Pingentes: João Antônio e Lima Barreto
Introdução:
O escritor João Antônio (1937-1996), publicou seu primeiro livro, “Malagueta, Perus e Bacanaço”, em 1963, aos 26 anos. Embora o sucesso de público ainda fosse demorar, a excelente recepção da crítica ao seu “Malaguetas” não apenas conferiu-lhe três prêmios literários, mas, sobretudo, catapultou-o para a imprensa nacional, livrando-o dos sub-empregos que tivera até então. Foi notável, sem dúvida, a ascensão social do office-boy que se viabilizou como jornalista, importado de São Paulo pelo Jornal do Brasil, diário carioca infinitamente mais importante na época do que hoje em dia.
No primeiro livro, pode-se dizer que os contos de JA eram tocados aqui por um forte impulso autobiográfico (presente na primeira e segunda partes do livro, (Contos Gerais e Caserna), ali por maior liberdade ficcional, enquanto circulam pelo mundo da malandragem e das casas de bilhar (na terceira parte, Sinuca, que sozinha ocupa metade da obra). Então, em 1975, após 12 anos de jornalismo, luta pela sobrevivência e de paixão pela cidade do Rio de Janeiro, JA voltou à cena propriamente literária. Num intervalo de meses, publicou dois livros, “Leão-de-Chácara” e “Malhação do Judas Carioca”. Em “Leão”, pode-se dizer que a atmosfera autobiográfica desaparece temporariamente, e o universo do crime e da malandragem ocupam todo o espaço. Em “Malhação do Judas”, novos gêneros são incorporados a sua literatura. São eles: o conto-reportagem, os retratos, a crônica.
Neste momento, os universos temático e formal de João Antônio ganham o contorno do que se poderia chamar de “período clássico” de sua obra, em que ela está madura, porém ainda não amarga. Um ano depois, seu quarto livro foi publicado, “Casa de Loucos”. Neste, um texto procura definir social e espiritualmente seus personagens por excelência, os merdunchos.
Diz ele: “Então, a sinuca também é uma cópia da nossa sociedade. Na sinuca existe o patrão, existe o empregado, o cavalo. (…) Ela é a própria síntese do patético da vida, da dramaticidade, da luta.”
E de seus personagens sinuqueiros, “…o jogador de sinuca não é bem o malandro, nem bem o trabalhador, nem bem o operário, ele fica vizinhando a miséria, não é o esmoleiro também; pode pintar algum elemento ligado à prostituição, que vai lá apostar… é um lúmpen mesmo. Acho que a sinuca é a mais característica dessas coisas, dessa faixa social meio vaga, a que chamo de merduncho;”.
O inconformismo, a sensibilidade espontânea e a luta não convencional pela sobrevivência são características predominantes na produção do escritor. Seus personagens são obrigados à batalha sofrida do dinheiro de cada dia, mas fazem-no em seus próprios termos, nas franjas do sistema. A malandragem e o submundo de que trata vêm marcados pela metáfora do jogo, que sempre terá um coeficiente lúdico, de opção individual. Ainda no conto “Merdunchos”, ele afirma: “Porque a rua hoje é um fato conflitante, é um elemento de desgosto, o cara sai de casa, pisou na rua, pumba! Conflito. Conflito, você está na área de conflito, se cuide, salve-se quem puder! Então, a sinuca era uma ilha dentro dessa área de conflito, uma das últimas que restavam nessa fileira de casas de samba, de gafieira em geral, de botequim em geral, de praça em geral.”
Esse universo externo ao mundo produtivo oficial, embora reflita a luta cotidiana, com patrões de jogo e operários do taco, cafetões e prostitutas, serve de abrigo aos personagens e lhes permite, muitas vezes, a superação da luta mesquinha do trabalhador comum, o “coió de mola”, presa fácil do sistema. João Antônio dizia que “O marginal, o leão-de-chácara, o sinuqueiro, o jogador de baralho, o mendigo, podem ter momento épicos.” Há, portanto, uma transcendência, uma certa grandeza heróica em seus anti-heróis.
Este perfil de rebeldia lúdica e criativa contra o sistema, embora formulada para caracterizar os personagens de sua ficção, encaixa-se também naquelas figuras reais que foram alvo de seus retratos literários. João Antônio parece ter uma lista constante de qualidades que procurava nas pessoas, e todos os seus retratados precisavam ter pelo menos duas ou três delas. Deveriam/poderiam ser incompreendidos, humildes perante os outros e perante a arte, apaixonados pela vida, simples no trato, sensíveis de espírito, corajosos, superiores aos bens materiais, céticos em relação ao sucesso, bem humorados, espertos, conhecedores intuitivos do mundo, corajosos e idealistas. Lima Barreto, Noel Rosa, Aracy de Almeida, Nélson Cavaquinho, Nélson Rodrigues, Darcy Ribeiro, o goleiro de futebol Raul Plassman, Dalton Trevisan, entre outros, todos, de um jeito ou de outro, se encaixam nessas categorias. Num primeiro momento, João Antônio os homenageia por não se terem deixado embotar pela dureza da vida e, em seguida, por, apesar do sucesso, nunca terem perdido o contato com o mundo real, cruel, cotidiano, da maioria da população brasileira. Uma senha de acesso era, também, a humildade perante o mundo das idéias, a sinceridade perante o público, que implicava na identificação entre vida e obra, e a busca por uma forma brasileira de se expressar.
E quando falamos das figuras reais admiradas por JA, um nome se destaca do conjunto: Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922). Ao escritor pré-modernista João Antônio dedicou todos os seus livros. Em “Malaguetas”, Lima Barreto dividia a homenagem com os homens de letras Paulo Rónai e Mário da Silva Brito, e com o filho de JA, Daniel Pedro de Andrade Ferreira. Em “Leão”, já divide-a apenas com o filho, fórmula que se repete no terceiro e no quarto livros, e daí por diante será sempre assim, em livros originais e antologias. Em pelo menos um caso, o da antologia “Meninão do Caixote”, o autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, é o único homenageado.
Não se sabe quando, exatamente, começou a admiração de João Antônio pela obra e pelo homem Afonso Henriques de Lima Barreto. Perguntado sobre sua formação literária, o escritor paulista invariavelmente evocava o ano de 1949. Nele, sua colaboração na revista “O Crisol” havia começado. Fundada e administrada por um gaúcho radicado em São Paulo, Homero Mazarem Brum, a revista era despretensiosa, quase infanto-juvenil, e nela João Antônio contribuía com textos que ele próprio reputava “infantis” (retratos de heróis nacionais, textos comemorativos ao dia da árvore, etc), em troca de livros. Data desta época seu gosto pela palavra escrita. Leu, entre outros, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Guilherme de Almeida, Gregório de Matos, e os autores oriundos de Portugal, Padre Antônio Vieira, Padre Manoel Bernardes, Fialho de Almeida, enfim, os “clássicos e modernos da língua portuguesa”.
Mesmo nesse momento de grande abertura, em que se embebia de autores os mais diversos, Lima Barreto já captou sua atenção de forma especial. João Antônio dedica a ele seu primeiro, encerra a fase de formação do escritor e marca o início de sua vida profissional.
Essa admiração, explicitada inúmeras vezes ao longo de sua obra, bem como nas entrevistas que concedeu, é a matéria de seu quinto livro “Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto”. A partir dele, poderemos reconstituir a imagem que tinha do autor de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”.
João Antônio começou a elaborá-lo entre maio e junho de 1970, quando internado no Sanatório da Muda, na Tijuca, onde fora parar devido a uma crise de estafa (ou ao menos assim ficou registrada para a posteridade a causa dessa internação). Lá conheceu um professor, chamado Carlos Alberto Nóbrega da Cunha. Assim João Antônio referiu-se a ele: “homem tido e havido como caduco, maníaco e esclerosado. Na mocidade, diretor político do Diário de Notícias, depois sub-secretário de O Jornal.” Este professor, já com 72 anos, convivera com Lima Barreto e fora seu colega de boêmia. Deu a João Antônio, na ocasião, um depoimento no qual descreve o meio boêmio do escritor pré-modernista e seu itinerário pelos cafés, confeitarias, bares e botecos da cidade.
Trabalhado durante sete anos, o livro é um quebra-cabeça que parte do depoimento obtido — com as descrições dos lugares, das rotinas, dos integrantes das rodas, das conversas, do próprio Lima Barreto —, e nele encaixa trechos de seus romances, a reprodução de documentos e frases de outros escritores sobre o autor de “Isaías Caminha”.
Para desse livro depreender a imagem que João Antônio fazia de Lima Barreto, valeria analisar, um por um, os itens desta afinidade eletiva. Mas talvez se possa evitar maiores delongas, tomando o título como atalho. “Calvário e Porres” remete à associação entre sofrimento e álcool, associação esta que o próprio Lima Barreto explicitava francamente. Também é significativo o termo “pingente”, que JA explica na apresentação do livro: “Escrever como e o que escrevia já naquele tempo significava restrições e nome no índice dos jornais. Mesmo com o autor já morto. Daí a condição, em que até hoje é mantido, de uma espécie de pingente no quadro geral de nossos valores literários.”
Sofredor, boêmio e outsider no mundo literário, são, até agora, as características ressaltadas por JA em seu “ídolo”. Na dedicatória do livro, por sinal a mais extensa de todas, outros qualificativos importantes aparecem:
“Consagro
ao talento e ao caráter
e (humildemente)
à atualidade
do
pioneiro aqui reverenciado
Afonso Henriques de Lima Barreto”
Talentoso e homem de caráter. Talentoso, fala por si só. O caráter de Lima Barreto, deduz-se, está na coragem de escrever aquilo que pensava sobre as coisas e as pessoas. Em 1908, no seu caderno de apontamentos, Lima Barreto escreveu uma frase que ecoaria na cabeça de João Antônio ao longo de sua atividade literária: “Sempre achei a condição para a obra superior a mais cega e mais absoluta sinceridade.” Oitenta anos depois da frase acima ter sido formulada, ao lhe perguntarem por que escrevia, João Antônio foi taxativo: “Toda a arte que não for profundamente sincera, não merece o menor respeito! (…) Pode ser o Prêmio Nobel da literatura, pode ser o escritor mais badalado do momento, mas eu acho que a literatura é um exercício extremo de sinceridade. É um problema antes de tudo ético.”
E, finalmente, o atributo “atual”. Explica-o JA, ainda na apresentação, “De Afonso Henriques de Lima Barreto está tudo aí, vivo, pulando, nas ruas, se mexendo, incrivelmente sem solução, cinquenta e quatro anos depois de sua morte. (…) Já pelos primeiros vinte anos deste século, Lima escrevia sobre coisas como: a necessidade de se levantar uma verdadeira História da Escravidão Negra no Brasil; os entalados estados de sítio brasileiros; a falta de grandeza, de solenidade e de misticismo (tão da nossa paisagem brasileira) da nossa arquitetura urbana; os nossos gurus e sabichões (…) a nossa chinoiserie que se basta de um fraseado importado e golpes de estilo; a nossa exploração cínica e demagógica dos mais fracos, que lá vivem naquilo que ele chamou de ‘refúgio dos infelizes’, o eterno subúrbio carioca; (…) o nosso pó de vaidade que se basta com títulos, fardões e medalhadas (…)”
Lima Barreto foi seu grande paradigma intelectual e artístico sim, pois, em última instância, extraía sua força literária dos mesmos “merdunchos” que JA, dando-lhe o exemplo para que persseguisse a linguagem das ruas (tema que será tratado adiante) e, ainda, servindo-lhe de modelo na relação entre escritor e sociedade.
As virtudes humanas e os ideais estéticos compartilhados explicariam, com sobras, a admiração intelectual e artística de um escritor pelo outro. Há em João Antônio, porém, uma devoção a Lima Barreto que vai além disso, a ponto do escritor pré-modernista aparecer sempre lado a lado com o próprio filho de JA nas dedicatórias de seus livros, como se fosse alguém da família.
Lima Barreto torna-se também, para não dizer sobretudo, objeto de fortíssima projeção emocional. Nele João Antônio reconheceu o sentimento de exclusão, de desconfiança/fascínio em relação às estruturas de poder e promoção social, de revolta/desespero em relação à realidade brasileira, de recalque/orgulho de sua origem pobre.
E, por ser a literatura um “problema antes de tudo ético”, ela era, também, missão.
A reverência de João Antônio à profissão que almejou e realizou, a de escritor, era tão profunda assim. Em suas entrevistas, cansa referir-se a ela com este viés, ou chamando-a de “ato de amor”, “ato de viver”. Em muitos escritores isso não passaria de um lugar comum. Mas João Antônio, como já se viu, para reforçar seu argumento, identificou a mesmíssima atitude num grupo de pessoas, artistas na maioria, e desandou a escrever retratos de suas almas-gêmeas. A arte, feita e fruída, servia-lhe de ponte entre as classes sociais, e até os originários da burguesia, alta e baixa, corpos estranhos à ética que permeia seus contos e textos outros de não-ficção, são resgatados nos retratos, integrando-se ao grupo, comungando de seu ideal ético. JA compôs, assim, um leque socialmente amplo de homenageados, que vai de intelectuais sofisticados a um goleiro de futebol. Mais amplo que o de seus personagens, aliás, pois o mundo destes é socialmente hierarquizado, o de seus retratados não.
