Queluz, o equilíbrio inatingível
Vim a São Paulo pela primeira vez com uma avó postiça que eu tinha, mãe de um grande amigo de meu pai. O motivo da viagem era a estréia de uma montagem da ópera Maria Tudor, há décadas sem ser levada no Brasil e que seria estrelada por esse amigo da família. Eu devia ter uns doze anos, se tanto. A ópera foi uma grande frustração. Achei chatíssima, sobretudo porque o amigo da família era decapitado logo no primeiro ato! Mas a cidade eu adorei. Sabe-se lá porque razões profundas, saí daqui dizendo que gostava mais de São Paulo que da minha cidade de origem.
Anos depois, casei com uma paulista. Sim, é isso mesmo: sou carioca, mas casei-me com uma paulista. Essa contradição patológica de minha personalidade já me rendeu horas de meditação sobre as diferenças entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Um bom analista talvez me aconselhasse a ir morar em Queluz, o meio do caminho. Ainda bem que não o consultei.
De tanto meditar, porém, já cheguei a algumas conclusões. Pouco importa que não sejam sociologicamente comprovadas e, muitas vezes, se contradigam. Acredito nelas por experiência própria.
Após o casório, fomos morar no Rio. Mais do que eu poderia esperar, minha mulher odiou a Cidade Maravilhosa. Dois anos mais tarde, ela resolveu voltar para São Paulo, alegando, indignada, que “naquele balneário atrasado nem mandioquinha eles conhecem!”. Diante de tão sólidos argumentos, o que poderia eu fazer, senão concordar e seguir obedientemente a mulher amada? Vim para São Paulo.
As queixas de minha mulher a respeito do Rio de Janeiro eram as de todo mundo: que é uma bagunça, que os serviços são péssimos, que a telefonia é um caos, que há muitos assalto, etc. Porém, no fundo acho que estes motivos não são os verdadeiros responsáveis pela inadaptação de um paulista à beira do mar. Tais defeitos, reais, são coisas com as quais acabamos nos acostumando. A raça humana foi capaz de se acostumar ao trânsito das grandes cidades, à correria da vida moderna, a ortodontia e à defesa da atual Seleção Brasileira, que são muito piores. Porque não se acostumaria à má condução das coisas públicas e à violência, que inclusive já vêm de muito mais longe na história da humanidade? Eu mesmo, já fui assaltado umas quatro ou cinco vezes, com arma, sem arma, no ônibus, no carro, andando a pé, de tudo que é jeito. E, convenhamos, se fosse para fugir da violência, o certo era ir pra Oslo, Amsterdã, não para São Paulo.
O que atrapalha o paulista quando vai morar no Rio de Janeiro é, sobretudo, a dinâmica completamente diferente que move a sociabilidade carioca. Invariavelmente, o paulista se sente muito só no Rio, e fica achando que os cariocas não fazem amigos. Isto, é claro, não é verdade, muito pelo contrário. Apenas a sociabilidade do carioca é menos programada que a do paulista. São Paulo é uma cidade muito mais espalhada, e aqui, se você sair de casa sem combinar nada com ninguém, as chances são grandes de você não fazer nada com ninguém mesmo. Já no Rio, com o apelo da vida ao ar livre, tanto diurna quanto noturna, as pessoas encontram-se casualmente nas areias ou nos bares de rua. Isso faz com que a agenda social do carioca não tenha o método que encontramos na do paulista. As pessoas lá se esbarram muito mais. Até porque, na zona sul, afora o marinheiro e o alpinista, não há quem fuja dos lugares típicos, Bar Lagoa, Baixo Gávea, Baixo Leblon, e mais um ou outro. Então o carioca quando diz a alguém, “vamos nos ver”, ele não está propondo um jantar, ou convidando a pessoa para ir a sua casa. Ele está simplesmente dizendo que gostaria de encontrá-lo por acaso em algum lugar não especificado. Mas para o paulista transplantado, essa frase não tem qualquer valor ou sentido.
Em última instância, pode-se dizer que o anonimato é algo com o qual o paulista convive bem, ou até aprecia. Eu, definitivamente, adoro o anonimato que a cidade de São Paulo me propicia. É bom saber que posso ir ao shopping e não corro o risco de encontrar aquela minha tia chata, que no restaurante estou a salvo daquele antigo colega de colégio que se tornou um adulto execravelmente estúpido. Já a alma carioca, que apesar de ter nascido lá cada vez mais me convenço que não tenho, gosta de desfilar pelos bares e ir encontrando amigos, gosta de ser reconhecido enquanto estende a toalha na areia.
Há ainda outro detalhe que diferencia a sociabilidade do carioca e do paulista. Este, em geral, quando lhe perguntam alguma coisa sobre determinado assunto, se esforça para dar a resposta mais inteligente, meditada e informada de que é capaz. Já o carioca, pelo menos o carioca típico, ele se esforça em dar uma resposta hilariante, ou em relembrar uma história hilariante que, de algum jeito, se conecte com a pergunta que lhe foi feita ou com a situação. Essa idolatria à hilariedade, muitas vezes quase non sense, é algo que, para o bem ou para o mal, só se vê do lado de lá da rodovia.
Mas, a meu ver, há uma coisa bastante incomodativa no Rio de Janeiro, e para a qual não existe solução: é o calor. Tudo é pior quando o termômetro passa dos trinta graus. Eu, por exemplo, fico burro, burríssimo, e mal-humorado. E cada saída na rua, cada ida a farmácia, vira, literalmente, um inferno. O calor me leva a pensar que, no Rio, a classe média não tem vez. Ou a pessoa é pobre de todo, para poder andar de chinelo e sem camisa o dia inteiro, ou rica de todo, para estar cercada de refrigérios ininterruptos. Se ficar no meio termo, vai assar. A classe-média – na qual eu me incluo, e esfrego meu contra-cheque (olerite, ou Hollerith) na cara de quem quiser disser que estou fazendo demagogia – é incapaz de se resignar inteiramente, nem bem tem a proteção do ar-condicionado, nem tem a compensação do relaxamento completo.
Mas o que pensa o carioca que vem morar em São Paulo? A primeira coisa que lhe chama atenção é o orgulho que o paulista tem de sua cidade e de sua prosperidade. Alguns exageram, e beiram a arrogância, mas no geral é um sentimento bonito de ver, positivo, construtivo. Ainda que essa imagem de prosperidade seja mantida, em parte, pela distância física que separa as camadas mais pobres das mais ricas, o que não acontece no Rio.
A segunda coisa é o trânsito. Nem no auge do Rio Cidade, o projeto generalizado de reforma urbana implementado pelo prefeito César Maia, quando todas as ruas foram esburacadas ao mesmo tempo, o trânsito carioca conseguiu ser tão ruim quanto o daqui, Eu desenvolvi algumas técnicas de relaxamento dentro do automóvel que me são muito úteis. A melhor delas é um vodu com bonequinhos que representam o Henry Ford, o Agnelli, e outros expoentes da indústria automobilística. Assim, me vingo e me acalmo.
Um motivo supremo para viver em São Paulo, por fim, e que é a razão da paz no interior de meu lar, é saber que, na prateleira dos supermercados, em abundante oferta, há mandioquinhas a nossa espera. Hoje eu sei que este legume, em carioquês, se chama batata-barôa. Mas agora é tarde, de onde estou, só saio quando for comê-lo em estado bruto.
Rodrigo Lacerda, 1992