Rubem Fonseca: Violência e mistério em ritmo de cinema
O escritor Rodrigo Lacerda analisa os dois livros recém-lançados por Rubem Fonseca e mostra que o autor de A grande arte deu alma brasileira ao gênero policial, tornando-se referência obrigatória para a nova geração de escritores.
Acabam de sair dois novos livros de Rubem Fonseca. Um é romance, E do meio do mundo prostituta só amores guardei ao meu charuto (título tirado de um verso do poeta Álvares de Azevedo), e o outro é de contos, Histórias de amor. Na primeira edição, eles estão reunidos numa caixa e não podem ser vendidos separadamente. Esta estratégia comercial parece responder à maioria dos críticos, que preferem o Rubem Fonseca contista, e ao mesmo tempo incentivar o público, que prefere seus romances aos contos, a consumir em igual dose as narrativas curtas do escritor. É mesmo irônico, numa obra que possui tamanha unidade temática e formal, como é a de Rubem Fonseca, que se dê tanta preferência a um ou a outro.
Os temas básicos do escritor são a violência urbana e os crimes passionais. Que o título Histórias de amor não confunda ninguém. A forma é uma transposição da literatura policial americana para o cenário brasileiro. Realista e sem retórica, o texto só descreve o que é concreto e palpável, sem subjetivismos. A ação evolui rapidamente e os personagens se constroem a partir do que fazem e do que dizem. A figura do narrador onisciente é diminuída ou simplesmente eliminada. As experiências de linguagem não têm vez, pois comprometeriam o realismo na dicção de cada personagem.
Para muitos, o introdutor do estilo narrativo americano no Brasil foi Fernando Sabino, com seu livro Encontro marcado, de 1956. Mas certamente foi Rubem Fonseca quem pegou esse estilo, levou-o para passear numa favela, numa cobertura da Avenida Atlântica, colocou-o na cama com uma mulata e com uma socialite, enfim, deu-lhe alma brasileira. Não só o popularizou mais do que qualquer outro escritor, mas também o transformou em modelo para novas safras de escritores. Prova disso é que, hoje em dia, nove entre dez estreantes começam fazendo romances policiais e, se possível, próximos ao estilo do mestre.
No pacote da literatura americana está incluída, em larga dose na obra de Rubem Fonseca, a influência do cinema. Muitas das características formais acima descritas, como a coloquialidade dos diálogos e a visualidade da narrativa, que se aproxima de rubricas e marcações de cena, são exigências cruciais na elaboração de roteiros de cinema. Ao contrário do que se imagina, portanto, Rubem Fonseca não é um escritor sem ousadias de linguagem, apenas suas experimentações não estão inscritas na tradição literária brasileira, mas desenvolvem uma tradição diferente, que busca fundir a literatura a elementos das artes visuais. E, vale repetir, o irônico é que isso não varia, são marcas de estilo presentes tanto nos romances quanto nos contos. Aliás, tomando o exemplo imediato dos livros agora lançados, se há algum que traga uma novidade formal, é justamente o romance, ainda que nem por isso negue as origens estilísticas do escritor. Nele, a trama é recomposta pelo advogado do protagonista acusado de assassinato por meio de depoimentos prestados pelas pessoas envolvidas. Então, em vez de um roteiro em seu estado final, o que se tem é uma seqüência de escaletas. Escaleta, no jargão de roteiristas, é a descrição completa da ação contida numa cena e o máximo possível dos diálogos que ela deve conter. Cada depoimento que compõe o romance parece, portanto, a escaleta de uma cena, que faz a ação avançar e o suspense aumentar na cabeça do leitor, à medida que as informações lhe são dadas.
O livro de contos, por sua vez, alterna bons momentos com outros nem tanto. Há de fato um excelente, intitulado Cidade de Deus, no qual a violência de um amor rejeitado explode de forma escabrosa. Mas seja como for, não se percebe nenhum ingrediente temático ou formal que dê argumentos aqueles que alardeiam a superioridade do Rubem Fonseca contista sobre o romancista.
