Perfil de João Ubaldo Ribeiro

\Utopia Tropical

O feitiço da ilha do Pavão, novo romance de João Ubaldo Ribeiro, assinala um processo de isolamento geográfico e estilístico do escritor, que encontrou na fantasia e na linguagem barroca a melhor forma de preservar um universo feito de riso e luxúria .

“Um Brasil meio maluco, um Brasil afastado do Brasil mas brasileiro. Eu quis fazer uma utopia. Uma utopia relativa a um lugar que não existe. Fazer um cadinho de Brasil onde o Brasil se desenvolvesse de forma diferente.” É assim que o escritor João Ubaldo Ribeiro, o João Ubaldo, define seu novo romance O feitiço da ilha do Pavão.

Lançado no mês de novembro, o livro nasceu num momento difícil da produção literária de João Ubaldo. Durante os últimos anos, apesar de sua atuação regular como cronista de O Estado de S. Paulo e O Globo (entre outros jornais brasileiros) e de sua participação, por exemplo, no roteiro do filme Tieta do agreste, vários fatores “extra-campo” tolheram-lhe a possibilidade de um envolvimento maior e mais pessoal com um trabalho de mais fôlego, como é um romance. Seu último, O sorriso do lagarto, saiu em 1989, pouco antes de ele sair de Itaparica e viajar para a Alemanha, onde residiria a convite da Deutscher Akademische Austauschdienst, instituição que convida escritores estrangeiros a ficar uma temporada no país.

De volta ao Brasil, João Ubaldo passou por todas as atribulações que invariavelmente fazem parte de uma transferência para outra cidade, no caso o Rio de Janeiro. Foram meses de acampamento temporário. Depois veio a compra do apartamento, a mudança, as obras no piso justamente do cômodo reservado para ser seu escritório e a segunda rodada de obras no piso do seu escritório. Mas, se fosse só isso… Ele teve também problemas cardíacos sérios, que o levaram à internação hospitalar e a uma série de crônicas, a seu estilo altamente confessionais, sobre as dificuldades em largar o cigarro, andar na praia, beber só cerveja em vez de uísque, enfim, sobre as agruras da vida saudável. Finalmente, talvez o ponto mais delicado de toda essa nova fase de sua vida, João Ubaldo foi acometido por uma baita crise da meia-idade, assumida e propagada em várias entrevistas ao longo do tempo. Ele faz 57 anos neste 23 de janeiro.

Na vida profissional, algumas dificuldades suplementares, ainda que as portas da Academia Brasileira de Letras tenham se aberto para ele exatamente nesse mesmo período, em tese o coroamento da carreira de um escritor. Uma dessas dificuldades dizia respeito à imagem que ele criou, ou que se criou à sua volta. Seus leitores não terão dificuldade em saber de que imagem se está falando. Faz tempo que João Ubaldo representa uma evocação da vida em Itaparica. Ele é, por excelência, o escritor largadão, de chinelo e short, que só consegue escrever sem camisa, chegado aos copos e às conversas de botequim, alegre, debochado. Nem a pompa e o fardão dos Imortais conseguiram interferir, aos olhos do público, na pureza da imagem de João Ubaldo. Ele continuou sendo a personificação da espontaneidade e da simplicidade num escritor. Não por acaso seus romances, contos e crônicas são povoados por anti – heróis, que falam demais, que cometem inconveniências terríveis, que perdem o jogo de cintura em determinadas situações, que não se armam preventivamente contra a vida.

E tudo isso é verdade, mas as coisas não são tão simples. De fato ele nasceu em Itaparica, e realmente parte importante das melhores páginas que já escreveu até hoje tem a ilha por cenário. Poucas pessoas lembram, no entanto, e menos ainda, sequer sabem, que João formou-se bacharel em direito, pós-graduou-se em administração pública e ciência política, tendo ganho a vida como jornalista e até professor universitário, vejam vocês. O escritor de alma popular é um acadêmico, em mais de um sentido. Leitor dos clássicos da língua portuguesa barroca, sua grande referência literária, já brincou de fazer copydesk em Shakespeare (ao menos assim reza a lenda), e fala francês e inglês com menos sotaque de baiano do que no português. O homem que vive de soltar a imaginação é um profissional altamente qualificado, que já fez seu dever de casa. O escritor é um pai de família e um cidadão como qualquer outro. Quase todo mundo se esquece disso.

