Salomé, de Oscar Wilde

Apresentação

Segundo o testemunho de seus contemporâneos, o talento que Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde, ou seja, Oscar Wilde, demonstrou na poesia, em seu único e extraordinário romance, em seus ensaios e críticas, e até na dramaturgia, sua especialidade, não se comparava a seu talento para conversar. O grande fluxo com que as idéias brotavam em sua mente, sempre frescas e espirituosas, não impedia que elas demonstrassem um profundo conhecimento da natureza humana. Mas ele mesmo, em seu tom de cinismo brincalhão, pareceu ironizar essa inversão na hierarquia de seus talentos, ao escrever que, “Os únicos artistas que jamais conheci, que são pessoalmente agradáveis, são maus artistas. Os bons artistas existem apenas no que fazem, e por consequência são totalmente desinteressantes no que são.” Portanto, nós que não tivemos o privilégio de conhecê-lo, mas herdamos sua obra, não temos do que nos queixar.

Seu mais importante ciclo de peças, no qual retratou os decadentes, e deliciosos, aristocratas ingleses do fim do século, talvez seja a “marca” literária mais expressiva de sua maneira de ser, escrever, e do próprio mundo em que viveu. “Salomé” representou o casamento desse mundo decadente que as outras peças espelhavam, com uma linguagem e uma forma totalmente novas. Não por acaso, a peça foi massacrada pela crítica inglesa desde o surgimento em 1892. Seu defeito primordial aos olhos da crítica inglesa de então, era o fato de ter sido escrita em francês. Dúvidas quanto à correção no uso da língua estrangeira foram imediatamente levantadas. Mas “Salomé”, contrariando as expectativas, despertou o encanto da grande atriz de teatro da época, a francesa Sarah Bernhardt, que decidida a encená-la, entrou em ensaios no ano seguinte ao término da obra. Estes, no entanto, não foram longe. “Salomé” teve sua montagem interrompida pela censura, que se baseou numa proibição segundo a qual personagens bíblicos não podiam ser apresentados no palco. 

Para piorar as coisas, Wilde tomara liberdades artísticas ao lidar com o material de origem religiosa, cometendo anacronismos ou simplesmente compondo de forma inédita alguns personagens desse episódio bíblico, contido nos evangelhos de São Mateus(14) e São Marcos(6). A primeira dessas licenças poéticas diz respeito ao próprio São João Batista, aqui chamado de Iokanaan. Além disso, seu personagem Heródias, por exemplo, mistura traços relativos a Herodes, o Grande, governador da Galiléia e rei da Judéia e dois de seus filhos, Herodes Antipas e Herodes Felipe. Historicamente, é Herodes Antipas o padrasto de Salomé, e tetrarca da Galiléia entre 4 a.C. e 39 d.C., mas tudo leva a crer que Wilde tenha seguido uma tradição que remonta ao teatro medieval inglês, no qual Herodes funcionava como um arquétipo, e não como um personagem diferenciado ao longo da história. Um eixo temático essencial do episódio também foi deslocado. Oscar Wilde, ao contrário da Bíblia, apresenta como causa principal da execução de São João Batista a paixão luxuriosa de Salomé e não o ódio que lhe era devotado pela rainha Herodíades.

Em meio à polêmica quanto ao grau de fidelidade de Wilde à Bíblia, surgiu a crença, generalizada entre os críticos, de que “Salomé” seria uma peça feita especialmente para Mme. Bernhardt. A origem desse mito foi talvez o entusiasmo da grande atriz, ou o fato da peça ter sido escrita em francês e o consequente despeito dos críticos literários ingleses, ou uma combinação dessas circunstâncias. Contudo, em carta ao editor do Times, Wilde foi taxativo:

Ao Editor do Times,

Senhor, Minha atenção foi despertada por uma resenha de Salomé que foi publicada em suas colunas na semana passada. As opiniões dos críticos ingleses sobre o meu trabalho em francês têm, é claro, pouco, se é que algum, interesse para mim. Eu escrevo apenas para lhe pedir que me permita corrigir uma inverdade que apareceu na resenha em questão.

O fato da maior atriz trágica viva de qualquer palco, hoje em dia, ter visto em minha peça tamanha beleza que ficou ansiosa para produzi-la, para encarnar pessoalmente a heroína, para emprestar a todo o poema o carisma de sua personalidade, e a minha prosa a música de sua voz de flauta- isso foi, naturalmente, e sempre será, uma fonte de orgulho e prazer para mim, e eu anseio por ver Mme. Bernhardt encenar minha peça em Paris, aquele vívido centro artístico, onde dramas religiosos são frequentemente apresentados. Mas minha peça não foi, de forma alguma, escrita para qualquer ator ou atriz, nem jamais farei algo parecido. Semelhante tarefa é para o artesão da literatura, não para o artista.

O.W.

Pouco depois desse atribulado período na trajetória da peça, foi publicada (1894), em Londres, a tradução inglesa do texto original, feita por ninguém menos do que Lord Alfred Douglas, “Bosie” em pessoa, o homem com quem Oscar Wilde seria acusado, um ano mais tarde, de haver cometido atos de sodomia, num processo que levaria Wilde a cumprir dois anos de prisão e, mais tarde, ao auto-exílio na França. Desde então, o texto de Lord Alfred é considerado virtualmente o original da obra, servindo como referência para todas as montagens significativas da peça, e nele se baseou a presente tradução. Talvez, os leitores deste século compartilhem, até certo ponto, do estranhamento dos críticos ingleses ao lerem Oscar Wilde em francês.

Mas, pouco a pouco, e apesar dos retrocessos, a sorte de “Salomé” foi mudando. Em1896, no Théâtre Libre de Paris, ela foi montada pela primeira vez, com relativo sucesso, e incondicionais elogios do autor ao espetáculo. Porém, na capital inglesa, duas montagens (1895 e 1896) receberam críticas cuja dureza ficava próxima a das reações iniciais. Com o passar do tempo, apesar da hostilidade dos ingleses, e da morte de Wilde (1900), todos os grandes palcos da Europa tiveram sua chance de ver essa obra daquele escritor tão polêmico. Então, em 1905, o compositor Richard Strauss estreou sua ópera homônima, cujo libretto é, com alterações mínimas, o texto de Wilde. Com o reconhecimento da vanguarda artística da época, e de nomes respeitados como Strauss, “Salomé” resistiu galhardamente à acidez dos críticos. De lá para cá, ela se tornou um fenômeno em número de apresentações, ultrapassando até mesmo os clássicos de Wilde, como The Importance of Being Earnest, Lady Windermere’s Fan e A Woman of No Importance.

São duas as linhas mestras usadas por Wilde na composição de “Salomé”, que podem explicar seu lugar de destaque no conjunto de sua obra. A primeira delas diz respeito à fluência, ou melhor, à ausência dela no texto. Composto por frases curtas, que se repetem, o texto de “Salomé” nem de longe reproduz a fluência dos diálogos das peças anteriores. A repetição das frases, numa espécie de stacatto literário, dá um ritmo de grande beleza e solenidade às falas, e em segunda instância, à ação. Desse recurso, Wilde disse: “Os refrões são os motivos recorrentes que tornam Salomé tão parecida com uma peça musical, e amarram-na num todo, como uma balada.” 

Em seguida, destaca-se uma forte atmosfera de sensualidade. Não há em “Salomé” nem sombra daquele clima alegremente devasso da aristocracia inglesa das outras peças. Aqui, a sensualidade adquire uma coloração mais escura, um peso maior, contaminando todos os aspectos da obra. Na trama, todos os personagens são desejados uns pelos outros, ligações são insinuadas e outras explicitamente mencionadas. Mas apenas o enredo não seria suficiente para expressar todo esse clima de sensualidade corrupta. A verdadeira engranagem por trás disso é a riqueza das imagens usadas por Wilde, que em tudo acentuam a importância de elementos sensoriais, como as cores, as texturas dos objetos, os perfumes. A sensualidade mistura-se à cobiça material na atmosfera da peça, enquanto os dois personagens principais, Salomé e seu padrasto Herodes, usam as palavras como manifestações de suas luxúrias.  Ambos expressam, de forma mais ou menos explícita, desejos carnais que não  conseguem realizar, e ele ainda passa a vida a descrever riquezas que não lhe trazem real felicidade. A decadência da corte de Herodes é a decadência provocada pelos desejos que não se concretizam. Decadentes e corrompidos, os personagens não aguentam ver seus desejos frustrados, levando-os sempre às últimas consequências.

É compreensível que a sociedade vitoriana, famosa por sua hipocrisia e conservadorismo, não gostasse de uma peça como “Salomé”. Talvez tenham nascido dessa incompatibilidade fundamental as críticas contra Wilde e sua peça. Ele, porém, costumava dizer, com a hombridade que só os injustamente desgraçados podem ter, e até com uma pitada de arrogância: “O elogio me deixa agradecido, mas quando sou atingido é que fico certo de ter alcançado as estrelas.” Esse é, sem dúvida, o caso em “Salomé”.

Salomé

de Oscar Wilde

CENA- Um grande terraço no palácio de Herodes, acima do salão de banquetes. Alguns soldados estão debruçados no parapeito. À direita uma gigantesca escadaria, à esquerda, no fundo, um velho poço cercado por uma parece de bronze esverdeado. A lua está brilhando com muita intensidade.

O Jovem Sírio: 

Quão bela está a Princesa Salomé hoje à noite!

O pajem de Herodíades:

Olhe para a lua. Quão estranha a lua parece! Ela é como uma mulher levantando-se de um túmulo. Ela é como uma mulher morta. Podia-se imaginar que ela estivesse à procura de coisas mortas.

O Jovem Sírio:

Ela tem um estranho olhar. Ela é como uma pequena princesa que usa um véu amarelo, e cujos pés são de prata. Ela é como uma Princesa que tem pequeninos pombos brancos no lugar dos pés. Podia-se imaginar que ela estivesse dançando.

O Pajem de Herodíades:

Ela é como uma mulher que está morta. Ela move-se muito lentamente.