A origem desse misterioso lugar-comum talvez não esteja especificamente nos romances de Rubem Fonseca, mas sim no próprio gênero no qual ele se especializou, o policial. Mistério, suspense e horror à violência são coisas difíceis de serem construídas ficcionalmente. Porém, mais difícil ainda é mantê -las por muito tempo. É necessário que o leitor esteja disposto a cair vítima de uma espécie de hipnose, e que não tenha pressa de solucionar o enigma proposto pelo escritor. Quanto mais páginas tiver o livro, maior o risco de o leitor se desinteressar ou então prever o que vai acontecer. Isso não é uma dificuldade exclusiva de autor algum, muito menos de Rubem Fonseca. É da natureza do gênero. Mas quando o autor possui uma ampla produção de contos, como é o seu caso, alguns leitores mais resistentes à hipnose, os críticos no sentido amplo do termo, passam a se ressentir da previsibilidade da narrativa mais longa e da gradativa diminuição de impacto nas cenas de violência e de suspense nas reviravoltas da trama. Sentem falta dos fechos rápidos, das surpresas e dos rompantes de agressividade, que então passam a apontar como as grandes virtudes dos contos. Entretanto, essa deficiência parece ser antes dos receptores do que do escritor, que usa nas narrativas longas os mesmos temas e recursos que nas curtas. Uma segunda explicação possível para essa má recepção dos romances por parte da crítica é o uso recorrente de um mesmo modelo de protagonista masculino. O protagonista de um romance de Rubem Fonseca é, quase sempre, muito parecido com o do romance anterior. Em relação à natureza humana, é um cético. Em relação à natureza feminina, soberbo. Em relação a sua própria natureza, um conformado com seu ceticismo e com sua soberba. Uma espécie de Philip Marlowe – o detetive criado por Raymond Chandlerque Humphrey Bogart imortalizou no cinema – atualizado e um tanto mais erudito. No romance Agosto é apreciador de óperas. Em Vastas emoções e pensamentos imperfeitos é aficcionado por cinema europeu. No novo romance é entendido em charutos, e por aí vai. E são sempre cheios de mulheres, gostosões irresistíveis que têm uma relação distante com suas amantes e namoradas que por sua vez nunca desistem de tentar serem amadas. (Aliás, como os admiradores do escritor, categoria na qual me incluo, em relação a sua recusa em dar entrevistas e ser fotografado aqui no Brasil.)
No novo romance, inclusive, acontece o que já aconteceu outras vezes, quando não há apenas uma coincidência de características psicológicas. Há de fato a reaparição do mesmíssimo personagem. Mandrake, o advogado do protagonista, já apareceu em contos e já protagonizou o romance A grande arte. Gustavo Flávio, o acusado, foi a figura principal de Bufo & Spallanzani. Mas uma figura se repetir num conto tem um peso diferente. Há menos espaço para que sua psicologia seja aprofundada, e a repetição incomoda menos. Já num romance…
Hercule Poirot, Philip Marlowe, Steve Carella e muitos outros detetives clássicos da literatura policial provam que a repetição não é necessariamente um defeito. Esses personagens passam a ter um passado que, se conhecido pelo leitor, cria entre eles uma intimidade positiva. Mas, se esses mesmos personagens tivessem aparecido em forma de conto,quem sabe alguns críticos viriam dizer que funcionavam melhor assim?
Contista ou romancista, Rubem Fonseca é uma referência obrigatória no panorama da literatura brasileira e para a nova geração de escritores, justamente porque foi um dos primeiros a romper com a nossa tradição e a abrir um novo caminho. Em 1963, quando a literatura de cunho regionalista ainda estava em plena atividade, e Grande sertão: veredas, a culminância dessa literatura, ainda nem havia sido publicado, dois futuros mestres da literatura urbana, dois futuros porta-vozes do submundo, lançaram seus primeiros livros. Um era Rubem Fonseca, com o seu Os prisioneiros. O outro era João Antônio, com Malagueta, Perus e Bacanafo.
Na época, João Antônio foi quem obteve o maior reconhecimento. Ganhou três prêmios de cara. João Antônio dava à miséria e à violência um gancho para o sublime, assim como os regionalistas faziam com as agruras da vida rural. Ele também fazia as experimentações de linguagem tão importantes para os juízos literários da época, e que Grande sertão veio consagrar. Enfim, João Antônio conciliava a tradição literária brasileira com o novo cenário urbano. Mas a radicalização da agressividade urbana e a crescente influência das artes visuais sobre a literatura, ao longo dos anos, terminaram por definir um interlocutor preferencial.
REVISTA: Cult – n° 3
DATA: outubro de 1997
PÁGINA: 10-11