Se todos refletem as crenças éticas de João Antônio, que se repita, Lima Barreto o faz com intensidade maior. Em seu caso específico, a identificação extra-estética, ética, lastreada em valores pessoais, certamente está ligada a semelhanças entre suas histórias de vida, que superaram a distância no tempo. Ambos tiveram contato com a pobreza, com a rotina pobre, simples e espiritualmente nobre do subúrbio. Com o preconceito. Ambos conviveram com a fauna perigosa e fascinante do submundo. Sofreram com a força das ditaduras, na condição nunca inteiramente profissional do escritor brasileiro (apesar das décadas que os separam no tempo), e apurando uma escrita à margem dos sistemas social e literário, expondo em seus textos, de fora-para-dentro, isto é, do ponto de vista e com a sua versão da linguagem dos excluídos, os dramas de suas respectivas sociedades. Finalmente, os dois conheceram os sanatórios, terminaram na solidão e na bebida.
As semelhanças, entretanto, são usualmente mais ressaltadas que as diferenças também existentes entre suas trajetórias biográficas. A própria projeção emocional de João Antônio em relação a Lima Barreto, para existir, precisou fazer “vista grossa” a estas diferenças biográficas. Por exemplo: ambos falam do subúrbio, mas que subúrbio é esse? É o mesmo? O que mudou? O que está igual? Em alguns momentos, conclui-se que certos elementos biográficos aparentemente idênticos, afetaram os dois escritores de forma bastante diversa ou em diferentes momentos de suas vidas. Há, nessas variações de trajetória, muitos elementos interessantes. Não se trata de rever o que já se sabe sobre ambos, pois o objetivo deste trabalho não é contradizer o já estabelecido e comprovado, mas sim nuançar/problematizar/enriquecer a história dessa identificação literariamente tão produtiva. Ao fazê-lo, assistimos ao entrelace de vários fios desemcapados, de intensa carga emocional, produzindo uma coreografia psicológica formidável, que busca a auto-superação e a superação da realidade.
1 – Escola Politécnica e Beco da Onça
A primeira nuance a se fazer, no paralelismo biográfico estabelecido entre os dois escritores, é dizer que, ao nascerem e ao longo de toda a sua infância — já descontadas as relativizações que a distância no tempo nos obriga —, a criação de ambos foi radicalmente diferente.
O pai de Lima Barreto, João Henriques de Lima Barreto, estudou medicina, ainda que não tenha conseguido se formar. Em outro ramo, teve razoável sucesso profissional. Era impressor e tipógrafo. Ideologicamente, estava afinado com o Partido Liberal, convivendo algum tempo de sua vida entre os líderes abolicionistas, inclusive os de alta estirpe, pois trabalhava na impressão de dos jornais mais importantes do movimento. Abandonara o emprego estável no Jornal do Comércio para dedicar-se ao abolicionista “A Reforma”, conquistando a confiança do grupo. Não era igual a eles, mas era um subalterno próximo, um “operário qualificado” que comungava da mesma teoria igualitária. Graças a seu bom círculo de relações, chegou a ter mais de um emprego e, muitas vezes, ocupando postos cobiçados no seu ramo de trabalho.
Dentre suas relações, destaca-se um senador, Afonso Celso de Assis Figueiredo. Qual o teor exato desta amizade, não se sabe, mas Afonso Celso era, sem dúvida, um protetor. Graças a ele, João Henriques entrou por cima nas oficinas da Tipografia Nacional, como “operário de primeira classe”, dono de bons salários.
João Henriques, Afonso Celso, Afonso Henriques de Lima Barreto. O nome do padrinho e do pai misturaram-se quando do nascimento do terceiro filho do tipógrafo.
A posição relativamente boa do pai permite a Afonso Henriques uma educação acima da média. Começa a estudar aos sete anos de idade, em 1888. Quatro anos depois, matricula-se como aluno interno no Liceu Popular Niteroiense. Em 1895, é aprovado para ingressar o Ginásio Nacional, onde estudará, entre outras matérias, História Geral e do Brasil, Aritmética, História Natural, Física, Química, Francês e Inglês. No ano seguinte, matricula-se, novamente como aluno interno, no Colégio Paula Freitas, onde fez curso anexo de preparatórios à Escola Politécnica. Álgebra, Geometria, Trigonometria Retilínea etc, começam a fazer parte de sua vida.
É bem verdade que todo este período inicial de sua vida não está livre de revezes. Sua mãe, Amália Augusta Barreto, morrera em 1887. O jovem, isolado nos colégios internos, vivia queixando-se de solidão. Também deve-se admitir que Lima Barreto não era lá nenhum aluno maravilhoso. Sobretudo na Escola Politécnica, por desinteresse pessoal, uma vez que estava lá mais por desejo do pai que qualquer outra coisa, ou por perseguição de um professor, que o reprovava sistematicamente, o futuro escritor já demonstrava aptidões que pouco tinham a ver com os estudos técnicos que lhe eram cobrados. Permanece, porém, o fato de que ele teve uma educação formal completa, ou quase.
No entanto, desde 1990, um acontecimento histórico colocara seu pai, João Henriques, na rota da decadência profissional. O senador Afonso Celso, seu protetor e padrinho do filho, de tão identificado com a monarquia, recebera um título de nobreza do Imperador, tornando-se o Visconde de Ouro Preto. Com o advento da República, em 1889, Afonso Celso perdeu prestígio e espaço.
Meses depois, João Henriques era demitido da Imprensa Nacional. A súbita reversão de suas expectativas perante a vida marcou-o até o ponto em que a loucura se instalou e inviabilizou qualquer esperança de superação das dificuldades. Foi um processo relativamente longo, mas nem tanto. O tipógrafo, 13 anos depois da demissão, é aposentado compulsoriamente, enlouquecido, arruinado, torturando-se de culpa por um crime que não cometeu.
O período da Escola Politécnica coincidiu com a derrocada final do pai e teve, também, efeitos negativos e determinantes sobre o temperamento do jovem Lima Barreto. De início, o jovem sofreu a humilhação de ser reprovado inúmeras vezes. Matriculou-se pela primeira vez em abril de 1897. O grande gargalo, Mecânica, provocou cinco reprovações consecutivas, encarcerando-o no segundo ano. Em março de 1903, ainda não passara oficialmente do segundo ano.
Data também desta época o sentimento de rejeição social que o jovem escritor conheceu e que o perseguiria pelo resto da vida. Afinal, ele cursava uma escola da elite. Pelas primeiras vezes, Afonso Henriques sentiu a força do preconceito racial, que alimentaria sua revolta e seu ressentimento pelo resto da vida. Ao que tudo indica, protegido pela boa colocação do pai, pela disposição de João Henriques em fazer dele o filho “doutor” da família, e certamente pela inconsciência da infância, Lima Barreto teria demorado a sentir os obstáculos que a sociedade lhe colocaria. A Politécnica transformou-se numa tortura que as reprovações faziam interminável, entre outras coisas, pela convivência com uma elite que começava a mostrar suas garras.
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Este rápido esboço biográfico dos primeiros anos de Lima Barreto deixam claras as diferenças entre ele e João Antônio. Este, ao contrário do autor de “Isaías Caminha”, conheceu muito cedo as dificuldades a serem enfrentadas. Já nasceu na periferia da sociedade, neto de negros também, e muito mais pobre que seu modelo. Suas recordações, reproduzidas explicitamente pela primeira vez na obra “Lambões da Caçarola”, dá uma idéia do mundo original de João Antônio. Elas datam da década de 40.
“Isto entalado na garganta. E bem. Doía./ Desde o tempo de moleque, a gente no Navio Negreiro. Um dia, meu velho rebatizou aquele pedaço de Beco da Onça. Crismou.” — começa João Antônio, referindo-se ao lugar onde moravam e onde seu pai tinha uma venda de secos e molhados.
Em seguida, parte para aquela que é, talvez, uma das imagens mais fortes de sua obra: “Aqui no Beco da Onça, a molecada negra passa o dia debaixo do sol, na rua de terra. (…) Encostou um caminhão das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo para a entrega do açúcar em pacotes de meia arroba. (…) Vai que um pacote no ombro do homem sofre um furo, o açúcar escorre do caminhão à pilha, estira um fino, fininho de linha branca pintando um rastro, uma carreirinha na terra. A molecada, esfomeada se agacha, quase se deita. E, rápida, mete a língua naquilo, raspando o chão, nariz ranhento.”
E, referindo-se ao pai, arremata: “Eu não vou esquecer mais./ Ele usará a cena como porrada viva e exemplo. Quando eu torcer o nariz, não querendo comer.”
João Antônio continua, lembrando de uma oportunidade em que, despachado pela mãe para a porta da venda, com um sanduíche de mortadela na mão, a ser saboreado no degrau que dava para a calçada, teve seu sanduíche “patolado” por um moleque em disparada.
Finalmente, ele resume: “O Beco da Onça é getulista, negro, negróide, mestiço, emigrante, cafuso, mameluco, migrante, pobre, operário, corintiano roxo e paulista da gema.”
Definitivamente, essa descrição não bate com o ambiente que cercava Lima Barreto em seus primeiros anos, por mais que o pai de João Antônio fosse orquidófilo, sabendo os nomes das plantas em latim, além de artista amador, dono de venda, até sócio numa pedreira.
É certo que João Antônio não se diz discriminado pela cor com a mesma freqüência que Lima Barreto. Até rareiam as menções a isso em seus textos autobiográficos, e, salvo melhor juízo, nunca são tão concretamente auto-referentes. Um caso, ocorrido numa estadia em Berlim e recentemente registrado, entretanto, leva-nos a crer que no Brasil o ultraje não lhe era tão massacrante. “[João Antônio] Contou que uma vez numa festa em Kreuzberg ele pediu licença para telefonar pra Solange [sua esposa à época] em casa. Ficou no telefone falando nem um minuto e logo alguém comentou: ‘Aquele turco fica no telefone fazendo ligações internacionais e abusando da hospedagem’. Lógico João Antônio (sic) tinha entendido só a palavra turco, mas ao mesmo tempo tinha entendido tudo (…)”.
Por mais que o Brasil seja um país com incrível capacidade de manter suas mazelas sociais, entre as quais figura o preconceito racial, João Antônio certamente beneficiou-se de um momento histórico em que prevalecia no ambiente cultural do país uma ideologia bem mais “arejada” que seu antecessor literário. Pode-se dizer, de certa forma, que se Lima Barreto amargou uma cena artística dominada por homens, idéias e formas estéticas provenientes das classes dominantes, João Antônio teve a sorte de viver num tempo em que a resistência aos valores estabelecidos era a atitude predominante entre os artistas. Resistência esta que passava pela política, sim, mas também pelos costumes. Fazendo parte da classe artística, então, ele estava em território bem mais seguro.
2 – Cair no Subúrbio, Sair do Subúrbio
Outro elemento comum na vida, e também na obra de ambos os escritores, é sua relação com a cidade do Rio e, no caso de João Antônio, também a de São Paulo. Tanto que ambos pareciam sofrer de uma certa mania ambulatória, à qual repetidas vezes se referem em seus textos de não ficção, ou projetam em seus personagens. Um como o outro descobriram no espaço urbano uma fonte de inspiração, em especial no centro e nos bairros residenciais pobres, que são aproveitados em minúcia. Ruas, casarões, pontos de encontro, trajetos, bairros, “muquinfos”, etc, estavam sempre concretamente referidos e/ou descritos. O lastro espacial que os dois escritores colocavam em seus textos, mesmo naqueles mais descolados de qualquer elemento autobiográfico, é fácil de ver.
De início, pode-se dizer que, para ambos os escritores, o subúrbio era um espaço que preservava certos valores autenticamente nacionais e populares, mais puros que as estrangeirices que se via e ouvia da classe média para cima e em seus redutos. Por isso Lima Barreto, ao descrever o subúrbio de Inhaúma, chama atenção para o fato de que “Fogem para lá, sobretudo para os seus morros e escuros arredores, aqueles que ainda querem cultivar a Divindade como seus avós. Nas suas redondezas, é o lugar das macumbas, das práticas de feitiçaria com que a teologia da polícia implica, pois não pode admitir nas nossas almas depósitos de crenças ancestrais.”
João Antônio, igualmente, valoriza os subúrbios por serem espaços onde a cultura do povo é preservada. Num trecho em que fala do choro — gênero musical que fora “Arrancado do mundo do disco, das rádios, das gravadoras, expatriado no seu próprio país” —, ele explicita : “Façam um mapa dos subúrbios. Lá está o choro, plantado, se alastrando nas rodas pobres dos domingos, feriados e dias-de-santos-de-guarda, quilombado, longe dos patrões. E dos patrões dos patrões.”
Resulta deste coeficiente de autenticidade dos subúrbios, por exemplo, o ódio de Lima Barreto ao bairro de Botafogo, que tantas vezes desancou em seus contos e, em sua época, bairro típico de “patrões”. Diz Lima Barreto sobre Botafogo: “Hoje, com bondes elétricos, automóveis e o mais, os nossos grandes burgueses, alguns dados todos os descontos, mais ricos que o Príncipe Regente, só sabem amontoar-se em Botafogo, em palacetes de um gosto afetado, pedras falsas de arquitetura, com as taboletas idiotas de vilas disto ou daquilo.” E ironiza: “Como todo o sujeito que é rico, ou se supõe, ou quer passar como tal, o meu amigo morava para as bandas de Botafogo. (…) Fui visitar, portanto, o meu amigo, naquele Botafogo catita, Méca das ambições dos nortistas, dos sulistas e dos… cariocas.”
