Parto

Outra Vida

Uma enfermeira apontou, na cadeira, a pilha de roupas verdes, com direito a touca e máscara cirúrgica. Ela disse “Veste aqui. Vão te chamar”, e saiu, deixando-o sozinho. Ele obedeceu, meio sem jeito; sabendo, alto e grande como era, que as roupas não lhe cairiam bem. De fato: ao desconforto com o lugar, com a situação, somou-se o estranhamento com sua aparência.

Estava num pequeno espaço contíguo à sala de operações, ele e um armário. Ninguém mais passava por ali, só os diretamente envolvidos em cada cirurgia.  No entanto, por uma pequena janela, sua mãe e os sogros o viam da sala-de-espera. Sentia-se abrigado e exposto ao mesmo tempo.

De um lado, fechada a porta, não precisava falar ou interagir com ninguém, acabavam as interferências. Era ele, concentrado, e sua sorte.

Imaginou-se na situação da filha, em seu isolamento de casulo. Pequena explosão de energia, contida numa casca, amadurecendo subterraneamente. Até a vida puxá-la para fora.

Mas, do outro lado da janelinha, devassando-o, estavam os olhos de sua mãe, o juízo dos sogros.

Entre a sala ao lado, cada parente, sua cabeça e a sala-de-parto, haveria um real isolamento? ou algo vago, latente, que atravessava as barreiras de vidro duplo, engolindo portas e corredores, ultrapassava o duelo de cálculo e sentimento? Ele pensou numa resposta. Havia ou não certa única expectativa preenchendo a todos – marido, esposa, mãe, sogros, enfermeiras, médicos –, e conectando os ambientes físicos e mentais?

Naquele preciso momento, sua mãe era a única que se esforçava para estabelecer contato verbal. Só que não era possível ouvir absolutamente nada do que ela dizia através do vidro. Com gestos, o filho sinalizava que não, mas a boca da mãe continuava se mexendo.

“Realmente estive dentro dela?”, ele se perguntou, de repente estranhando o fato de já ter vivido dentro de uma barriga, como um embrião. Era uma não-lembrança científica que sua atual envergadura tornava ainda mais insólita.

Mas a mãe também era outra, muito distante da antiga figura, das fotos do tempo em que estava grávida dele, e de antes (rosto jovem, corpo alongado, cintura fina, de traços delicados, olho brilhando…).

A imagem do pai, imagem com a qual ele próprio era tão parecido, lhe veio em seguida. Tinha consciência de que chegava a ser engraçado, e até espantoso, em dois homens o mesmo exagero de tamanho. Sem falar das semelhanças mais comuns entre pais e filhos, as que moram nos detalhes do corpo e nos traços de temperamento.

E como haviam feito opções muito diferentes, ver, em biografias tão contrastadas, físico e gênio tão perfeitamente refletidos, era como ver a mesma pessoa duplicada no tempo, experimentando coisas quase opostas, ou realmente opostas. Quase impossível para o filho imaginar como era a vida num açougue, e num casamento entre semi-analfabetos. Era tudo muito distante, para alguém que fluiu até os dezessete anos, sempre na escola, sempre estudioso, e depois formado em universidade e pesquisador. Para alguém que gostava mais de aprender do que de fazer, enquanto o pai era, por vocação, um fazedor de coisas. Terminou até mais rico do que esperava, sacrificando a vida para garantir a velhice.

Já o filho, sem saber exatamente que o fazia, sonhou um pouco além. Pegou para esposa uma mulher mais bonita que o normal, e aperfeiçoadora contínua de tudo que a interessava.

O pai produzia a força, que vinha do seu sacrifício; o filho encontrara-a numa mulher, a mais diferente deles dois. Como um pai e um filho, sendo idênticos por dentro e por fora, podiam escolher vidas tão diferentes?

Seu pai não estava lá para o parto da neta, preso entre os dentes da insaciável boca do caixa. Nada a ver com o fato do filho não ter querido herdar seu negócio, ou com a resistência do pai e da mãe ao casamento e às circunstâncias que o haviam apressado. Aliás, mal assumiam essa resistência. “É que foi tudo muito rápido”, diziam, em respeito ao desejo do filho, e engolindo um imenso resto.