[Um barulho no salão de banquetes.]

Primeiro Soldado:

Mas que levante! Quem são essas feras selvagens uivando?

Segundo Soldado:

Os judeus. Eles são sempre assim. Eles estão sempre discutindo sobre sua religião.

Primeiro Soldado:

Por que eles discutem sobre sua religião?

Segundo Soldado:

Não sei dizer. Eles estão sempre fazendo-o. Os Fariseus, por exemplo, dizem que existem anjos, e os Saduceus declaram que os anjos não existem.

Primeiro Soldado:

Eu acho ridículo discutir sobre tais coisas.

O Jovem Sírio:

Quão bela está a Princesa Salomé hoje à noite!

O Pajem de Herodíades:

Você está sempre olhando para ela. Você a olha demais. É perigoso olhar para as pessoas desta forma. Algo terrível pode acontecer.

O Jovem Sírio:

Ela está muito bela hoje à noite.

Primeiro Soldado:

O Tetrarca está com uma aparência sombria.

Segundo soldado:

Sim; ele está com uma aparência sombria.

Primeiro Soldado:

Ele está olhando para alguma coisa.

Segundo Soldado:

Ele está olhando para alguém.

Primeiro Soldado:

Para quem ele está olhando?

Segundo Soldado:

Não sei dizer.

O Jovem Sírio:

Quão pálida está a Princesa! Nunca a vi tão pálida. Ela é como a sombra de uma rosa branca num espelho de prata.

O Pajem de Herodíades:

Você não deve olhar para ela. Você a olha demais.

Primeiro Soldado:

Herodíades encheu o copo do Tetrarca.

O Capadócio:

É essa a Rainha Herodíades, aquela que veste a escura mitra, onde pérolas estão costuradas, e cujo cabelo é polvilhado de poeira azul?

Primeiro Soldado:

Sim; essa é Herodíades, a esposa do Tetrarca.

Segundo Soldado:

O Tetrarca gosta muito de vinho. Ele tem vinhos de três qualidades. Um que é trazido da Ilha de Samotrácia, e é roxo como o manto de César.

O Capadócio:

Eu nunca vi César.

Segundo Soldado:

Outro que vem de uma cidade chamada Chipre, e que é amarelo como o ouro.

O Capadócio:

Eu amo o ouro.

Segundo Soldado:

E o terceiro é um vinho da Sicília. Esse vinho é vermelho como o sangue.

O Núbio:

Os deuses de minha terra gostam muito de sangue. Duas vezes ao ano sacrificamos jovens rapazes e donzelas: cinquenta rapazes e cem donzelas. Mas eu receio que nunca lhes damos o suficiente, pois eles são muito duros conosco.

O Capadócio:

Em meu país não resta nenhum deus. Os romanos os expulsaram. Há os que dizem que eles se esconderam nas montanhas, mas eu não acredito. Três noites eu estive nas montanhas procurando em todo o lugar. Eu não os encontrei, e finalmente os chamei por seus nomes, e eles não vieram. Acho que estão mortos.

Primeiro Soldado:

Os Judeus adoram a um Deus que não se pode ver.

O Capadócio:

Eu não consigo entender isso.

Primeiro Soldado:

Na verdade, eles só acreditam em coisas que não se pode ver.

O Capadócio:

Isso me parece inteiramente ridículo.

A Voz de Iokanaan:

Depois de mim, virá outro mais poderoso que eu. Eu não sou digno sequer de amarrar os cordões de seus sapatos. Quando ele vier, os lugares solitários se alegrarão. Eles florescerão como a rosa. Os olhos dos cegos verão o dia, e os ouvidos dos surdos serão abertos. A criança lactente porá sua mão no esconderijo do dragão, ele guiará os leões por suas jubas.

Segundo Soldado:

Faça com que ele se cale. Ele está sempre dizendo coisas ridículas.

Primeiro Soldado:

Não, não. Ele é um homem sagrado. Ele é muito gentil também. Todo o dia, quando lhe dou de comer, ele me agradece.

O Capadócio:

Quem é ele?

Primeiro Soldado:

Um profeta.

O Capadócio:

Qual é seu nome?

Primeiro Soldado:

Iokanaan.

O Capadócio:

De onde ele vem?

Primeiro Soldado:

Do deserto, onde se alimentava de gafanhotos e mel selvagem. Ele vestia-se com pelo de camelo, e em volta de sua cintura usava um cinto de couro. Ele era muito horrível de se olhar. Uma grande multidão costumava seguí-lo. Ele tinha até discípulos.

O Capadócio:

De que ele está falando?

Primeiro Soldado:

Nunca sabemos dizer. Às vezes, ele fala coisas que amedrontam quem ouve, mas é impossível entender o que diz.

O Capadócio:

Pode-se vê-lo?

Primeiro Soldado:

Não. O Tetrarca o proibiu.

O Jovem Sírio:

A Princesa escondeu seu rosto atrás de seu leque! Suas mãozinhas brancas estão tremulando como pombas que voam para seus ninhos. Elas são como borboletas brancas. Elas são exatamente como borboletas brancas.

O Pajem de Herodíades:

Em que isso lhe interessa? Por que você a olha? Você não deve olhá-la…. Algo terrível pode acontecer.

O Capadócio:

[Apontando para o poço.] Que estranha prisão!

Segundo Soldado:

É um velho poço.

O Capadócio:

Um velho poço! Esse deve ser um lugar peçonhento para se ficar!

Segundo Soldado:

Oh não! Por exemplo, o irmão do Tetrarca, seu irmão mais velho, o primeiro marido de Herodíades, a Rainha, ficou aprisionado ali por doze anos. E isso não o matou. E, no fim dos doze anos, ele teve que ser estrangulado.

O Capadócio:

Estrangulado? Quem teve coragem de fazê-lo?

Segundo Soldado:

[Apontando para o carrasco, um imenso negro.] Aquele homem ali, Naaman.

O Capadócio:

Ele não teve medo?

Segundo Soldado:

Oh não! O Tetrarca mandara-lhe o anel.

O Capadócio:

Que anel?

Segundo Soldado:

O anel da morte. Por isso ele não teve medo.

O Capadócio:

Ainda assim, é uma coisa terrível estrangular um rei.

Primeiro Soldado:

Por quê? Reis têm apenas um pescoço, como outras pessoas.

O Capadócio:

Eu acho terrível.

O Jovem Sírio:

A Princesa está se levantando! Ela está deixando a mesa! Ela parece muito atormentada. Ah, ela está vindo para cá. Sim, ela está vindo em nossa direção. Quão pálida ela está! Nunca a vi tão pálida.

O Pajem de Herodíades:

Não olhe para ela. Peço-lhe que não olhe para ela.

O Jovem Sírio:

Ela é como um pombo que se desviou… Ela é como um narciso balançando ao vento… Ela é como uma flor de prata.

[Entra Salomé.]

Salomé:

Eu não ficarei. Eu não consigo ficar. Por que o Tetrarca me olha a todo o instante, com seus olhos de roedor sob suas pálpebras tremulantes? É estranho que o marido de minha mãe olhe para mim dessa maneira. Eu não sei o que isto significa. Na verdade, eu sei muito bem.

O Jovem Sírio:

Deixaste o banquete, Princesa?

Salomé:

Quão doce está o ar aqui! Posso respirar aqui! Lá dentro, há Judeus de Jerusalém que estão se rasgando aos pedaços por suas estúpidas cerimônias, e bárbaros que bebem e bebem e derramam seu vinho no chão, e Gregos de Esmirna, com olhos pintados e faces pintadas, e cabelos frizados cacheados em colunas, e Egípcios silenciosos e perspicazes, com unhas compridas de jade e mantos de veludo, e Romanos brutos e roucos, com seu jargão grosseiro. Ah! como eu desprezo os Romanos! Eles são rudes e ordinários, e se dão ares de nobres senhores.

O Jovem Sírio:

Tenha a bondade de sentar-se, Princesa.

O Pajem de Herodíades:

Por que você está falando com ela? Oh! algo terrível acontecerá. Por que você olha para ela?

Salomé:

Como é bom ver a lua! Ela é como uma moeda, uma pequena flor de prata. Ela é fria e casta. Tenho certeza de que é uma virgem. Ela tem a beleza de uma virgem. Sim, ela é uma virgem. Ela nunca se maculou. Ela nunca abandonou a si mesma para os homens, como as outras deusas.

A Voz de Yokanaan:

Atenção! O Senhor já chegou. O Filho do Homem está à mão. Os centauros esconderam-se nos rios, as ninfas deixaram os rios e estão deitadas sob as folhas nas florestas.

Salomé:

Quem foi esse que gritou?


Segundo Soldado:

O profeta, Princesa.

Salomé:

Ah, o profeta! Aquele que causa temor ao Tetrarca?

Segundo Soldado:

Não sabemos nada disso, Princesa. Foi o profeta Yokanaan quem gritou.

O Jovem Sírio:

É de vosso agrado que eu peça para que tragam vossa liteira, Princesa? A noite está bonita no jardim.

Salomé:

Ele diz coisas terríveis sobre minha mãe, não diz?

Segundo Soldado:

Nunca entendemos o que ele diz, Princesa.

Salomé:

Sim; ele diz coisas terríveis sobre ela.

[Entra um escravo.]

O Escravo:

Princesa, o Tetrarca vos pede que retorne ao banquete.

Salomé:

Eu não voltarei.

O Jovem Sírio:

Perdoai-me, Princesa, mas se não voltardes algum infortúnio poderá acontecer.

Salomé:

Ele é um homem velho, esse profeta?

O Jovem Sírio:

Princesa, seria melhor que voltásseis. Permiti que eu vos acompanhe.

Salomé:

Esse profeta… ele é um homem velho?

Primeiro Soldado:

Não, Princesa, ele é bastante jovem.

Segundo Soldado:

Não se pode ter certeza. Há os que dizem que ele é Elias.

Salomé:

Quem é Elias?

Segundo Soldado:

Um profeta dessas terras em dias passados, Princesa.

