Sarajevo, de Sandra Cisneros

Para Minha Amiga em Sarajevo: Eu Não Sei o Que Fazer

por Sandra Cisneros

San Antonio, Texas- Nema. Significa “Não temos nada.” Foi a primeira palavra que aprendi quando cruzei a fronteira da Iugoslávia em 1983. Nema. Pasta de dentes? Nema. Papel higiênico? Nema. Café? Nema. Chocolate? Nema.

Mas tinha sim, muitas rosas quando estava lá, muitos memoriais de guerra para companheiros que caíram e as pedras das montanhas gritando Tito.

É verdade. Eu vivi lá, naquela rua que tinha um homem chamado Salenm, o gráfico, naquela casa que costumava ser a mercearia. Aquele foi o verão que eu passei como uma esposa.

Eu lavava as camisas à mão; todas as manhãs, com uma vassoura e um balde, eu lavava as partes cimentadas do chão do jardim, tirando os dejetos dos pombos que moravam no telhado.

Era verão. Tudo estava em flor. Nosso cachorro Lea teve 14 filhotinhos.

As crianças da vizinhança entravam e saíam do jardim, que estava coberto de castanhas, frutas e rosas, com flores tão pesadas que iam até o chão. E você vivia do outro lado da minha rua, Jasna. Naquela casa que já foi de sua mãe, e antes disso, da mãe dela.

Eu tenho suas receitas de pão frito, do seu famoso pão de fruta que, como você dizia, “sempre acaba saindo bom.”

Você vivia cheia de receitas e costuras, e fazia todos esses incríveis trabalhos domésticos que eu não consigo. Você era difícil. Você fumava demais e tinha humores inconstantes.

Naquela tarde, em que te encontrei no banco de madeira do jardim, atrás da minha cozinha, você me olhou como se sempre tivesse me conhecido, e eu olhei como se sempre tivesse conhecido você. Disso estávamos certas.

Depois de te encontrar eu estava sempre na sua casa, com suas grossas paredes de pedra e janelas grandes, suas poeiras, sua interminável necessidade de consertos, ajudando você a esticar a roupa ou conversando enquanto você trabalhava.

No lugar onde você casou e divorciou um marido, onde eu te preparei uma piñata e nós comemoramos seu aniversário e brincamos que aquela devia ser a única piñata em toda a Yugoslávia.

Lembra das tardes de Kaffa, assado no jardim, servido naquelas tijelinhas mínimas, como fazem os Turcos? Os minaretes e o triste canto chamando para a reza, como uma bandeira de seda negra flutuando no ar?

Você podia vir para os Estados Unidos e começar a traduzir meus contos para Servo-Croata. Nós estávamos quase conseguindo publicá-los em Sarajevo quando a guerra acabou com tudo.

Quem quer ler contos agora?

Não há falta de histórias quando não há calor ou pão ou água ou eletricidade. Nema, nema, nema.

Jasna, já fazem dez anos desde aquele verão. Não ouvi mais falar de você desde o verão do ano passado. Quando ainda havia tempo você não partiu. Agora fico sabendo que você não vai partir.

Sua mãe doente, sem dúvida muito fraca para viajar, sua irmã nunca forte o suficiente para sequer tomar uma decisão. Eu presumo que você é quem está cuidando delas. Eu tenho certeza disso.

Eu falei com sua outra irmã na Eslovênia. Falei com seu irmão na Alemanha. Acendemos nossas velas e estamos doentes de tanta preocupação.

Eu sonho com você, Jasna. Você não está morta. Ainda não. Eu tenho certeza disto porque eu te conheço muito bem, e se você morresse você viria aqui me avisar.

Sr. presidente dos Estados Unidos, líderes de todos os países do mundo, todos vocês políticos, todos vocês que decidem os destinos das nações, vocês que tem a excelência do poder, estejam ou não me ouvindo, Querido a Quem Interessar Possa, estou cheia de vocês.

Isso é real. Não estou inventando histórias. Uma mulher está lá. Ela é minha miga, eu dou a minha palavra que é. Ela está lá dentro. Tirem-na de lá, eu exijo. Tirem a todos de lá.

Levem uns cobertores que eu tenho, minha linda casa nova, meus vestidos de seda, minha barriga cheia, minha geladeira repleta de comida, meu supermercado, minha primavera, minha eletricidade, minha água limpa, minha caminhonete, meus dólares americanos, minhas árvores, flores, e noites suaves de acalento.

Eu exijo que vocês entrem lá, eu exijo que vocês me dêem uma espada mais poderosa que a minha caneta inútil, eu exijo que vocês desembarquem em Sarajevo.

Eu  levo vocês à casa dela. Eu tenho medo, mas eu levo.

Palavras. Eu sei o que minhas exigências representam. Eu conheço as palavras. Não há falta de palavras em Sarajevo.

Sou uma escritora, sou uma mulher. Sou um ser humano. Em outras guerras eu lembro de assistir monges budistas tocarem fogo em si próprios, pedindo pela mesma coisa que eu, e o que ele ganhou com isso?

Uma mulher que eu conheço está lá. Naquele país. Uma mulher que eu amo como qualquer mulher ama outra mulher. Aquela mulher, hermana de mi corazón, irmã do meu coração.

Eu conheço essa mulher. E eu estou em San Antonio e os dias e as horas e os meses passam e os jornais gritam: Algo tem que ser feito! Uma pessoa, uma pessoa, ajudem essa pessoa!

E eu ouço essa pessoa. E eu conheço essa pessoa. Eu amo essa pessoa. E eu não sei o que fazer. Eu não sei o que fazer.

Sandra Cisneros é autora de “A Gruta do Eco de uma Mulher e Outras Histórias”. Esse artigo foi adaptado pelo New York Times de um discurso que ela fez no Dia Internacional da Mulher em San Antonio.