Perfil do fotógrafo José Medeiros
O Candomblé de José Medeiros: de 1951 a 1957
José Araújo de Medeiros (1921-1990), ou simplesmente José Medeiros, como ficou conhecido, teve seus primeiros contatos com a fotografia em Teresina, sua cidade natal. Em 1939 mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a colaborar para as revistas Tabu e Rio. Em 1946 o fotógrafo francês Jean Manzon, radicado no Brasil desde 1940, convidou-o a integrar a equipe da revista O Cruzeiro, então um dos maiores sucessos do jornalismo brasileiro, e mais do que isso, um importante centro de inovação do fotojornalismo. Lá José Medeiros ficaria por 15 anos.
Em 1962, já desligado de O Cruzeiro, ele fundou a agência Image, com Flávio Damm e Yedo Mendonça. Três anos depois, começou a trabalhar em cinema, assinando a direção de fotografia de obras clássicas entre nós, como A falecida (1965), de Leon Hirszman, Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, e Memórias do cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos. O próprio José Medeiros dirigiu um longa-metragem, intitulado Parceiros da aventura (1980). A ligação com o cinema desdobrou-se nos cursos que ministrou na Escuela Internacional de Cine y Televisión de Santo Antonio de los Baños, em Havana, Cuba.
Na condição de fotojornalista, é natural que José Medeiros tenha desenvolvido grande sensibilidade para retratar o cotidiano, registrando cenas da sociedade, do mundo artístico e da política, bem como elementos da cultura popular e aspectos antropológicos da realidade brasileira. Neste último eixo de sua obra, está inserido o ensaio feito para acompanhar a matéria “As noivas dos deuses sanguinários”, originalmente publicada em 1951 nas páginas de O Cruzeiro. A reportagem versava sobre os rituais secretos de iniciação das filhas-de-santo de um terreiro de Candomblé na Bahia, até então jamais presenciados por qualquer um que neles não estivesse diretamente envolvido.
Ela era uma reposta a outra matéria, publicada no mesmo ano pela revista francesa Paris Match, assinada por Henri-George Clouzot e intitulada “Les Possédées de Bahia” (“As possuídas da Bahia”). A reportagem francesa, por seu cunho sensacionalista e preconceituoso, despertou forte reação entre alguns estudiosos do Candomblé . Mas, pelo ineditismo do tema e pela qualidade do material fotográfico a ela vinculado, despertou na redação de O Cruzeiro o desejo de suplantá-la em ambos os sentidos.
O repórter Arlindo Silva e José Medeiros foram os escolhidos para a difícil missão. Enviados a Salvador, de início enfrentaram fortes resistências por parte dos terreiros tradicionais em abrir suas cerimônias à imprensa e, sobretudo, a se deixar fotografar. Mas então conheceram um motorista de táxi apelidado Sessenta, que conhecia um terreiro menor, no qual três jovens estavam reclusas e aguardando a noite do ritual de sua iniciação. O Terreiro de Oxossi ficava num subúrbio ferroviário, de paisagem predominantemente rural, com poucas casas e de difícil acesso, junto aos bairros de Plataforma e da Ilha Amarela. Sua mãe-de-santo era conhecida como Mãe Riso da Plataforma, de nome civil Risolina Eleotina dos Santos. Os jornalistas pagaram pelo direito de assistir e documentar a cerimônia de iniciação, em troca de fornecer ao terreiro os meios para adquirir os animais a serem sacrificados e os demais elementos necessários ao ritual.
Resolvidos os problemas “diplomáticos”, José Medeiros teria ainda de enfrentar problemas técnicos. Na hora H, quando o ritual ia ter início, o cabo de sincronismo do flash se rompeu. Como o ambiente era muito escuro, ele precisou ajustar o anel do obturador de sua Rolleiflex para a posição B, recurso que permite ao fotógrafo expor a película à luz por quanto tempo desejar, enquanto estiver apertando o botão disparador.
Tendo em vista a popularidade de O Cruzeiro na época, e o ineditismo do conteúdo, a matéria foi anunciada em Salvador por vários dias seguidos e pelos mais importantes veículos da imprensa local. No meio do Candomblé , a tensão se instalou. Dentro da redação, a expectativa era de considerável incremento das vendas, que fez a já elevada tiragem de 300 mil exemplares ser aumentada para 330 mil.
