimento de Lady Macbeth é contado ao longo de parcas 29 linhas, o nas quais a dama de companhia conversa com o médico a respeito de seus estranhos sintomas; o diálogo é imediatamente seguido pela entrada da rainha louca. Mas esse diálogo está lá, e a concisão de Shakespeare não deve fazer com que subestimemos sua importância: mesmo muito curto, carrega um grande volume de informação. Através dele ficamos sabendo que a loucura de Lady Macbeth começou junto com a revolta dos barões contra seu marido, e somos também informados de seus estranhos hábitos noturnos, da “grande perturbação da natureza”, que é “receber o benefício do sono, e ao mesmo tempo os efeitos da vigília”, da existência de suas confissões inconscientes, de seu medo do escuro, em resumo, de que “seus olhos estão abertos”, “mas sua mente está fechada”. Na montagem de Ulisses Cruz, as 29 linhas foram suprimidas, e o resultado foi uma precipitação no processo psicológico do personagem; que se tomou artificial, uma vez que o fluxo dos acontecimentos não preparou a platéia para a transformação. Detalhe sutil, mas importante.
Outro erro freqüente acontece. quando a interpretação é equivocada. . Uma vez, ao final do espetáculo, um . amigo me disse: “Olha, eu já tinha visto o Hamlet amargo, o Hamlet filosófico, o Hamlet romântico, mas o Hamlet que não está nem aí, foi a primeira vez”. A piada fala por si mesma, mas vale a pena endossar o quanto é possível a variação na ênfase de cada personagem sem que se traia o original, e o quanto é prejudicial uma interpretação não coerente. Retomando o exemplo de Lady Macbeth, vale mencionar a interpretação dada ao personagem na montagem de Antunes Filho, por sinal, a melhor. O texto constrói na primeira parte da peça uma Lady Macbeth de temperamento forte e controlado. Contudo, essa montagem apresentava a rainha do “Trono de Sangue” como uma mulher exaltada e torturada desde antes do crime, numa contradição explícita entre suas falas de grande segurança interna e determinação e a maneira quase histérica com que eram ditas.
Mas o respeito de determinada produção ao texto, e portanto à essência do original, não pode ser medido apenas através de elementos isolados. Há que se desenvolver uma visão de conjunto, avaliando de forma geral o equilíbrio entre texto e ação. Nesse momento, o critério básico para opinar sobre as virtudes e defeitos do espetáculo é a compreensão da proposta global do diretor, e julgar o tratamento dado ao texto durante todo o espetáculo. Sob. esse ponto de vista, dois espetáculos chamam a atenção.
O primeiro é a montagem dos “Sonhos de Uma Noite de Verão”, dirigido por Cacá Rosset. O espetáculo é visualmente riquíssimo, com uma enorme quantidade de recursos cênicos. Sendo assim, diante de tantos elementos canalizadores da atenção do público, não é difícil perceber que a importância do texto fica, no mínimo, limitada, para não dizer secundária, ao longo de quase todo o espetáculo, exceção feita às cenas da turma de artesãos, composta por atores de veia humorística indiscutível. Esse sufocamento do texto sob os efeitos visuais era de se esperar, considerando que a montagem foi elaborada para um festival de teatro realizado em Nova York. Ora, só mesmo desviando as atenções para elementos externos ao texto é que um espetáculo inteiramente falado em português seria viável nos EUA.
O segundo é o “Othello” recém estreado na capital, que traz a ação da peça para os anos 40 deste século, numa ambientação que une os filmes noir com o clima do mestre do suspense Alfred Hitchcock. É preciso deixar claro que, a princípio, não há nada que condene semelhante “modernização” das peças. “West Side Story”(no Brasil, “Amor Sublime Amor”), a notável obra do maestro e compositor Leonard Bemstein, em que a tragédia de Romeu e Julieta é musicada e situada nos subúrbios de Nova York nos anos 50/60, é a prova maior dessa possibilidade. O próprio Shakespeare costumava re-trabalhar temas e peças já existentes, como é inclusive o caso de “Othello”. derivada de uma das histórias que compunham a obra “Hecatommithi”, uma coleção de lendas italianas reunidas e impressas no século XVI.
Contudo, na maioria das vezes, o texto sofre tantas alterações que precisa deixar de ser a base na qual fundamos nossa avaliação sobre o grau de respeito ao original. Ela agora deve ser feita tendo em vista apenas a essência de cada personagem, seu perfil psicológico geral e não suas falas. Isso posto, verificamos o quão distante essa nova montagem de Othello está do original de Shakespeare, apesar de ser um espetáculo convincente e belo. Othello não pertence a nenhuma minoria racial ou religiosa, nem está numa relação tensa com a sociedade em que vive, alterando por completo a essência de seu processo psicológico ao longo da peça, agora resumido simplesmente a um drama conjugal.
JORNAL da USP – São Paulo
DATA: 26/10 a 01/11/1992
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