Ele se imaginou, reconheceu, pequeno; imaginou reconhecer a mãe de antigamente. Imaginou-a ali, no hospital, com o sentimento por ele que nunca deixaria de ser um refúgio.

A mãe, do outro lado do vidro, mexeu a boca novamente, incentivando-o sem um único som, e dessa vez ele entendeu o que estava querendo dizer.

Os sogros conheciam maneiras mais reservadas, inclusive de incentivo e comemoração. Mas o genro achou compreensível que não tenham, tentado se comunicar através do vidro duplo. Para além da separação invisível, olharam-no todo o tempo. Era, no fim das contas, um casal que não tinha nada senão orgulho de classe e fé messiânica. Este orgulho e esta fé moldavam seus menores gestos, olhares e sentimentos. Eram muito mais rígidos que nos pais dele. E nunca os tinham permitido entender o desproporcional recém-marido da filha, o pai inexperiente de uma neta concebida antes da hora; um moço jovem, inteligente, bom, que se metera com uma… casara com…

Olhavam-no, agora, atarantado, vestido com roupas verdes e apertadas, de máscara cirúrgica na cara sem ser médico, e de touca na cabeça. E não podiam disfarçar uma estranha solidariedade, por julgarem-no perdido pelo amor de sua juventude.

Do outro lado, sozinho numa sala fechada, ele devolvia os olhares.

A mulher já devia esperá-lo, mais fundo nos corredores de portas grossas e com janelas à prova de som. Sob cuidados médicos. Anestesiada, talvez.

Ele achou melhor sentar. Roeu a primeira unha. Quando viriam chamá-lo? Quando o tirariam da expectativa e o levariam para junto dela? Olhou os sapatos. Um pé, o esquerdo, estava sujo, pois chovia lá fora e ele pisara na grama ao ajudar a mulher a sair do carro, fazendo a terra mole agarrar na sola. Não iriam pedir que tirasse os sapatos? E os germes? Lembrou-se de uma história que tinha ouvido falar, em que um casal – ele professor de música, ela, de artes – teimou em negar sua condição e resolveu ter o filho em casa, num parto de cócoras, igual ao dos índios que nunca haviam sido. O maestro cortou pessoalmente o cordão umbilical, usando suas próprias mãos e uma tesoura. Horas de muita felicidade, até o bebê morrer, dias depois, de septicemia, tendo a infecção começado na região do umbigo.

E então?, as enfermeiras não iriam pedir que tirasse aquele sapato sujo? Deveria entrar de meias? Não teriam chinelos especiais?

Ele balançou a cabeça, pequena em relação ao corpo, afastando os maus pensamentos. Fez o sinal da Cruz – “Pai-Filho-Espírito Santo” –, a única forma que lhe ocorreu de neutralizar a lembrança do bebê assassinado, embora nem ele nem a mulher acreditassem tanto assim em Deus. Reagiam à crença intransigente dos pais dela e à beatice mais frouxa porém não menos assídua da mãe dele, no fundo impregnados de ambas contra sua vontade.

Do outro lado do vidro duplo, a mãe e os sogros perceberam que algo de ruim lhe havia passado pela cabeça. Ele disfarçou.

Numa prateleira, viu pantufas elásticas. Viu também um pacote de gaze, em meio a outros apetrechos cirúrgicos. Com a gaze enxugou a sola molhada – a mãe e os sogros assistindo –, e aí cobriu os sapatos com as pantufas. Estas, esticadas nos dois imensos pés a ponto de arrebentar, significavam limpeza garantida. A antiga tragédia sumiu da lembrança e o futuro com a mulher e a filha se abriu diante dele.

Começou a roer uma segunda unha. Encarou as pantufas em volta dos sapatos; divagou…

“O que você está fazendo aí?”, outra enfermeira chegou perguntando. Atordoado, não conseguiu responder. “Já começou”, ela disse. Mas  ele continuou sem falar, surpreso. “Que espécie de pai…?” Não o haviam chamado, fôra esquecido, mas sentiu-se responsável por isso.

A enfermeira, uma velha gorda, guiou-o pelos corredores, de má-vontade e apressada, enquanto ele acompanhava-a, derrapando com as pantufas no assoalho.

