O primeiro amor de João Antônio: Malagueta, Perus e Bacanaço
O primeiro amor de João Antônio
|| Rodrigo Lacerda
O primeiro filho, o primeiro amor,
o primeiro livro. Eu gosto das coisas da minha
juventude, que são insubstituíveis.
João Antônio
Malagueta, Perus e Bacanaço ao ser lançado, em 1963, causou impacto na cena literária brasileira. Aos 26 anos, seu autor foi imediatamente lido como herdeiro de uma importante tradição. Um crítico de Pernambuco, atento ao que se passava mais ao sul, caracterizou a essência da vertente literária a que pertencia o jovem escritor: “Na linha de um Manuel Antônio de Almeida, de um Lima Barreto, de um Alcântara Machado, de um Mário de Andrade, de um Marques Rebelo, de um Gastão de Holanda. Nomes muito diferentes, mas que são marcados por preocupações semelhantes: as vias da existência que podem oferecer as cidades com seu tumulto de lugares e gentes, embora que sob diversas perspectivas”.
Mas, para a literatura de São Paulo, e para os críticos de São Paulo, cidade onde o jovem escritor nascera, crescera e vivera até então, João Antônio era uma glória própria. A tradição a que o ligavam era bem mais restrita. Seu livro marcava o fim daquilo que consideravam uma certa sub-representação da capital paulistana na literatura brasileira. A linhagem nobre fundada pelos primeiros modernistas há muito não encontrava herdeiros à altura. Segundo um dos resenhistas da época: “Falta a São Paulo o romancista urbano que explore a cidade, seus prédios, bairros proletários, costumes, contrastes e maneiras de falar. O crítico paulista olha quase com inveja o Rio de Janeiro de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto e Marques Rebelo. Como consolo, só lhe resta Antônio de Alcântara Machado. (…) João Antônio, com seus malandros e bairros proletários, firma-se como um escritor de sua cidade, maduro e realizado”.
Outro resenhista bate na mesma tecla: “Todos aspiram a cantar a sua terra. E há mil maneiras de cantá-la. Em tom de louvação ditirâmbica, como o fizeram os românticos, com certo sentimentalismo marcado de humor, ver Antônio de Alcântara Machado ou Mário Neme, ou simplesmente com amor, a desculpar-lhe as fraquezas, e é o caso de João Antônio em seus contos intitulados Malagueta, Perus e Bacanaço”.
E um terceiro ecoa: “Um romancista da cidade, dos bairros, dos tipos, dos costumes peculiares, São Paulo não tinha. (…) Hoje para citar um intérprete da vida paulistana, temos que recorrer a Antônio de Alcântara Machado. (…) E no mesmo tom monocórdico anunciamos sempre o escritor de talento que cita uma ou outra rua de S. Paulo no seu romance, como uma promessa do romancista da cidade, que tanto esperamos. E as promessas têm falhado. Mas no caso de João Antônio podemos afirmar, mesmo que permaneça neste livro Malagueta, Perus e Bacanaço, que São Paulo tem seu romancista, que São Paulo pela primeira vez surge dramaticamente na expressão acanhada de seus bairros afastados, na promiscuidade de sua aglutinação central, no traço convincente de seus personagens típicos e na contribuição lingüística de sua fala particular”.
Não era pequena, como se pode ver, a responsabilidade que recaía sobre os ombros do escritor estreante, redator em uma agência de publicidade, a pouco célebre Pettinatti, de origem humilde, filho de imigrantes portugueses residentes em Presidente Altino, sub-distrito de Osasco, de pai caminhoneiro e proprietário de botequim, de mãe dona-de-casa semi-analfabeta. E esse peso todo aumentava ainda mais, quando, ao ser comparado a Antônio de Alcântara Machado, a crítica era unânime em apontar a superioridade de seu livro. Um exemplo rápido:
“E sabemos agora, passado o impacto da renovação modernista e do entusiasmo fácil pelo novo, como são caricatas e anedóticas as histórias de Antônio de Alcântara Machado. (…) João Antônio não é um cronista, um repórter, um simples narrador de fatos verdadeiros. É um escritor, comprometido com seus personagens, entranhado nas suas peles, nos seus sentimentos. Já não era este o caso de Alcântara Machado com os ‘italianinhos’”.
