O perfil de um homem e sua obsessão: o jornalismo de combate

Carlos Lacerda começou cedo sua carreira jornalística, auxiliando Cecília Meireles na página sobre educação que fazia para o Diário de Notícias, do Rio de Janeiro. Isso foi em 1929, quando tinha apenas 15 anos. “Entrei no jornalismo acho que por falta de vocação para qualquer outra coisa”, ele costumava dizer. Mas essa “falta de vocação” não acontecia por causa de um desinteresse generalizado diante do mundo. Ao contrário, era uma conseqüência de sua curiosidade abrangente que, por alargar o horizonte de seus interesses, fazia uma especialização profissional parecer empobrecedora. Apenas o jornalismo, com seu amplo leque de assuntos e acontecimentos, poderia satisfazer tamanho apetite. “Tudo o que está no mundo me interessa”, dizia ele, e por isso desejara ser jornalista, “especializado em idéias gerais, habilitando-se a discutir todos os assuntos com um argumento único, que freqüentemente falta nos assuntos, o argumento do bom senso”.

Isso não significava que o jornalismo fosse uma profissão para amadores. Aos poucos, a vida na Imprensa levou Lacerda a aperfeiçoar sua concepção de jornalismo. Ele viu que o ecletismo da pauta deveria conviver com a técnica, pois somente o jornalista profissional saberia medir a importância dos fatos cotidianos, os acontecimentos do dia-a-dia, em face do passar do tempo. Uma “combinação de atualidade e permanência”, segundo Lacerda, seria a meta do jornalista, a substância de um jornal. A natureza disseminadora da Imprensa, que atinge por “contaminação” a opinião pública; transformava o jornalismo também na arte de simplificar os fatos, tomando-os compreensíveis a maior número de pessoas. Com clareza e uma correta interpretação dos acontecimentos, se extrairia do fato diário seu significado mais profundo, sua “marca da eternidade”.

Lacerda cursava Direito quando teve seus primeiros textos publicados no Diário de Notícias – e estes defendiam os pontos de vista da juventude da época. Ora clamando por reformas no ensino, ora registrando as posições do movimento estudantil, já naquela época se esboçavam o que seria, mais tarde, a maior característica de seus artigos: a violência, o desprezo e a ironia contra a autoridade. Sua mãe, alga, preocupava-se com a pena implacável do filho quando, em 1932, deixou-o residindo na Casa dos Estudantes, aos cuidados de Ana Amélia Carneiro de Mendonça. Diretora da casa, uma instituição de assistência a estudantes, Ana Amélia parece ter percebido a timidez que existia por trás da agressividade do jovem, algo que o próprio Lacerda detectara em seu avô, homem fechado desde a viuvez, sujeito a rompantes de cólera, mas que o neto percebeu “o quanto era fraco, tão estoicamente fraco na sua solidão”



Floreada e prolixa – Na casa dos estudantes Lacerda ajudou a fazer a revista Rumo, de cunho modernista, enquanto na faculdade identificava-se cada vez mais com os ideais comunistas de “Pão, Terra e Liberdade”. Mas, se a crença no comunismo ainda duraria alguns anos, o curso de Direito logo o desiludiu por três motivos básicos: um porque era “contra a ordem jurídica vigente”; dois porque os casos que o interessavam “não davam dinheiro”; e três porque, como dizia, “respeito a advocacia como respeito o barro refratário. Mas, se tenho os dois no jornalismo, para que procurá-los fora dele?” Conclusão: o Brasil perdeu um advogado, já que ele nem completou o curso.

Na juventude, a maneira de Lacerda escrever era considerada floreada e prolixa. Suas reportagens sobre as populações às margens do rio São Francisco, elaboradas durante a decretação do Estado Novo, dariam um livro caso fossem reunidas. “Prolixo, mas não barroco”, segundo Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras, que foi companheiro de redação do jovem Lacerda.

Ele, aliás, sempre gozou de boas companhias nos lugares em que trabalhou. Na Revista Acadêmica, onde começou a colaborar em 1934, foi colega de Mário de Andrade. O veterano poeta, ao escrever sobre aqueles tempos de boemia literária, dizia lembrar-se apenas dos “porres colossais, dois ou três por semana”, tomados no centro da cidade ou nos cabarés da Lapa, a “Montmartre carioca”. Na revista Diretrizes, criada em 1938, Lacerda conviveu, entre outros, com Jorge Amado e Rubem Braga.

Ainda em 1938 integrou a equipe da revista O Observador Econômico e Financeiro, emprego estável que lhe permitia continuar colaborando com outras publicações. Para O Observador, seguindo a amplidão de seus interesses, escreveu sobre a colonização alemã em Santa Catarina, entrevistou o então ministro da Educação Gustavo Capanema, enriqueceu sua pesquisa sobre o rio São Francisco e ridicularizou a mania política nacional de se criar institutos para tudo, com o irônico artigo “O Instituto do Doce”.



