Reflexões a jato: o poeta Waly Salomão

Reflexões a Jato

o poeta Waly Salomão lança novo livro em São Paulo

Salvador e Rio de Janeiro já sabem o que é um lançamento de livro do poeta, músico e ensaísta, Waly Salomão. No Rio, personalidades da música, da literatura e do cinema foram prestigiar o evento. No dia sete, às 19 horas, na Galeria homônima, São Paulo terá sua chance. O próprio Waly admite: “Eu acho que lançamento de livro tem que ter estardalhaço.”

Waly é descendente de sírios (o que explica a pronúncia correta de seu nome, ualí) e desde o final dos anos sessenta é um elemento ativo da cultura nacional. Entusiasmado, falante, bem-humorado e de inteligência afiada, Waly, atualmente com cinquenta anos, não aceita visões estereotipadas de si mesmo e de suas obras. Apesar de ter feito as letras de inúmeras canções de Gal, Bethânia e Caetano, ter montado o famoso show Gal Fatal de 1972 e ter sido o responsável pela publicação de textos reunidos de Caetano, trabalhos que o levaram a ser até hoje confundido com o movimento tropicalista, Waly afirma com convicção: “Nunca fui tropicalista e não tenho uma visão nostálgica do tropicalismo. Acho até que, na verdade, esse culto a um determinado momento da produção cultural brasileira, qualquer que seja ele, esconde uma forte tendência à paralisia, à acomodação.” Quem não está parado não pode se dar ao luxo de olhar para trás. 

O livro que será lançado segunda feira, Armarinho de Miudezas, é sua terceira obra a ser publicada. Antes dela vieram Me Segura qu’Eu Vou dar um Troço (1972) e Gigolô de Bibelôs (1983). Waly conta que começou a escrever em 1970, quando ficou preso na penitenciária do Carandiru, pavilhão dois. “Por incrível que pareça,” diz ele “foi na prisão que eu consegui libertar o que tinha dentro de mim. Então, ano passado, quando vi aquelas cenas terríveis da chacina nos jornais, aquilo para mim tinha um significado especial.” Despojado de qualquer pedantismo em relação a seu trabalho, Waly acha graça quando ouve o título insólito que costumam dar a seu primeiro livro, um “Clássico do Underground“.

Tanto suas poesias quanto seus ensaios, são escritos de forma ágil e inquieta, alternando, ou aliando, um tom espontâneo a reflexões mais rebuscadas. Além disso, Arlete Sales, Rimbaud, “Madre Tereza de Calicut” e Wittgenstein, e outras citações heterodoxas (para usar o economês tão em voga), convivem com surpreendente naturalidade ao longo de seus textos. “As referências aparentemente incompatíveis são para mim fundamentais. A novidade, sempre que vem, já chega unindo coisas que antes pareciam incongruentes, sem isso não é novidade. Essa visão de mosaico, multifacetada, é a única possível nos dias de hoje. Não sou adepto de uma pureza absoluta, protestante,” e acrescenta, “muitas vezes, ter a coerência como valor é um disfarce para a mediocridade.”

Armarinho de Miudezas é uma reunião de ensaios sobre assuntos variados. Em”A Praia da Tropicália”, o tropicalismo é revisto de forma bastante pessoal e bem humorada. Em “A Velha Cartomante Setentona”, sobre a semana de arte moderna de 1922, as heranças mais perenes do movimento modernista são identificadas. “O Suicídio enquanto Paráfrase ou Torquato Neto Esqueceu as Aspas”, sobre o suicídio do amigo e também poeta em 1972, expõe, sem sentimentalismos, a tese segundo a qual Torquato “botou em prática, viveu literalmente algumas poesias”, como a de Manuel Bandeira “E num torpedo suicida/ darei de bom grado a vida.” Finalmente, “Quase Heliogábalo”, um texto já traduzido para várias línguas, analisa a obra e integra o catálogo da exposição do artista Hélio Oiticica, atualmente percorrendo a Europa.  

Nascido numa pequena cidade da Bahia, Waly já morou em São Paulo e Nova Iorque. Recentemente mudou-se para Salvador, onde foi presidente da Fundação Gregório de Matos, mas não ficou muito tempo. Seu apego para com a terra natal não impediu que suas mazelas “coloniais” o incomodassem. Ele se refere a essa experiência no poema “Bahia Turva”, dizendo: “Viver na Bahia não é só comer acarajé, não./ Nem xinxim de galinha, comida sem igual./ …é mastigar um sanduíche/ misto de entropia e maledicência”. Atualmente Waly mora no Rio de Janeiro e tem seu QG na pizzaria Guanabara, em pleno baixo Leblon, centro mundial da boêmia, e onde, a julgar pelo fluxo constante e torrencial de seus pensamentos, pode-se imaginar que aconteçam intermináveis conversas de bar noite adentro. 

[década de 1990, publicado no Jornal da Tarde]