Valorizar a resistência cultural dos subúrbios, movimento contínuo, levava ambos os escritores a desconfiarem dos elementos que usualmente são louvados como ícones do progresso. É este sentimento que Lima Barreto verbaliza quando menciona os “bondes elétricos, automóveis e o mais” dos seus “grandes burgueses”. Também num artigo publicado na imprensa, em 1911, tece comentários a esse respeito: “Já lá se vão quase dez anos e o Rio ainda era uma velha e feia cidade, de ruas estreitas e mal calçadas, mas, não sei por que, mais interessante, mais sincera, do que esse Rio binocular [ironia a uma revista de modas da época chamada "O Binóculo"] que temos agora, Rio trompe l’oeil, com avenidas e paláciosa de fachadas, só cascas de casa, espécie de portentos cenográficos.”
Também João Antônio desconfia dos ícones do progresso e acusa-os de desvirtuarem a alma da cidade, quando diz: “Na rota do que xingam de progresso, teve entrada o Metrô ou a buraqueira do Metrô. E houve a desfiguração da cara, da ginga urbana, honesta espontaneamente. Ou aquele quê de belle époque folclórica que a Lapa agasalhava com os Arcos ao fundo… (…) O Metrô parecia sinistro e não lírico, que ‘o que passou não voltará jamais”. Novamente, num de seus textos mais pessimistas, ele diz “Detestável ir a todos esses buracos, desentocaiar vagabundos, localizar salões de sinuca e me mover de carro. Devia tocar de ônibus, que os bondes se sumiram, o asfalto cobriu os trilhos como cobriu os paralelepípedos.”
Um último elemento neste leque de convergências entre os dois escritores, na visão que tinham dos subúrbios, e com influências radicais nas duas obras, é a crença de que o subúrbio, acima de todas as suas outras virtudes, é um local onde a experiência humana aflora com mais prodigalidade. Maior quantitativa e qualitativamente falando. A luta diária pela sobrevivência, literalmente, potencializava os significados das experiências individuais.
No já citado livro em que Lima Barreto é personagem principal de João Antônio, e no qual está mapeado o universo de convergências entre os dois, uma das citações é: “Quando você principiar a escrever, tome um trem aqui, viaje até a Central, de Segunda classe, e terá assunto, não para um pequeno conto apenas, mas para um livro de muitas páginas.”
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Feitas estes paralelismos indiscutíveis na relação de ambos os escritores com a cidade, e com os subúrbios em especial, cabe agora levantar uma discrepância fundamental nessa similitude aparentemente absoluta. Deve-se ressaltar que, novamente aqui, as trajetórias biográficas dos dois escritores são, sem exagero, opostas. João Antônio nasceu no Beco da Onça e morreu em Copacabana. Lima Barreto nasceu morando nas Laranjeiras, morreu em Todos os Santos, nos intestinos dos subúrbios cariocas.
Claro que, para ambos, o subúrbio era local de miséria. Mas Lima Barreto tem todo um período biográfico, e uma faceta de sua obra, na qual o subúrbio é visto como um espaço de mediocridade, melancolia e de frustração. Lá fora parar arrastado pela doença do pai e pela necessidade de sustentar sozinho a família. Em seu primeiro contato com sua nova realidade, o escritor sente-se deslocado. Num artigo publicado em 1921, recordando-se de seus primeiros tempos como passageiro dos trens suburbanos, ele diz: “A presunção, o pedantismo, a arrogância e o desdém com que olhavam minhas roupas desfiadas e verdoengas, sacudiam-me os nervos e davam-me ânimos de revolta.” Ele reclama de uma categoria já menos presente na época de João Antônio, 50 anos depois, a “aristocracia suburbana”: “Quanto mais modesta for a categoria do empregado — no subúrbio pelo menos — mais enfatuado ele se mostra. Um velho contínuo tem-se na conta de grande e imensa coisa, só pelo fato de ser funcionário do Estado, para carregar papéis de um lado para outro (…)” Diz seu principal biógrafo que, por volta de 1904, quando o escritor tinha seus 23 anos, “ainda não se sentia integrado na vida suburbana.”, e continua “Tudo isto [o trabalho na Secretaria da Guerra, os alunos particulares que tomara, a casa no subúrbio e as responsabilidades financeiras], porém, estava longe do que havia sonhado: ser romancista, viver da inteligência e para a inteligência, sem outras preocupações que a de escrever seus livros. Daí as fugas constantes, as longas visitas dominicais aos amigos, gente de condição superior à sua, social e financeiramente, que o recebia em casas confortáveis, e com quem conversava de igual para igual.” Resumia Lima Barreto: “O subúrbio é o refúgio dos infelizes.”
Logo após a derrocada financeira abater sua família, através dos amigos e ex-colegas de colégio, Lima Barreto mantinha-se ligado aos tempos em que a situação de sua família era outra e seu futuro mais promissor. E nem o amor conseguia ligá-lo ao mundo dos subúrbios. Segundo o depoimento da irmã, Evangelina, o escritor não possuíra namoradas por considerar-se superior às moças ignorantes do subúrbio, ainda que tratasse-as, como a todas as mulheres, com gentileza e cerimônia até excessivas.
O subúrbio era, para ele, também um obstáculo à vida boêmia dos cafés, das rodas de artistas, nas quais tanto gostava de fazer parte, e gostaria de continuar fazendo. Ficava longe, a viagem era demorada e sofrida. Dificultava o convívio por ele mais valorizado, o dos escritores e artistas.
Um trecho de seu diário define a questão: “Eu tenho muita simpatia pela gente pobre do Brasil, especialmente pelos de cor, mas não me é possível transformar essa simpatia literária, por assim dizer, em vida comum com eles, pelo menos com os que vivo, que, sem reconhecerem a minha superioridade, absolutamente não têm por mim nenhum respeito e nenhum amor que lhes fizesse obedecer cegamente.”
E sua preocupação com o bovarismo de Flaubert (certamente algo a ser combatido…), que ele define colocando a pessoa humana dividida entre “A imagem que, sob o impérop do meio, das circunstâncias, sujeição, a pessoa forma de si mesma” e o “Ser real, ideal, tendências hereditárias, etc”.
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Quanto a João Antônio, já se disse que ele de nascimento vivia nos subúrbios. Já se disse também que, a sua volta, era o pai a pessoa mais cultivada, que além de preocupar-se com as leituras do filho, era orquidófilo e artista amador. Apesar da grande admiração que todos esses atributos despertavam no filho, João Antônio, quando jovem, considerava o pai um homem retraído, excessivamente dedicado ao trabalho, de formação moral rígida. Em contraposição a tudo isso, a rua o chamava. As farras, as cantorias e as rodas de choro, o jogo, as putas. João Antônio, contrariando a vontade dos pais, não resistiu a este chamado. Misturou-se.
Não é outra a estrutura, quase mítica, do conto “Meninão do Caixote”, o primeiro de “Malaguetas” a ser escrito. Nele, um menino está indeciso entre dois mundos, o da casa e o dos salões de sinuca. É engraxate, perambula pelo centro da cidade e pelos subúrbios carregando seu caixote, até que se mistura à jogatina dos bilhares e vai aprimorando sua técnica. Torna-se um famoso jogador, por sua perícia extraordinária e por seu hábito de subir no caixote para dar as tacadas mais difíceis, como forma de compensar a falta de altura. A mãe tenta tirá-lo do jogo, das noites em volta da mesa e do balcão de bebida, mas ele resiste. Finalmente, após conseguir sua última e mais consagradora vitória na mesa, o menino, espontaneamente, desiste de tudo e volta para casa com a mãe.
Projetar essa história para a vida de João Antônio não é fazer uma relação simplificadora entre biografia e obra, é ouvir o que ele próprio repetiu inúmeras vezes, em entrevistas, depoimentos, memórias, etc. Sua mãe resistia barbaramente a qualquer situação em que via o filho metido com gente ociosa, e por isso reprovava a mania do pai de levar o garoto às rodas de choro que freqüentava no Rio e em São Paulo. O pai, mesmo tendo aberto esta porta para o filho, comentou, quando este, aos 16 anos, já consumado frequentador de bordéis, foi flagrado e preso pela polícia num salão de sinuca: “Você tem todos os vícios que eu conheço e mais alguns que eu não conheço.”
O subúrbio e sua gente gozam, portanto, em João Antônio, de um afeto original que é diferente do carinho aprendido na amargura, que receberam de Lima Barreto. Pode-se dizer que a atração do subúrbio sobre aquele é mais forte que sobre este. A comunhão das idéias dos dois escritores sobre as periferias urbanas existe, mas não reflete, em absoluto, um mesmo percurso biográfico, intelectual e emocional.
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Ao final da vida, porém, a posição dos escritores diante dos subúrbios se inverte. Quem mantinha distância, se aproxima. E vice-versa.
Já se discutiu a rejeição inicial e a valorização posterior dos subúrbios em Lima Barreto. Apenas como exemplos adicionais, vale citar, em primeiro lugar, um artigo de 1921, no qual Lima Barreto toma as dores de seu bairro contra as preferências que o prefeito dedicava à Copacabana: “Todo o dia, pela manhã, quando vou dar o meu passeio filosófico e higiênico, pelos arredores da minha casa suburbana, tropeço nos caldeirões da rua principal da localidade da minha residência, rua essa que foi calçada há quase cinquenta anos, a pedregulhos respeitáveis. (…) Porque será que ele [o prefeito Carlos Sampaio] não reserva um pouquito dos seus cuidados para essa útil rua da minha vizinhança (…)?”
Em segundo lugar, um trecho no qual relata como ficara conhecido no subúrbio onde morava, o que servia de alimento ao pouco de vaidade e atitude superior que lhe restava. “Moro há mais de dez anos naquelas paragens e não sei porque os humildes e os pobre têm-me na conta de pessoa importante, poderosa, capaz de arranjar-lhes empregos e sorver dificuldades.”
João Antônio, ao contrário, afastou-se espacialmente do subúrbio à medida que sua vida avançou e, com isso, diminuiu seu contato com o mundo de que antes fazia parte. Num determinado trecho de “Abraçado ao Meu Rancor”, ele culpa a cidade por esse afastamento, e, quando diz que o espírito das ruas continua o mesmo, refere-se aos defeitos: “A cidade deu em outra./ Deu em outra cidade, como certos dias dão em cinzentos, de repente, num lance. As caras mudaram, muito jogador e sinuqueiro sumiu na poeira. Maioria grisalhou, degringolou, esquinizou-se para longe, Deus saberá em que buraco fora das bocas-do-inferno em que eu os conheci. Ou a cidade os comeu./ Mas o espírito, o mesmo. Dureza, rebordosa, de déu em déu, frio, tropel, sofrência, ô solidão de cimento armado (…)”.
Em seu último livro, “Dama do Encantado”, por exemplo, também aparece o distanciamento em relação aos espaços de onde antes extraía “força” de sua experiência e literatura. Os textos “Pingentes” e “Almas da Galera”, dos poucos no livro a debruçarem-se sobre a vida suburbana e dos merdunchos, não repetem a empatia absoluta entre João Antônio e seu universo. Não é mais sobre sua vida que ele fala, e também não empresta mais sua voz aos personagens, nem como ficção e nem como denúncia. O escritor, morador de Copacabana, bota em perspectiva os marginalizados e fala sobre suas dificuldades. Não que isso tenha resultados literários ruins, pelo contrário, ambos os textos resultam e excelentes crônicas. Mas a atitude do escritor perante seus objetos e espaços da cidade mudou.
Esse processo remonta, no mínimo, a 1974, quando ele, numa entrevista, disse: “São Paulo é outra coisa: é uma cidade que vai sendo tragada pela chamada onda progressista, que vai se complicando na medida em que se desumaniza, que vai perdendo suas fontes de ternura e ao mesmo tempo representa o espetáculo urbano mais rico e complicado deste país.” Há uma desalentada contradição, pela qual o “rico” espetáculo urbano termina desumanizando a cidade.
Ainda caracterizando esse afastamento escritor-subúrbio, numa passagem publicada quando de sua morte, em 1996, um amigo contou que: “Ao chegar à entrada da Estação Júlio Prestes, como combináramos, retardei os passos para te observar de longe: caminhavas lentamente, interessado nos sinais em volta. Várias bancas de camelôs perfiladas vendiam frutas e pilhas de rádio, tênis e bichinhos de pelúcia; (…) uma paisagem bem brasileira. (…)/ Tomei aquela cena como flagrante de tua oficina pessoal. Uma certa flanerie mundana, o gosto de olhar livremente as pessoas anônimas e deixar acontecer por elas um sentimento atávico, uma intuição que faz vasculhar personagens e imagens.” Embora o trecho obviamente acredite na identificação entre João Antônio e a “paisagem bem brasileira”, ela, agora, é atávica, não mais epidérmica. Buscar a inspiração no povo é uma “oficina”.