Em fases anteriores de sua carreira, João Ubaldo procurou no romance propriamente regionalista o ponto de apoio para construir sua ficção. Desse momento datam os romances Vila Real, mais politicamente engajado, e Sargento Getúlio. Porém, com o tempo, foi a parcela itaparicana de sua obra que deixou marcas mais profundas na lembrança de seus leitores.

Foram anos e anos de fertilidade literária em Itaparica, de onde saíram os romances Viva o povo brasileiro, O sorriso do lagarto e mais centenas de crônicas sobre os personagens da ilha. De lá João Ubaldo seguiu direto para a Alemanha, onde viveu a ambígua situação de estar numa grande cidade e ao mesmo tempo estar isolado. Quando voltou ao Brasil, em 1992, deve ter sido um desafio considerável morar novamente numa grande cidade de seu próprio país, tanto pelos obstáculos práticos do dia-a-dia, que nós urbanóides conhecemos muito bem, como pela dificuldade em readaptar o João Ubaldo bonachão, o sempre bem humorado de Itaparica, à vida inteiramente incompatível com bonacheirices e bom humor das metrópoles brasileiras, mesmo quando se está numa metrópole que fica à beira-mar.

A faceta da obra de João Ubaldo que mais se conhece, e que faz par com a imagem unifacetada que geralmente se tem dele, está ligada a um universo pitoresco, caricato, de deboche. Tal característica faz de seus livros autênticos herdeiros, se não os únicos, de um dos elementos essenciais do Modernismo, o eixo propriamente dito do herói modernista, Macunaíma, qual seja, a capacidade de rir de si mesmo. Esse diferencial, que já sugeriu o título de Viva o povo brasileiro, é a única coisa, além de jogar futebol, que o nosso povo faz disparado melhor que todos os outros. É a inspiradora dos poucos momentos nos quais nos sentimos superpotência. Mas rir de si mesmo, ao contrário do que se pode imaginar, não é um dom estéril, improdutivo. Ele dá ao brasileiro a capacidade de conviver com o diferente, de fazer o compromisso através do humor, enfim, de ter “um amigo judeu e um umbandista”, como diz João Ubaldo. “Eu penso como Darcy Ribeiro, acho que somos uma bem-sucedida e singular experiência de raças” – continua ele, em seguida alertando: “Mas queremos jogar isso fora”. O alerta faz sentido, afinal, quem, nos dias de hoje, quer ficar rindo? De si mesmo, então, pior ainda. Hoje o que se busca é uma imagem de eficiência a todo o custo, não há muitas brechas para a autocrítica.

Índios bebedores de cachaça, autoridades corruptas, feiticeiras, poderosos idealistas, poderosos corruptos, quilombos subvertidos em reinos tirânicos e escravocratas, impotência masculina, caprichos femininos, sexualidades patéticas, e tudo isso com tintas fortes, sem economizar nas adjetivações, nas ironias pseudomoralizantes, com a língua em festa, pródiga, escandalosa, rindo de tudo e de si mesma, por que não? É assim o novo livro de João Ubaldo.

Mas não é fácil rir desses personagens quando uma versão realista deles nos aparece a cada minuto, pelos jornais, pela TV, ou nos é lembrada todos os dias pela nossa falta de dinheiro, pela miséria nas ruas, enfim, quando se está morando numa grande cidade brasileira. Fica ainda mais difícil quando a imagem e o estilo de vida do escritor são postos em xeque pela vida neurótica que se desenrola à sua volta. João Ubaldo e seus personagens nunca tiveram na cidade o ambiente ideal para seu espírito humorístico. Em toda a sua obra, o único livro que se poderia chamar de romance urbano foi justamente o primeiro, Setembro não tem sentido, quando o escritor tinha menos de vinte e cinco anos. De lá para cá, sempre que pôde, João afastou a si próprio, bem como a suas histórias e personagens, para Itaparica.