Quando finalmente entrou na sala de cirurgia, a barriga da mulher já estava aberta. Seu medo não conteve o impulso do olhar, puxado para dentro de um buraco, entre camadas de tecido e carne encharcadas de sangue. Mas não viu muita coisa lá dentro, apenas o escuro. Viu bem os dois ganchos mordendo a mulher, puxando para cima, até a altura do abdôme, a pele em volta do corte pubiano. A pele que, meio amarelada, estava no limite da sua elasticidade natural, rendida à violência calculada dos ganchos; a lógica da operação sendo a de que o corpo lutava contra o nascimento do bebê.

O obstetra, concentrado, tendo cada mínimo movimento das mãos seguido e cientificizado pela equipe, nem levantou a cabeça quando a enfermeira entrou guiando o pai retardatário. O anestesista, postado junto aos aparelhos atrás da cabeça de sua esposa, num primeiro momento olhou intrigado para aquele homem tão alto e tão grande, mas logo entendeu de quem se tratava.

A mulher, ao vê-lo entrar, pediu que se aproximasse. “Como ela pode não sentir os ganchos?”, ele pensou, hesitando em contornar a equipe em volta da mesa de cirurgia.

“Não!, não!”, exclamou o médico, que barrou sua passagem com o braço, de bisturi na mão.

O pai da criança, vagaroso, acostumado a ceder sua vez aos outros, a ser tranqüilo, a não brigar por medo de que o acusassem de covarde, deu meia-volta em silêncio, indo para junto dos pés da mulher.

Reparou numa bacia entre as pernas dela. Via de perto, de frente, sua barriga aberta, o buraco escuro, pródigo e assustador, as luvas de plástico do médico, entrando e saindo lá de dentro, sujas de sangue. Via os instrumentos sem vida, esterilizados, e a pele repuxada nos ganchos, abrindo-lhe um sorriso amarelo.

Num segundo plano, trocava olhares com a mulher. Ela o interrogava, nervosa, desejando sair logo dali. Ele, paralisado pela emoção, não chorou e nem desmaiou ao ver todo aquele sangue. Simplesmente ficou lá, registrando cada imagem.

No único instante em que se moveu, minimamente, esbarrou com o braço na bandeja dos instrumentos. O médico, interrompido pelo barulho, de novo sem nem desviar os olhos do que fazia, repreendeu-o por baixo da máscara, com uma rispidez abrupta, concisa e um pouco humilhante até.

O médico, um sujeito baixo e infinitamente mais fraco, abusava da autoridade científica como um cachorrinho de madame que late para um cachorro de rua. Era um exímio leitor de ultrasonografias, com diploma em outra língua, recém-tirado, que dominava inclusive tratamentos sofisticados de fertilização. Sua figura empertigada, sua covardia social, usaca contra alguém feito aquele pai, com tamanho para humilhar qualquer homem em qualquer lugar, causava em sua vítima uma antipatia extra, reforçada pela grandeza de quem concede em não usar suas armas, legitimada pela indignação de ver outros usando sem cerimônia as que têm, e pelo ressentimento de quem não usa armas por medo da própria agressividade.

Finalmente o pai ouviu o estouro jorrado da bolsa, uma bolha explodida de água quente e grossa que brotou do buraco na barriga da mulher e se alastrou, escorrendo para a bacia entre suas pernas. As duas mãos do médico entraram com decisão mais fundo no buraco aberto, no escuro dentro dela, e o marido sentiu como se fossem atrás do coração. Imaginou que o veria batendo diante de seus olhos, arrancado por baixo.

Do escuro, porém, saiu uma voz animal. Crua, intacta, mas que ecoou; ficava para depois saber se era o rugido de uma onça ou o canto de um passarinho.

As luvas de plástico tiraram da barriga sangrenta uma forma frágil em movimento, um buquê vivo de carne e pasta vermelha, cuja pele era tão fina que o sangue parecia brotar através dos poros, como dos olhos e das mãos das imagens milagrosas de santos e santas da igreja fenomenalmente material de seus pais (muito distante da fé asséptica dos sogros, porém mais próxima do que ele via ser o mundo).

