Redescobrindo a arte de Roma
“A Roma de Sisto V”, uma mostra histórica de arte e cultura
Um verdadeiro tesouro da história e da cultura italiana está reunido na exposição A Roma de Sisto V. Aberta no palácio Venezia, em Roma. até o dia 30 de abril, a exposição mostra o ambicioso projeto urbanístico e cultural do papa Sisto V, Sumo Pontífice da Igreja Católica de 1585 a 1590.
Sisto V foi talvez o mais autêntico papa da Contra-Reforma, ou da Reforma católica como preferem alguns, movimento que procurava revigorar a. Igreja por dentro, preparando-a para resistir à ameaça protestante. Em meio ao cenário das guerras de religião, o projeto do novo papa para sua capital pretendia ser um primeiro passo para o restabelecimento da grandeza da Igreja, e de Roma, como centro de um universo unificado, espiritual e politicamente. Para um objetivo tão grandioso, nenhum recurso poderia ser poupado, e todas as artes deveriam cumprir seu papel – pintura, escultura, música sacra, e principalmente a arquitetura e urbanismo.
Cada prédio construído por ordem do papa, cada modificação no desenho da cidade, deveria obedecer a uma simbologia muito elaborada de fundo cristão. O exemplo mais evidente disso foi a construção da Via Felice, estrada transversal à já existente Via Pia. Não apenas os nomes remetem a um significado simbólico. Ao se cruzarem, as duas estradas faziam o desenho exato da cruz latina, numa área em que se encontravam alguns monumentos pagãos da época do império romano.
Nesses casos de solução menos radical, essa quebra do ambiente pagão recebia o nome de “o exorcismo da cruz”, Mas a cidade parecia brigar com seu passado, e muito monumentos antigos foram simplesmente destruídos. I
A eloqüência do exemplo da Via Felice não acaba aí. Ela desembocava num entroncamento de estradas que propositalmente formavam o desenho de uma estrela de cinco pontas. A estrela evocava a madona, o papa, o Cristo e a Roma santa. Outro símbolo muito usado por Sisto V foi o leão, símbolo da justiça, da vigilância, da majestade, símbolo de Roma (descrita na baixa Idade Média como tendo a forma de um leão) e de Jesus. Seu principal arquiteto, Domênico Fontana, valorizava a “vista de longe”, dando muita importância à relação entre o espaço urbano e a construção que deveria integrá-la. Essa combinação, obrigatoriamente, viria apoiada num conjunto de alegorias cujo objetivo era superar o intelectualismo e a fria significação da arquitetura anterior. Com essa ordenação religiosa do espaço e com a multiplicação dos prédios religiosos, Roma seria santificada e todos os que nela estivessem seriam peregrinos.
Mas a exposição do palácio Venezia não se limita aos aspectos urbanísticos e arquitetônicos da obra de Sisto V. A escultura e a pintura da época também são exibidas. Ambas, no entanto, sofriam de um mesmo mal, a concorrência privada, que as levou a ter um papel secundário no projeto papal. As esculturas antigas, por .exemplo, que evocavam o paganismo romano, eram apreciadíssimas, e as inúmeras encomendas particulares roubavam a mão-de-obra, prejudicando os interesses de Sisto V. O mesmo se dava com a pintura, por demais influenciada pelos mestres humanistas do Renascimento para voltar a formas puramente católicas de representação. A música sacra, por sua vez, funcionava como “pescadora de almas”, mas tinha alcance limitado, por ser executada quase exclusivamente em igrejas.
[década de 1990, publicado no Jornal da Tarde]