Primeiros contos
Todo esse sucesso começara a ser gestado nove anos antes, quando o conto chamado “Um preso”, assinado João Antônio Ferreira Filho, foi publicado num jornal da cidade. O autor tinha dezessete anos. Estudava de dia, trabalhava à noite para ajudar a família. Entre 1955 e 1960, passaria a escrever regularmente. Escrevia seus contos e enviava-os a críticos, escritores, bem como às redações de jornais e revistas, então bastante receptivos aos textos ficionais. João Antônio fazia contatos, e ia faturando prêmios . Nesse meio tempo, concluiu o segundo grau e partiu para a faculdade de jornalismo, na Escola Casper Líbero. Praticamente interrompeu a faculdade para servir o exército, voltando depois para concluí-la. Desde cedo, trabalhara como boy de um frigorífico, contador e bancário. Agora, universitário com habilidade para escrever, ganhava a vida como redator publicitário. Sempre trabalhando de dia e estudando à noite. Por outro lado, foi também dos dezesseis aos vinte e poucos anos que João Antônio reencontrou a boêmia que o alegrava quando ia às rodas de choro com o pai, exímio tocador autodidata de cavaquinho. Mas sua boêmia de adolescente era outra, menos ingênua que a da infância. Tinha cigarros, tinha conhaques e cervejas, tinha as mulheres da Boca do Lixo, suas primeiras namoradas, e tinha as mesas de sinuca, com sua fauna própria, a alta malandragem paulistana. Pesando os prós e contras de adolescência tão intensa — a má vontade com que prosseguia nas conquistas escolares e profissionais, o entusiasmo com que se lançava ao mundo noturno e a seus sortilégios –, pai, mãe, avó e até o irmão mais jovem eram unânimes em dar a João Antônio o papel de ovelha negra da família.
Certo dia, durante esse período, um automóvel tipo Studebaker, cinza, solene, estacionou em frente a uma pequena casa no pobre e distante subúrbio de Vila Anastácio. Na verdade, o primeiro andar da construção abrigava o boteco do pai do jovem João Antônio, morando a família no andar de cima. Aparecer por ali um carro daqueles, modelo americano, já seria suspeito. Mas foi quando de dentro do automóvel saíram quatro homens de terno, engravatados, que o pai de João realmente ficou preocupado. Esperou-os se aproximarem do balcão. Procuravam um tal sr. Paulo Melado do Chapéu Mangueira-Serralha. O velho João Antônio, supondo que só podia ser mais uma das confusões do filho rebelde, abaixou a cabeça, entre envergonhado e temeroso, e perguntou: “Os senhores são da polícia?”. Não eram. Susto geral quando os engravatados se apresentam escritores, jornalistas e editores, interessados em conhecer o autor dos contos que haviam recebido recentemente pelo correio, com aquele estranho pseudônimo. O líder do grupo era Ricardo Ramos, filho do mesmo Graciliano que vinha ser um dos escritores preferidos de João Antônio, uma das influências perceptíveis nos primeiros contos que vinha escrevendo. É então chamado à sala o “sr. Paulo Melado”, que, aliás, estava de ressaca, e foi a vez dos quatro engravatados se assustarem, ao ver que não passava de um jovem girando em torno dos vinte anos!
Lembra João Antônio: “Corria um tempo em que escrevia à mão e dizia o texto em voz alta. Depois, só depois, bem mais tarde é que passava à máquina, na limpeza e na pureza. Não me entrava na cabeça alguém escrever diretamente. Se aquilo era me curtir e recurtir, sofrendo e sugando como quem extrai a vida. Lambendo e brincando, uma a uma as palavras, atento, embalado, amante — do jeito, do sestro, do desenho, sonoridade, sensualidade, doçura, porrada, murro, cipoada e suor particular de cada uma das palavras”.
De fato, a estratégia de enviar seus contos a críticos e aos jornais dava certo. Entre vários contatos que o jovem escritor conseguira fazer, destacavam-se, no Rio de Janeiro, o genial Paulo Rónai, tradutor, ensaísta e erudito polivalente; em São Paulo, o crítico e escritor Mário da Silva Brito, também envolvido no mundo editorial, e o já mencionado Ricardo Ramos. Eles foram, efetivamente, os três padrinhos literários de João Antônio.