Mas a cena acima descrita perde um pouco o valor documental, uma vez que não nasce da boca do próprio João Antônio. O ideal seria saber o que ele pensava enquanto passeava pela paisagem bem brasileira dos barraqueiros. Numa carta enviada a um amigo, em outubro de 1996, talvez a última antes de sua morte, este ideal até parece possível, pois o escritor tece comentários sobre uma cena bastante parecida que viu em São Paulo, falando dos mesmos camelôs: “O miserê que vi no Largo de Pinheiros, no Largo da Batata é um quadro asiático sem a cultura da Ásia, claro. Camelô acabou. Agora são, em legião triste, de cor enferrujada, só os empregados dos contrabandistas. No Largo de Osasco se planta um pedaço do Nordeste miserável. E a alegria está mais longe dali do que da lua. É o Brasil das periferias esquálidas.”
O que antes era sua vida, virou “oficina”, “laboratório”. Nos anos 90, aos olhos de João Antônio, a paisagem bem brasileira virou “quadro asiático”.
3 – Linguagem das Ruas: Qual delas?
Não é novidade que, tanto João Antônio quanto Lima Barreto buscaram, em sua obra, trabalhar a partir de uma linguagem descolada dos padrões de beletrismo de seus respectivos períodos, indo buscar sua força numa linguagem mais despojada, mais “simples”, e mais próxima à línguagem falada nas ruas. A par desta idéia, generalizadamente aceita e correta, há no entanto algumas diferenças estilísticas cruciais, que a verdade da afirmação anterior não deveria abafar.
Uma das primeiras peças literárias publicadas por Lima Barreto, “Os Subterrâneos do Morro do Castelo”, não costuma ser incorporada às edições de sua obra. Isto certamente por mais de um motivo. Acima de tudo, é infinitamente inferior aos romances e contos que publicaria mais adiante. Mas talvez o livro provoque um certo incômodo em todos nós que admiramos, em seus melhores momentos, sua economia de linguagem e formidável capacidade descritiva.
No primeiro plano narrativo da obra em questão, onde um mistério jornalístico vivido pelo auto/narrador é o fio condutor da trama, a linguagem despojada de Lima Barreto já está presente, mas ainda não está inteiramente coesa, amadurecida. Aqui e ali as frases reproduzem lugares comuns pobres para o seu gênio posterior e ainda guardam traços do esteticismo vigente na literatura da época, e que o próprio Lima Barreto mais tarde viria a condenar. Diz ele, quando o responsável pela obra que derrubaria o Morro do Castelo atinge a galeria principal dos subterrâneos inesperadamente encontrados, “O engenheiro Dutra pronunciou o Sésamo, abre-te naquela furna de Ali Babá; a sua picareta demolidora foi a varinha mágica que tirou o encanto do morro, despedaçando o modelo resistente, abatendo com fragor grandes moles de granito, levando a eletricidade irreverente ao soturno âmbito dos subterrâneos, onde a voz humana ecoa hoje…”. Isto, certamente, não é o melhor que Lima Barreto produziu.
De outro lado, no segundo plano narrativo, que se passa duzentos anos antes, e trata de um caso amoroso entre um jesuíta e D. Garça, uma cortesã, Lima Barreto usou a estratégia de salpicar o texto com um sabor de português arcaico, o que soa ainda mais artificial. Um exemplo rápido: “Os quatro remeiros, em língua indiática onde se misturam vagas sonâncias portuguesas, entoam uma melopéia nostálgica.”
A essa época, Lima Barreto tinha apenas 24 anos. Embora suponha-se que o autor tenha começado a escrever seu primeiro e já excelente romance naquele mesmo ano, quatro anos se passariam até que o “Isaías Caminha” viesse a público, em 1909. A linguagem de Lima Barreto estava formando-se, e seria depurada com o tempo, largando fora o peso do rebuscamento.
Num texto escrito em data desconhecida, mas certamente próxima aos “Subterrâneos”, vemos novamente o quanto ele ainda estava distante de sua linguagem madura. A cena descreve o ambiente estudantil da Escola Politécnica: “Quando se contempla — iluminados pelo sol vitorioso de março, que embraseia as telhas do edifício e vem dar, aos descorados arbustos do jardinzito do pátio, um beijo escaldante de vida — quando se contempla aquela porção de rapazes, cujas inteligências moças ainda, no indivíduo e na raça, agitam-se tumultuariamente ao influxo da filosofia européia, surge-nos aquela quadra espiritual da Europa pelo XII século, quando chegou às universidades a Enciclopédia de Aristóteles traduzida. As palavras com que Taine nos dá esse quadro remoto, poderiam ser empregadas para descrever este contemporâneo. É com a mesma sofreguidão, é com a mesma teima sombria, é com o mesmo tropel bárbaro que aqueles moços invadem, tomam de assalto, e varam as muralhas das difíceis abstrações e das fugitivas filigranas da metafísica européia.”
No trecho acima, além da adjetivação grandiloqüente, há inclusive certos artifícios retóricos, como a repetição “Quando se contempla” e no período que é marcado pelo verbo “É”. Como se vê, o estilo do jovem Lima Barreto partiu de um tipo de escrita comum em sua época. Embora esta pareça uma afirmação óbvia, muitas vezes o distanciamento que ele logrou obter, no processo de depuração de seu estilo, em relação aos Coelho Netos e Rui Barbosas de seu tempo, leva-nos a acreditar que ele já nasceu sabendo qual linguagem deveria buscar.
Dois últimos exemplos. O primeiro da publicação A Lanterna, de 1902, onde Lima Barreto colaborou a convite de seu amigo Bastos Tigre. O jovem faz um quadro caricato de seus professores e colegas: “Vêde o Ortiz, por exemplo, onde ele foi buscar aquele tipo de Têmis? Ele acredita, me parece, que é a própria deusa em pessoa, e que seus óculos azuis se transformaram na clássica venda da justiça. Lossio tem ares de Parca, que cortasse o fio da… camisa da muita aspiração forte. Mas onde Minos impera, servindo ministro-múmias, é na Mesa de Mecânica. (…) Parece um Sesóstris cheio de betume e ervas aromáticas e quando fala ouve-se a voz onipotente de um rei da Quarta dinastia do antigo império.”
É claro que trata-se de uma gozação, e que os elementos mitológicos entram para enfatizar o ridículo dos retratados. Mesmo assim, a forma com que a piada foi construída parece dar indícios sobre a formação do escritor, sobre o ambiente em que vivia e seu primeiro estilo de escrita.
Afora nos textos imaturos aqui arrolados, estes sinais de grandiloqüência, adjetivação, preocupação com a melodia pomposa e enfática dos períodos, e de erudição clássica, tornam-se apenas ecos distantes na obra madura do escritor, sempre cada vez mais longínquos. Mas um processo de depuração estilística é mais demorado que um rompimento formal, em forma de manifesto artístico, e muitas vezes surpreende, fazendo aflorar “cacoetes” do passado. Um exemplo rápido é o comentário sobre um personagem, do conto “Um Músico Extraordinário”: “Dir-se-ia que sua alma anciava por estar só com ela mesma, mergulhada, como o Capitão Nemo do romance vernesco, no seio do mais misterioso dos elementos da nossa misteriosa Terra.”
Fazer um levantamento de textos do Lima Barreto iniciante, ou citar uma ou outra passagem na qual ele contraria sua própria estética, deixando transparecer suas interseções com o estilo literário vigente, e com o qual viveu ideologica e oficialmente rompido, não é de forma alguma tentar desmerecê-lo. Este procedimento visa, tão somente, marcar uma trajetória de despojamento estilístico, na qual o escritor, antes embebido no palavrório “elevado”, enxuga sua prosa no sentido de uma linguagem mais direta.
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Em João Antônio, novamente, a trajetória é inversa. Seria talvez precipitado, e certamente simplificador, estabelecer uma relação direta entre a trajetória social e literária de cada um dos escritores, afirmando que Lima Barreto livrou-se do estilo dominante nas letras brasileiras à medida que se afastou dos círculos dominantes da sociedade de seu tempo. Ou dizer que João Antônio rebuscou seu estilo, gradualmente, à medida que se afastava do mundo operário e suburbano onde nascera.
Mas, ainda assim, pode-se dizer que a evolução do estilo do autor de “Malaguetas” é oposta à de Lima Barreto. Enquanto este simplifica sua linguagem, torna-a mais direta e econômica, aquele vai rebuscando-a, abarrocando-a. O mais fascinante desse “desencontro” formal, é justamente o fato de estar baseado num mesmo propósito estético, o de fugir à prosa dominante e ir ao encontro da fala das ruas.
O próprio “Malaguetas, Perus e Bacanaço” é um bom exemplo desta trajetória. As duas primeiras partes são escritas num estilo seco, de frases curtas mas ainda não tão quebradas; trabalha com as expressões coloquiais da oralidade e com a sabedoria das ruas, mas encaixando-as em molduras mais fixas, de forma e significado; de nascença preocupado com a melodia da frase, mas com ritmo que ainda guarda certa uniformidade.
É assim em “Retalhos de Fome numa Tarde de GC”, em que rememora seus tempos de exército: “Ivo não ficou entre cal e tijolos. Foi para a máquina de escrever da cantina, a melhor vida. O sargento dava conselhos quando podia. Quartel era quartel./ Praça é praça. A ordem é ficar por baixo, que acaba levando a melhor. (…)/ No porão da secretaria morava Domício, ex-expedicionário nem velho, nem moço, que pouco falava e tinha uma peitaria larga, um touro nos cabelos crespos e nos antebraços que pareciam filões de pão. Vivia só de sunga e de tamanco e com Ivo se entendia, que os dois eram quietos. Dois faixas.”
É assim no conto em que trai o amigo com sua namorada, “Fujie”: “Eu vivo é tonto. Fujie me passando bilhetes sorrateiros, quentes ainda de seu seio, escrevendo coisas. A solidão das noites em que Toshitaro vai à academia com o pai, me pedindo, me lacrando de bobo! Sozinhos, mostra-me a língua, numa provocação a que não resisto. Diabo de mulher maluca! Depois, toca-me o braço tão de mansinho. Uma ternura que me agita. Encolho-me, esgueiro-me. Humilhado e pequeno./ Se eu quisesse, lhe diria tremendos desaforos… Mas nunca tive coragem.”
Mas a novela que dá título ao livro, “Malagueta, Perus e Bacanaço”, já indica uma vertente na qual as frases vêm mais soltas e expressam uma linguagem mais própria: “E são abusados e desbocados e têm apetite de aproveitadores. Piranhas esperando comida. Pisando o menino, azucrinando, tentando surrupiar o menino… Os tais da lei. Encarou Silveirinha, a raiva arranhava. Arrumava-lhe um sapo inchado — ô vontade de lhe dar a ripada! Se marchasse de navalha para cima de Silveirinha não seria a fim de fazer carinho não. Iria solar com vontade. O bicho iria gemer, que ele poderia cortar de baixo para cima, era professor da lâmina ligeira — ligeira varando o paletó de linho, correndo direitinho. Haveria o grito, no começo; depois, o cachorro que rebolasse feito minhoca ofendida no chão (…)”
Além das referências animais (piranhas, sapo inchado, bicho, cachorro, minhoca), neste trecho vê-se as imagens brotando mais livremente. É também uma escrita menos direta, em que muitas conexões não são explicitadas. As aliterações, “a raiva arranhava. Arrumava-lhe”, “lâmina ligeira — ligeira varando o paletó de linho”, criam ressonâncias e evidenciam a preocupação de João Antônio com o resultado sonoro de seus textos. As gírias são menos suavizadas, “Iria solar com vontade. O bicho riria gemer”. O gemido “ô”, elemento da oralidade que pelo resto da obra serviria-lhe de ponte entre um nível e outro da comunicação. As frases não apenas são curtas. Muitas vezes não têm sequer sentido isoladamente. Os tais da lei.” O cultivo das inversões sintáticas aparece, “Haveria o grito, no começo;”.
No conjunto da obra, é essa vertente estilística que prevalece. Não apenas porque — por ser menos convencional no enquadramento que dá ao conteúdo do texto, de ficção ou não, — ela reflita a originalidade estilística da “voz” do escritor. Mas também porque ela permitia jogos sonoros muito mais livres e variados. E João Antônio era formado no aspecto sonoro da arte. Frequentara as rodas de samba para as quais seu pai o levava; visitara estações de rádio, onde vira os reis e rainhas da música; tinha mania de ler seus contos em voz alta, falava muito da sensualidade das palavras. Era-lhe importante a busca pela sonoridade, pela música escondida na fala, o que não significa grandiloqüência ou fechos de sonoridade retumbante e solene. João Antônio procurava sua “música” justamente nas palavras inesperadas, mais coloquiais, e construía o ritmo de seus textos alternando frases curtas e médias, jamais com orações longas.
Em 1988, numa entrevista, João Antônio declarou: “Ah, eu tenho verdadeiro prazer sensual com as palavras. É uma coisa tremenda! Por isso que eu digo: é algo de mágico, de lúdico, e muito sensual! Uma frase sem gosto, uma frase que não consiga, por exemplo, transmitir essa coisa brasileira, essa coisa luxuriante, essa coisa que ao mesmo tempo é muito elegante e muito esbanjada, isso para mim é uma frase que não tem sentido, não tem sabor, não tem nada!” Mais adiante, acrescentou, “Na minha opinião, um texto tem que ser rico nesse sentido; ao mesmo tempo pode ser um texto extremamente econômico, mas muito saboroso”.
