Rubens Paiva | Vista do Rio

Uma vista para outro Rio

||MARCELO RUBENS PAIVA

“Vista do Rio”, o novo romance de Rodrigo Lacerda, 34, é um mergulho para dentro do homem confuso, surrado pelo dilema alegria-tristeza, falta de amor e pelos sustos da vida.

O que vem à cabeça diante do título “Vista do Rio”? Um ode à cidade em que todos malham, são descontraídos, felizes, bebem chopes, cumprimentam quem não conhecem, envoltos por uma das vistas mais deslumbrantes que existem?

Ou um relato sobre as aberrações causadas pela desigualdade social, em que a pobreza do morro é vizinha com vínculos a um dos metros quadrados mais caros do mundo?

Nada disso. Trata-se de um Rio visto pelos olhos da quietude, do drama pessoal, aquele que não está em destaque nos folhetos turísticos. Rodrigo escreve uma narrativa universal, bem mais literária do que excursionista. Seu carro alegórico é a incrível angústia de estar vivo.

E, curiosamente, o Rio quase não aparece. Seu Rio é um mar de desânimo. Seu Rio gira em torno do Estrela de Ipanema, edifício modernista de classe média alta. Ipanema em Tupi quer dizer “água podre”.

Seu Rio é o do amor dúbio entre dois primos, M.A., o narrador, e Virgílio, que, na infância, torturavam bichos na praça, amarravam gatos e cachorros nos pára-choques dos ônibus. A natureza carioca aparece de relance e comparada à morte, quando os dois sobem a Pedra Bonita, para um vôo de asa delta.

O livro abre com um experimento simbólico. Eles colocam um beija-flor dentro de um copo de liquidificador, fecham a tampa e ligam o aparelho. Observam o pássaro resistir, pairando dentro do copo, até, cansado, desistir e ser triturado.

Virgílio, como o grande poeta romano de “Eneida”, que exaltava as qualidades de sua gente, é o motor da narrativa. Artista, poeta, viajante, bem-sucedido com homens e mulheres, bissexual, irônico, agoniza no leito de um hospital.

É o momento de M.A. refletir sobre suas vidas, seus projetos, suas diferenças. Ambos nasceram em uma família rica de intelectuais. Ambos tiveram mais conflitos do que acordos com o mundo.

Ambos testemunharam, aos 15 anos, o filho do motorista ser abusado sexualmente pelo pai e, pior, gostar, o que muda a concepção de vida, e a solidão parecia crescer em volta, como círculos na água de uma piscina.

“Juro; hoje, agora, se alguém me desse a chance de nascer de novo, oferecendo uma vida repleta de grandezas e verdades sólidas, eu diria: ‘Não, obrigado’.”
O Estrela de Ipanema, prédio utópico sustentado por oito colunas, é descrito em detalhes, como um personagem imponente. Para M.A., é uma nave, o futuro. Um contraste à sua imobilidade, ao tédio da vida social, à tristeza.

M.A. (Rodrigo) discorre sobre arquitetura (por que, no Brasil, deram certo o futebol, o samba e a arquitetura moderna?), sobre os mitos romanos e gregos, sobre física e metafísica, até sobre a semiologia das cores, quando descobre que, no hospital em que está Virgílio, o branco é substituído.

“Deixei de me preocupar com as palavras e agora me preocupo com a emoção”, afirma o autor, que também publicou “O Mistério do Leão Rampante” (Jabuti de 1995), “A Dinâmica das Larvas” (1996), “Fábulas do ano 2000” (1998) e “Tripé” (2000), editados por Ateliê Editorial e Nova Fronteira.

Neto do polêmico governador carioca Carlos Lacerda (1914-77), Rodrigo não tem a ironia e a dinâmica de Machado de Assis- que narrou a ambição social de uma nova elite-, a quem é erroneamente comparado.

Sua tinta flui numa angústia sufocante. E escreveu um livro que faz jus à qualquer vista do Rio.