O Escravo:

Que resposta posso eu dar ao Tetrarca de vossa parte, Princesa?

A Voz de Yokanaan:

Não rejubilai, Oh terra da Palestina, porque o cajado de quem vos castigava se quebrou. Pois da semente da cobra virá um lagarto, e aquilo que dele nascer devorará os pássaros.

Salomé:

Que voz estranha! Quero falar com ele.

Primeiro Soldado:

Receio que não seja possível, Princesa. O Tetrarca não permite que ninguém fale com ele. Proibiu até os altos sacerdotes de falarem com ele.

Salomé:

Eu desejo falar com ele.

Primeiro Soldado:

É impossível, Princesa.

Salomé:

Eu vou falar com ele.

O Jovem Sírio:

Não seria melhor que voltásseis ao banquete?

Salomé:

Tragam este profeta.

[ Sai o escravo.]

Primeiro Soldado:

Não ousamos, Princesa.

Salomé:

[Aproximando-se do poço e olhando para baixo.] Quão escuro é, lá embaixo! Deve ser terrível ficar num buraco tão escuro! É como uma tumba…. [Aos soldados.] Vocês não me ouviram? Tragam para fora o profeta. Quero olhar para ele.

Segundo Soldado:

Princesa, eu vos imploro, não nos peçais isso.

Salomé:

Vocês estão me fazendo esperar por um capricho.

Primeiro Soldado:

Princesa, nossas vidas vos pertencem, mas não podemos fazer o que nos pedistes. E, a bem dizer, não é a nós que deveríeis pedir tal coisa.

Salomé:

[Olhando para o jovem sírio.] Ah!

O Pajem de Herodíades:

Oh! o que irá acontecer? Tenho certeza de que algo terrível acontecerá.

Salomé:

[Aproximando-se do jovem sírio.] Vós fareis isso por mim, não fareis, Narraboth? Vós fareis isso por mim. Eu sempre fui gentil convosco. Vós fareis isso por mim. Eu quero apenas olhá-lo, esse estranho profeta. Homens falaram tanto sobre ele. Frequentemente, eu ouvi o Tetrarca falar dele. Acho que ele o teme, o Tetrarca. Vós estais, mesmo vós, também com medo dele, Narraboth?

O Jovem Sírio:

Eu não o temo, Princesa; não há homem que eu tema. Mas o Tetrarca proibiu formalmente que qualquer um levantasse a cobertura do poço.

Salomé:

Vós fareis isto por mim, Narraboth, e amanhã quando eu passar em minha liteira sob os portões dos vendedores de ídolos, eu deixarei cair para vós uma pequena flor, uma pequena flor verde.

O Jovem Sírio:

Princesa, eu não posso, eu não posso.

Salomé:

[Sorrindo.] Vós fareis issso por mim, Narraboth. Vós sabeis que fareis isso por mim. E na manhã em que eu passar, em minha liteira, na ponte dos compradores de ídolos, eu vos olharei por entre os véus de mousselini, eu olhar-vos-ei, Narraboth, pode ser que eu vos sorria. Olhai para mim, Narraboth, olhai para mim. Ah! Vós sabeis que fareis o que vos peço. Vós o sabeis… Eu sei que fareis isso por mim.

O Jovem Sírio:

[Fazendo um sinal para o terceiro soldado.] Deixe o profeta sair… A Princesa Salomé deseja vê-lo.

Salomé:

Ah!

O Pajem de Herodíades:

Oh! Quão estranha parece a lua! Como a mão de uma mulher morta que está procurando cobrir-se com a mortalha.

O Jovem Sírio:

Ela tem um aspecto estranho! Ela parece uma pequena princesa, cujos olhos são de âmbar. Através das nuvens de mousselini ela está sorrindo como uma pequena princesa. [O profeta sai do poço. Salomé olha para ele e anda lentamente para trás.]

Iokanaan:

Onde está aquele cujo cálice de abominação agora já se encheu? Onde está ele, que num manto de prata morrerá, um dia, diante de todos? Peçam-lhe que se aproxime, para que possa ouvir a voz do homem que já gritou nos desertos e nas casas dos reis.

Salomé:

De quem ele está falando?

O Jovem Sírio:

Ninguem sabe dizer, Princesa.

Iokanaan:

Onde está aquela que viu as imagens dos homens pintadas nas paredes, até as imagens dos Caldeus pintadas com cores, e entregou-se às luxúrias de seus olhos, e mandou embaixadores à terra Caldéia?

Salomé:

É de minha mãe que ele está falando.

Iokanaan:

Onde está aquela que entregou-se aos Capitães da Assíria, que têm bainhas de espadas em suas cinturas, e coroas de várias cores em suas cabeças? Onde está aquela que entregou-se aos jovens egípcios, que vestem-se em ricos linhos e flores de cheiro doce, cujos escudos são de ouro, cujos capacetes são de prata, cujos corpos são poderosos? Vá, diga-lhe que levante de sua cama de abominações, da cama de sua incestuosidade, que ela ouça as palavras daquele que prepara o caminho do Senhor, que ela arrependa-se de suas iniquidades. Embora ela não vá se arrepender, antes, agarrar-se-á a suas abominações, diga-lhe que venha, pois o leque do Senhor está em Sua mão.

Salomé:

Ah, mas ele é terrível, ele é terrível!

O Jovem Sírio:

Não fiqueis aqui, Princesa, eu vos imploro.

Salomé:

São os olhos dele acima de tudo que são terríveis. São como buracos negros queimados por tochas numa tapeçaria de Tiro. São como negras cavernas onde vivem dragões, as negras cavernas do Egito em que dragões fazem seu berço. São como lagos negros perturbados por fantásticas luas…. Você acha que ele falará novamente?

O Jovem Sírio:

Não fiqueis aqui, Princesa. Eu vos rogo que não fiqueis aqui.

Salomé:

Quão maltratado ele está! Ele é como uma estátua de fino marfim. Ele é como uma imagem de prata. Tenho certeza de que ele é casto, como a lua. Ele é um raio do luar, como um raio de prata. Sua carne deve ser muito fria, fria como o marfim… Eu observá-lo-ei de mais perto.

O Jovem Sírio:

Não, não, Princesa!

Salomé:

Eu preciso olhá-lo de mais perto.

O Jovem Sírio:

Princesa! Princesa!

Iokanaan:

Quem é essa mulher que olha para mim? Eu não quero que olhe para mim. De onde ela olha, com seus olhos de ouro, sob as pálpebras reluzentes? Eu não sei quem ela é. Eu não desejo saber quem ela é. Peça-lhe que se vá. Não é com ela que desejo falar.

Salomé:

Eu sou Salomé, a filha de Herodes, Princesa da Judéia.

Iokanaan:

Para trás! filha da Babilônia! Não se aproxime do escolhido do Senhor. Vossa mãe inundou a terra com o vinho de suas iniquidades, e o grito de seu pecado subiu até os ouvidos do Senhor.

Salomé:

Fale novamente, Iokanaan. Vossa voz é feito música para meus ouvidos.

O Jovem Sírio:

Princesa! Princesa! Princesa!

Salomé:

Fale novamente! Fale novamente, Iokanaan, e diga-me o que devo fazer.

Iokanaan:

Filha de Sodoma, não se aproxime de mim! Mas cubra vosso rosto com um véu, e espalhe cinzas sobre vossa cabeça, e vá para um deserto, e procure pelo Filho do Homem.

Salomé:

Quem é ele, o Filho do Homem? Ele é tão belo quanto vós, Iokanaan?

Iokanaan:

Suma da minha frente! Ouço, no palácio, o bater das asas do anjo da morte.

O Jovem Sírio:

Princesa, eu vos imploro que vá para dentro.

Iokanaan:

Anjo do Senhor Deus, o que fazeis aqui com sua espada? A quem procurais nesse palácio? O dia daquele que deve morrer num manto de prata ainda não chegou.

Salomé:

Iokanaan!

Iokanaan:

Quem fala?

Salomé:

Sinto-me atraída pelo vosso corpo, Iokanaan! Vosso corpo é branco, como os lírios de um campo que a foice jamais cortou. Vosso corpo é branco como as neves que ficam nas montanhas da Judéia, e descem para os vales. As rosas, no jardim da Rainha das Arábias, não são tão brancas quanto vosso corpo. Nem as rosas no jardim da Rainha das Arábias, nem o jardim de ervas da Rainha das Arábias, nem os pés da aurora quando eles iluminam as folhas, nem o seio da lua quando repousa no seio do mar… Não há nada no mundo tão branco como vosso corpo. Permiti que eu toque vosso corpo.

Iokanaan:

Para trás! filha da Babilônia! Pela mulher o mal veio ao mundo. Não faleis comigo. Não vos darei ouvidos. Ouço apenas a voz do Senhor Deus.

Salomé:

Vosso corpo é abjeto. É como o corpo de um leproso. É como uma parede emplastrada, por onde víboras se arrasataram; como uma parede emplastrada onde escorpiões fizeram seu ninho. Ele é como um sepulcro embranquecido, cheio de coisas repulsivas. Ele é horrível, vosso corpo é horrível. É por vosso cabelo que estou enamorada, Iokanaan. Vosso cabelo é como cachos de uvas, como os cachos de uvas negras que pendem das vinhas da Edômia, na terra dos Edomitas. Vosso cabelo é como os cedros do Líbano, como os grandes cedros do Líbano, que emprestam suas sombras aos leões e aos bandoleiros e que os escondem durante o dia. As longas noites escuras, quando a lua esconde seu rosto, quando as estrelas estão com medo, não são tão negras quanto vosso cabelo… Permiti que eu toque vosso cabelo.

Iokanaan:

Para trás, filha de Sodoma! Não me toqueis. Não profaneis o templo do Senhor Deus.