Em outra entrevista, esta de 1996, ele deu um exemplo claro do que estava procurando dizer. Ao ser perguntado porque dera a uma antologia de seus contos o título de “Patuléia”, ele explicou: “Patuléia é o nome mais sonoro e saboroso que encontrei como sinônimo de patota, curriola, ratatuia. Mais alegre e carregando picardia e música.”
Um exemplo de como seu estilo evoluiu está no seguinte parágrafo, do conto “Paulinho Perna-Torta”:
“No aceso da maré raiada, Marrom perde a linha e o orgulho de malandro, se separando das curriolas. Dá-lhe o cagaço, pede arrego à polícia. Faz arrumação com a rataria da Delegacia de Costumes. Um escândalo, aquilo é se arreganhar todo para os homens da lei — vinte e cinco mil mangos por semana. Se não paga esse imposto, escondem Marrom na Penitenciária.”
Ou em outro trecho do mesmo conto:
“São Paulo está comendo quente.
No primeiro tiroteio, os milicos ligados aos guanacos trabalharam na crocodilagem de emboscar. Encachorrados e campanando na espreita, fisgaram e apagaram o malandro Saracura.”
A marca do português falado nas grandes cidades brasileiras está evidente nas gírias e nas expressões idiomáticas, como “crocodilagem”, “perde a linha”, e em certas liberdades semânticas, “São Paulo está comendo quente”, típicas da informalidade coloquial. A ausência de adjetivações, o ritmo trepidante, quebrando as orações (Dá-lhe o cagaço, pede arrego à polícia. Faz arrumacão…), são os sinais de sua economia, que mais significa eliminação de partes da fala oral. A sonoridade das palavras pouco usuais nos textos literários e na forma como estas se agrupam, por exemplo em “crocodilagem de emboscar.” conferem ao texto a melodia almejada pelo escritor. A aparência de que o texto está aberto, se mexendo, rebelado contra a estruturação ordenada da frase. Mas, na verdade, um fio condutor que nunca se perde, sempre retoma a narrativa.
O auge de sua veia experimental aparece, por exemplo, em: “Pó-pó-pó-pó-pó-ró-pó-pó não marca, o que fala é a grana. Nessa jangada de fumeta não navego mais. Eu heim, Maria? Outra coisa. Essa cambada vai ficar sabendo que Mimi Fumeta é o cacete. Meu nome, desde que me entendo é Maria de Jesus de Souza. E, meu Deus, preciso fazer um ganho. Não ‘guento mais miserê. Se isto for boa vida, berimbau é gaita-de-fole e paralelepípedo, pão-de-ló. Aturo zoada de pilantra a noite inteirinha e, na virada, ganho o quê? O que Luzia ganhou atrás da horta. Aquele escamoso que me carreou pro hotel não passava de um teso, um durango kid do capeta. Mas pisou no Casanova e me baratinei.”
4 – Ter Dois e Não Ter Nenhum
Haver sido escolhido pelo pai como a esperança de fortuna da família — o que explica sua passagem pelos bons colégios do Rio de Janeiro e a culminância de seu processo de formação na Escola Politécnica —, foi um fardo que Lima Barreto carregou sem maiores problemas até o início da vida adulta. Neste momento, como já se viu, as coisas saíram do plano traçado. A situação financeira da família tornou-se mais modesta. O complexo da cor cresceu e apareceu. Finalmente, a loucura do pai veio provocar uma mudança radical de rumos. Desestimulado pelas constantes repetências na Politécnica, que impediam-no de acabar o curso, e premido pelas necessidades financeiras da família, o jovem escritor abandonou os estudos e empregou-se na Secretaria de Guerra.
No seu “Gonzaga de Sá”, há uma descrição do que acontece com os homens de letras que vão trabalhar como funcionários públicos de baixo escalão: “Certos de que as suas aptidões não lhes darão um meio de vida, os que nascem tão desgraçadamente dotados, se pobres procuram o funcionalismo, fugindo ao nosso imbecil e botafogano doutorado. Não são muitos; são raros em cada Repartição, mas consideráveis em todo o funcionalismo federal./ Em começo, procuram-no com o fim de manter a integridade do seu pensamento, de fazê-lo produzir, a coberto das primeiras necessidades da vida; mas, o enfado, a depressão mental do ambiente, o afastamento dos seus iguais e o estúpido desdém com que são tratados, tudo isso, aos poucos, lhes vai crestando o viço, a coragem e mesmo o ânimo de estudar”.
Apesar do descaminho que sua vida tomou, e que dificultou consideravelmente não apenas sua projeção social, mas também literária, pois tirou-o das rodas e pregou-o à repartição, o que lhe tomava tempo precioso, Lima Barreto ecoou os projetos do pai em relação a sua pessoa. Numa entrevista publicada na véspera da publicação do “Policarpo Quaresma”, explicitou seus objetivos com todas as letras: “Vim para a literatura com todo o desinteresse e com toda a coragem. As letras são o fim da minha vida. Eu não peço delas senão aquilo que elas podem me dar: glória!”.
Em “O Cemitério dos Vivos”, seu livro inacabado, há a seguinte passagem: “Eu me indago, de mim para mim, se, por acaso, não é o amor que me corrói. Mas vejo bem que não. Passei a idade de tê-lo, fugindo dele, para que ele não me criasse sofrimento e não prejudicasse a minha ambição de glória.” Isso pode fazer algum sentido se aplicado à vida do próprio romancista, visto que, tendo já que sustentar sua família original, uma esposa, e eventualmente filhos, seriam mais bocas a depender de sua força de trabalho e a afastá-lo do ofício literário e suas exigências.
Mas o desejo de glória não ficou por aí. Há que se mencionar sua relação com a Academia Brasileira de Letras. Não deixa de ser surpreendente o fato de Lima Barreto haver por três vezes candidatado-se à instituição, em 1917, 1919 e 1921. Na primeira, sua inscrição nem foi considerada por Rui Barbosa, então presidindo à instituição. A carta, escrita pelo “profundo admirador” de Rui, que se candidatava à “Ilustre Companhia”, sequer foi levada a plenário. Tinha Lima Barreto já publicado o “Isaías” e o “Policarpo”. À segunda, conferiu caráter de desafio ao establishment literário, pois candidatava-se à vaga do poeta maldito Emílio de Menezes. Na terceira, procurou a vaga de João do Rio, mas depois retirou a candidatura. Numa carta a Monteiro Lobato, ele afirma que nunca levou a sério tais candidaturas. Diz uma frase provavelmente irônica, e certamente ambígua, “Sei bem que não dou para a Academia e a reputação da minha vida urbana não se coaduna com a sua respeitabilidade.”, mas a mensagem que passa, sem discussão, é a de que se candidatara sempre por provocação ao mundo letrado. Num artigo de 1917, antes de duas outras candidaturas e antes de participar do concurso para Melhor Livro do Ano, em 1920, já dizia: “A Academia Brasileira começou com escritores, tendo estes por patronos também escritores; e vai morrendo suavemente em cenáculo de diplomatas chics, de potentados do ‘silêncio é ouro’, de médicos afreguesados e juízes tout à fait. Em 1921, publicou artigo julgando sua candidatura “justa e justificável”. Já publicara cinco livros, atuava na imprensa, era um homem honrado. Defende sua candidatura contra “certos sujeitos absolutamente desleais, que não confiam nos seus próprios méritos, que têm títulos literários equívocos e vão para os jornais e abrem subscrição em favor de suas pretensões acadêmicas./ Que eles sejam candidatos é muito justo; mas que procurem desmerecer os concorrentes, é coisa contra a qual protesto. (…) Eu sou escritor e, seja grande ou pequeno, tenho direito a pleitear as recompensas que o Brasil dá aos que se distinguem na sua literatura.”
Pode ser perfeitamente possível que, da primeira e da segunda vez, ele não estivesse levando sua candidatura muito a sério. Mas se chegou a escrever um artigo para defender a terceira candidatura, no qual desculpa-se por publicar algo “perfeitamente pessoal”, afirmando que era preciso fazê-lo, não se pode negar que a candidatura mexia com suas ambições de glória.
Como se vê, há, ao longo de sua carreira como escritor, um movimento contraditório, cheio de idas e vindas, de atração e repulsa, entre o escritor e a Academia. Ela era, afinal, uma das “recompensas que o Brasil dá aos que se distinguem na sua literatura”. Em seguida, porém, no mesmo ano, ele retira sua candidatura, laconicamente, “por motivos inteiramente particulares”.
Esse levantamento da relação entre Lima Barreto e a Academia é feito com a intenção de mostrar sua inconformidade com o destino para o qual sua obra ia encaminhando-se e com a ausência de reconhecimento a ele como escritor e intelectual. A Academia não era, a seus olhos, a instância ideal de legitimação, mas era alguma, e rondou seu espírito por anos a fio.
Além disso, por maior que fosse sua crítica à ABL, expor-se repetidas vezes à chamada “bola preta”, e sempre ver-se recusado, era um desgaste pessoal, para não dizer uma humilhação pública. Quem não quer o fardão encontra outras formas de protesto contra o establishment literário. Esta, situação que o remetia novamente às reprovações sistemáticas na Escola Politécnica, só não era igual porque antes havia a expectativa paterna de ter um filho “doutor”, agora as candidaturas haviam sido decididas por ele.
Duas vezes recusado, uma vez renunciando à candidatura, submete-se ainda ao prêmio, ganhando apenas a menção honrosa, algo suficiente para seu editor mudar a capa do livro e anunciar a distinção, mas certamente aquém de suas expectativas de glória.
Em seu processo de decadência na estrutura social, a Academia poderia ser uma espécie de resgate. Não tanto pelo que valia realmente, mas por abri-lhe as portas da imprensa ou recolocá-lo no centro do mundo artístico e intelectual.
Curiosamente, data dessa época também, 1917-1921, a explicitação maior de suas afinidades ideológicas com o comunismo e o anarquismo. Mas a assídua colaboração em veículos de imprensa políticos jamais o levou a militar além do seu escritório. Em sua correspondência, o que predomina é a literatura, em detrimento da política. Fora dos jornais, nunca teve um grupo nitidamente constituído e regularmente atuante.
Ele não encontrava parceiros literários no subúrbio, ele não os encontrava entre os militantes da esquerda, e, sendo assim, o mundo literário, por mais corrompido e sujeito às determinações da aristocracia da República Velha que fosse, era, entretanto, o mundo no qual queria viver, era o mundo no qual, mesmo com todas as diferenças, falavam a mesma língua que ele aprendera com o pai, nos colégios, em seus sonhos de glória. Em resumo, seu deslocamento na sociedade levou-o a conhecer extratos sociais baixos, mas não o libertou das expectativas da infância e juventude, de glória e reconhecimento artístico e social. O homem Lima Barreto mudou de classe, descendo na hierarquia social, mas a literatura o manteve ligado ao mundo “elevado” das letras, que fora o seu até o início da vida adulta. O ressentimento e o amargor que dominam sua alma, ao final da vida, são a maior prova disso.
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Como se viu, o mergulho de Lima Barreto na bebida, que afastou-o ainda mais dos círculos literários, duplicou o trabalho dos irmãos, que agora além do pai precisavam cuidar também do irmão mais velho, e debilitou sua saúde a ponto de, finalmente, matá-lo em 1922, deveu-se em boa dose ao insucesso literário, ou melhor, à frustração de suas ambições de glória através da literatura. Deveu-se, também, ao desajustamento do escritor na sociedade, que decaiu de um nível de vida até acima das reais condições da família para a pobreza pura e simples. Ele se revoltava contra a alta sociedade, por exemplo usando propositalmente roupas puídas e ostentando exagerado desleixo pessoal, mas, por outro lado, sentia uma espécie de solidão cultural em meio às pessoas humildes do subúrbio. Era um órfão de dois mundos.
No fim da vida, João Antônio também deprimiu. E, assim como em Lima Barreto, burcou consolo na bebida, que foi gradativamente minando sua saúde e atuação profissional. Não há, ao contrário do que se verifica no caso do escritor pré-modernista, referências explícitas em sua obra e/ou ampla bibliografia de terceiros ratificando a afirmação acima. O que há são depoimentos de contemporâneos, referências ao alcoolismo nas notícias sobre a sua morte, algumas, muito mais breves, referências à bebida em sua obra. Embora tenha dito que “Viver sóbrio, no Brasil, é um porre!”, ele não assume, em nenhum momento, com tanta clareza e abundância de detalhes, sua condição de alcoólatra. Assim como no que se refere ao racismo, JA é mais discreto que Lima Barreto. Mas o alcoolismo existiu, disso não há dúvida.
Está-se diante, portanto, de mais uma semelhança, agora trágica, na vida destes dois escritores. A sensação de isolamento e desajuste de João Antônio não é, entretanto, igual a de Lima Barreto. Sua insatisfação com a recepção de sua obra não é a mesma. Sua relação com a profissão de escritor e com o mundo literário seu contemporâneo não são idênticos aos de Lima Barreto.
Para entendermos as causas da desilusão de João Antônio, precisamos entender a forma como articulava sua literatura e a realidade, e as encruzilhadas profissionais e existenciais em que ela o meteu.