Traidor do comunismo – Em 1939, desentendeu-se com o Partido Comunista Brasileiro devido a um artigo sobre a infiltração comunista no Brasil. O artigo fora encomendado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e a mensagem final deveria ser a de que o comunismo ainda ameaçava o território nacional. O jornalista designado para escrevê-lo era um inveterado anti-comunista, o que levou Lacerda a consultar indiretamente a cúpula do Partido Comunista. A seu ver, seria melhor que ele, um ativo defensor da causa, o escrevesse, para que pudesse, tanto quanto possível, suavizar o tom do artigo. O PCB concordou mandando um recado através da direção da revista Diretrizes.

Surpreendentemente, após a publicação do artigo Lacerda foi acusado de traidor do comunismo, expulso de seus círculos e marginalizado por grande parte da vanguarda jornalística da época. Na noite de seu rompimento com o partido, Lacerda afogou suas mágoas no copo e terminou carregado para cama – ironia do destino – por Samuel Wainer. Dali a alguns anos os dois seriam inimigos de morte. Mas, na ocasião, Wainer foi solidário com Lacerda, que chorava e se dizia “órfão”, “sem mãe”, referindo-se ao PCB. Logo depois, Wainer teve de excluí-lo da revista Diretrizes, pressionado pelos demais colaboradores e repreendido por Jorge Amado: “Veja no que deu você trazer esse crápula aqui pra dentro,”

Ao longo de sua vida, a sucessão de rompimentos e reconciliações de Lacerda com amigos foi constante. Tanto sua atuação na Imprensa como mais tarde na política, o temperamento naturalmente forte, a agressividade de suas críticas e a ousadia de. suas posições provocavam muitas mágoas e ressentimentos. No mundo das letras, um exemplo disso foi sua briga com Mário de Andrade. Lacerda rompeu com o escritor e chamou-o de caluniador, devido a um artigo no qual Mário o acusava de defender a entrada do Brasil no esforço de guerra promovido pelos EUA, movido por interesses financeiros.



“Camponês de pijama” – Já com Alceu de Amoroso Lima, intelectual católico que combatera durante a fase comunista, reconciliou-se quando de sua conversão ao catolicismo. A inconstância de suas amizades era ditada pela inconstância de suas posições. “O falso princípio da coerência é uma coisa que eu desprezo completamente. Uma das muitas acusações que me têm feito com freqüência é a de que eu vario muito, é a de incoerente. Eu me acho absolutamente coerente, porque eu mudo de idéia toda vez que eu acho uma idéia melhor do que aquela que eu tinha”, dizia Lacerda, justificando sua sucessão de paixões e ódios figadais.

Como protesto pelas intervenções do Estado Novo na Imprensa, Lacerda abandonou O Observador em 1940. Passaram-se dois anos até que, a convite de Assis Chateaubriand, foi dirigir a agência telegráfica Meridional, vinculada aos Diários Associados. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, escreveu sobre as instalações militares no Nordeste brasileiro, em janeiro de 1944. Ainda nesse ano, acumulou a função de secretário de O Jornal, também de propriedade de Chateaubriand. Lá teve novamente problemas com a censura do regime de Vargas, entre outras coisas por permitir que o repórter David Nasser descrevesse o interventor federal de São Paulo como um “camponês alegre de pijama e chinelos”, Recusando-se a publicar uma retratação, largou o emprego e passou a escrever como free-lancer para os jornais Correio da Manhã e o Diário Carioca.

Mas foi em fevereiro de 1945 que Lacerda realizou a histórica entrevista que abalaria o Estado Novo, com o político de oposição José Américo de Almeida, um dos mais respeitados líderes da Revolução de 30, que havia se incompatibilizado com Getúlio quando do Estado Novo, Na entrevista, José Américo de Almeida falava, pela primeira vez, em eleições diretas. A repercussão foi imediata, mas não houve qualquer retaliação do governo. A oposição aproveitou e passou a se preparar para eleições, agora inevitáveis diante do esfacelamento do regime.

Nas eleições, Lacerda apoiou o candidato da UDN (União Democrática Nacional), o brigadeiro Eduardo Gomes, combatendo de um lado Eurico Gaspar Dutra, ex-ministro da Guerra de Getúlio e, de outro, o candidato dos comunistas, Iedo Fiúza, a quem chamava de “o rato Fiúza”. Apesar de sua atuação na campanha, e da vinculação crescente de seu jornalismo com a política nacional, Lacerda ainda não havia se tornado um político e mantinha-se nas redações, nas “torrinhas onde me reservo o direito de aplaudir e de vaiar, infelizmente mais de vaiar que de aplaudir. Esse papel – o de jornalista – é o que eu reivindico. Ele é tudo quanto pretendo”.