A reportagem, publicada em setembro de 1951 e contendo ao todo 38 fotografias, foi um sucesso de público. Junto aos estudiosos, no entanto, entre eles o sociólogo Roger Bastide e o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, novamente o sensacionalismo dado ao assunto provocou reações adversas. A Federação dos Cultos Afro-Brasileiros, por sua vez, impôs sanções a Mãe Riso da Plataforma, além de denunciá-la à polícia, e negou reconhecimento à iniciação das três jovens envolvidas no ritual. Tamanha contrariedade se explica, pois o impacto da reportagem poderia levar os “inimigos do Candomblé ”, nas palavras de Bastide, a usá-la como argumento para se fechar os terreiros e alimentar a hostilidade já existente contra a religião. Isso sem falar na imagem estereotipada que a cultura popular adquiria, tanto nas páginas da Paris Match quanto em O Cruzeiro.
Bastide, entretanto, atribuiu essa inadequação inteiramente ao texto de Arlindo Silva, cujo valor etnográfico ele nega, eximindo José Medeiros de qualquer responsabilidade. Contudo, anos depois, parece reconsiderar parcialmente sua posição relativa ao trabalho de Arlindo, citando-o como “documento vivo” para a compreensão do “estado de erê”, que vem a ser o ponto de contato entre a HYPERLINK “http://pt.wikipedia.org/wiki/Consci%C3%AAncia” \o “Consciência” consciência da pessoa e a HYPERLINK “http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Inconsci%C3%AAncia&action=edit&redlink=1″ \o “Inconsciência (ainda não escrito)” inconsciência do orixá. Nesse momento o orixá manifesta sua vontade e transmite ao noviço suas danças e seus ritos específicos.
Seis anos depois, em 1957, pela mesma editora da revista O Cruzeiro, José Medeiros publicou o livro Candomblé , que ampliava o material, totalizando 65 fotografias. Nesse novo formato, as imagens sobrepuseram-se ao texto, reduzido a simples legendas explicativas e despojado da perigosa ênfase das manchetes antes utilizadas. Com isso, desfez-se qualquer conotação sensacionalista e o material fotográfico ganhou o status que mereceria ter tido desde o início: o de material etnográfico precioso e até hoje inigualado.
Em 2005, o acervo fotográfico de José Medeiros, composto por 20 mil fotogramas, veio integrar definitivamente a coleção do Instituto Moreira Salles. Agora, 52 anos depois da primeira versão em livro, o material sobre o Candomblé é novamente disponibilizado ao público.
Na parte inicial da presente edição, intitulada “ Candomblé ”, estão incluídas, pela primeira vez sem cortes, todas as imagens constantes da edição de 1957 cujos negativos não se perderam, perfazendo ao todo 52 fotografias. Os textos e as legendas explicativas incluídos no livro – diferentes daqueles veiculados em O Cruzeiro – são aqui reproduzidos na íntegra. O fato de não serem assinados parece indicar que o próprio José Medeiros os redigiu a partir do material apurado na época da reportagem.
Na segunda parte, intitulada “Outras imagens do acervo”, um conjunto de treze fotografias realizadas entre 1951 e 1957 e não incluídas na seleção original de imagens, foram escolhidas para esta edição dentre as cerca de 50 imagens sobre Candomblé hoje existentes no acervo do fotógrafo. Por fim, na última parte, intitulada “A edição de 1957”, reproduzimos em tamanho menor todas as páginas da importante publicação original.
A iniciativa da republicação deste segmento importante na trajetória de José Medeiros insere-se, portanto, dentro do amplo programa de pesquisa e difusão da obra completa do fotógrafo que o Instituto Moreira Salles realiza desde a incorporação do acervo em 2005, como parte de seu projeto maior de preservação e valorização da fotografia brasileira histórica e contemporânea.
[2008]
“Les Possédées de Bahia”. Paris Match. Paris, 12.05.1951.
Para mais detalhes, ver: TACCA, Fernando de. “ Candomblé : imagens do sagrado”. Campos – Revista de Antropologia Social. Curitiba, n. 3, 2003. Edição especial da IV Reunião de Antropologia do Mercosul; e, do mesmo autor, “O Cruzeiro versus Paris Match e Life Magazine: um jogo espetacular”. Líbero. São Paulo, ano IX, n. 17, jun. 2006.
“Uma reportagem infeliz”. Revista Anhembi. São Paulo, dez. 1951.
O Candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.