Os contos que tanto impressionaram àqueles experientes homens do meio literário eram, não por acaso, os de abertura do futuro livro Malagueta, Perus e Bacanaço. A Rónai o jovem escritor chamou a atenção com “Fujie”, vencedor, em 1958, de um prêmio da revista A Cigarra, do qual o outro jurado fora o parceiro histórico de Rónai, Aurélio Buarque de Holanda. Ricardo Ramos publicou, em poucos meses, pelo menos três contos de João Antônio em sua página de literatura: “Fujie”, “Retalhos de fome numa tarde de G. C.” e “Natal na cafua”, tendo este vencido o concurso de contos Edgar Cavalheiro. Mário da Silva Brito, por sua vez, abriu as portas na imprensa para “Busca” e “Frio”. Foram Mário da Silva Brito e Ricardo Ramos, inclusive, que, em 1959, argumentaram que seu nome era muito grande, convencendo-o a assinar somente João Antônio. Seus contos foram publicados em outros veículos, por outros editores, mas a dívida do jovem escritor para com esses homens é patente na própria primeira edição de Malagueta, Perus e Bacanaço. A orelha é assinada por Mário da Silva Brito, o livro é dedicado a ele e a Paulo Rónai, e a editora é a mesma Civilização Brasileira, na qual Ricardo Ramos tinha grande influência.
Fogo nos originais
O conto longo “Malagueta, Perus e Bacanaço” começou a ser escrito provavelmente em 1959. A versão final, que seria publicada anos depois, é na verdade resultado da fusão e da ampliação de dois contos que tinham a ética da sinuca como pano de fundo, os bares e bilhares de São Paulo como cenário, e os malandros que João Antônio de fato conhecia como personagens. Foi entre 1959 e 1960 que João Antônio deu a forma final à história-título de seu livro.
Escreve ele, na época: “Amo. Malucamente adoro três vagabundos numa noite paulistana com suas misérias, camaradagens e um relógio de pulso. (…) É nessa batida o conto. Vai num intenso rebolado em que Bacanaço é rufião, Malagueta é um trapo e Perus, um menino. O drama é de Perus, coitado. Sozinho no meio dos outros, ilhado, fazendo as coisas por fazer. Bacanaço é um safado e Malagueta é um cínico. (…) Entra um naco de filosofia no conto e são apresentadas várias personalidades típicas da baixa malandragem — o patrão, o trouxa, o gaiato, as piranhas. Bem, Estou falando de alguma coisa que ainda não fiz. E isto não é bom”.
Mas seu entusiasmo pelo projeto era incontornável: “Bato-me na faina de explicar o que se passa na alma de três sujeitos que você conhece pelos nomes: Malagueta, Perus e Bacanaço. Os safados andam irrequietos na fala, nos gostos chinfrins e teimam sempre em esconder alguma coisa. Vivem fingindo e domá-los é um custo. O conto anda pela décima terceira página datilografada em papel ofício, não sei se trinta páginas darão para abrigar aquele mundo. (…) O conto está ainda em estado de ebulição”.
Pelas cartas que escreveu, vê-se que de fato ele parecia “viver” o conto: “Malagueta, meu faixa, meu velho engenhoso como encardido, para que tanto me judiar? O que, Malagueta, se esconde nesta sua cabeça, que eu não sei como conto? Que é essa ruga aí no canto da boca, Malagueta? (…) Perus é tímido, mas genioso como ele só. Coitadinho. Sempre fugindo. Viva Bacanaço, que é o mais fácil de todos! Cáften sem-vergonha. Mas um pelo outro, são três terríveis. Três piranhas. Domá-los, João Antônio, domá-los”.
O trabalho foi intenso, e em julho ele considera ter chegado ao fim: “Creio em ‘Malagueta, Perus e Bacanaço’. Como em tudo que escrevi, creio nos meus vagabundos. (…) Tenho a certeza humilde, quieta e grandiosa de que estou diante de uma obra de arte, e minhas mãos, meu coração, meu todo pulsar de vida carregam uma enorme responsabilidade”.
Embora ele dissesse que “desde muito cedo descobri que se não escrevesse, a vida não teria sentido”, também é verdade que ao longo do processo de composição destes primeiros contos sua vocação literária ganhou novas dimensões. Eventuais interesses paralelos, pelo cinema de arte, pela fotografia, pelas aulas de literatura que freqüentava como ouvinte na faculdade da rua Maria Antônia, foram inteiramente ofuscados; as atividades profissionais cotidianas, de qualquer natureza e com destaque para o emprego de redator publicitário, por sua vez, tornaram-se manifestações variadas de um mesmo suplício, ao qual se entregava por absoluta necessidade de sobrevivência financeira.
