O tempo | Vista do Rio
JORNAL: O Tempo – Belo Horizonte
DATA: 06 de março de 2003
SEÇÃO: magazine/livros
PÁGINA: C3
“Vista do Rio”, um romance contundente
Rodrigo Lacerda criou história complexa sobre a invisibilidade e a indeterminação.
|| FRANCISCO DE MORAIS MENDES
“Minha vida é assim. Tem nexos estranhos…”. Esse verso, que fecha um dos poemas da adolescência de Marco Aurélio, narrador de “Vista do Rio”, do carioca Rodrigo Lacerda, pode ser tomado como síntese de um romance que se organiza em torno de nexos instáveis, móveis, dentre eles os da natureza e da cultura. O Marco Aurélio maduro vai logo avisando que, em alemão arcaico, os verbos “ser e construir” eram um só.
Os nexos organizados (ou construídos) pelo narrador tomam várias formas: a da história da amizade de Marco Aurélio e Virgílio: a da, autobiografia “minimalista” do narrador cujo desejo sempre foi de ser um “realista suave”, e que tem pontos de contato com a biografia do, autor do romance; a forma de um ensaio admirável sobre o edifício Estrela de Ipanema.
Ensaio, história, ficção e biografia tornam-se em ‘Vista do Rio” uma túnica massa, embora conduzida de forma fragmentária pejo historiador(por formação) Marco Aurélio. Ele abandonou a História porque a maconha destruiu sua capacidade de memorizar e porque as próprias referências da história clássica quando ele chegou à faculdade, tinham sido “descartadas” em favor da Escola dos Annales da Nova História.
É na fronteira entre “a perfeição natural e a instável ordem urbana” do Rio do Janeiro que se ambienta “Vista do Rio”, Natureza e cultura aí estão em evidência e embate do princípio ao fim. O romance se inicia com um beija-flor colocado dentro de um liquidificador. Pelas mãos de Marco Aurélio e Virgilio meninos. Termina com Virgílio adolescente sobrevoando o Rio de Janeiro de asa-delta não propriamente um triunfo de qualquer dos pólos, mas um dos poucos momentos de comunhão entre cultura e natureza. Mas esse sobrevôo justapõe-se narrativa, pois não é exatamente nele que a história termina. É também instável a organização dos fragmentos, com saltos, recuos e avanços
À luz do edifício Estrela de Ipanema (“Prudente de Moraes 715 entre Montenegro e Joana Angélica), nasceram o bairro a cidade e mundo para o narrador Marco Aurélio e seu amigo Virgilio. O edifício foi para os meninos um preceptor “antenado, veloz e cosmopolita”, marcado por uma arquitetura de linhas retas, ângulos arrojados. firmeza e elegância “diferente dos prédios que abusavam do moderno e da natureza antes de dominá-los por completo”. O Estrela de Ipanema era mais que um projeto de arquitetura premiado, era “um sonho para o país, o futuro prometido.”
Nesse espaço de perfeição e firmeza, Virgílio assiste, criança ao ato de transgressão (natureza x cultura) dos personagens Jairo e Miguel, também fundidores de uma narrativa cujo centro se desloca todo o tempo. A decoração do edifício seus jardins e espaços revelavam além de personalidade própria, uma finalidade. “As mini -cachoeiras eram a prova de que o Estrela de Ipanema apostava em seu controle sobre a natureza. Já nasceu dominando-a e usando-a como um adereço um enfeite dócil, subordinado à criação humana”.
Nesse edifício convivem a elite endinheirada e porteiros, domésticas, motoristas nordestinos, um micro-cosmo do país, e um futuro acenava para todos ou apenas dava adeus – a memória fulminada pela maconha distinguirá com ,exatidão entre um gesto de outro?
Mas essa memória tem diretos e privilégios. Tem o direito de tomar emprestado a outros o que lhe faltar, o que lhe escapar e o privilégio de construir a narrativa, no caótico mar de vozes, de sons, do burburinho da cidade. Assim o narrador reconstrói a história de uma épico recentíssima, os 30 últimos anos do século passado e a biografias dele – sujeito pacato, branco, voraz questionador, e de Virgilio – negro de olhos verdes, adotado pela tia do narrador.
Todo o barulho de motores efeito de maconha é permeado por um tom de (voz e cor) melancólico. O declínio do Estrela de Ipanema é o declínio do sonho de mais uma geração, pois incorporam-se ai os sonhos do pai de Marco Aurélio, homem solitário com um copo de uísque e um livro na mão. Um dia, o pai atirou um copo à parede. Como o copo, nesse romance ninguém cai em silêncio.
“Vista do Rio” é a voz da literatura que traz entre vários saberes o que anuncia que até o momento “os únicos que souberam sonhar o Brasil foram os portugueses”, Digam o que disserem. O saber da literatura é aquele, que desarticula, os saberes constituídos, que traz a instabilidade para o campo das certezas. O historiador sem memória é encharcado de história, articulada em seus nexos estranhos, E é de Virgilio a voz que se levanta em meio ao mais violento embate entre cultura e natureza, a Aids. Em qual desses pólos ela é produzida? Não há resposta fechada para esta questão qualquer resposta será instável.
A capa de Vista do Rio reforça o embaralhamento desses dois pólos. A uma primeira vista para olhar comum, sugere a paisagem uma mata (vista de uma asa-delta?) com uma árvore estilizada se destacando contra o céu. Para o olhar armado de um especialista, ou de quem buscar informações sobre a estampa a resposta é outra, e o bucólico se torna assustador: trata-se da imagem do vírus HIV brotando de um linfócito.
Se há algo que dá estabilidade a este romance é a sua escrita. O mundo caótico e desarticulado é traduzido numa escrita a que não faltam momentos de poesia: “O pássaro nunca poderia ter imaginado. As flores eram de plástico a água, adoçada artificialmente, a sombra, armadilha; seu mundo inteiro o traiu”. A escrita de Rodrigo Lacerda é instável enxuta contundente. É nela que o instável pousa para ser apreendido, levando o leitor, sem adoçantes artificiais e sem armadilhas, a uma surpresa atrás da outra.