O PMDB, quem diria…
Depois de tantos anos desde a sua fundação, lá nos confins da ditadura, depois de tantos flagras em seus anões e gigantes do orçamento, depois de tanto desgaste como partido de situação, e numa época quando isso significava ser situação com 30% de inflação ao mês, o PMDB, por incrível que pareça, pode ser o fiel da balança nas próximas eleições presidenciais.
Espantado? Não fique. A lógica é a seguinte:
O PT do presidente Lula virou um campo minado, que explodiu no escândalo do Mensalão, por força dos agudos incendiários de Roberto Jefferson, o nosso Pavarotti iluminista. Ele, sozinho, com seu gogó estrepitoso de advogado criminalista e tenor ilustrado, incendiou logo de saída o próprio partido do governo e todos os seus principais aliados – PL, PP e PTB. Então, num segundo momento, as línguas de fogo bem que deram uma lambidinha na faixa presidencial.
Só que Lula não ficou assando no inferno tanto quanto gostariam Jefferson e os principais partidos da oposição, o PSDB e o PFL. Nas últimas pesquisas, o presidente reconquistou popularidade e praticamente garantiu posição no segundo turno das eleições do próximo semestre.
E uma coisa o Lula já aprendeu: pagando ou não pagando, os partidos da sua antiga base aliada ainda não são politicamente confiáveis. Por divergências ideológicas ou por uma questão de preço, o fato é que não lhe garantem uma maioria tranqüila no Congresso. Se do PT não é o caso do presidente sair, da outra rapa ele está disposto a se livrar todinha, e de bom grado, em troca de um vice do PMDB nas próximas eleições.
Mas o PMDB tem algumas características peculiares. A melhor delas, é sua onipresença. A resistência ao inimigo comum, os militares, e a vitória em quase todos os estados brasileiros, no auge do Plano Cruzado, permitiram-lhe fincar raízes muito bem distribuídas regionalmente. O PMDB é uma espécie de Kombi da Pamonha da política brasileira. Ele está em todo o lugar.
Mas, como a pamonha que vem dentro da Kombi, a pior característica do PMDB é sua falta de consistência. Ideologicamente, é um partido de centro, mas não trabalha coeso há anos. Está dividido, grosso modo, entre governistas e defensores da independência partidária. Só que uns se revezam no papel dos outros, de acordo com o governo que tenta cooptá-los, e assim fica sempre difícil adivinhar pra que lado o partido vai.
Os adesistas querem colar em Lula. Os independentistas querem um candidato próprio. O governador do Rio, Anthony (pronuncia-se “Éntfeni”) Garotinho, que é filiado do PMDB, já se ofereceu para o posto. O governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, também.
Se Garotinho vencer a disputa interna, e ainda mais se ganhar a eleição, tentará refundar o PMDB, unificando a máquina partidária debaixo do seu tacão, é claro. Se, contra todas as expectativas, Germano Rigotto for o candidato, ele funcionará como uma “terceira via” para os caciques do PMDB. É um candidato próprio light; para sair do chão, vai depender tanto da máquina, que mesmo se ganhar continuará mais obedecendo do que mandando.
A oposição, enquanto isso, assiste e reza. Se Garotinho for o candidato do PMDB, o eleitorado de Lula ameaça rachar. Isto porque ele rouba votos do presidente exatamente onde ele ainda é muito forte, ou seja, nas classes C e D. Além disso, o PT estará condenado a se jogar nos braços dos fisiológicos novamente.
Ao contrário, se Lula atrair o PMDB para o seu lado, com a economia indo bem como está, com os tapa-buracos pré-eleitorais que já começaram, e ainda pinçando um ou outro programa social que tenha saído do papel, ele deve conseguir o segundo mandato.
E o tamanho do racha interno que cada uma dessas hipóteses pode provocar é, claro, imprevisível. Num primeiro cenário, os adesistas colam em Lula, e os independentistas ou se fingem de mortos durante a campanha, ou trabalham contra. Na segunda, o candidato próprio do partido é mais ou menos explicitamente sabotado por facções internas no primeiro turno, o que pode jogar alguns grupos PMDBistas no colo da oposição no segundo. E aí quem ganha a parada é Serra, ou Alckmin, mas isso são outros quinhentos.
Rodrigo Lacerda
04/02/06