“Porque só escrevendo sou inteiro. Tudo é meu, então. Resta-me este grande bem — eu seria um homem que escreve ali, além, na Bahia, no Indostão. Se não escrevo, não sou ninguém. Se não amar o que escrevo, não escrevo. É uma a minha vontade e um, o meu propósito — não permitir que nada me afaste da literatura. Nem profissão, nem mulher, nem nada. Eu sou obrigado a fazer aquilo de que gosto. E o dia em que não amar a vida, não querê-la e não retê-la, gostaria da morte. ‘Sem aviso prévio’ — como canta Carlos Drummond de Andrade.”
No dia 12 de agosto de 1960, porém, viria o teste mais duro para sua determinação de se tornar escritor. Um incêndio, provocado por um ferro elétrico, destruiu a casa de sua família em Presidente Altino, para onde haviam retornado após Vila Anastácio. Junto com a casa, o fogo destruiu todos os pertences de todos os membros da família, entre eles as versões mais recentes de “Malagueta, Perus e Bacanaço” e a máquina de escrever que João Antônio economizara para comprar.
A tragédia desbaratou de vez os Ferreira, perseguidos desde sempre pelas mudanças de casa, provocadas pelos repetidos insucessos profissionais de seu chefe, o pai do escritor. Dessa vez, o irmão foi parar na casa da avó materna, os pais, num alugado na Barra Funda. Todos com a roupa do corpo.
“Quando vi o incêndio,” — relembra João Antônio –– “simplesmente perdi a fala. Aí então, começamos a ter todos os problemas de sobrevivência. Foi uma luta braba que dividiu a família. Depois do incêndio fiquei muito traumatizado, a ponto de não poder entrar em livrarias”.
Ele próprio passou um bom tempo sem residência fixa, na casa de amigos de boêmia, de sinuca, com namoradas, nos hotéis da Boca do Lixo e, eventualmente, na casa dos pais.
Os amigos bem que tentavam tirá-lo da paralisia, estimulando-o a reescrever o conto principal de seu livro, mas, até outubro daquele ano, o escritor não encontrou forças. Limitou-se a reunir os trechos do conto-título que havia espalhado entre amigos e contatos. Mas sem botar a mão na massa.
Finalmente, graças a uma bronca de Mário da Silva Brito, tem início o trabalho de recomposição.
A coincidência entre o nome do conto e o nome do livro deu, e dá até hoje, margem a uma imensa confusão. O único texto efetivamente perdido no incêndio era “Malagueta, Perus e Bacanaço”, e não o livro inteiro, como muitas vezes se ouve dizer. Dos nove contos, seis já haviam sido publicados antes, sem modificações entre as versões datilografas e as efetivamente impressas em jornais e revistas (ele realmente só datilografava quando os julgava prontos). Portanto, eram facilmente recuperáveis. Afora o conto título, apenas de dois outros não se tem registro de publicação anterior: “Visita” e “Meninão do Caixote”. Mas há provas da existência de muitas cópias de “Visita” e, quanto a “Meninão”, nenhuma fonte menciona sua reescritura especificamente, enquanto depoimentos de terceiros, amigos e padrinhos literários sobre o assunto, quando mencionam algum conto exclusivamente, este é sempre “Malagueta, Perus e Bacanaço”.
Além disso, ele tinha, numa gaveta na redação da agência, uma pasta com seus contos já publicados. Amigos seus também guardavam recortes de jornais, e amigos mais íntimos tinham cópias dos datiloscritos que ele lhes enviava pelo correio, pedindo comentários. Numa cópia não datada do livro, na qual o sumário não contém o título “Malagueta, Perus e Bacanaço”, estando o conto ainda subdividido, e na qual contos depois rejeitados estão presentes, mas na qual está contido “Visita”, em versão definitiva, tal qual apareceu no livro anos depois, há uma lista de nada menos que 47 pessoas, entre críticos, amigos, escritores, jornalistas etc. E outra menor, de treze nomes, sob a inscrição: “Recolher com”. Não há prova documental de que essa cópia seja anterior ao incêndio, mas tudo leva a crer que sim, comparando-se esta a outras mais nitidamente próximas da publicação. De qualquer forma, a imensa lista de nomes denuncia o hábito, este sim bastante anterior ao incêndio, e leva a crer que não era tão difícil recuperar versões de todas as outras histórias além do conto-título.