Da ilha onde nasceu, quem sabe até da Alemanha, era mais simples enxergar onde está a graça na realidade nacional. De perto, rir é quase impossível. Só se o riso for cínico, destrutivo. O que não é o caso. O riso de que estamos falando é duro amplifica criticamente o motivo de sua existência, mas é compreensivo, interessado pelos desvios de comportamento, pela comunhão com o diferente. Essa disparidade entre o universo cômico de João Ubaldo e o cenário urbano deve ter dificultado a feitura do novo romance em mais de um nível.

Mesmo indo morar no Rio de Janeiro, João Ubaldo continuou precisando se afastar da vida urbana para preservar sua capacidade de rir e a índole espontânea de seu olhar. Foi morar na cidade, mas, para escrever seu romance, foi mais longe do que nunca ao encontro da fantasia. Se antes um refúgio em ltaparica lhe foi suficiente para escrever, agora foi preciso mais. Estando lá, Itaparica pôde ser uma ilha onde a alma brasileira tinha paz para rir dos problemas e criar. Estando no Rio de Janeiro, ou em qualquer outra metrópole, a ilha da felicidade ficou mais longe. É agora um sonho, uma ilha da fantasia, uma utopia geográfica, e seu tempo, sua história, tornam-se apenas possibilidades, em meio a vários outros tempos e fatos, que os feitiços da ilha do Pavão percorrem e oferecem como um leque de opções; e que apenas esses feitiços são capazes de revelar.

Se o isolamento geográfico e mental são elementos importantes na criação de João Ubaldo, também o isolamento estilístico fica patente. A forma adequada ao espírito de sua literatura não será nunca a da maioria dos escritores de seu tempo. Ele nunca receberá os elogios mais vinculados aos padrões do momento, que privilegiam o escritor que atinge a precisão usando o realismo e a economia de linguagem, que ameaçam transformar a literatura num desdobramento dos roteiros de televisão. A dicção urbana não se encaixa em seus personagens e em suas tramas. Também na linguagem que usa está subliminar um isolamento, agora temporal. Ele não escreve como seus contemporâneos. É novamente por meio do distanciamento que enxerga melhor. A precisão de suas caracterizações de personagens e descrições de cenários é atingida fazendo uso da amplificação e do estilo rebuscado, caudaloso. Viva o excesso, a generosidade! “É a minha prosa, a prosa que eu aprendi com Padre António Vieira, Manoel Bernardes. Gosto da língua portuguesa nessa forma”.As primeiras páginas do novo romance são, de fato, a antítese de noventa por cento da prosa que se faz atualmente. É um cenário tropical, de sonho, luxuriante, descrito de forma requintada, barroca, rococó. Frases longas, orações intercaladas, volteios e mais volteios, figuras demoníacas, as forças positivas e negativas da natureza, o bem e o mal, o mistério. Depois, os personagens aparecem e vêm confirmar o anti-realismo, o fundo mítico, arquetípico, de cada elemento do romance. Para muitos críticos atuais, isso chega até a parecer livro infanto-juvenil.

Talvez como reação a isso – e se não o é, bem poderia ser -, João Ubaldo se recuse a pensar alto sobre seus livros. Aliás, ele nega-se a fazê – lo em qualquer circunstância, mesmo com seus próprios botões. Quando perguntado por que está tão distante do estilo dito contemporâneo de escrita, ele não hesita em responder: “Não faço a menor idéia”. Ou, quando caracteriza seu processo criativo, ele diz: “Eu só sento e escrevo. Escolho o título, ponho no papel, e aí continuo, ponho a dedicatória, a epígrafe e começo: Capítulo 1.” Se, no futuro, algum mestrando em teoria literária quiser fazer uma tese sobre sua obra, vai matar o escritor de aflição. Ele é daqueles que não suportam racionalizar sobre o que escreve. Além de negar qualquer planejamento antes e durante a escrita, em sua opinião também “o leitor é um mistério” e a experiência da leitura idem, por conseqüência, o que inviabiliza qualquer teorização. “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só histórias”, diz a epígrafe de Viva o povo. João até hoje se lembra de pessoas que morreram de rir com Sargento Getúlio, justamente seu livro no qual essa índole debochada menos aparece.