Os anos 70 foram marcados por uma defesa sistemática da profissionalização dos escritores. O mais difícil — conseguir ser ouvido dos intestinos industriais de São Paulo pela imprensa nacional — ele já havia conseguido, e o otimismo se expressava na atitude combatente. E seer escritor profissional significava, em primeiro lugar, ter seus direitos autorais respeitados. Graças a essa determinação comprou, até publicamente, uma série de brigas. A mais notória delas foi com o diretor de cinema Maurício Capovilla. Com o título de “É ladrão”, João Antônio teve publicada sua denúncia contra o antigo amigo e parceiro de trabalho na adaptação cinematográfica de “Malaguetas, Perus e Bacanaço” (no cinema exibido com o título de “O Jogo da Vida”). A moralização do direito autoral foi tema de outra denúncia, segundo a qual os escritores Waldomiro Autran Dourado, Carlos Drummond de Andrade e Samuel Ravet haviam sido lesados por uma antologia escolar de contos que incluíra textos seus sem que nunca por isso tivessem recebido um tostão. Esta João Antônio levou a público com o título “Carta Aberta aos Caloteiros”. Sem ser, ao contrário de Lima Barreto, um teórico das reformas político-sociais, e tendo mantido entre sua obra e a política a distância essencial, João Antônio não obstante conclamava seus colegas a fortalecerem a categoria. Fácil deduzir que, ao fazê-lo, comprou muitas brigas entre editores e mesmo entre a classe artística.
Em segundo lugar, sua luta pela profissionalização da profissão de escritor implicava na luta pela ampliação do mercado de trabalho (quando pensava na TV, no jornalismo, etc) e do público leitor. No primeiro aspecto, o jornalismo obviamente era uma opção. Após a experiência marcante na revista Realidade, do grupo Abril, na qual trabalhou fazendo contos-reportagem, de 1966 a 1968, por todo o resto de sua vida João trabalharia, de um jeito ou de outro, na imprensa. Neste setor, João Antônio alertou para a decadência do mercado jornalístico carioca, enfraquecido perante o de São Paulo.
Mesmo no aspecto estritamente literário de sua atuação, ele pregava uma “relação profissional” do artista e do editor com o mercado, que só assim se conseguiria ampliar. “Ninguém neste país tem perdido dinheiro quando resolve apostar no autor nacional. Quando essas operações não dão certo, a culpa é, na maioria dos casos, do próprio investidor, que não quer empregar recursos em promoção, editoração programada, etc. Parece-me que só ultimamente descobriu-se que o livro é uma mercadoria e que é necessário trabalhá-la comercialmente. (…) O autor nacional não precisa apenas de prêmios e honrarias. Necessita de outras motivações para que tenha caráter e coragem. Fundamental seria a sua profissionalização, como a de qualquer outro trabalhador. Direta ou indiretamente, cinema, rádio e TV poderiam colaborar nessa luta: no momento, o autor nacional está fora dessas cogitações, enquanto se aposta tudo no autor estrangeiro traduzido, mesmo antes do seu livro estar nas livrarias.”
Está na raiz deste esforço também as viagens que, em mais de um momento em sua vida, João Antônio fez pelo Brasil, divulgando seus livros e a literatura contemporânea do país em geral.
Havia, em todas estas iniciativas, é claro, uma questão de sobrevivência. Ele queria ser escritor e queria viver de escrever. Queria, a seu modo, o orgulho da profissão. Queria prêmios, sim, queria o elogio dos bem pensantes, também, e os teve, mas queria uma coisa mais. João Antônio já vivia num tempo onde a existência do mercado poderia estabilizar a vida do escritor e fornecer-lhe segurança para produzir. Uma alternativa ao estreito mundo literário, de Lima Barreto e das primeiras décadas do século.
Mas esse movimento seria de mão-dupla. Não traria benefícios apenas do mercado para o escritor, mas também do escritor para o mercado. Há, por trás de sua intransigência na defesa dos direitos e potencialidades profissionais do escritor brasileiro, a percepção de que o mercado não estava ampliando o raio de ação cultural da literatura. O mercado se desenvolvia, deixando-a à margem. Isso era ruim para os escritores, para o público e para o país. “Meu leitor não é, infelizmente, o homem do povo.O livro não chega até o homem do povo. Meu leitor está nas escolas de letras e de comunicação. Meus livros são estudados nas escolas. A literatura não é um bem cultural em nosso país.”
E ele novamente convoca os colegas à militância: “Quando o escritor resolve arregaçar um pouco as mangas, dentro do espaço que lhe é dado, que não é muito, ele dá o seu recado. Tem obrigação de participar, de procurar o diálogo. Porque a literatura é um bem marginalizado, que vive dentro de um gueto cultural. Nos temos uma obrigação muito séria.”
E não os poupa de críticas: “Sinto que há uma diferença bastante grande, aflitiva mesmo, entre a cultura que se vive na rua, na fala do povo e a cultura que se escreve (…) ainda existe uma terrível gomalização da linguagem escrita no Brasil”.
Apesar de todos os expoentes do mundo acadêmico que assinam as orelhas e os prefácios de seus livros, João Antônio responsabilizava também a academia por essa “gomalização” cultural, que diminuía o acesso do povo aos livros. Às vezes, ironizava certas minúcias da crítica especializada: “Vi, dia desses, um conferencista que gastou e gastou duas horas e trinta e alguns minutos falando de Graciliano Ramos. Fiquei com um embrulho no estômago. (…) O sabido falava em fonemas na obra de Graciliano, na cor (…) Disse que no curso e transcurso de todo o romance “Angústia” jamais se lê a palavra angústia. Quase disparei: — Ô sabido! Ô quiquiriqui, eu já descobri isso lendo “Angústia” aos dezesseis anos!/ E não tive professores disso.”
Em outros momentos, duvidava do próprio engajamento da academia em relação aos problemas da sociedade: “É raça. Sem dúvida, essas futuras colegas e sucessoras são estudantes que estudam muito. Lá à moda delas e de seus professores. Só tem que enchem de desgosto as medidas de quem as vê fuxicando, aporrinhando por aí, amiguinhas do povo e zangadas da boca pra fora com a crise, com a ditadura e o miserê geral. E nomeiam isso de pesquisa social de campo. Cientificamente.”
Não se deve interpretar esses ataques à academia como uma desautorização radical. Era o excesso de preciosismo, novamente a “gomalização”, que o irritava. Mas havia apreço de sua parte por vários críticos acadêmicos, e pela cultura erudita inclusive. Na verdade, até o final da vida, João Antônio acreditou que a verdadeira erudição não era incompatível com a cultura popular. Pouco antes de sua morte, ele explicita aquilo que seria seu ideal de ambiência cultural para o país: “Tenho para mim que este país será uma democracia o dia em que qualquer cidadão do povo puder ouvir Martinho da Vila e também os mestres superfinos do passado.”
Além da sociedade de consumo, do poder da mídia, havia, ainda, um último vilão fustigado sem pena por João Antônio, a um só tempo vítima e responsável pela pauperização cultural do país: a classe média. Talvez a primeira versão desse ódio apareça no premiado conto “Três Cunhadas — Natal 1960” . Nele, de um homem que trabalha como contínuo num banco dirige-se à ceia de natal das cunhadas. Suspira, toma um chope para aturar a perspectiva da noite enfadonha, pechincha os presentes que as convenções sociais o obrigam a comprar. Chegando lá, enquanto a ceia se desenrola, faz um inventário das misérias na vida das três cunhadas. Uma é roubada pelo amante, a outra tem útero infantil, a terceira está endividada, e assim por diante. É um retrato cruel de uma vida pelo menos razoável financeiramente, que gera no narrador, simplesmente, nojo.
Na mesma época, numa resenha sobre Leão-de-Chácara, ele é caracterizado da seguinte forma: “apenas ele entre os autores de projeção ou aqueles a que o público tem acesso realiza um trabalho à margem das preocupações habituais dos nossos ficionistas com a metafísica da classe média.”
Anos depois, numa contradição apenas aparente ao exemplo dado no penúltimo parágrafo, um perfil jornalístico sobre o escritor diz: “Concentrado apenas na literatura, João Antônio se cobra por escrever pouco atualmente. Certas amarras o limitam: para começar, não escreverá sobre a classe média” E ainda: “Desde que se conhece por gente, sente-se uma pessoa torta, que não vai se endireitar pelos padrões da classe média.”
Finalmente, no texto “Abraçado ao Meu Rancor”, um retorno amargurado à cidade de São Paulo, onde viera a serviço de uma empresa turística, para escrever um folder ou coisa que o valha, ele verbaliza sua aversão à classe média com todas as letras: “Empanturrado ontem e bebum, no coquetel [promovido pela empresa que o contratara], escarneci e, de voz empastada, eu disse classe mérdea.”
Como se vê, assim como seu predecessor Lima Barreto, João Antônio era também um homem de idéias muito firmes. Se já vimos que em muitas coisas estes dois escritores viveram trajetórias biográficas, sociais e psicológicas bastante diferentes, como explicar que tenham tido um fim tão parecido, bêbados pelas ruas, com acessos que os tiveram da realidade, e, mais que tudo, amargurados. De Lima Barreto já se falou, mas e João Antônio?
Durante os anos 70, profissionalmente falando, tudo eram flores, e João Antônio estava forte para brigar. No jornalismo ele ia bem. Na literatura, melhor ainda. Ganhou dois prêmios, tinha seus livros reeditados em ritmo bastante bom. Já nos anos 80, a sorte começa a virar-se contra ele. Em 1982, quando da publicação de Dedo-Duro, ele agradece a Antonio Candido o fato de ter aceito o convite para escrever a orelha do novo livro, como uma forma de dar a volta por cima numa maré profissional ruim na literatura. Deu temporariamente certo. O livro trouxe-lhe mais dois prêmios, o Pen Clube de melhor ficção do ano, o Candango de Brasília, pelo melhor livro do ano. Mesmo assim, o resultado do livro comercial fica abaixo da sua média.
Pouco antes da publicação de seu último livro, em 1996, ele mencionou a seu editor o fato de sua literatura estar armando-lhe uma cilada, e que ele não sabia como faria para sair dela. Certamente que sua literatura poderia e, se ele disse que sim, deveria, estar armando-lhe uma nova surpresa. Porém, a combinação de dois fatores parece apontar o “ponto de virada”, a grande armadilha, ainda nos anos 80. Foi quando teve início a “decadência” de João Antônio como profissional da literatura.
O primeiro destes fatores foi a nova fase política do país. Em meados dos anos 80, no cenário interno, deu-se a passagem para o regime democrático, e com ela a desarticulação das esquerdas. No cenário externo, a Guerra-Fria chegou ao fim, o neoliberalismo e a globalização começaram sua marcha sobre o planeta. É fácil entender como isso afetava a obra de João Antônio, e uma simples resenha de jornal conseguiu sintetizar a razão: “Mas ser marginal em tempos de capitalismo desenfreado é problemático”. Alfredo Bosi, no prefácio do livro de 1986, alerta para o mesmo drama: “Entrar na casa dos quarenta nos anos setenta; ter sido pobre, boêmio e suburbano numa São Paulo ainda não devorada pelo consumo [um eufemismo gentil do prefaciador, sem dúvida]; ser jornalista de raça e escritor atracado com o real; viver às voltas com a própria biografia; sentir-se, enfim, em dura e amargosa oposição aos regimes e estilos dominantes: tudo isso faz parte da condição humana e literária de João Antônio (…)”
O escritor Moacyr Scliar, parceiro de algumas das já citadas viagens militantes, de anos antes, comentou, na ocasião da morte de João Antônio, a importância de “Malaguetas, Perus e Bacanaço”: “Depois do sucesso inicial, o livro caiu no limbo. Mas de repente foi redescoberto, a meu ver em função do próprio clima de repressão: lê-lo era uma forma de protesto./ Sua ficção voltada para os pobres, para os marginalizados era, como o teatro de Plínio Marcos e a música de Chico Buarque, peça de resistência. Ele não era um militante; escrevia sobre o povo porque jogava sinuca com o povo.” Em seguida, Scliar denuncia a distância entre o imaginário neoliberal, com seus yuppies, seu mito de sucesso rápido e dinheiro fácil, seu culto à modernização tecnológica, e o imaginário de João Antônio: “Seus personagens preferidos não eram os vitoriosos, os charmosos; ao bloco dos contentes nunca aderiu. Seu Brasil era o Brasil grandioso em sua pobreza e em sua tristeza.”
Há o seguinte trecho numa entrevista que nos dá algumas pistas de como o escritor via o momento histórico, rejeitando a lógica neoliberal que se implantava, e recusando-se a enxergá-la como distinta do conservadorismo anterior: “P: Em sua obra os marginalizados têm lugar central. O que pensa da idéia neoliberal de que a pobreza é mera inadaptação, ao melhor estilo darwinista? R: Eu acho que a grande incompetência está nos governos, e não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo. Ninguém gosta de ser camelô, ninguém gosta de ser contrabandista. Ninguém gosta de fazer trottoir, porque não é fácil viver nesse tipo de marginalidade. Estas pessoas fazem isso porque nossos governantes, junto com as nossas sociedades, não foram capazes de dar condições de educação a esse pessoal. Se nós não fomos capazes de fazer uma reforma agrária, se deixamos que a nossa pólis inchasse, se permitimos que o Rio de Janeiro tivesse mais de 300 favelas, não venham os senhores economistas dizer que esse povo é incompetente. Incompetentes são eles.”