Mesmo de “Malagueta, Perus e Bacanaço” sobraram os esquemas dos personagens e trechos inteiros, contidos nas cartas para seus correspondentes mais freqüentes. Segundo estimativas de um deles, setenta por cento do total estava disponível.
Na época, em conversas informais sobre o assunto, e depois, nas entrevistas que deu ao longo da vida, João Antônio manipulou maravilhosamente bem a tal coincidência de títulos, deixando que o mal entendido se propagasse. Este mesmo correspondente interpelou-o certa vez sobre esta ambigüidade intencional. João Antônio teria respondido: “Fica quieto, Caio. É marketing…”.
Mas é claro que havia, de fato, um prejuízo a recuperar, pedaços inteiros do conto, que haviam sido refeitos entre o envio das cartas aos amigos e o incêndio, estavam perdidos. Para refazê-los, colaborou sua determinação e uma insólita habilidade de memorização. Diz ele: “Aprendi um pouco do processo mnemônico, o que me favoreceu a lembrança de trechos inteiros, porque todo o texto é ritmado e tem um movimento para cada capítulo. Isso me ajudou muito na composição, porque, empiricamente, eu escrevia por música”.
Pelo excelente trânsito de Mário da Silva Brito nos meios literários e culturais da cidade, e sob o pretexto de que João Antônio faria um “estudo sobre o conto brasileiro”, conseguiu-se um espaço onde ele, ainda sem casa fixa, pudesse trabalhar à noite, ao sair da agência de publicidade: a cabine de no 21 da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, sua “cela”. Segundo ele próprio, numa carta inspirada: “Eu sou o monge na noite da minha cela. Há um silêncio religioso que lembra, cá no segundo andar, uma viagem de ficção-científica. Eu monge, faço a oracão nervosa:
– Meu Deus, dá fé do artista, que só tem na vida um terninho chacal, muita zonzeira e uma vontade maluca de fazer uma quizumba a que ele chamou de ‘Malagueta, Perus e Bacanaço’. Meu Deus, me dá essa colher-de-chá.”
Enquanto reescrevia, novas publicações individuais dos contos ocorriam, aqui e ali, com os padrinhos de sempre e outros novos. Mas todo seu esforço concentrava-se mesmo era na recomposição do conto perdido. Apenas em março de 1962, um ano e cinco meses depois, João Antônio deu como terminada a versão definitiva de “Malagueta, Perus e Bacanaço”.
Correndo atrás de editora
Muito antes de 1962, portanto do fim da reescritura do conto “Malagueta, Perus e Bacanaço”, João Antônio e seus padrinhos já se movimentavam no mercado para conseguir a publicação de seus contos em livro. Estes já haviam sido testados e retestados, em publicações independentes e na leitura de dezenas de leitores especializados. Mas ter contos veiculados por jornais e revistas é uma coisa, mais fácil e passageira. O grande objetivo era conseguir a publicação de um volume de contos.
João Antônio era batalhador, mas não vinha tendo sucesso, e seus padrinhos eram influentes nas editoras, mas não eram seus donos. As indicações editoriais que faziam estavam sujeitas, é claro, às conveniências financeira e editorial das empresas. Mas nenhum deles não desistia. Deixavam a publicação apalavrada, mesmo sem contratos assinados ou prazos definidos de publicação, enquanto iam abrindo outras frentes. Houve o incêndio, João Antônio vai recompondo o conto-título, mas as tentativas de tirá-lo do ineditismo não param. Ricardo Ramos, nos anos seguintes, faria dois convites João Antônio. Mário da Silva Brito, por essa época, passou a colaborar com a Editora das Américas, e também ele por duas vezes ofereceu-lhe a publicação do livro. Houve outros convites, de outras origens, e num dado momento foram tantos que João Antônio pensou seriamente em escrever novos contos e fazer dois livros em vez de um, o primeiro com Ricardo Ramos na Autores Reunidos, e outro com Mário da Silva Brito na Editora das Américas, um chamado Meninão do caixote e outro João Antônio conta histórias. Mas as combinações sempre acabavam fracassando, devido a contratempos os mais variados, tanto nas editoras interessadas quanto no mercado editorial como um todo.
João Antônio dá um exemplo: “(…) à instrução 204 o senhor Jânio Quadros anuiu a 208 [que determinava um aumento drástico nos custos de papel], que é carga terrível. Livreiros, editores, escritores e todo o resto do pessoal se assustou de verdade. Chegou-me à cabeça da crise do problema livro. Papel a não sei quanto.