Salomé:

Vosso cabelo é horrível. Ele é coberto de lama e poeira. Ele é como uma coroa de espinhos colocada sobre vossa cabeça. Ele é como um nó de serpentes enlaçando vosso pescoço. Eu não amo vosso cabelo… É vossa boca que eu desejo, Iokanaan. Vossa boca é como uma faixa vermelha numa torre de marfim. Ela é como uma romã cortada ao meio com uma faca de marfim. As flores das romãzeiras que florescem nos jardins de Tiro, e são mais vermelhas que as rosas, não são tão vermelhas. Os brados vermelhos dos trompetes que anunciam a chegada dos reis, e amedrontam os inimigos, não são tão vermelhos. Vossa boca é mais vermelha que os pés daqueles que esmagam as uvas no barril. É mais vermelha que os pés dos pombos que habitam o templo e são alimentados pelos sacerdotes. Ela é mais vermelha que os pés daquele que sai de uma floresta, onde matou um leão, e viu tigres dourados. Vossa boca é como um ramo de coral que pescadores acharam nos confins do mar, o coral que eles reservam aos reis!… Ela é como o vermelhão que os Moabitas encontram nas minas da Moábia, o vermelhão que os reis tiram delas. Ela é como o arco do Rei dos Persas, que é pintado com vermelhão, e encrustado de corais. Não há nada no mundo tão vermelho quanto vossa boca… Permiti que eu beije vossa boca.

Iokanaan:

Nunca! filha da Babilônia! Filha de Sodoma! Nunca!

Salomé:

Eu beijarei vossa boca, Iokanaan. Eu beijarei vossa boca.

O Jovem Sírio:

Princesa, Princesa, vós sois como um jardim de mirra, vós sois o pombo dentre todos os pombos, não olheis para esse homem, não olheis para ele! Não faleis tais palavras para ele. Não posso suportá-lo… Princesa, não faleis tais coisas.

Salomé:

Eu beijarei vossa boca, Iokanaan.

O Jovem Sírio:

Ah! [Ele se mata, e cai entre Salomé e Iokanaan.]

O Pajem de Herodíades:

O jovem Sírio tirou a própria vida! O jovem capitão tirou a própria vida! Tirou a própria vida aquele que era meu amigo! Eu lhe dei um pequeno estojo cheio de perfumes e brincos de prata lavrada, e agora ele tirou a própria vida! Ah, ele não disse que aconteceria algum infortúnio? Eu, também, o disse, e agora isto se cumpriu. Bem, eu sabia que a lua estava procurando uma coisa morta, mas não sabia que era a ele que procurava. Ah! por que eu não o escondi da lua? Se eu o tivesse escondido numa caverna, ela não teria visto.

Primeiro Soldado:

Princesa, o jovem capitão acaba de tirar a própria vida.

Salomé:

Permiti que eu beije vossa boca, Iokanaan.

Iokanaan:

Não tendes medo, filha de Herodíades? Eu não vos disse que ouvira no palácio o bater das asas do anjo da morte, e ele não veio, o anjo da morte?

Salomé:

Permiti que eu beije vossa boca, Iokanaan. 

Iokanaan:

Filha do adultério, há apenas um que pode salvá-la. Era sobre Ele que eu falava. Vá procurá- lo. Ele está num barco no mar da Galiléia, e Ele fala com Seus discípulos. Ajoelhai na beira do mar e chamai-o por Seu nome. Quando Ele vos chegar, e a todos que o chamam Ele chega, curvai vosso corpo a Seus pés e pedi-lhe a redenção de vossos pecados.

Salomé:

Permiti que eu beije vossa boca.

Iokanaan:

Maldita sejais vós! filha de mãe incestuosa, maldita sejais!

Salomé:

Eu beijarei vossa boca, Iokanaan.

Iokanaan:

Eu não olhar-vos-ei. Vós sois amaldiçoada, Salomé, vós sois amaldiçoada. [Ele desce para o poço.]

Salomé:

Eu beijarei vossa boca, Iokanaan; eu beijarei vossa boca.

Primeiro Soldado:

Precisamos carregar o corpo para outro lugar. O Tetrarca não gosta de ver corpos mortos, a não ser os que ele mesmo matou.

O Pajem de Herodíades:

Ele era meu irmão, e mais chegado a mim que um irmão. Eu lhe dei um pequeno estojo cheio de perfumes, e um anel de ágato que ele usava em sua mão. À noite, costumávamos caminhar pelo rio, e entre as amendoeiras, e ele costumava me contar sobre as coisas de seu país. Ele sempre falava muito baixo. O som de sua voz era como o som de uma flauta, de alguém que toca flauta. Também tinha ele muita alegria de se ver no rio. Eu costumava reprová-lo por isso.

Segundo Soldado:

Você está certo; devemos esconder o corpo. O Tetrarca não pode vê-lo.

Primeiro Soldado:

O Tetrarca não virá a este lugar. Ele nunca vem ao terraço. Ele tem muito medo do profeta.

[Entra Herodes, Herodíades, e toda a Corte.]

Herodes:

Onde está Salomé? Onde está a princesa? Por que ela não voltou ao banquete como eu ordenei? Ah! Aí está ela!

Herodíades:

Você não deve olhar para ela! Você está sempre olhando para ela!

Herodes:

A lua tem uma aparência estranha hoje à noite.  Não tem ela uma aparência estranha? Ela é como uma mulher louca, uma mulher louca que procura amantes por toda a parte. Ela está nua também. Ela está toda nua. As nuvens procuram vestir sua nudez, mas ela não o permite. Ela se mostra nua no céu. Ela cambaleia por entre as nuvens como uma mulher bêbada… Eu tenho certeza que ela está à procura de amantes. Ela não cambaleia como uma bêbada? Ela é uma mulher louca, não é?

Herodíades:

Não; a lua é como a lua, isso é tudo. Vamos entrar… Nada temos para fazer aqui.

Herodes:

Eu ficarei aqui! Manasseh, ponha tapetes ali. Acenda tochas. Traga as mesas de marfim, e as mesas de jaspe. É doce o ar aqui. Eu beberei mais vinho com meus convidados. Devemos oferecer todas as honras aos embaixadores de César.

Herodíades:

Não é por eles que você fica.

Herodes:

É muito doce o ar aqui. Venha, Herodíades, nossos convidados nos aguardam. Ah! Eu escorreguei! Eu escorreguei em sangue! É um augúrio ruim. é um augúrio muito ruim. Por que há sangue aqui?… e esse corpo, o que faz aqui esse corpo? Pensam que sou como o Rei do Egito, que não dá nenhuma festa para seus convidados sem que lhes mostre um cadáver? De quem é isso? Eu não olharei para isso.

Primeiro Soldado:

É nosso capitão, alteza. É o jovem sírio que vós fizeste capitão da guarda há apenas três dias passados.

Herodes:

Eu não ordenei que ele fosse morto.

Segundo Soldado:

Ele tirou a própria vida, alteza.

Herodes:

Por que razão? Eu o fiz capitão de minha guarda!

Segundo Soldado:

Não sabemos, alteza. Mas, com sua própria mão ele tirou a própria vida.

Herodes:

Isso me parece estranho. Eu achava que apenas os filósofos romanos tiravam as próprias vidas. Não é verdade, Tigelino, que os filósofos em Roma tiram as próprias vidas?

Tigelino:

Há alguns que tiram as próprias vidas, alteza. Eles são os Estóicos. Os Estóicos são pessoas sem formação. Eles são pessoas ridículas. Eu, pessoalmente, julgo-os como sendo perfeitamente ridículos.

Herodes:

Eu também. E ridículo alguém tirar a própria vida.

Tigelino:

Todos em Roma riem deles. O Imperador escreveu uma sátira contra eles. Ela é recitada em todo o lugar.

Herodes:

Ah! ele escreveu uma sátira contra eles? César é maravilhoso. Ele pode fazer tudo… É estranho que o jovem sírio tenha tirado a própria vida. Eu lamento que ele tenha tirado a própria vida. Pois ele era belo de se olhar. Ele era até muito belo. Ele tinha olhos muito lânguidos. Lembro que o vi olhar languidamente para Salomé. Na verdade, achei que ele olhava demais para ela.

Herodíades:

Há outros que olham demais para ela.

Herodes:

Seu pai era um rei. Eu o tirei de seu reino. E de sua mãe, que era a rainha, você fez uma escrava, Herodíades. Então ele estava aqui como meu convidado, como se fosse, e por essa razão eu o fiz capitão de minha guarda. Eu lamento que esteja morto. Eu o fiz meu capitão. Ho! por que deixaram o corpo aqui? Ele deve ser levado a algum outro lugar. Eu não olhá-lo-ei, levem-no daqui! [Eles levam o corpo.] Está frio aqui. Há um vento soprando. Não há um vento soprando?

Herodíades:

Não, não há vento nenhum.

Herodes:

Eu lhe digo que há um vento que sopra… E ouço no ar algo que parece o bater de asas, parece o bater de enormes asas. Você não o está ouvindo?

Herodíades:

Eu não ouço nada.

Herodes:

Agora não ouço mais. Mas eu ouvi. Era o soprar do vento. Ele já passou. Mas não, eu ouço-o novamente. Você não o está ouvindo? é exatamente como o bater de asas.

Herodíades:

Estou lhe dizendo que não é nada. Você está doente. Vamos para dentro.

Herodes:

Não estou doente. E sua filha que está à beira da morte. Nunca a vi tão pálida.

Herodíades:

Eu lhe disse para não a olhar.

Herodes:

Sirvam-me de vinho. [O vinho é trazido.] Salomé, venha beber um pouco de vinho comigo. Tenho aqui um vinho que é excepcional. César em pessoa o mandou para mim. Mergulhe nele vossos pequenos lábios vermelhos, para que eu possa esvaziar a taça.

Salomé:

Eu não tenho sede, Tetrarca.

Herodes:

Vê como ela me responde, essa sua filha?

Herodíades:

Ela faz bem. Por que você está sempre olhando-a fixamente?

Herodes:

Tragam-me frutas maduras. [Frutas são trazidas.] Salomé, venha e coma frutas comigo. Adoro ver numa fruta as marcas de vossos pequeninos dentes. Basta que morda um pouco dessa fruta, para que eu possa comer o que sobrou.