A par das transformações na conjuntura histórica, esse mesmo trecho, porém, mostra pelo menos uma novidade crucial no âmbito pessoal e artístico. Ao início de sua carreira, os merdunchos não eram apenas vítimas do sistema, eram também resistentes. Eram aqueles que, em parte por opção, escolhiam a vida fora do emprego formal, na fábrica, no escritório. Preferiam trabalhar na noite, controlando a própria força de trabalho. Eram, sobretudo, o grande repositório de energia vital da sociedade urbana.
E, de repente, ninguém mais gosta de ser camelô, contrabandista, de fazer trottoir. Onde a valorização do código fora da sociedade formalmente constituída? Se a energia vital não está lá, não está em lugar nenhum. É aqui que a grande rachadura na visão de mundo do escritor atinge-o em cheio.
Como já se viu, sua trajetória social ascendente afastou-o fisicamente dos espaços por excelência de sua literatura e de sua gente. Mas o golpe final estava por vir. Com o tempo, ele se afastou emocionalmente dos seus merdunchos. Ele vestia-se diferente, falava diferente, conhecera outros países, aprendera muita coisa, morara em Berlim, conhecia gente famosa, para não dizer que ele mesmo tivera seus momentos de glória, enfim, como se diz, havia saído daquele mundo. Os merdunchos também o estranhavam um pouco.
Ao contrário de Lima Barreto, João Antônio não se aproximou da vida nas franjas do sistema, pelo contrário, afastou-se dela. De seus espaços e de suas pessoas. Aproximou-se dos meios jornalísticos e literários, tornou-se conhecido. Mas, assim como Lima Barreto, que mesmo vivendo na pobreza nunca se desligou de certos valores e expectativas que tinha quando melhor posicionado socialmente, João Antônio, embora tenha ascendido socialmente, nunca desvinculou seu passado de sua ética, e quando se viu longe dele, perdeu seu rumo. O jornalismo desgostou-o e a literatura o traiu, afastando-o daquilo que o alimentava.
Numa corrente de cartas que enviou, em abril de 1996, para vários amigos e conhecidos, João Antônio disse: “Queiramos ou não, estamos enfiados no mesmo saco, o dos marginalizados neste país ágrafo e incultural, perdoe a redundância.” Aqui, embora se coloque no mesmo saco dos marginalizados que têm de menos, lá se põe por ter demais. É como se a sociedade, para ele, tivesse na base os seus merdunchos, marginalizados, fosse dominada pela classe média e pelas elites, e tivesse, também marginalizados, os intelectuais.
Mas isso num plano elevado. No cotidiano, no dia-a-dia, João Antônio sabia muito bem o que havia acontecido. Ele havia absorvido o “odioso” estilo de vida da classe média. Se não sua renda mensal, seu desenvolvimento profissional o tirara do meio onde estava sua ética original e o “promovera” socialmente.
Foi, portanto, em meio a uma conjuntura histórica desfavorável a seu universo literário, e em meio a uma crise de identidade profunda, que João Antônio descambou para o alcoolismo e repetiu o destino de seu ídolo e predecessor. Novamente, duas trajetórias bastante diferentes, mas que se encontram numa coisa: por terem feito deslocamentos bastante radicais na escala social, os dois escritores viram-se na situação em que, ao invés de dois mundos, terminaram sem nenhum.
“Esta profissão não presta. Com o tempo, você vai empurrando a coisa com a barriga, meio pesadão. Sem qualquer alegria, garra ou crença, cutucado pela necessidade de sobrevivência. Apenas. O pior, se existe um, é que esta ocupação sovina e instável acaba como que atraindo azares, vícios, mortificações e levantando desejos de destruição, pespegando sentimentos culposos. A bebida, alguma esbórnia, outros empurrões que se tenta dar nessa consciência só fazem afundar mais o poço”.
“Quando os conheci [aos trens suburbanos] e gostei deles, quando me estrepei e sofri na mesma canoa furada, a perigo e a medo, eu não tinha esses refinamentos, não. Mudei, sou outra pessoa; terei tirado de onde estas importâncias e lisuras? De teu pai não foi, mano. Também é verdade que, agora, visto na moda e não simples. Meto antes as roupas que, só depois, chegarão aqui e ando tostado de sol, areias, mar.”
“Pior é, no país. O sujeito que, escritor, se mete a também jornalista. Aí, perderá potencial maior — o tempo, a vergonha, o talento e o estilo. Além, claro, de correr outros riscos sérios da dor inútil. Bate-lhe o envelhecimento precoce, a velhice íntima, baixa-lhe a importência, medo, mais as deformações e vícios pequenos da classe média, Porque esse tipo de infeliz será sempre um animal bufo da classe média. (…) Ou mérdea. (…) Mas da classe média você não vai escapar, seu. A armadilha é inteiriça, arapuca blindada, depois que você caiu.”
[década de 1990]
Malagueta, Perus e Bacanaço, Civilização Brasileira, RJ, 1963.
Antes do emprego no Jornal do Brasil, João Antônio teve uma série de outros, sendo que o único ligado à escrita foi o de estagiário-redator numa agência de publicidade.
Estas são as razões por ele invocadas para explicar o longo intervalo sem publicar ficção inédita em forma de livro, embora publicasse-a de forma esparsa na imprensa.
Leão-de-Chácara, Civilização Brasileira, RJ, 1975 e Malhação do Judas Carioca, Civilização Brasileira, RJ, 1975.
Casa de Loucos, Civilização Brasileira, RJ, 1976.
Merdunchos, in Os Melhores Contos de João Antônio, Global Editora, SP, 1986.
Merdunchos, in Os Melhores Contos de João Antônio, Global Editora, SP, 1986.
Ricciardi, Giovanni – Escrever, Libreria Universitaria de Bari, 1988.
Este último lhe conseguira uma cabine na biblioteca Mário de Andrade, onde pôde reescrever o livro inteiro, após um incêndio em sua casa que havia destruído os originais da primeira versão.
Depoimento de Sílvio Ferraz, também colaborador de “O Crisol”.
Ricciardi, Giovanni – Escrever, Libreria Universitaria de Bari, 1988. É um exemplo, mas a revista “O Crisol” é uma referência constante.
Estes por influência paterna, pois seu pai, João Antônio Ferreira, era original de Trás-os-Montes e zelava pelas leituras do filho.
Ensaio biográfico publicado na série Escritor Brasileiro Hoje, publicada no O Estado de São Paulo, em 25/8/84.
Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto, Civilização Brasileira, RJ, 1977.
O livro, grosso modo, segue o seguinte roteiro de pontos em comum: boêmia, desprezo pela vaidade artística, olhar crítico em relação ao país, raiva e temor dos governantes, precariedade editorial, sensação de discriminação, valorização dos subúrbios, mania ambulatória, desprezo aos títulos e posições hierárquicas, rejeição à condição de literato, visão ética da literatura, a literatura como missão, desinteresse de bens materiais, crises de loucura, rejeição aos estilos rebuscados etc…
Diz Lima Barreto: “(…) sem dinheiro, mal vestido, sentindo a catástrofe próxima da minha vida, fui levado às bebidas fortes e, aparentemente baratas, as que embriagam mais depressa. Desci do whisky à genebra, ao gin e, daí, até a cachaça”, in Cemitério dos Vivos. Ou ainda: “Não tenho editor, não tenho jornais, não tenho nada. O maior desalento me invade. Tenho sinistros pensamentos. Ponho-me a beber; paro. Voltam eles e também o tédio da minha vida doméstica, do meu viver cotidiano, e bebo. Uma bebedeira puxa a outra e lá vem a melancolia. Que círculo vicioso! Despeço-me de um por um dos meus sonhos”, in Um Longo Sonho de Futuro, editora Graphia, RJ, 1993..
idem.
Ricciardi, Giovanni – Escrever, Libreria Universitaria de Bari, 1988.
Essa ligação entre o antecessor literário e sua família reaparece em um livro de 1978, Lambões da Caçarola (LP&M, Porto Alegre, 1978), em que Lima Barreto é mantido como homenageado na dedicatória, mas João Antônio substitui seu filho por seu pai, João Antônio Ferreira.
Entrevista, in Patuléia, Editora Ática, SP, 1996.
Salvo quando indicado o contrário, todas as informações biográficas contidas neste trabalho têm a seguinte biografia como fonte: A Vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa, Editora Itatiaia e Edusp, 7a edição, SP, 1988.
O de haver falsificado o livro-caixa do sanatório público que administrava.
“É bem de ver, neste ponto, a disparidade de educação e cultura entre Lima Barreto e seus irmãos, um dos quais guarda-civil e outro, condutor de trens.” In A Vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa, Editora Itatiaia e Edusp, 7a edição, SP, 1988.
Lambões da Caçarola, L&PM, Porto Alegre, 1978. Outra vez em que João Antônio se dedica a textos explicitamente autobiográficos, é no texto Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha, in Dedo-Duro, ed. Record, RJ, 1982.
João Antônio em Berlim, de Ellen Spielman, texto inédito gentilmente cedido pela Revista Remate de Males, Unicamp.
Para muitos críticos, com os quais parece razoável concordar, a aparição detalhada e nominativa dos espaços urbanos é usados pelos dois escritores como instrumento de construção de verossimilhança, ou mais ainda, de “autenticidade”.
Mágua que Rala, in Histórias e Sonhos, Gráfica Editora Brasileira, São Paulo, 1951.
Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha, in Dedo-Duro, Record, RJ, 1982.
Mágua que Rala, in Histórias e Sonhos, Gráfica Editora Brasileira, São Paulo, 1951.
Um Músico Extraordinário, in Histórias e Sonhos, Gráfica Editora Brasileira, São Paulo, 1951.
Os Galeões do México, artigo publicado na Gazeta da Tarde, RJ, 20/5/1911.
Sete Vezes Rua, Editora Scipione, SP, 1996.
Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto, Civilização Brasileira, RJ, 1977.
O Trem de Subúrbios”, in Feiras e Mafuás,
Clara dos Anjos, Editora Mérito S/A, RJ, 1948.
In Diário Íntimo, Editora Graphia, RJ, 1993.
Idem.
In Malagueta, Perus e Bacanaço, Civilização Brasileira, RJ, 1963.
Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha, in Dedo-Duro, Record, RJ, 1982.
O Prefeito e o Povo, in Marginália, Editora Brasiliense, SP, 1956.
O “Moambeiro”, in Marginália, Editora Brasiliense, SP, 1956. Este não é um texto de ficção.
Abraçado ao Meu Rancor, ed. Guanabara, RJ, 1986.
Dama do Encantado, Editora Nova Alexandria, SP, 1996.
Folha de São Paulo, 27/12/74.
Desumanizar a cidade é um problema para ele que, como por muitos apontados, fazia da antropomorfização das paisagens urbanas algo recorrente em sua obra.
As Coisas Simples de João Antônio, de Fernando Paixão, in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 10/11/96.
Carta de JA ao amigo Mylton Severiano da Silva, in Caderno 2, OESP, 09/11/96.
Os Subterrâneos do Morro do Castelo, Dantes Livraria e Editora, RJ, 1997.
In Diário Íntimo, Editora Graphia, RJ, 1993.
A Lanterna, RJ, 1902.
Um Músico Extraordinário, in Histórias e Sonhos, Gráfica Editora Brasileira, São Paulo, 1951.
Malagueta, Perus e Bacanaço, Civilização Brasileira, RJ, 1963.
In Malagueta, Perus e Bacanaço, Civilização Brasileira, RJ, 1963.
Idem.
Ricciardi, Giovanni – Escrever, Libreria Universitaria de Bari, 1988.
Entrevista de João Antônio in Patuléia, editora Ática, SP, 1996.
Patuléia, editora Ática, SP, 1996.
A passagem de seu estilo seco para este mais “abarrocado” suscitou, muitas vezes, críticas: “João Antônio, neste seu momento de pausa indefinida, acumula de modo excessivo centenas de palavras que, se têm a expressividade que deseja, paralelamente tornam o mundo que elas querem descrever hermético, barroco, no sentido pejorativo do termo, palavroso demais, obtendo, não a comunhão do autor com os propósitos evidentemente nobres e idealistas do autor, mas sim sua incompreensão e, no pior dos casos, seu enfado e desinteresse pela obra.” Resenha de Leo Gilson Ribeiro sobre “Dedo-Duro”, Jornal da Tarde, 13/11/82.
Em 1975, em sua resenha sobre “Leão-de-Chácara”, Wladyr Nader reclamava de algo semelhante no estilo do escritor: “Atrás da linguagem inovadora e nova (…) há, porém, uma linearidade narrativa que acreditamos não se repita no próximo livro. João Antônio chega às vezes ao preciosismo vocabular e esquece o esqueleto da história. Se ele conseguisse maior dinamismo formal, à maneira das mais ousadas montagens cinematográficas, chegaria certamente a resultados melhores.”, Folha de São Paulo, 14/08/75. Como se vê, seja a forte estilização da fala popular, seja a linearidade narrativa, foram alvo de críticas. A exigência de que João Antônio reproduza a linguagem cinematográfica é uma incompreensão grave, pois lançada contra um escritor que privilegiou o efeito sonoro às imagens. Uma rápida comparação entre João Antônio e outro especialista no “submundo”, Rubem Fonseca, demonstraria claramente quem é o escritor da literatura “visual” e o preocupado com a melodia da linguagem escrita.
Maria de Jesus de Souza – Perfume de Gardênia, in Abraçado ao Meu Rancor, Editora Guanabara, RJ, 1986.
Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, Editora Mérito S/A, RJ, 1949.