Votação recorde – Além da Imprensa escrita, Lacerda estendeu seus esforços de campanha ao rádio, com um programa diário na Tupi. Não adiantou. Dutra foi eleito e empossado em 1946. Nesse mesmo ano, durante a Assembléia Constituinte que buscava devolver a democracia legal ao país, Lacerda iniciou no Correio da Manhã uma coluna chamada “Na Tribuna da Imprensa”. A coluna pretendia cobrir os processos da Constituinte e as questões da. política nacional, além de difundir o anti-getulismo e atacar aqueles que considerava responsáveis pela derrota do brigadeiro nas eleições. Em 1946, o Correio da Manhã, O Observador e O Estado de S.Paulo enviaram-no como correspondente para a Inglaterra e, de lá, para Paris, onde cobriu a Conferência da Paz. Ali, suas mais duras críticas foram contra João Neves, amigo de Getúlio e chefe da delegação brasileira, que “não sabe o que faz; vai ao Folies Bergere, enquanto a mulher distribui santinhos”.

De volta ao Brasil, Lacerda disputou sua primeira eleição para vereador em 1947, na qual foi eleito com votação recorde. O exercício da política começava a ocupar maior espaço na vida do jornalista, o que ele justificou da seguinte forma: “A força de dizer todos os dias, num jornal, como é que devem ser feitas as coisas e fazer oposição, acaba-se, de certo modo, comprometido a fazê-las.” Contudo, insatisfeito com os rumos da política municipal, com a “falsa democracia” do país, Lacerda renunciou ao mandato de vereador. Após uma viagem ao Oriente Médio, onde cobriu a partilha da Palestina, continuou a escrever sua coluna e a exercer sua oposição ao governo. Combateu, por exemplo, a campanha “O Petróleo é Nosso”, que defendia um monopólio estatal na área.

Outro alvo contumaz de sua coluna era a prefeitura carioca, o que lhe rendeu um atentado ao sair do programa diário que começara na rádio Mayrink Veiga. Os culpados nunca foram presos, mas soube-se que dirigiam um carro da Polícia. Depois de outra viagem, agora para cobrir as eleições presidenciais americanas, voltou ao Brasil para aquele que seria o último ano antes da fundação de seu próprio jornal. Por uma divergência com a direção do Correio da Manhã, Lacerda pediu demissão e abriu uma subscrição pública que viabilizaria a maior realização jornalística de sua vida.

“Afinal começamos”. Este foi o título do artigo em que Carlos Lacerda celebrou a fundação da Tribuna da Imprensa, em 1949. A partir daí cristalizaram-se nele os últimos traços que constituiriam seu perfil jornalístico. Inspirado por imagens nas quais o jornalista era o “o zelador da comunidade”, “o político do povo”, ele vinculou sua atuação jornalística quase exclusivamente às questões políticas da capital federal e da nação. Para Lacerda, a Imprensa e os jornalistas funcionavam como “os olhos, a boca e – ai de nós – algumas vezes até o nariz da nação”, sendo tão estritas as relações entre a Imprensa e a política, que considerava a primeira como “o quarto poder do Estado, um órgão auxiliar da Justiça e um elemento de contraste de que não pode prescindir o governo” Pois, “se é difícil governar com Imprensa livre, sem ela é impossível” .



Espancado no elevador – A marca de sua trajetória na Imprensa até aqui, a independência, estender-se-ia também ao seu jornal, veículo de opiniões coerentes com uma filosofia própria, que via com desconfiança as chamadas matérias pagas e com desprezo “aqueles jornais que confundem a liberdade de opinião com uma confusão eclética mais adequada e visivelmente adotada nas paredes de mictório”. A imparcialidade nas opiniões não era seu forte, como ele mesmo reconhecia, ao dizer que “o ideal de separar informação de opinião é um ideal, quer dizer,. existe na condição de nunca ser completamente atingido”.

A independência da Tribuna se tomou mais evidente quando, nas eleições presidenciais de 1950, contrariando a UDN, o jornal combateu a segunda candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes, considerada suicida, pois levaria não só à derrota, mas à volta de Getúlio. Dito e feito: em 1951 Vargas tomou posse como presidente eleito. “Eu queria muito evitar que a Tribuna fosse um órgão da UDN, até porque isso era impossível; a UDN não podia ter um órgão – a UDN era uma maçaroca de tendências. ”

O novo estilo de Lacerda, mais agressivo e mordaz contra os adversários políticos, fazia das campanhas da Tribuna verdadeiros acontecimentos, e provocava inúmeras reações contrárias. Nesse primeiro ano, a mais violenta delas foi o novo atentado sofrido por Lacerda, espancado por dois agressores num elevador. Um desses agressores era um coronel da Aeronáutica, que havia sido acusado de corrupção em uma das matérias do jornal.