Salomé:

Eu não tenho fome, Tetrarca.

Herodes:

[Para Herodíades.] Vê como você criou essa sua filha.

Herodíades:

Minha filha e eu viemos de uma raça nobre. Quanto a vós, vosso pai era um condutor de camelos! Ele era um ladrão e um bandoleiro além do mais!

Herodes:

Vós mentis!

Herodíades:

Vós bem sabeis que é verdade.

Herodes:

Salomé, venha sentar perto de mim. Eu vos darei o trono de vossa mãe.

Salomé:

Eu não estou cansada, Tetrarca.

Herodíades:

Vede vossa reputação junto a ela.

Herodes:

Tragam-me… O que é que eu desejo? Eu me esqueço. Ah! ah! Eu me lembro.

A Voz de Iokanaan:

Atenção a hora é chegada! Aquilo que eu vaticinei se realizará. O dia de que falei está próximo.

Herodíades:

Ordene-lhe que se cale. Eu não quero ouvir sua voz. Esse homem está sempre atirando insultos contra mim.

Herodes:

Ele não disse nada contra você. Além disso, ele é um grande profeta.

Herodíades:

Eu não acredito em profetas. Pode um homem dizer o que acontecerá? Nenhum homem o sabe. Além disso ele está sempre me insultando. Mas eu acho que você o teme… Eu bem sei que você o teme.

Herodes:

Eu não o temo. Eu não temo homem nenhum.

Herodíades:

Eu digo-lhe que você o teme. Se você não o teme, por que não o entrega aos judeus que pelos últimos seis meses vêm pedindo por ele?

Um Judeu:

É verdade, meu senhor, seria melhor entregá-lo a nossas mãos.

Herodes:

Chega desse assunto. Eu já dei minha resposta a você. Eu não o entregarei a suas mãos. Ele é um homem sagrado. Ele é um homem que viu Deus.

Um Judeu:

Isso não pode ser. Nenhum homem viu Deus desde o profeta Elias. Ele é o último homem que viu Deus face a face. Nos dias de hoje, Deus não se mostra. Deus se esconde. Portanto, grandes males se abateram sobre a terra.

Outro judeu:

Na verdade, nenhum homem tem certeza de que Elias o profeta tenha, de fato, visto Deus. Talvez fosse apenas uma sombra de Deus que ele tivesse visto.

Um Terceiro Judeu:

Deus nunca se esconde. Ele se mostra a todo o momento e em todos os lugares. Deus está no que é mau assim como Ele está no que é bom.

Um Quarto Judeu:

Vós não deveríeis dizer isso. É uma doutrina muito perigosa. É uma doutrina que vem de Alexandria, onde homens ensinam a filosofia dos Gregos. E os Gregos são gentios. Eles nem ao menos são circuncisados.

Um Quinto Judeu:

Nenhum homem pode dizer como Deus trabalha. Seus caminhos são muito escuros. Pode ser que as coisas que chamamos de más sejam boas, e que as coisas que chamamos de boas sejam más. Não há conhecimento de coisa nenhuma. Podemos apenas abaixar a cabeça diante de Sua vontade, pois Deus é muito forte. Ele quebra em pedaços o forte junto com o fraco, pois Ele não respeita nenhum homem.

Primeiro Judeu:

Vós falais a verdade. Realmente, Deus é terrível. Ele quebra em pedaços o forte e o fraco como os homens quebram  o milho num pilão. Mas quanto a esse homem, ele nunca viu Deus. Nenhum homem viu Deus desde o profeta Elias.

Herodíades:

Faça com que se calem. Eles me cansam.

Herodes:

Mas eu ouvi dizer que Iokanaan é na verdade o seu profeta Elias.

O Judeu:

Isso não pode ser. Faz mais de trezentos anos desde os dias do profeta Elias.

Herodes:

Há quem diga que esse homem é Elias, o profeta.

Um Nazareno:

Tenho certeza de que ele é Elias, o profeta.

O Judeu:

Não, mas ele não é Elias, o profeta.

A Voz de Iokanaan:

Atenção, o dia está próximo, o dia do Senhor, e eu ouço sobre as montanhas os pés daquele que será o Salvador do mundo.

Herodes:

O que isso significa? O Salvador do mundo?

Tigelino:

É um título que César usa.

Herodes:

Mas César não está vindo para a Judéia. Ontem mesmo eu recebi cartas de Roma. Elas não continham nada a esse respeito. E você, Tigelino, que esteve em Roma durante o inverno, você não ouviu nada a esse respeito, ouviu?

Tigelino:

Alteza, eu não ouvi nada a esse respeito. Eu estava apenas explicando o título. É um dos títulos de César.

Herodes:

Mas César não pode vir. Ele é gotoso demais. Dizem que seus pés são como os pés de um elefante. Há também razões de Estado. Aquele que deixa Roma perde Roma. Ele não virá. No entanto, César tem o poder, ele virá se isso fizer seu prazer. Todavia, acho que ele não virá.

Primeiro Nazareno:

Não foi com relação a César que o profeta disse essas palavras, alteza.

Herodes:

Como?- não foi com relação a César?

Primeiro Nazareno:

Não, meu senhor.

Herodes:

Com relação a quem ele falou?

Primeiro Nazareno:

Com relação ao Messias, que chegou.

Um Judeu:

O Messias não chegou.

Primeiro Nazareno:

Ele chegou, e em todo o lugar Ele faz milagres!

Herodíades:

Ho! ho! milagres! Eu não acredito em milagres. Eu já vi milagres demais. [Para o pajem.] Meu leque.

Primeiro Nazareno:

Esse Homem faz verdadeiros milagres. Por exemplo, num casamento que aconteceu numa pequena cidade da Galiléia, uma cidade de alguma importância, Ele transformou a água em vinho. Certas pessoas que estavam presentes me contaram o sucedido. Ele também curou dois leprosos que estavam sentados ante o Portão de Capernaum simplesmente tocando-os.

Segundo Nazareno:

Não; foram dois cegos que Ele curou no Capernaum.

Primeiro Nazareno:

Não; foram dois leprosos. Mas Ele já curou cegos também, e Ele foi visto numa montanha falando com anjos.

Um Saduceu:

Anjos não existem.

Um Fariseu:

Anjos existem, mas eu não acredito que esse homem tenha falado com eles.

Primeiro Nazareno:

Ele foi visto por uma grande multidão falando com anjos.

Herodíades:

Esses homens me cansam! Eles são ridículos! Eles são completamente ridículos! [Para o pajem.] Afinal! meu leque! [O pajem lhe entrega seu leque.] Você tem o olhar de um sonhador. Você não deve sonhar. Apenas as pessoas doentes sonham. [Ela bate no pajem com o leque.]

Segundo Nazareno:

Há ainda o milagre da filha de Jairo.

Primeiro Nazareno:

Sim, esse está provado. Nenhum homem pode negá-lo.

Herodíades:

Esses homens são loucos. Eles olharam muito tempo para a lua. Ordene-lhes que façam silêncio.

Herodes:

Qual é esse milagre da filha de Jairo?

Primeiro Nazareno:

A filha de Jairo estava morta. Esse Homem levantou-a do mundo dos mortos.

Herodes:

O quê! Ele levanta pessoas do mundo dos mortos?

Primeiro Nazareno:

Sim, alteza; Ele levanta os mortos.

Herodes:

Eu não quero que Ele o faça. Eu o proibo de fazer isso. Eu não permito que nenhum homem levante os mortos. Esse Homem deve ser encontrado e avisado que eu o proibo de levantar os mortos. Onde está esse Homem no momento?

Segundo Nazareno:

Ele está em todo o lugar, meu senhor, mas é difícil encontrá-lo.

Primeiro Nazareno:

Dizem que Ele está agora na Samaria.

Um Judeu:

É fácil ver que esse não é o Messias, se Ele está na Samaria. Não é para os Samaritanos que o Messias virá. Os Samaritanos são amaldiçoados. Eles não trazem oferendas ao Templo.

Segundo Nazareno:

Ele deixou a Samária há poucos dias. Acho que nesse momento Ele está nas vizinhanças de Jerusalém.

Primeiro Nazareno:

Não; Ele não está lá. Eu acabei de vir de Jerusalém. Por dois meses eles não tiveram notícias dele.

Herodes:

Não importa! Mas que o encontrem, e o avisem, assim falou Herodes o Rei, ‘Eu não permito que Vós levanteis os mortos.’ Transformar a água em vinho, curar os leprosos e os cegos… Ele pode fazer essas coisas se Ele quiser. Na verdade, eu considero uma boa ação curar um leproso. Mas nenhum homem deve levantar os mortos… Seria terrível se os mortos voltassem.

A Voz de Iokanaan:

Ah! A imoral! A prostituta! Ah! a filha da Babilônia com seus olhos reluzentes e suas pálpebras douradas! Assim falou o Senhor Deus, Que se levante contra ela uma multidão de homens. Que as pessoas tragam pedras e a apedregem…

Herodíades:

Ordene- lhe que se cale!

A Voz de Iokanaan:

Que os capitães da fé a despedacem com suas espadas, que a esmaguem sob seus escudos.

Herodíades:

Ora, isso é uma infâmia.

A Voz de Iokanaan:

É assim que Eu limparei toda maldade da terra, e todas as mulheres devem aprender a não imitar suas abominações.

Herodíades:

Você ouve o que ele diz contra mim? Você permite que ele avilte aquela que é vossa mulher!

Herodes:

Ele não falou vosso nome.

Herodíades:

O que importa? Você bem sabe que é a mim que ele busca aviltar. Sou vossa esposa não sou?

Herodes:

É a verdade, querida e nobre Herodíades, você é minha mulher, e antes disso você era a mulher de meu irmão.

Herodíades:

Fostes vós quem me arrancastes de seus braços.

