Release | Os desencantados

OS DESENCANTADOS

BUDD SCHULBERG


Tradução: Alexandre Barbosa de Souza, Alípio Correia de Franca Neto e Rodrigo Lacerda
Orelha: Sérgio Augusto
Formato: 15,5 x 22 cm
Páginas: 432
Preço: R$ 59,90
ISBN: 85-7503-425-1

Budd Schulberg é um dos escritores cujas obras são mais famosas do que eles mesmos. Poucos leitores, no Brasil, ouviram falar de seu nome. Porém, Um rosto na multidão, ou Sindicato de ladrões, são apenas dois de seus títulos que, de um jeito ou de outro, todos já conhecemos.

Judeu, nascido em 1914, seu pai era B. P. Schulberg, um poderoso produtor da nascente indústria cinematográfica americana (sócio de Louis B. Mayer no que viria a ser a Metro Goldwyn Mayer e, mais tarde, executivo-chefe da Paramount Pictures) e sua mãe, Adeline Jafee-Schulberg, era uma mulher politicamente ativa e identificada com o socialismo.

Criado, portanto, entre intelectuais e artistas, Budd Schulberg foi, em todos os sentidos, um rapaz precoce. Aos vinte anos esteve na União Soviética para assistir a um congresso internacional de cinema, no qual teve a oportunidade de conhecer alguns de seus ídolos literários, entre eles Máximo Górki e Isaac Bábel. Também ainda jovem integraria a equipe de documentaristas dirigida por John Ford, o gênio por trás da maioria dos clássicos do western.

Por fim, antes que a década de 30 se encerrasse, Budd receberia do pai a incumbência de colaborar no roteiro de um musical universitário, Winter Carnival, ambientado em sua faculdade, a prestigiosa Dartmouth College. A tarefa se provaria marcante. Isto porque um outro colaborador envolvido no projeto seria, ninguém mais ninguém menos do que o celebérrimo, e àquela altura já decadentérrimo, Scott Fitzgerald.

Em 1941, com apenas 27 anos, Schulberg publicou seu primeiro romance, O que faz Sammy correr?. Narrando a ascensão de um inescrupuloso produtor de cinema, o livro consolidou, de saída, aquela que se tornaria sua especialidade como ficcionista, ou seja, uma crítica aguda à indústria cinematográfica em geral e ao star system em particular, porém feita por alguém “de dentro”, o que a tornava emocionada e avessa a estereótipos.

Assim como seu pai, tido como “um liberal no mundo reacionário de Mayer e Hearst” – em referência a Randolph Hearst, o magnata das comunicações de então –, e sua mãe, declaradamente socialista, Budd Schulberg também se colocava à esquerda no espectro político da época, chegando a se tornar membro do Partido Comunista. Não obstante, e apesar de sua obra de estréia jamais escamotear as mazelas da “fábrica dos sonhos”, os contatos de Shulberg dentro do PC americano exigiram-lhe mudanças no romance. Recusando-se a fazê-lo, Budd e os comunistas rompem relações.

OS DESENCANTADOS

Em 1950, Schulberg publicou seu segundo livro, Os desencantados. Nele, é ficcionalizada a experiência de trabalhar num roteiro tendo como colaborador um dos mestres da literatura americana de todos os tempos. Trata-se, unanimemente, de uma obra-prima na qual o retrato que faz do mundo do cinema e das desilusões da década de 1930 soma-se à densidade emocional proporcionada pelo fundo autobiográfico e a uma prosa que vai além do realismo típico, com modulações estilísticas extremamente bem encaixadas e executadas.

Um dos protagonistas, Shep Stearns (inspirado no jovem Budd, mas que alude ao Stearns de T.S. Eliot), procura conciliar, durante a terrível depressão econômica pós-crack de 29, sua consciência de esquerda com a nostalgia que sente, a despeito de si mesmo, pela alegria e inconseqüência dos Anos Loucos. A colaboração, no roteiro de um filme B, com o outro protagonista, Manley Halliday – leia-se Scott Fitzgerald –, autor de clássicos da literatura reduzido a um ex-alcoólatra em constante ressaca por ter vivido arrebatadamente a década extinta, não facilita em nada sua difícil conciliação interior. Ainda mais às vésperas da Segunda Guerra Mundial, enquanto comunistas e nazistas são aliados e as democracias européias começam a sentir o avanço do Terceiro Reich.

A estrutura narrativa de Schulberg é impressionante: intercalados aos 24 capítulos, há cinco flashbacks de Halliday-Fitzgerald em sua rotina de “americano em Paris”, com passagens pelo México, festas em iates no Mediterrâneo, até chegar à dura realidade atual, com sua decadência precoce, um filho adolescente que dele só espera dinheiro, e uma mulher, Jere, personagem que é, por si só, um capítulo à parte. Linda e esfuziante, Jere foi a melhor companhia que Halliday poderia ter encontrado para sua aventura de glória e dissipação. Porém, ao contrário dele próprio, mantido de pé por sua reputação e pela consciência de haver realizado uma obra consistente, apesar de toda a esbórnia, Jere não realizou nada. Quando os tempos alegres terminam, ela se descobre sem seu charme e sua juventude. O mundo acabrunhou-se e nada mais lhe sobra, a não ser o isolamento numa clínica de repouso (um pouco como a Zelda real, esposa de Scott Fitzgerald). Na imagem preciosa de Schulberg, o que resta de Jere é: “um carrossel espalhafatoso, rebuscado e frágil, incendiado e reduzido a cinzas”.

