Os desencantados
Universo em desencanto
O desemprego, quando se prolonga, é capaz de verdadeiros prodígios. Primeiro, claro, pela falta de dinheiro que o acompanha. Em seguida, pela culpa que sente o desempregado. No meu caso, o desespero foi tanto que me pûs a trabalhar por minha conta, de graça, fazendo traduções. Assim, pelo menos eu me sentia minimamente produtivo.
Isso foi há mais de dez Anos. Não sei se cometeria um desatino desses hoje em dia.
Traduzi Os Desencantados, de Budd Schulberg, nessa época. Foi uma tradução difícil de fazer, porém foi mais difícil ainda ver o livro publicado, interessar uma editora pelo projeto, contactar o autor e contratar os direitos de tradução, e encontrar dois parceiros que, igualmente sobretudo, apaixonados pelo livro, se dispusessem a terminar comigo a trabalheira sem fim. Correia de Franca Neto e Alexandre Barbosa de Souza; um, premiado tradutor de Joyce e Coleridge, traduziu o último terço do livro; o outro, tradutor, entre outras coisas, de Katherine Mansifield, reviu cada frase e deu ao texto a uniformidade necessária.
Mas nada disso foi um sacrifício, porque o livro me atraía, e me atrai, por vários ângulos. Gosto, por exemplo, da biografia do autor. De queridinho da indústria cinematográfica – filho de um produtor importante, jovem, talentoso, socialmente consciente – Schulberg virou um morto-vivo. Rompido com os comunistas por ter se recusado a fazer alterações num de seus romances, ele piorou a situação no tribunal macartista, ao se defender da acusação de comunista entregando os nomes dos “ideólogos” que o haviam tentado censurar. Caiu em desgraça no meio artístico politicamente correto e vive até hoje tendo de se explicar.
Também gosto da maneira como a biografia do autor e o enredo do livro se misturam. Assim como o personagem de Shep Starns, um jovem aspirante a roteirista, Schulberg também foi assistente de um roteirista/escritor especial, o já consagrado, e já decadente, Scott Fitzferald,. Que no livro se chama Manley Halliday.
E gosto, claro, da história do livro em si. O personagem de Halliday é de um realismo doloroso e comovente. O completo herói trágico, que só se agüenta de pé escorado nos seus grandes feitos literários do passado. Que reconhece ter banalizado o próprio talento, ao dá-lo como garantido e dissipá-lo em verborragia etílica. E que, portanto, se arrasta em cena, como um rei Lear sem a fúria, só com a melancolia. Desperdiçou seu dote e agora não controla ninguém, nada, incluindo o próprio corpo estragado.
Talvez a presença marcante de Halliday explique o fato de um tradutor do livro tê-lo intitulado no singular: “ O desencantado”. Embora o inglês permitia a hipótese, a forma plural é mais correta. Além de ser um livro sobre uma época de desencanto, os anos 30, há um segundo protagonista “desencantado” na história, o assistente Shep. Ainda jovem, ele já está desiludido com a indústria em que trabalha e com a falta de perspectivas, ou pior, com as perspectivas de uma nova Guerra Mundial.
Acompanhando o velho rei melancólico, que arrasta seu manto empoeirado pelo chão, Shep respira a poeira que sobe, ora com veneração, ora com asco. Se Halliday é um personagem trágico, e por isso tão humano, a humanidade de Shep vem da ambivalência de seus sentimentos em relação ao ídolo de juventude e à época que ele personifica. Shep o ama, porque encarnou o sonho de uma geração e personificou suas ambições pessoais. Mas o odeia pelo fracasso histórico e pela repugnante decadência física. A humanidade de Shep vem também da sua impotência. O assistente, que deveria impedir a realidade de fugir ao controle, logo vê que não há outra coisa a fazer a não ser assistir, literalmente, à derrocada final.
O livro, em última instância, é sobre os dilemas estéticos, éticos e pessoais de quem está envolvido em alguma atividade criativa. Ambos dariam o braço direito para atingir a excelência artística. Um, porém, sabe que nunca mais será jovem novamente e que o mundo mudou. O outro suspeita viver num tempo em que os gênios artísticos não existem mais. O imponderável, e as infinitas circunstâncias históricas e biografias que produzem uma obra-prima, parecem conspirar contra os dois.
“ Somos, para os deuses, como moscas para meninos travessos, eles nos matam por pura diversão”, diria-se na peça de Shakespeare, e a frase também caberia aqui, na boca desses dois desencantados.
P.S.: Agora vocês entendem o meu estado de espírito na época do desemprego…
[2006]