Sua única filha estava ali. A segunda parte da vida começada. Ele queria agradecer, mas não sabia direito como, nem a quem. Limitou-se a assistir, nada podendo frustrá-lo. A menina não ficou de cabeça para baixo, não levou a palmada clássica, e tudo foi diferente quando ela nasceu. “Ótimo.” O médico não lhe sugeriu que cortasse pessoalmente o cordão; não coube a ele esterilizar a tesoura com álcool, ou no forno da cozinha; o sangue esparramado significou o contrário da morte. E aquele choro seria o que fosse, sem nunca deixar de ser uma ordem viva. “Melhor ainda.” Nenhum cabelo escondia a pulsação visível na parte mole do alto da cabeça do bebê, o coração batendo no cérebro.

O médico, segurando o bebê na horizontal, com uma mão entre a nuca e a cabeça, e outra na bunda, exibiu a filha aos dois; à mãe primeiro, então a ele. “O mesmo gesto de mostrar as peças de carne aos fregueses”, o pai se lembrou, pensando no seu pai, e reparando que até as luvas do médico eram parecidas com as do velho açougueiro. Mas num estalo a comparação o deixou horrorizado. Ninguém assa, fatia ou come os próprios filhos.

O obstetra pôs o bebê nos braços de uma das enfermeiras, que se dirigiu à pequena extensão lateral da sala-de-cirurgia. O pai aproveitou o momento para ignorar as ordens e ir até a esposa. Uma forte impressão de felicidade tomou conta deles; as mãos entrelaçadas, como dois ímãs se grudando, o beijo, o transtorno de alívio nos olhos.

“Você não vai ver?”, perguntou o médico ao pai, em tom de desafio, com a boca ainda mexendo debaixo da máscara. O pai o encarou. Em relação àquele homem, fizera questão da formalidade total desde a primeira consulta a que comparecera, de gravata, pois queria muito respeito de um homem autorizado a botar a mão na sua esposa, na sua frente. Só a determinação da mulher, que para o parto da filha exigira o melhor, explicava o fato de ele e o tal obstetra estarem juntos naquela sala-de-cirurgia.

Mas foi sim atrás da enfermeira, assistir às limpezas e aos testes de praxe. De saída, uma gota de sangue foi arrancada do calcanhar da bebê e espremida numa ficha hospitalar. Seus olhos foram examinados, seu coração. Uma tira de plástico flexível, lacrada em volta do pulso minúsculo e enrugado, foi a primeira marca artificial de identidade imposta a sua filha. Todos esses pequenos atos sugeriram a ele rituais de antigos significados, batismos físicos e também fórmulas de comunicação com o mistério ao qual padres e pastores e sacerdotisas e xamãs e pajés e enfermeiras e médicos têm acesso privilegiado, mas que nenhum ser vivo pode realmente transmitir.

Após embrulhar a recém-nascida em uma manta branca, a enfermeira passou-a para os braços do pai. O bebê já chorava menos; seus olhos, pequenos rasgos gelatinosos, tinham uma expressão embaçada, provavelmente pela adaptação ao ar e pelo susto de ter nascido. O primeiro olhar entre pai e filha foi como o de dois seres de planetas diferentes, querendo por telepatia identificar a inclinação de seus espíritos.

Por um momento, quando a menina se mexeu em seus braços hesitantes, ele lembrou de, criança, segurar um besouro na palma da mão fechada, e sentir o bicho lutando, com seus fortes músculos miniaturizados, aos quais você deseja apenas conter, jamais ferir, e que forçavam a jaula de suas impressões digitais,.

“Pode beijar?”, o pai perguntou para a enfermeira, receoso, até que ela, estranhando a pergunta, sem dizer uma palavra, aquiesceu. O pai lembra que beijou – embora não lembrasse mais o sabor exato daquele beijo, lembrava muito bem do cheiro, doce, forte, úmido –, e depois foi com a filha nos braços até a esposa, que naquele momento pedia ao anestesista um remédio para dormir.

“Você quer pegar?”, ele perguntou.

A mulher olhou para a recém-nascida, sem levantar a cabeça do encosto da mesa cirúrgica:

“É normal?”.

Ele tomou um susto com o tamanho da pergunta. Paralisado diante de um abismo, respondeu que sim, recriminando-se por não ter perguntado isso antes. A mulher então encaixou a mão delicada e espalmada no crânio pulsante da filha.

“Preciso descansar”, ela disse.

O pai entendeu, mas estranhou. Era impossível que não sentisse a agulha e a linha costurando-a em camadas; frias intermediárias entre a vida e o mundo e a morte.

[Esse conto foi escrito entre as décadas de 1990 e 2000]