Sempre te li nunca te amei
Acaba de chegar ao mercado um fetiche perverso do mundo editorial. Qual? Prepare seu coração: um livro que reúne mil modalidades das chamadas “cartas de recusa”.
Para quem não sabe, nessas famigeradas cartas os editores, cada um a seu modo, com mais ou menos habilidade, dispensa os originais que autores conhecidos e desconhecidos dirigem à editora, assim como o náufrago projeto o braço em direção ao rochedo que pode salvá-lo da borrasca.
As cartas reunidas nessa jóia de vouyerismo não são autênticas. Saem da mente manipulativa do escritor Camilien Roy. O título é direto: A arte de recusar um original (Rocco, 144 págs.). Graças a essa obra, e pela primeira vez, os editores dizem para os escritores que julgam sem talento aquilo que realmente sempre têm vontade de dizer. O editor chegado a uma pornografia reclama com o autor desconhecido: “Falta foda em sua história”. O editor constrangido, balbucia suas desculpas, ao explicar o inexplicável: “Aconteceu um pequeno acidente que lhe diz respeito. O manuscrito que o senhor nos confiou para análise acabou indo parar no… depósito de lixo”. O editor conciso, com poucas palavras, explode em um milhão de pedaços o rochedo diante dos olhos do homem que se afoga: “Lemos e não gostamos”.
Vocês devem estar achando que essa correspondência entre o autor que deseja ser publicado e um náufrago é exagerada. Devem estar achando que eu forcei a mão. Acho até natural. Quem não é escritor, ou não trabalha com alguma atividade que exija a criação, talvez não consiga mesmo dimensionar corretamente a importância vital que o desejo de ver seu livro impresso e circulando pode ganhar na alma e na vida cotidiana de um escritor.
Arrisco dizer que para a maioria dos escritores, bons ou ruins, o livro realiza antes de tudo mais um sonho de imortalidade. Se ele será considerado uma obra-prima, isso é um segundo momento de concretização do sonho, mas a publicação é o primeiro passo crucial. E não me digam que postar seu romance num blog é a mesma coisa. A virtualidade não dá as mesmas garantias da sobrevivência material do texto. E contra a morte, contra o desaparecimento da matéria que sustenta a consciência individual, nada como a tinta preta sobre papel branco. Livro é livro. Nada é tão permanente. O espetáculo teatral passa, os filmes de menos de cem anos atrás hoje são verdadeiros trapos velhos, precisando ser remasterizados e fotochopados, para não falar dos registros musicais, que até pouco tempo arranhavam, chiavam e disparavam pipocos para todos os lados. Um livro, para o editor, é mais um; mas para o escritor, é o sumo de sua existência.
Então, quando lhe recusam um livro, o autor ouve a recusa como se o editor estivesse dizendo: “Não vou contribuir para a sua imortalidade, vou barrar a transcendência de sua passagem pela face da terra; você, se depender de mim, permanecerá mortal e medíocre, com sua memória sendo definitivamente enterrada dentro de duas ou três gerações de seus filhos e netos, e todas elas juntas não serão mais que um espirro do carona no banco de trás do rolo compressor da história”.
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Está compreendida a gravidade do assunto de que estamos falando? Então vamos em frente. Se você é escritor e já teve seu livro recusado isso vai parecer incrível, inaceitável, mas, em sua ficção travestida de documentação, o livro de Camilien Roy prova, por A + B, que o fato de um editor recusar o seu livro não o transforma automaticamente em um canalha. E, portanto, não há, necessariamente, motivo para que você o transforme num desafeto irresgatável. Pode até haver motivo, mais isso não é obrigatório.
Quantos editores, por exemplo, já não tiveram o difícil papel de dizer a um autor que os originais de seu livro, enviados seis meses antes via sedex – registrado, embalado, lambido, penteado, esfregado e, claro, carimbado pela Biblioteca Nacional –, não foi lido e simplesmente se perdeu dos escaninhos reservados para os livros submetidos espontaneamente à análise da editora? Muitos, centenas de milhares, milhões; acreditem. Não há uma boa casa do ramo em que esse controle não tenha falhado alguma vez, criando a saia-justa mais desagradável de todas. E muitos desses editores anunciam o “incidente” com o coração sinceramente partido.
Mas em tudo nessa vida há sempre um outro lado. Os estereótipos nos acostumaram a entender a relação escritor x editor da seguinte forma: criação x administração, amor x ódio, sensibilidade x pragmatismo. O escritor tem sempre um quê masoquista, se humilhando, e o editor é sempre o sádico, provocando a dor por interesses menos nobres. Seria possível, por um minuto, invertermos a situação? Falarmos de escritores sádicos x editores masoquistas?