Herodes:

Na verdade, eu era mais forte que ele… Mas não falemos desse assunto. Não desejo falar disso. É a causa das terríveis palavras que o profeta disse. Talvez por conta disso venha um infortúnio. Não falemos mais nesse assunto. Nobre Herodíades, não somos atenciosos com nossos convidados. Encheis minha taça, minha querida. Ho! encheis com vinho as grandes taças de prata, e as grandes taças de vidro. Eu beberei a César. Há romanos aqui, devemos beber a César.

Todos:

César! César!

Herodes:

Você não vê vossa filha, quão pálida ela está?

Herodíades:

Que importa a você se ela está pálida ou não?

Herodes:

Nunca a vi tão pálida.

Herodíades:

Você não deve olhar para ela.

A Voz de Iokanaan:

Nesse dia, o sol virá negro como um rude saco de cabelo, e a lua tomará a aparência de sangue, as estrelas cairão sobre a terra, como figos ainda verdes que caem da figueira, e os Reis da terra terão medo.

Herodíades:

Ah! ah! Eu gostaria de ver o dia de que ele fala, quando a lua tomará a aparência de sangue, e quando as estrelas cairão sobre a terra como figos ainda verdes. Esse profeta fala como um homem bêbado… mas eu não suporto o som de sua voz. Eu odeio sua voz. Ordene-lhe que se cale.

Herodes:

Não o farei. Não posso entender o que ele diz, mas pode ser um augúrio.

Herodíades:

Eu não acredito em augúrios. Ele fala como um homem bêbado.

Herodes:

Pode ser que ele esteja bêbado com o vinho de Deus.

Herodíades:

Que vinho é esse, o vinho de Deus? De que vinhas ele o colheu? Em que barril se pode encontrá-lo?

Herodes:

[A partir desse momento ele olha a todo o instante para Salomé.] Tigelino, quando você esteve em Roma recentemente, o Imperador falou com você sobre o…?

Tigelino:

Sobre o quê, meu senhor?

Herode:

Sobre o quê? Ah! Eu lhe fiz uma pergunta, não fiz? Eu esqueci o que lhe tinha perguntado.

Herodíades:

Você está olhando para minha filha. Você não deve olhar para ela. Eu já disse isso.

Herodes:

Você não diz outra coisa.

Herodíades:

Eu o digo novamente.

Herodes:

E a restauração do Templo sobre o qual eles falaram tanto, alguma coisa será feita? Eles dizem que o véu do santuário desapareceu, não dizem?

Herodíades:

Fostes vós que o roubastes. Falais com devaneios e sem juízo. Eu não ficarei aqui. Vamos para dentro.

Herodes:

Dance para mim, Salomé.

Herodíades:

Eu não quero que ela dance.

Salomé:

Eu não tenho vontade de dançar, Tetrarca.

Herodes:

Salomé, filha de Herodíades, dance para mim.

Herodíades:

Chega. Deixe-a em paz.

Herodes:

Eu vos ordeno que dance, Salomé.

Salomé:

Eu não dançarei, Tetrarca.

Herodíades:

[Rindo.] Vê como ela lhe obedece.

Herodes:

Que me importa se ela dança ou não? Não representa nada para mim. Hoje à noite estou feliz. Estou demasiadamente feliz. Nunca estive tão feliz.

Primeiro Soldado:

O Tetrarca tem um aspecto sombrio. Não tem ele um aspecto sombrio?

Segundo Soldado:

Sim, ele tem um aspecto sombrio.

Herodes:

Por que não estaria eu feliz? César, que é o senhor de todas as coisas, me tem em alta conta. Ele acabou de enviar-me os mais valiosos presentes. Também prometeu convocar à Roma o Rei da Capadócia, que é meu inimigo. Pode ser que em Roma ele o crucifique, pois ele é capaz de fazer todas as coisas que sua mente desejar. Realmente, César é senhor. Portanto, ajo bem ao ficar feliz. Estou muito feliz, nunca estive tão feliz. Não há nada nesse mundo que possa estragar minha felicidade.

A Voz de Iokanaan:

Ele estará sentado em seu trono. Ele deverá vestir-se com escarlate e púrpura. Em sua mão ele terá uma taça cheia de suas blasfêmias. E o anjo do Senhor deverá atingí-lo. Ele será comido pelos vermes.

Herodíades:

Você ouve o que ele diz sobre você. Ele diz que você será comido por vermes.

Herodes:

Não é sobre mim que ele fala. Ele nunca fala contra mim. É do Rei da Capadócia que ele fala; o Rei da Capadócia que é meu inimigo. É ele que será comido pelos vermes. Não sou eu. Nunca falou uma palavra contra mim, esse profeta, a não ser que eu pequei ao casar com a esposa de meu irmão. Pode ser que ele esteja certo. Afinal, a bem da verdade, você é estéril.

Herodíades:

Eu sou estéril, eu? Você diz isso, você que está sempre olhando para minha filha, você que deseja que ela dance para lhe agradar? Você fala como um tolo. Eu já tive uma criança. Você nunca teve uma criança, não, nem mesmo em uma de suas escravas. É você que é estéril, não eu.

Herodes:

Quieta, mulher! eu digo que você é estéril. Você não me deu nenhuma criança, e o profeta diz que nosso casamento não é um casamento de verdade. Ele diz que é um casamento incestuoso, um casamento que trará malefícios… Eu receio que ele esteja certo; Eu tenho certeza de que ele está certo. Mas não é hora de falar dessas coisas. Eu prefiriria ficar feliz nesse momento. Na verdade, eu estou feliz. Não há nada que me falte.

Herodíades:

Fico contente que você esteja em tão bom humor hoje à noite. Não é o seu hábito. Mas é tarde. Vamos para dentro. Não esqueça que temos uma caçada ao amanhecer. Todas as honras devem ser apresentadas aos embaixadores de César, não devem?

Segundo Soldado:

O Tetrarca tem um aspecto sombrio.

Primeiro Soldado:

Sim, ele tem um aspecto sombrio.

Herodes:

Salomé, Salomé, dance para mim. Eu vos imploro que danceis para mim. Estou triste hoje à noite. Sim, estou me sentindo triste essa noite. Quando eu vim para cá, eu escorreguei em sangue, o que é um augúrio ruim; também ouvi no ar um bater de asas, um bater de asas gigantes. Não posso dizer o que isso significa… Estou triste hoje à noite. Portanto, dance para mim, eu vos imploro. Se vós dançais para mim vós podeis pedir o que vós desejais, e eu vos darei. Sim, dance para mim, Salomé, e qualquer coisa que vós me peçais eu vos darei, mesmo a metade de meu reino.

Salomé:

[Levantando-se.] Você realmente me daria qualquer coisa que eu pedisse a você, Tetrarca?

Herodíades:

Não dance, minha filha.

Herodes:

Qualquer coisa que vós me peçais, mesmo a metade de meu reino.

Salomé:

Você jura, Tetrarca?

Herodes:

Eu juro, Salomé.

Herodíades:

Não dance, minha filha.

Salomé:

Pelo que você irá jurar isso, Tetrarca?

Herodes:

Pela minha vida, pela minha coroa, pelos meus deuses. Qualquer coisa que vós desejais eu vos darei, mesmo a metade de meu reino, se vós apenas dançais para mim. O Salomé, Salomé, dance para mim!

Salomé:

Você fez um juramento, Tetrarca.

Herodes:

Eu fiz um juramento.

Herodíades: 

Minha filha, não dance.

Herodes:

Mesmo a metade de meu reino. Vós ireis passar como uma rainha, Salomé, se for de vosso agrado pedir metade de meu reino. Ela não será uma beleza como rainha? Ah! está frio aqui! Há um vento gelado, e eu ouço… de onde eu ouço no ar esse bater de asas? Ah! pode-se imaginar um imenso pássaro negro que voa sobre o terraço. Por que eu não posso vê-lo, esse pássaro? O bater de suas asas é terrível. O sopro do vento de suas asas é terrível. É um vento arrepiante. Não, mas não é frio, é quente. Estou sufocando. Derramem água em minhas mãos. Dêem-me neve para comer. Desamarrem meu manto. Rápido! rápido! desamarrem meu manto. Não, deixem-no. É minha guirlanda que me fere, minha guirlanda de rosas. As flores são como o fogo. Elas queimaram minha cabeça. [Ele arranca a guirlanda da cabeça, e a joga na mesa.] Ah! Eu posso respirar agora. Quão vermelhas são estas pétalas. Elas são como manchas de sangue num tecido. Isso não importa. Não é prudente encontrar símbolos em tudo que se vê. Isso torna a vida cheia de terrores. Seria melhor dizer que as manchas de sangue são tão belas quanto as pétalas de rosas. Seria muito melhor dizer isso… Mas eu não falarei mais disso. Agora estou feliz. Estou mais que feliz. Não tenho eu o direito de estar feliz? Vossa filha dançará para mim. Vós não ireis dançar para mim, Salomé? Vós prometeste dançar para mim.

Herodíades:

Eu não quero que ela dance.

Salomé:

Eu dançarei para você, Tetrarca.

Herodes:

Você ouve o que diz vossa filha. Ela dançará para mim. Vós fazeis bem em dançar para mim, Salomé. E quando vós tiverdes dançado para mim, não esqueça de me pedir qualquer coisa que vós tenhais em mente para me pedir. Qualquer coisa que vós desejais eu vos darei, mesmo a metade de meu reino. Eu o jurei, não jurei?

Salomé:

Vós jurastes. Tetrarca.

Herodes:

E eu nunca faltei com a minha palavra. Eu não sou desses que quebram seus juramentos. Eu não sei mentir. Eu sou um escravo de minha palavra, e minha palavra é a palavra de um rei. O Rei da Capadócia sempre teve uma língua mentirosa, mas ele não é um rei de verdade. Ele é um covarde. Além disso, ele me deve dinheiro que não pagará. Ele até insultou meus embaixadores. Ele falou palavras que eram agressivas. Mas César irá crucificá-lo quando ele for à Roma. Eu sei que César irá crucificá-lo. E se ele não crucificá-lo, ainda assim ele morrerá, sendo comido pelos vermes. O profeta o prefetizou. Bem! Por que vós demorais, Salomé?