As reflexões delirantes de Halliday avançam sobre inúmeros personagens verídicos do mundo do cinema – como o humorista Robert Benchley, que aparece morando no mesmo condomínio que ele – e sobre referências culturais norte-americanas – como o lendário Irving Thalberg (que inspirou O último magnata, de Fitzgerald), e mais Woodrow Wilson, Ernest Hemingway e William Faulkner –, detendo-se em suas favoritas: Charles Chaplin e o letrista Lorenz Hart. Mas elas avançam, sobretudo, contra a ambígüa fronteira entre literatura e roteiro, entre arte pura e arte aplicada, cuja própria ambigüidade ameaça destruir ambos os protagonistas.

BASTIDORES DE HOLLYWOOD

Em 1951, acusado de comunista e chamado a depor pelos macarthistas, Schulberg se defendeu relatando aqueles que, anos antes, o haviam instado a censurar sua própria obra conforme a ideologia comunista. E assim, além das relações já tensas com o establishment da indústria cinematográfica, Schulberg se viu definitivamente repudiado pela esquerda, que se pôs a construir o “esquecimento” em torno de seu nome. Não por acaso, juntamente com o diretor Elia Kazan, outro perseguido pela patrulha ideológica de direita e de esquerda, ele logo realizaria a que talvez seja sua obra mais conhecida: Sindicato de ladrões.

Após meses entrevistando e fazendo pesquisa de linguagem com os trabalhadores do cais de Nova York, Schulberg concebeu a fábula de Terry Malloy (no filme, interpretado por Marlon Brando), um ex-pugilista cuja carreira foi arruinada pelo próprio irmão, um dos gângsteres do sindicato que exploram os trabalhadores do cais. Ao se revoltar contra os laços de família, contra o estereótipo do “dedo-duro”, e denunciar a corrupção no sindicato, Malloy ascende à dupla condição de herói-delator. Constitui, portanto, uma espécie de resposta de Schulberg e Kazan a seus perseguidores. O roteiro do filme ganhou o Oscar de 1954, e foi posteriormente transformado em romance (numa inversão da ordem tradicional das coisas).

Um comentário de Schulberg dá o clima de uma época em que muitos intelectuais pendiam para a esquerda: “Todas essas pessoas sabiam que muita coisa estava acontecendo no mundo e que Hitler ficava cada vez mais forte enquanto elas ficavam como que tocando harpa enquanto Roma pegava fogo. Acho que o PC lhes deu a impressão de que estavam fazendo algo sério e útil, o que compensaria o desperdício de seus talentos. Materialismo dialético à beira da piscina”.

SCHULBERG HOJE

Recentemente (2004), Budd Schulberg foi convidado por Spike Lee para escrever o roteiro de um filme sobre boxe. O filme, a ser lançado em 2007, tratará da histórica revanche entre o alemão Max Schmeling e o ídolo norte-americano Joe Louis, em 1938. Como se vê, o boxe é outra das grandes paixões do escritor. Além de ter sido editor especializado da revista Sports Illustrated, Schulberg escreveu o romance The Harder They Fall (sem tradução no Brasil). Reproduzindo com extrema habilidade a linguagem da fauna do boxe (apostadores, treinadores, empresários, assessores de imprensa, lutadores, prostitutas etc), ele conta a história de uma fraude em forma de boxeador, cuja carreira é inteiramente composta por lutas compradas e acertos de bastidores.

Assim como o escritor havia profetizado o surgimento dos políticos provenientes do show business, em seu conto Um rosto na multidão, neste livro ele antecipou a era dos Mike Tysons feitos para a TV. No cinema, quem interpretou o protagonista desta história, um assessor de imprensa desiludido, foi Humphrey Bogart, em seu último papel, pouco antes de morrer.

Budd Schulberg, atualmente com 92 anos, vive em Long Island, Nova York.

SOBRE A TRADUÇÃO

Para esta primeira edição no Brasil de uma obra tão grandiosa e complexa como Os desencantados, a Cosac Naify reuniu três escritores/tradutores que se destacam no panorama da nova geração. Alípio Correia de Franca Neto, premiado tradutor de James Joyce; Alexandre Barbosa de Souza, que também pela Cosac Naify publicou sua tradução de Contos da neozelandesa Katherine Mansfield, feita em parceria com Carlos Eugênio Marcondes de Moura; e Rodrigo Lacerda, que traduziu Palmeiras Selvagens, de William Faulkner, em parceria com Newton Goldman.

VER TAMBÉM:
Este lado do paraíso
, de F. Scott Fitzgerald;
Retrato do artista quando velho
, de Joseph Heller

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