– E meus livros? Sairão?
José Olympio, Martins, Saraiva, Brasiliense, Civilização Brasileira, Francisco Alves, Autores Reunidos — todos reunidos a portas fechadas na Câmara Brasileira do Livro para debate. Debate vale?
– E meus livro? Sairão?”
De fato, os livros não saíram: “A não saída de meus livros me largou triste. Mas de uma tristeza silenciosa, sem desesperos. Afinal, não foi a qualidade dos contos que impediu a publicação. Aborrecimento sem motivo fundo, seria. Mais importante é escrever.”
Novamente incentivado pelos amigos, no ano seguinte o jovem escritor inscreveu seu livro no prêmio Fábio Prado de literatura. O volume já tinha sua organização definitiva, embora ainda com o título Aluados e cinzentos, e a reescritura de “Malagueta, Perus e Bacanaço” estava terminada. Eram dois escritores os jurados, o bahiano Fernando Góes e o paulista Leonardo Arroyos. No voto por escrito, eles justificam a premiação dizendo que, em João Antônio, “o realismo urbano paulistano ganha extraordinária vivência pela recuperação de tipos autênticos, pela dramática concepção, valorizada por profundos traços de lirismo da condição humana”.
Então, já em maio de 1962, a sorte muda, e ele pode comemorar três convites, tendo aceito por fim o de Ricardo Ramos, em nome da Autores Reunidos. Mas não sem impor condições, isto é, sem aceitar qualquer interferência em seus contos. A edição seria ilustrada, com direito a adiantamento e a prefácio de Mário da Silva Brito.
Não se sabe exatamente por que, mas apenas dois meses depois, em julho de 1962, uma carta de Ênio Silveira ao jovem escritor formaliza o acordo de publicação com a Civilização Brasileira, para a qual fora recomendado pelo mesmo Ricardo Ramos e por Mário da Silva Brito. O que fez João Antônio mudar de idéia? Segundo ele, houve um certo estranhamento com Ricardo Ramos, durante a negociação das condições para a publicação pela Autores Reunidos; teria sido esse o motivo?
Importa é que numa sexta-feira, dia 21 de junho de 1963, na livraria Teixeira, rua Marconi no 40, a partir das seis da tarde, realizou-se a noite de autógrafos do escritor. Dada a escolha na hora de eleger seu universo ficional por excelência — o submundo da noite paulistana e seus tipos característicos –, a lista de convidados para o lançamento não poderia ser como a de outro qualquer. Conta uma testemunha: “Numa certa altura da festa, João Antônio me apontou a presença de mulheres estranhas ao meio e que o cercavam, sorrindo com intimidade. Eram elas algumas de suas personagens, prostitutas da Boca do Lixo paulistana, que ele convidara especialmente para a estréia dos seus três vagabundos no mundo das elites intelectuais”.
Finalmente, o livro estava na rua. O menino proletário, contra todas as expectativas familiares e sociais, virara um escritor, e de prestígio. Daí em diante, a boa recepção dos críticos a seu livro, e todos os prêmios que recebeu, eram apenas confirmações da recepção que já tivera antes, informalmente, por meio das cartas. A vida de João Antônio nunca mais seria a mesma.
“O que sinto é meio difícil de expressar. O que já senti e aquilo que sinto as primeiras vezes que o folheei, é indescritível. (…) Faz dois três dias que Malagueta, Perus e Bacanaço circulam nas principais livrarias paulistanas. O que estou sentindo é algo tremendo.”
Barbosa, João Alexandre. “Malagueta, Perus e Bacanaço”, in Jornal do Comércio, Recife, 17/11/63.
Artigo não assinado. “Enfim uma esperança”, in revista Visão, 13/09/63, no 11, p. 13.
Miliet, Sérgio. “Alguns Malandros”, in O Estado de São Paulo, 23/07/63.
Pedroso, Bráulio. “São Paulo tem o romancista”, in O Estado de São Paulo, 16/08/63.
Pedroso, Bráulio. “São Paulo tem o romancista”, in O Estado de São Paulo, 16/08/63.
In O Tempo, SP, 24/02/54, p. 6.
Os demais integrantes da comitiva eram Otávio Issa, Roberto Simões e Ronaldo Moreira. Naquela época, Ricardo Ramos era diretor editorial da Civilização Brasileira, e editor de uma página de literatura no jornal Última Hora, para a qual Ronaldo Moreira também escrevia.
