Por que ler?

Texto Escrito para o Programa de Fomento à Leitura da Secretaria de Cultura de Londrina, Paraná (2006)

Antes de mais nada, queria agradecer a todos a deliciosa estadia em Londrina. Tenho uma queda afetiva por cidades que, como a minha cidade natal, viveram anos dourados e, depois, precisaram conviver com a urgência de se reinventar. Às vezes é difícil aceitar esta condição, ou esta contradição: a nostalgia é uma dor muito doce, mas a razão não tem volta. A experiência deixou nossas cidades inquietas, talvez para sempre. Talvez nunca mais consigam acreditar na própria idéia de uma “fase de ouro”. Caminham em direção ao futuro assim, meio sem saber exatamente como superar a lembrança. Amo as cidades que têm esse destino, e sofro por elas. Mas também  me alegro, e sinto orgulho de conhecê-las, quando penso que a vida é mais intensa na busca.

Quando o programa Recado dos Livros me chamou até Londrina, respondi dando o meu recado sobre o escritor João Antônio, tema de minha tese de doutorado. Além disso, em  algumas entrevistas, pontifiquei sobre a importância da leitura. Ao voltar para casa, porém, senti que justo esse último recado, o mais importante, eu não dera corretamente. Eu matei a cobra mas não mostrei o pau, ou vice-versa. Certas coisas não basta anunciar, como uma verdade que deve ser aceita por si só. Precisamos dizer  o porquê. Se queremos fazer os brasileiros lerem mais de um livro por ano, essa trágica média nacional, precisamos de fato conquistar o seu interesse, e não apenas pontificar.

Para quitar esta dívida com o público de Londrina, listei os três benefícios fundamentais que a leitura pode trazer.

O primeiro: ler nos faz mais felizes. É um caminho para o auto-conhecimento, e o exercício constante de auto-conhecimento é um caminho para a felicidade. A vida, também no plano individual, é mais intensa na busca. Os personagens de um livro de ficção, os fatos de um livro-reportagem, as idéias de um livro científico, interagem com os nossos sentimentos, ora refletindo-os, ora agredindo-os, e portanto servindo de parâmetro para sabermos quem somos, seja por identidade ou oposição.

O segundo benefício: ler nos torna amantes melhores. Treina nossa sensibilidade para o contato com o outro. Amores românticos, amores carnais, amores perigosos, amores casuais, amores culpados, todos estão nos livros. A sensibilidade do leitor encontra seu caminho. E quanto mais o nosso imaginário estiver arejado pelas infinitas opções que as histórias escritas nos oferecem, sejam elas factuais ou ficcionais, com mais delícia aproveitamos os bons momentos do amor, e com mais calma enfrentamos os maus.

Por fim: ler nos torna cidadãos melhores. Os livros propiciam ao leitor um ponto de vista privilegiado, de onde observa conflitos de interesses. No processo, sua consciência é estimulada a se posicionar com equilíbrio. Tendem a ganhar forma, então, princípios de “honestidade”, “honra”, “justiça” e “generosidade’. Guiado por estes valores, o leitor pode enfim ultrapassar as fronteiras sociais, e ver a humanidade presente em todos os tipos, em todas as classes.

Teríamos menos escândalos de corrupção, se lêssemos mais; construiríamos uma sociedade menos injusta, se educássemos melhor os nossos espíritos; eu acredito nisso.  Ou então daria um tiro na cabeça.