A Época, RJ, 1916, in A Vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa, Editora Itatiaia e Edusp, 7a edição, SP, 1988.
As citações são de outra carta, mais tardia, uma na qual Lima Barreto candidatava-se ao prêmio de melhor livro do ano com Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, no ano de 1920, mas dirigida ao mesmo Presidente.
Carta sem data, citada in A Vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa, Editora Itatiaia e Edusp, 7a edição, SP, 1988.
Mais Uma, artigo publicado no periódico político, A.B.C., 1917.
A Minha Candidatura, A Careta, RJ, 1921.
Carta de Lima Barreto à Academia, 28/9/1921, in Correspondência, vol.2, Editora Brasiliense, SP, 1956.
É curioso verificar que ao morrer, Lima Barreto manifestou expressamente seu desejo de ser enterrado no cemitério São João Batista, de burgueses e aristocratas, e no famigerado bairro de Botafogo.
“A razão é simples. É que sinto uma grande volúpia em comparar os requintes de aperfeiçoamento da indumentária, tanto cuidado de tecidos caros, que mal encobrem o corpo das ‘nossas castas esposas e inocentes donzelas’, (…) com meu absoluto desleixo”, Vestidos Modernos, is Marginália, Editora Brasiliense, SP, 1956.
Pode não ter tido relação direta com o infarto, mas João Antônio sofria de uma insufuciência circulatória que, nos seus últimos anos, limitava seus ímpetos andarilhos pela cidade. O fumo e a bebida eram assumidamente instrumentos de auto-detruição.
Para citar apenas um deles: o jovem poeta carioca, Alexei Bueno, conta que muitas vezes, ao longo dos anos 80, encontrou João Antônio nas redondezas da rua Prado Júnior, em Copacabana, completamente bêbado em botequins. Numa dessas vezes, inclusive, chegou a carregá-lo para casa, ajudado por outros amigos do escritor.
Em notícia publicada no O Estado de São Paulo, em 01/11/96: “O porteiro do prédio o viu pela última vez na manhã do dia 7 de outubro, quando ele saiu de bermuda, camiseta e chinelos. Vizinhos que o viram disseram que o escritor estava fumando e tossia muito. A informação levou seus amigos a acreditar que ele tivesse morrido fora de casa. Ultimamente, João Antônio alternava momentos de lucidez com outros de amnésia, atriduída ao alcoolismo. Ele vinha bebendo muito, o que fez alguns amigos se afastarem.” Em notícia publicada em
(Que a frase existe, existe. Não consegui localizar a referência a tempo.)
Matéria publicada na Folha de São Paulo, em 30/12/76. Segundo João Antônio, o contrato garantia-lhe como venda pelos direitos de filmagem 10% do custo total do filme. Sendo a fita inicialmente orçada em CR$ 800 mil, o diretor pagou ao escritor o acertado. Porém, tempos depois, o escritor descobriu na Embrafilme que o verdadeiro custo do filme fora de CR$ 1.300.000, o que lhe dava direito a receber mais CR$ 63 mil. A briga arrastou-se por alguns meses. Não se obteve, ainda, informações sobre como terminou.
Matéria publicada na Folha de São Paulo, em 26/1/77. Na mesma denúncia, há um desdobramento um tanto mais explosivo. A editora Bloch, responsável pela mencionada antologia, reagiu à ação judicial movida pelos escritores com um artigo que se entitulava “Um escritor contra o livro”, na qual, segundo João Antônio, apenas Autran Dourado era atacado. Diz João Antônio: “Provavelmente eles [os escritores] sairão vitoriosos, através do Supremo Tribunal Federal, mas a Bloch publicou artigo no qual atacava violentamente Autran e nenhum dos que foram roubados pela antologia se mexeu. O Autran ficou sozinho. Quer dizer, os escritores têm sua parcela de culpa por omitirem-se, pelo menos na área onde eles têm o direito garantido. A título de informação, a época desta matéria, a ação tramitava a seis anos, e a antologia, chamada “Literatura Brasileira em Curso”, estava já em sua sétima edição. No ano seguinte, 1978, outro episódio, agora envolvendo a empresa Rio gráfica Editora, que sem autorização publicara trechos de sua obra numa antologia. Até o Ministério da Cultura é acusado por ele como caloteiro, pois encomendara texto sobre a cidade do RJ, não publicara e não pagara.
Embora existam em sua obra frequentes contestações à ditadura, João Antônio sempre fez com que a ideologia nrotasse da forma, e não o contrário, caminho que ele considerava uma “balela da esquerda” (OESP, 07/07/85 – perfil do escritor pelo professor e poeta bissexto Domício Proença Filho). Esse fato resiste inclusive aos empréstimos que certos expoentes culturais mais politizados fizeram de sua obra. Por exemplo, na adaptação de “Malaguetas” para o cinema, o ator principal acabara de conquistar fama nacional e internacional por um filme bastan™e politizado e também passado no universo operário paulistano. O ator era Gianfrancesco Guarnieri. O filme, “Eles Não Usam Black-Tie”. Segundo ele próprio, sua “esquerda é ética, e não política.” (Jornal da Tarde, 10/07/91).
Sinal do enfraquecimento da presença de João Antônio em nossas letras, uma recente (julho de 1999) edição comemorativa do aniversário da revista Realidade não trouxe qualquer referência à participação do escritor no projeto.
De que se tenha conhecimento categórico, trabalhou no/para os veículos: Jornal do Brasil, Jornal da Tarde e Tribuna da Imprensa.
“Conta João Antônio que para sobreviver tem sido obrigado a fazer a ponte aérea Rio-SP, O escritor aponta dois motivos: “decadência do mercado jornalístico carioca diante de várias crises, inclusive do papel, e abertura de melhor mercado pagador em São Paulo.” Folha de São Paulo, 27/12/74.
Folha de São Paulo, 27/12/74. Em matéria publicada na Folha de São Paulo, em 16/5/75, João Antônio volta com detalhes a todos estes assuntos. Defende a participação dos escritores em adaptações de suas obras para a tv e o cinema, anuncia que estes mercados podem e devem pagar bem mais que o de livros, acusa o sistema comercial da tv de deixar o escritor de fora, e, de quebra, afirma “Não se sabe até que ponto os órgãos que instituem prêmios estão realmente trabalhando para a difusão e o cultivo da arte literária: estarão apenas obtendo pontos a favor junto aos MECs e INIs? (…)”
Em 1977, visitou mais de 30 faculdades de letras e comunicação em todo o Brasil, tendo ido a, entre outras cidades, Manaus, Ijuí, Belo Horizonte e Terezina, in Folha de São Paulo, 26/01/77. Quando do lançamento de Lambões da Caçarola, em que a imagem de Getúlio Vargas era recaptada pelos olhos do povo do Beco-da-Onça, o escritor visita várias cidades do Rio Grande do Sul.
Sem citar exemplo, posto que são muitos e de fácil verificação, João Antônio tinha o hábito de submeter seus contos inéditos a prêmios de toda a sorte, até alguns de importância duvidosa. Quanto ao elogio da academia, em quase todos os livros de João Antônio, do primeiro ao último, pelo menos uma personalidade importante do mundo literário assina orelha ou prefácio ou apresentação. Entre eles: Antonio Candido, Alfredo Bosi, João Alexandre Barbosa, Jorge Amado, Moacyr Scliar, Paulo Rónai (2 vezes), Ênio Silveira, José J. Veiga, Fábio Lucas (2 vezes), Wilson Martins, Fausto Cunha, Mário da Silva Brito (2 vezes).
O Estado de São Paulo, 13/02/83.
Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha, in Dedo-Duro, Record, RJ, 1982.
In Abraçado ao meu Rancor, no livro homônimo, Editora Guanabara, RJ, 1986.
E parte dessa desconfiança em relação à academia pode não se dever a uma questão de política cultural, ou ideológica, mas sim ao fato de, ao contrário de Lima Barreto, sempre leitor de filósofos e teóricos, João Antônio nunca ter tido um “polimento científico”, via universidade, bons colégios, etc. No seguinte trecho de seu perfil biográfico, de 25/8/84, talvez seja disso que se esteja falando: “Ele não tem uma relação intelectiva com a literatura, não planifica o que escreve (…)” Numa entrevista, OESP, 13/2/83, “Olha, tem o estalo, sem dúvida. É fundamental. O jogador de futebol sabe quando vai fazer o gol, ele sente isso, quase fisicamente. Eu sinto quando vai conto e quando não vai dar (…)”
Carta cedida por Heitor Ferraz, 1998.
Três Cunhadas — Natal, 1960, in Leão-de-Chácara, Civilização Brasileira, RJ, 1975. Recebeu o prêmio Paraná, do ano anterior, juntamente com o conto que dá título ao livro.
Resenha de Wladyr Nader sobre “Leão-de-Chácara”, Folha de São Paulo, 14/08/75.
Da Corda Bamba Nasce a Arte dos Pingentes, série O Escritor Brasileiro Hoje, OESP, 1984.
In Abraçado ao meu Rancor, no livro homônimo, Editora Guanabara, RJ, 1986.
Prêmio Nacional de Contos do Paraná, 1975; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, 1975.
“Malaguetas, Perus e Bacanaço”chegou à sétima edição ao final da década, 1980, tendo tido apenas uma nos anos 60; “Leão-de-Chácara” à Sexta edição, também em 1980; “Malhação do judas Carioca” teve uma Segunda edição publicada meses após o lançamento, 1976, e chegou à terceira edição em 1981; “Casa de Loucos”, de 1976, foi reeditado no mesmo ano de lançamento; “Lambões da Caçarola” chegou à Quarta-edição em 1978, apenas um ano após o lançamento. Ele mesmo dizia não ser nenhum best-seller, “Agora, acho ridículo no Brasil a caracterização de best-seller para um autor que vende edições minguadas, de três ou quatro mil exemplares. Depois, quando eu digo que vivemos num Estado de miséria cultural, me chamam de exagerado.”Folha de São Paulo, 13/2/76. Ainda que ele tenha razão, e parece tê-la realmente, admita-se que todos os seus livros na década de 70 foram republicados pelo menos uma vez, em geral bem mais que isso.
“Em 1982 ele [Antonio Candido] escreveu a apresentação crítica do meu livro Dedo-Duro. E também me surpreendeu que aceitasse escrever sobre um autor para quem os ventos da moda literária não ventavam lá muito a favor e que chegava a receber alguns tratamentos reticentes, não direi caricaturais, mas esvaziantes (…) Afinal, vivemos num país em que a estrela passa a carne de vaca com uma rapidez meteórica.”, in Meus Respeitos, texto de João Antônio publicado em volume de homenagem a Antonio Candido, Cia. Das Letras, SP.
O livro é reimpresso no mesmo ano, mas a terceira reimpressão demorará cinco anos para sair.
Depoimento não formal de Luís Baggio, dono da Editora nova Alexandria, que publicou o último livro do escritor, “Dama do Encantado”, em 1996.
Não é o momento de discutir uma real queda de qualidade na obra do escritor, mas apenas verificar a gradual queda de prestígio que sua obra começa a sofrer, e também a queda brutal do nível de venda de seus próximos livros. Um único livro seu, dos lançados nos anos 80, chegou a ser reeditado. Trata-se, no entanto, de uma antologia, “Meninão do Caixote”, publicado em 1934 e reeditado no ano seguinte uma única vez.
Resenha a Abraçado ao Meu Rancor, de Sonia Salomão Khéde, publicada no Jornal do Brasil, 03/08/86.
Abraçado ao meu Rancor, no livro homônimo, Editora Guanabara, RJ, 1986.
Perfil de João Antônio por Moacyr Scliar, Folha de São Paulo, 02/11/96. Scliar concorda com a visão de que os últimos livros de João Antônio não repetiram impactos anteriores: “A volta por cima [após o sucesso de Dedo-Duro] deixou-o eufórico. “Está chovendo na minha horta”, dizia. A horta era fértil, mas a estiagem voltou a se fazer sentir. Outros livros não tiveram tanta repercussão.”
Jornal do Brasil, 08/06/96.
Holanda, Cuba, Polônia, Tchecoslováquia, Alemanha, entre outros.
A convite do programa de bolsas para escritores do governo alemão, João Antônio morou em Berlim por todo o ano de 1987.
Alfredo Bosi, no prefácio a “Abraçado ao Meu Rancor”, diz: (…) o boêmio vai reeencontrar não mais a outra cidade, antiga e já perdida, mas a outra face da cidade nova, face que a indústria fabrica e recusa./ Ele não volta para sempre: parece impossível o retorno a quem já transpôs o limiar da classe. Mas volta sempre que o chamado é mais forte do que tudo e a consciência da separação dói acima da medida.”
“Penei a infância aqui, nestas filas e trens encardidos, apinhados. Olhem, isto me bole. Daqui me saí, bandeei no mundo. Quando volto ao morro, quantas vezes, é subindo feito cabrito escabriado, meio na culpa, de assim… mas também com alegria, porque o pessoal diz, mal sabendo das coisas e me olhando as roupas, que sou feliz como um desgraçado.”, Abraçado ao Meu Rancor, no livro homônimo, Editora Guanabara, RJ, 1986.
Cedida por Heitor Ferraz, 1998.
As citações que se seguem são todas extraídas do texto Abraçado ao Meu Rancor, do livro homônimo, Editora Guanabara, RJ, 1986.