Antônio, João. “Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha”, in Dedo Duro. Rio de Janeiro, Record, 1982. “Paulo Melado” era o estranho nome de pena que o jovem escritor utilizara ao enviar um de seus contos para publicação.
A diretoria de A Cigarra, entretanto, vetou a publicação de “Fujie”, devido à temática do adultério, e publicou, em seu lugar, “Frio”, em abril de 1958. As publicações no Última Hora foram, respectivamente em setembro e novembro de 1958, e janeiro de 1959. As no Suplemento Literário, em abril e agosto de 1959.
Carta a Ilka Brunhilde Laurito, de 01/09/59.
Se não mais como diretor, visto que a publicação do livro se dá apenas em 1963, pelo menos como um conselheiro privilegiado, que continuaria a ser por muitos anos.
No acervo do escritor, atualmente sob a guarda da Unesp de Assis, há versões preliminares do livro, nas quais o escritor experimentava outros títulos, outra organização e os contos que deram origem a “Malagueta, Perus e Bacanaço” ainda estavam separados. São eles: “Cinzentos vagabundos por aí” e “Conluio na Água Branca”. Malagueta, Perus, Bacanaço e Carne Frita, personagens do conto, certamente existiram.
Carta a sua mais íntima interlocutora literária, a também escritora Ilka Brunhilde Laurito, de 07/03/60. Vale esclarecer que “piranhas”, na gíria dos malandros, refere-se ou a outros malandros ou a policiais. A correspondência com Ilka Brunhilde Laurito é inédita.
Idem, de 24/03/60.
Idem, de 23/04/60.
Idem, de 06/06/60.
Idem, idem.
Entrevista a Edla van Steen, in Viver e escrever, Porto Alegre, L,P&M, 1981, p. 136.
Ver, por exemplo, depoimento de Ilka Brunhilde Laurito: “João Antônio: o inédito”, in Remate de Males, no 19, Campinas, Unicamp, 1999, p.31. Em carta a Ilka, de 25/12/60, João Antônio menciona a publicação de “Meninão do Caixote” n’ O Estado de São Paulo, queixando-se de cortes e modificações na versão publicada. O conto portanto estava, no mínimo, em fase adiantada de composição. Isso é muito mais provável do que uma reescritura completa e acelerada entre outubro e dezembro de 1960.
Acervo de João Antônio, Unesp de Assis.
Depoimento inédito de Caio Porfírio Carneiro, colhido em maio de 2000.
Entrevista a Edla van Steen, in Viver e escrever, Porto Alegre, L,P&M, 1981, p. 136. Este processo mnemônico era parte do curso de teatro que João Antônio freqüentara no Arena. Lá o jovem escritor teria conhecido grandes nomes do teatro brasileiro, como os atores Milton Gonçalves e Gianfranceso Guarnieri, que mais tarde encarnaria Perus, no cinema, e autores e diretores, como Vianinha, Augusto Boal e Eugênio Kusnet.
Banco de Dados de São Paulo Ltda., pesquisa pelo nome “João Antônio”, realizada em 1999.
Carta a Ilka Brunhilde Laurito, de 08/09/60.
Uma prova datilografada do conto, do acervo do escritor, contêm um relatório sobre as fases de composição do livro, com datas precisas. Unesp de Assis.
Carta a Ilka Brunhilde Laurito, de 23/05/61.
Idem, de 05/07/61.
Idem, de 06/10/61.
“Vagabundagem ganha três reais”, matéria escrita por Sadi Carnot Santana, em órgão de imprensa não identificado, no ano de 1963. Acervo do escritor, Unesp de Assis.
Carta a Ilka Brunhilde Laurito, de 19/05/62.
Idem, idem.
Brunhilde, Ilka Laurito. “João Antônio: o inédito”, in Remate de Males, no 19, Campinas, Unicamp, 1999, p.49.
Malagueta, Perus e Bacanaço recebeu ao todo quatro, afora o Fábio Prado. Os outros três foram: dois prêmios Jabutis, de autor-revelação e melhor livro de contos, 1963, e o prêmio Prefeitura Municipal de São Paulo, 1965. Isso afora as premiações individuais dos contos no período anterior à publicação do livro.
Carta a Ilka Brunhilde Laurito, de 07/06/63.