Salomé:

Estou esperando que meus escravos tragam perfumes para mim e os sete véus, e tirem de meus pés minhas sandálias. [Escravos trazem perfumes e os sete véus, e tiram as sandálias de Salomé.]

Herodes:

Ah, vós ireis dançar com pés descalços! Isto é bom! Isto é bom! Vossos pezinhos parecerão pombos brancos. Eles parecerão pequenas flores brancas que dançam no alto das árvores… Não, não, ela irá dançar em sangue! Há sangue derramado no chão. Ela não deve dançar sobre o sangue. Isso é um augúrio ruim.

Herodíades:

Que vos importa se ela dançar sobre o sangue? Nele vós enterrastes o pé suficientemente…

Herodes:

Que me importa? Ah! Olhem para a lua! A lua se tornou vermelha. Ela se tornou vermelha como o sangue. Ah! o profeta profetizou corretamente. Ele profetizou que a lua ficaria vermelha como o sangue. Ele não profetizou? Todos vocês o ouviram profetizando isso. E agora a lua se transformou em sangue. Vocês não vêem?

Herodíades:

Oh, sim, eu vejo com clareza, e as estrelas estão caindo como figos verdes, não estão? e o sol está se tornando negro como um rude saco de cabelos, e os reis da terra estão com medo. Ao menos isso pode ver-se. Pelo menos nisso o profeta tem suas palavras ratificadas, pois realmente os reis da terra têm medo… Vamos para dentro. Você está doente. Eles irão dizer em Roma que você está louco. Vamos para dentro, eu lhe digo.

A Voz de Iokanaan:

Quem é esse que vem da Edômia, quem é esse que vem da Bostra, cujas vestes são tingidas de roxo, que brilha na beleza de seu traje, que anda poderoso em seu esplendor? Por que suas vestes são tingidas de roxo?

Herodíades:

Vamos para dentro. A voz daquele homem me enlouquece. Eu não quero que minha filha dance enquanto ele grita continuamente. Eu não quero que ela dance enquanto você a olha dessa maneira. Numa palavra, eu não quero que ela dance.

Herodes:

Não se levante, minha esposa, minha rainha, isso não lhe servirá de nada. Eu não irei para dentro até que ela tenha dançado. Dance, Salomé, dance para mim.

Herodíades:

Não dance, minha filha.

Salomé:

Eu estou pronta, Tetrarca.

[Salomé dança a dança dos sete véus.]

Herodes:

Ah! maravilhoso! maravilhoso! Você pode ver que ela dançou para mim, vossa filha. Aproxime-se, Salomé, aproxime-se, para que eu possa dar vossa recompensa. Ah! Eu pago um preço de rei àquelas que dançam para o meu agrado. Eu vos pagarei regiamente. Eu vos darei qualquer coisa que vós desejardes. O que vós gostaríeis de ter? Falai.

Salomé:

[Ajoelhando-se.] Eu gostaria que me trouxessem imediatamente numa salva de prata…

Herodes:

[Risonhamente.] Numa salva de prata? Sim , claro, numa salva de prata. Ela é adorável, não é? O que é que vós gostaríeis de ter numa salva de prata, Oh doce e bela Salomé, vós que sois mais bela que todas as filhas da Judéia? O que vós gostaríeis que vos trouxessem numa salva de prata? Dizei-me. Qualquer coisa que seja, vós ireis ter. Meus tesouros vos pertencem. O que é que vós desejais, Salomé?

Salomé:

[Levantando-se.] A cabeça de Iokanaan.

Herodíades:

Ah! muito bem dito, minha filha.

Herodes:

Não, não!

Herodíades:

Muito bem dito, minha filha.

Herodes:

Não, não, Salomé. Não é isso que vós desejais. Não deveis dar ouvidos à voz de vossa mãe. Ela está sempre vos dando maus conselhos. Não lhe atendeis.

Salomé:

Não é a voz de minha mãe que eu atendo. É por meu próprio prazer que eu peço a cabeça de Iokanaan numa salva de prata. Você fez um juramento, Herodes. Não esqueça que você fez um juramento.

Herodes:

Eu sei. Eu fiz um juramento pelos meus deuses. Eu bem o sei. Mas eu vos rogo, Salomé, pedi outra coisa. Peça de mim a metade de meu reino, e eu vos darei. Mas não me peça o que vossos lábios pediram.

Salomé:

Eu lhe peço a cabeça de Iokanaan.

Herodes:

Não, não, eu não vos darei.

Salomé:

Você fez um juramento, Herodes.

Herodíades:

Sim, você fez um juramento. Todos o ouviram. Você jurou diante de todos.

Herodes:

Quieta, mulher! Não é com você que eu falo.

Herodíades:

Minha filha fez bem em pedir a cabeça de Iokanaan. Ele me cobriu de insultos. Ele disse coisas indizíveis contra mim. Pode-se ver que ela ama sua mãe. Não desista, minha filha. Ele fez um juramento, ele fez um juramento.

Herodes:

Quieta! Não faleis comigo!… Salomé, eu vos rogo que não sejais teimosa. Eu sempre fui gentil convosco. Eu sempre vos amei… Pode ser que eu vos tenha amado demais. Portanto, não me peçais isso. Isso é uma coisa terrível, uma coisa horrível de se pedir para mim. Com certeza, eu suponho que estejais brincando. A cabeça de um homem que é cortada de seu corpo é uma coisa ruim de se olhar, não é mesmo? Não é direito que os olhos de uma virgem recaiam sobre tal coisa. Que prazer vós poderíeis ter nisso. Não há prazer que poderieis ter nisso. Não, não, não é isso que vós desejais. Ouvi- me. Eu tenho uma esmeralda, uma grande e redonda esmeralda, que o servo de César me enviou. Quando olhares através dessa esmeralda vós sereis capaz de ver o que se passa muito longe. César em pessoa carrega uma esmeralda semelhante quando vai ao circo. Mas a minha esmeralda é maior. Eu bem sei que ela é maior. É a maior esmeralda em todo o mundo. Vós aceitá-la-eis, não? Pedi-a para mim e eu a darei.

Salomé:

Eu exijo a cabeça de Iokanaan.

Herodes:

Vós não estais ouvindo. Vós não estais ouvindo. Permiti que eu fale, Salomé.

Salomé:

A cabeça de Iokanaan!

Herodes:

Não, não, vós não a tereis. Vós dizeis isso apenas para me atormentar, porque eu vos olhei incessantemente esta noite. É verdade, eu vos olhei incessantemente esta noite. Vossa beleza me perturbou. Vossa beleza me perturbou dolorosamente, eu vos olhei demais. Não, mas eu não vos olharei mais. Não se deve olhar para nada. Nem para as coisas, nem para as pessoas pode-se olhar. Apenas para os espelhos é correto que se olhe. Apenas para os espelhos é correto que se olhe, pois espelhos nos mostram apenas máscaras. Oh! oh! tragam vinho! Eu tenho sede… Salomé, Salomé, fiquemos amigos. Lembrai-vos… Ah! O que eu ia dizer? O que era? Ah! Eu me lembro!… Salomé,- não, vos aproximais de mim; tenho medo que vós não ireis ouvir minhas palavras, – Salomé, vós conheceis meus pavões brancos, meus lindos pavões brancos, que andam no jardim entre as damas-da-noite e os altos ciprestes. Seus bicos são dourados com ouro e os grãos que comem são misturados com ouro, e seus pés são manchados de púrpura. Quando eles gritam vem a chuva, e a lua se mostra nas alturas quando eles abrem suas caudas. Dois a dois, eles andam entre os ciprestes e as negras damas-da-noite, e cada um tem um escravo para tratá-lo. Às vezes, eles voam por entre as árvores, e eventualmente se deitam na grama, e em volta dos repuxos. Não há no mundo pássaros tão belos. Eu sei que mesmo César não tem pássaros tão belos. Eu vos darei cinquenta de meus pavões. Eles vos seguirão aonde quer que fordes, e no meio deles vós sereis como a lua em meio à bruma de uma grande nuvem… Eu dar-vos-ei, todos. Eu só tenho uma centena, e em todo o mundo não há rei que tenha pavões como os meus pavões. Mas eu dar-vos ei todos. Apenas vós deveis me liberar desse juramento, e não deveis me pedir o que vossos lábios me pediram. [Ele esvazia a taça de vinho.]

Salomé:

Dê-me a cabeça de Iokanaan!

Herodíades:

Bem dito, minha filha! Quanto a você, você é ridículo com seus pavões.

Herodes:

Quieta! você está sempre gritando. Você grita como uma fera selvagem. Você não deve gritar dessa maneira. Sua voz me cansa. Quieta, eu lhe ordeno!… Salomé, penseis no que vós estais fazendo. Pode ser que esse homem venha de Deus. Ele é um homem sagrado. O dedo de Deus o tocou. Deus colocou terríveis palavras em sua boca. No palácio, como no deserto, Deus sempre está com ele… Pode ser que Ele esteja, ao menos. Nunca se pode afirmar, mas é possível que Deus esteja com ele e por ele. Se ele morrer, talvez algum mal me aconteça. Na verdade, ele disse que o mal recairá sobre alguém no dia em que ele morrer. Em quem iria recair senão em mim? Lembre-se, eu escorreguei em sangue quando cheguei aqui. Eu não ouvi também o bater de asas enormes? Esses são augúrios ruins. E houve outras coisas. Tenho certeza de que houve outras coisas, apesar de não as ter visto. Vós não desejais que algum mal recaia sobre mim, Salomé? Ouvi-me novamente.

Salomé:

Dê-me a cabeça de Iokanaan!