Eu diria que sim, e digo meus motivos. Certa vez, ouvi de um editor mais velho o seguinte conselho: “Quando um autor de um péssimo original lhe pedir sua opinião sincera, minta, minta deslavadamente. E nessa hora, se ele acrescentar que você pode ser duro, pois se julga preparado para lidar com a crítica, saiba que você está correndo risco de vida”. Como se vê, quem vivia sob constante ameaça era esse editor, não os autores que ele ousava achar ruins.
O fato de ele fugir do confronto, diria você, só prova uma coisa, que ele não leu o livro do sujeito. Ele mentia não por medo sincero da reação imediata e do ressentimento eterno de um autor, mas porque na verdade simplesmente não havia cumprido o seu dever de casa mais elementar. Em geral isso até é verdade, mas não quer dizer muita coisa. Como assim? É simples: um bom editor, alguém de olho treinado (ou condicionado pela profissão), não precisa de mais do que algumas páginas para saber se um livro merece ser publicado ou não. Não é arrogância, é porque a seleção que um editor faz é igualmente fruto de sua criação pessoal, assim como o livro terminado é para o escritor. E, queiramos ou não, o editor tem direito a fazer compor seu catálogo com os livros que quiser, assim como o escritor tem de preferir fazer um romance histórico a uma novela policial.
Mesmo em tese autorizados a exercer esse direito de escolha, os editores continuam ficando intimidados em explicitar a sua recusa. E se submetem à tortura psicológica dos escritores. Para se proteger da ira literária, quando não mentem “deslavadamente”, calam. Silenciam. Desaparecem. Ficam sempre em reunião, não respondem carta, email ou telefonema. Os escritores, e me incluo nisso, acham essa atitude desprezível, covarde, abjeta mesmo.
Contudo, nesse exercício de “virar a mesa” dos estereótipos, seria o caso de fazermos a seguinte pergunta: por quê, depois de seu original esperar por uma reposta quatro, seis, oito meses, até um ano inteiro, o escritor continua achando razoável constranger o pobre profissional que muitas vezes nem dono da empresa é? O ditado não diz que “Para bom entendedor, meia palavra basta”? Que dirá nenhuma palavra! O autor, que ao lidar com palavras e sentimentos deveria saber a importância do silêncio, faz-se de desdentendido, e vinga sua dor de cotovelo sem dó nem piedade.
Se você, mulher, sai à noite e dá seu telefone para uma paquera no bar, e ele demora oito meses para ligar, você vai ficar esperando? E mesmo que fique, se um dia reencontrar o sujeito, vai passar recibo de que ficou? Não vai, lógico que não. Então por que o escritor adora ficar se fazendo de vítima nessa situação? É ou não é um traço de sadismo invertido? É ou não é uma atitude motivada muito mais pelo despeito do que por uma real humildade?
Um editor, certa vez, recusou um original dizendo que o livro era bom, mas que a programação da editora estava fechada pelos próximos dois anos – repito, dois anos! Pois bem, o escritor, com a maior naturalidade, até se apressou em dizer: “Mas eu espero”. Vocês acham isso normal?!?!
Em outra oportunidade, três editores ficaram discutindo qual era a pior coisa da profissão. Um disse que eram as bienais do livro; outro disse que eram os vinhos servidos nas noites de autógrafo (ele inclusive desenvolveu a teoria de que existe um conglomerado secreto e gigantesco na vinicultura internacional, que capta, processa e redistribui uma espécie de uva a mais adocicada, desagradável e comprometida coma a asia e a dor de cabeça que pode existir, o rebotalho mesmo de toda a vinícola, cuja produção é todinha reservada para as garrafas servidas nas livrarias de todo o planeta); e o último, mais velho e experiente, pontificou que a pior coisa da profissão era “autor vivo”.
Tudo isso não pode ser à toa. A responsabilidade que um escritor joga nos ombros de um editor é grande demais para ser vivida intensamente todas as vezes. Daí as cartas de recusa, e daí o fato de que, sejam elas do editor pornográfico, constrangido ou conciso, nunca haverá maneira não dolorosa de recusar um original. É como contar para a esposa quarentona que você está tendo um caso com a irmã dela que é ninfeta. Você pode se cercar de todos os cuidados, mas vai doer de qualquer jeito.
[2009]