O ator cômico fazendo papel dramático, o homem de carne e osso na pele do escritor bonachão. João Ubaldo diz que seus personagens fogem a seu controle, tamanha é a crença no poder criativo da espontaneidade. “Quero matar um e ele não morre. Quero casar um e ele não casa. É rotina. Eu planejo destinos e eles se rebelam.”

A dificuldade em rir da vida numa grande cidade, com a sensação de estar no olho do furacão que é o cotidiano brasileiro, ver as crianças crescendo nesse mundo e se tornando parte dele, como somos todos, tudo isso já era o bastante para enfraquecer o ímpeto criativo de qualquer um. A ilha da fantasia está longe e os obstáculos até lá são muitos. Para alguém que, de um jeito ou de outro, ganhou a fama de avesso à vida urbana e às suas mazelas, pode-se imaginar o sofrimento. Se ainda explode um cano no chão do teu escritório, bom, aí desiste. Tira as calças pela cabeça e pisa em cima. Nem dá para entender como ele conseguiu um novo romance com mais de trezentas páginas!

Perpassando tudo isso, a nova realidade de um escritor importante no Brasil. “Eu escrevia com alegria. Hoje em dia, não sei se escrevo mais. Até porque, esse livro veio tão coberto de pressão, com o leilão das editoras sobre mim, que eu fiquei meio sem graça”.

Essa entrevista vale dizer, foi adiada por mais de um mês, pois João Ubaldo, ao fechar um novo contrato com sua antiga editora, a Nova Fronteira, após o leilão, comprometeu-se a entregar o livro num determinado prazo. Teve que correr para não estourar, super ocupando sua agenda durante todo o mês de outubro.

Ainda em relação à profissão de escritor, ele diz: “Hoje sou escravizado à profissão que escolhi, e que eu queria exercer a minha vida toda. Mas agora eu tenho prazos, tenho multas, enfim, tenho a obrigação de escrever, porque sou escritor. Não é aquela coisa ideal de escrever ao sabor da vontade”, “Escrever para jornal me dá prazer, mas às vezes tenho que escrever uma crônica e escrevo no maior sofrimento. Reconheço que sou um privilegiado, um dos cronistas mais prestigiados do país, e ganho meu sustento com isso. Não me queixo”.

É melhor não se queixar mesmo, pois já vem outro prazo estourando por aí. João Ubaldo tem um livro prometido à editora Objetiva, a mesma de Paulo Coelho. Fará parte de uma série sobre os pecados capitais, cada livro sendo escrito por um escritor mais ou menos consagrado. Os editores, ratificando a imagem que se criou em torno de João Ubaldo, reservaram para ele o pecado da preguiça. O baiano achou desaforo e trocou. Quis a luxúria. “Só sei que vai ser narrado em primeira pessoa, por uma mulher horrorosa”, adianta ele.

Há ainda a idéia de fazer uma nova reunião das crônicas que publica em jornais de todo o Brasil, e, finalmente, o projeto que, por um instante, iluminou o rosto de João Ubaldo durante a entrevista: “Noites leblônicas” (atenção: o autor parece aceitar a variação leblonense), uma coleção de histórias, “que eu espero bem sucedida, sobre o Leblon”.

Nesse caso, além das crônicas rápidas de jornal, é de se esperar para breve uma visita da ficção de João Ubaldo ao cenário urbano. Talvez o ciclo de dificuldades no qual O feitiço da ilha do Pavão foi concebido esteja terminado. Talvez o olhar cômico e a realidade urbana trágica tenham encontrado um novo equilíbrio. Quem sabe seu prazer em escrever retome com esse próximo livro?

Ou então, como ele mesmo diria, tudo isso aqui foi uma teorização inócua. Ter ido à ilha mais distante não quis dizer nada, e ele já está trazendo de volta seus personagens e suas histórias para a cidade onde mora, para o Brasil, em uma de suas caixas de ressonância, e não em suas periferias idílicas (se o revisor tropeçar aqui e sair etílicas, eu mato!).


REVISTA: CULT. Nº. 6
DATA: janeiro de 1998
PÁGINA: 32-39.