Herodes:

Ah! vós não me ouvis. Tenhais calma. Olhais para mim, não estou calmo? Estou totalmente calmo. Ouvi. Tenho jóias escondidas nesse palácio,- jóias que nem vossa mãe jamais viu; jóias que são maravilhosas de se olhar. Tenho um colar de pérolas, de quatro voltas. Elas são como luas acorrentadas em raios de prata. Elas são até como meia centena de luas presas a uma rede dourada. No colo de marfim de uma rainha elas repousaram. Vós sereis tão bela quanto uma rainha quando as usar. Eu tenho ametistas de dois tipos; uma que é preta como o vinho, e uma que é vermelha como o vinho colorido com água. Eu tenho topázios amarelos como o são os olhos dos tigres, e topázios que são rosados como os olhos de um pombo selvagem, e topázios que são como os olhos dos gatos. Eu tenho opalinas que queimam sempre, com uma chama que é fria como o gelo, opalinas que entristecem a mente dos homens, e que têm medo das sombras. Eu tenho ônixes como as pupilas de uma mulher morta. Eu tenho selenitos que mudam quando a lua muda, e desvanecem quando vêem o sol. Eu tenho safiras grandes como ovos, e tão azuis quanto flores azuis. O mar vagueia por dentro delas, e a lua nunca vem perturbar o azul de suas ondas. Eu tenho crisólitos e berilos e crisóprasos e rubis; eu tenho sárdios e pedras hialinas, e pedras da Calcedônia, e todas eu dar-vos-ei, todas, e outras coisas que a elas eu acrescentarei. O Rei das Indias acabou de me enviar quatro leques decorados com plumas de papagaios, e o Rei da Numídia, uma vestimenta de plumas de avestruz. Eu tenho um cristal, no qual não é permitido que olhe uma mulher, como também não podem jovens rapazes mirá-la até que tenham sido espancados com cajados. Num cofre de nacrita eu guardo três extraordinárias turquesas. Aquele que as usar em sua testa pode imaginar coisas que não existem, aquele que as carregar nas mãos pode tornar fértil uma mulher que é estéril. Esses são grandes tesouros. Eles são tesouros acima de todos os preços. Mas isso não é tudo. Em um cofre de ébano eu tenho duas taças de âmbar que são como maçãs de puro ouro. Se algum inimigo joga veneno nessas taças, elas viram maçãs de prata. Num cofre revestido em âmbar, eu tenho sandálias decoradas com vidro. Eu tenho mantos que foram trazidos da terra dos Seres, e braceletes cobertos de carbúnculos e com jade que vêm da cidade de Eufrates… O que vós desejais mais do que isso, Salomé? Dizei-me a coisa que vós desejais, e eu vô-la darei. Tudo que vós pedis eu vos darei, com exceção de uma coisa. Eu vos darei tudo que é meu, com exceção da vida de um homem. Eu vos darei o manto de alta sacerdotiza. Eu vos darei o véu do santuário.

Os Judeus:

Oh! oh!

Salomé:

Dê-me a cabeça de Iokanaan!

Heródes:

[Afundando em seu assento.] Que ela tenha o que deseja! Ela realmente puxou pela mãe! [O primeiro soldado se aproxima. Herodíades tira da mão do Tetrarca o anel da morte, e entrega-o ao soldado, que o leva diretamente ao carrasco. O carrasco parece amedrontado.] Quem tirou meu anel? Havia um anel em minha mão direita. Quem bebeu meu vinho? Tinha vinho em minha taça. Ela estava cheia de vinho. Alguém o bebeu! Oh! com certeza algum mal recairá sobre alguém. [O carrasco desce para o fundo do poço.] Ah! para que fui fazer um juramento? Daqui em diante que nenhum rei faça um juramento. Se ele não o mantiver, é terrível, e se cumpri-lo, é terrível também.

Herodíades:

Minha filha agiu bem.

Herodes:

Eu tenho certeza de que algum infortúnio sobrevirá.

Salomé:

[Ela se inclina sobre o poço e escuta.] Não há nenhum som. Eu não ouço nada. Por que ele não grita, esse homem? Ah! se algum homem tentasse me matar, eu gritaria, eu lutaria, eu não permitiria… Golpeie, golpeie, Naaman, golpeie, eu lhe digo… Não, eu não ouço nada. Há um silêncio, um terrível silêncio. Ah! alguma coisa caiu no chão. Ouço alguma coisa cair. Foi a espada do carrasco. Ele está com medo, esse escravo. Ele deixou cair a espada. Ele não ousa matá-lo. Ele é um covarde, esse escravo! Chamem os soldados. [Ela vê o pajem de Herodíades e dirige-se a ele.] Aproxime-se. Vós éreis um amigo dele que está morto, não é verdade? Bem, eu vos digo, não há o suficiente de homens mortos. Vá aos soldados e diga-lhes que desçam e tragam-me aquilo o que pedi, aquilo que o Tetrarca me prometeu, aquilo que me pertence. [O pajem se recusa. Ela se vira para os soldados.] Aqui, soldados. Desçam ao fundo do poço e tragam-me a cabeça desse homem. Tetrarca, Tetrarca, comande a seus soldados que me tragam a cabeça de Iokanaan.

[Um imenso braço negro, o braço do carrasco, aparece de dentro do poço, trazendo num escudo de prata a cabeça de Iokanaan. Salomé a agarra. Herodes esconde seu rosto com um manto. Herodíades sorri e se abana. Os nazarenos se ajoelham para rezar.]

Ah! vós não me pertimistes que eu beijasse vossa boca, Iokanaan. Bem! Eu a beijarei agora. Eu irei mordê-la com meus dentes como alguém morde uma fruta madura. Sim, eu beijarei vossa boca, Iokanaan. Eu disse que iria; não disse? Eu disse. Ah! Eu a beijarei agora… Mas por que vós não me olhais, Iokanaan? Vossos olhos que eram tão terríveis, tão cheios de ódio e desprezo, estão fechados agora. Por que estão fechados? Abri vossos olhos! Levanteis vossas pestanas, Iokanaan! Por que não me olhais, Iokanaan? Vós estais com medo de mim, Iokanaan, para que não possas me olhar?… E vossa língua, que era como uma cobra vermelha cuspindo veneno, ela não se move mais, não mais diz palavras, Iokanaan, essa víbora escarlate que em mim cuspiu seu veneno. É estranho, não é? Como pode ser que a serpente vermelha não mais se agite?… Vós não quisestes nada de mim, Iokanaan. Vós me rejeitastes. Vós falastes palavras malsãs contra mim. Vós me tratastes como a uma prostituta, como a uma frívola mulher, a mim, Salomé, filha de Herodíades, Princesa da Judéia! Bem, eu ainda vivo, mas vós estais morto, e vossa cabeça me pertence. Posso fazer com ela o que desejar. Posso jogá-la aos cachorros e aos pássaros no ar. Aquilo que deixarem os cachorros, os pássaros do ar devorarão… Ah, Iokanaan, Iokanaan, vós éreis o único homem que eu amei dentre os homens! Todos os outros homens me eram odiosos. Mas vós éreis belo! Vosso corpo era uma coluna de marfim colocada em pés de prata. Era um jardim cheio de pombos e lírios de prata. Era uma torre de prata coberta com escudos de marfim. Nada havia no mundo tão branco quanto vosso corpo. Nada havia no mundo tão negro quanto vossos cabelos. Em todo o mundo nada havia tão vermelho quanto vossa boca. Vossa voz era um defumador que espalhava exóticos perfumes, e quando vos olhei, ouvi estranhas melodias. Ah! por que não olhastes para mim, Iokanaan? Com o manto de vossas mãos, e com o manto de vossas blasfêmias, vós escondeste vosso rosto. Vós colocastes sobre vossos olhos as barreiras de quem é capaz de ver Deus. Bem, vós vistes Deus, Iokanaan, mas a mim, vós nunca vistes. Se vós tivésseis olhado para mim vós teríeis me amado. Eu vos olhei, e vos amei. Oh, como eu vos amei! Eu ainda vos amo, Iokanaan. Eu amo somente a vós… Eu tenho sede de vossa beleza; eu tenho fome de vosso corpo; e nem o vinho nem as maçãs podem aplacar o meu desejo. O que eu devo fazer agora, Iokanaan? Nem as enchentes nem as grandes águas podem esfriar minha paixão. Eu era uma princesa, e vós me humilhastes. Eu era uma virgem, e vós tirastes minha virgindade. Eu era casta, e vós enchestes minhas veias com fogo…ah! ah! por que não olhastes para mim? Se vós tivesses me olhado vós teríeis me amado. Eu bem sei que vós me teríeis amado, e o mistério do Amor é maior que o da Morte.

Herodes:

Ela é monstruosa, vossa filha; eu vos digo que ela é monstruosa. Na verdade, ela cometeu um crime muito grande. Estou certo de que é um crime contra algum Deus desconhecido.

Herodíades:

Estou bem satisfeita com minha filha. Ela agiu bem. E agora desejo ficar aqui.

Herodes:

[Levantando-se.] Ah! Aí está falando a esposa de meu irmão! Venha! Eu não ficarei nesse lugar. Venha, eu vos digo. Certamente, alguma coisa terrível sobrevirá. Manasseh, Issachar, Ozias, apaguem as tochas. Eu não quero olhar para as coisas, eu não permitirei que as coisas olhem para mim. apaguem as tochas! Escondam a lua! Escondam as estrelas! Escondamo-nos no palácio, Herodíades. Eu começo a ter medo.

[Os escravos apagam as tochas. As estrelas desaparecem. Uma grande nuvem cruza a lua e esconde-a completamente. O palco fica subitamente muito escuro. O Tetrarca começa a subir a escadaria.]

A Voz de Salomé:

Ah! Eu beijei vossa boca, Iokanaan, eu beijei vossa boca. Há um gosto amargo em vossos lábios. Era isso o gosto de sangue?… Não; mas talvez fosse o gosto do amor… Dizem que o amor tem um gosto amargo… Mas que importa? Que importa? Eu beijei vossa boca, Iokanaan, eu beijei vossa boca.

[Um raio de luar cai sobre Salomé e ilumina-a.]

Herodes:

[Virando-se e vendo Salomé.] Matem aquela mulher!

[Os soldados avançam e esmagam Salomé sob seus escudos, filha de Herodíades. Princesa da Judéia.]

- Cortina -

tradução: Rodrigo Lacerda

revisão de originais: Débora Mallet Pezarin