A força de seus ataques pela Tribuna renderam a Lacerda a imagem de crítico inveterado, de destruidor sistemático, culminando no sentido pejorativo do apelido “metralhadora giratória”, Ele via esse problema da seguinte forma: “Construir, propriamente, não é com os chefes do governo. Mas é ainda menos com o jornalista, Construir, propriamente, é com o pedreiro”, dizia, Para ele, o modo de construir do jornalista era “ver sem cessar de ver, e dizer incessantemente o que vê”,



“Um vendaval” – Em seus primeiros anos de existência, no entanto, era visível a preocupação da Tribuna em evitar o estigma de Lacerda. O jornal promovia campanhas pela melhoria das favelas, patrocinou uma mesa-redonda sobre a reforma agrária e até desenvolveu uma campanha assistencial às vítimas da seca, com um sugestivo nome: “Ajuda Teu Irmão”,

O bom ambiente entre”a equipe da Tribuna, que integrava veteranos experientes e jornalistas iniciantes, fazia dela uma escola de jornalismo ou, na definição de Lacerda, “um navio escola”, que agitava a Rua do Lavradio, 98, e às noites se reunia nó restaurante “Tim-tim por Tim- tim”. Embora a Tribuna não primasse por bons salários, os repórteres eram dedicados e motivados, possivelmente por se deixarem contagiar pelo entusiasmo de Lacerda. O jornalista Stefan Baciu se lembra que Lacerda “entrava na redação como um vendaval: jogando o paletó sobre uma cadeira, arregaçava as mangas da camisa, desfazia o nó da gravata e começava a escrever na primeira máquina que encontrasse”. Airton Baffa, que trabalhou na Tribuna, se espantava com a concentração .do chefe. “Carlos era indiferente a qualquer barulho ou algazarra, quando curvado sobre o teclado, os óculos pousados sobre o alto da cabeça.”

Para Lacerda, sem dúvida, o jornalismo era uma obsessão, Mas o entusiasmo e o bom relacionamento da equipe não bastavam para tomar fácil a vida do “patinho feio”, apelido que Lacerda deu à Tribuna. As campanhas contra as autoridades faziam da vida no jornal um tumulto constante. Aliado a isso, o “navio escola” enfrentava uma crônica tormenta financeira, provocada pela pouca publicidade, pelo boicote das companhias associadas ao governo e pela baixa circulação, o que valeu ao jornal mais um apelido nada agradável: lanterninha. Numa atitude típica de Lacerda, a Tribuna passou a estampar no alto da primeira página uma lanterna, símbolo da busca da verdade.

Mas a grande batalha jornalística da Tribuna ainda iria começar. Seus ataques ao novo governo de Getúlio não se fizeram esperar, principalmente depois da fundação do jornal, Ultima Hora, dirigido por seu antigo companheiro Samuel Wainer. Para Lacerda, o Última Hora nascera em berço esplêndido e os privilégios que o governo lhe concedia, como a garantia para o fornecimento de papel ou a publicidade dos órgãos federais, caracterizavam um dumping na Imprensa brasileira. A partir de julho de 1953, os torpedos à “malta do mangue”, como Lacerda se referia à equipe do Ultima Hora, redobraram de intensidade na Tribuna, na rádio Globo e na TV Tupi.



“Mar de lama” – A violência dos disparos de Lacerda era respondida à altura, Lacerda acusava Wainer, entre outras coi. sas, de ser um “brasileiro de última hora”, Wainer devolvia tachando-o de “tarado moral, diretor de uma gazetinha sem significação e fracassada… denegridor da honra alheia”, Lacerda apareceu nas páginas da Última Hora caricaturado como “O Corvo”‘, numa alusão à sua suposta “alma negra de abutre exibicionista e hipócrita”‘. Para quem assistia de fora, o nível de agressividade entre ambos era surpreendente. Após assistir uma inflamada aparição de Lacerda na televisão, Dora Wainer, mãe de Samuel, perguntou ao filho: “Por que ele te odeia tanto? Ele vivia na nossa casa, era tão bonzinho. ‘”

A partir de denúncias da Tribuna foi instaurada uma CPI no Congresso para investigar o desvio de verbas federais e o tráfico de influências que beneficiavam o jornal de Wainer. No início do ano seguinte, a CPI ratificou as ,acusações. Era o início da derrocada da Ultima Hora.

A oposição da Tribuna contra Vargas e à Ultima Hora aumentava a cada dia e as pressões contra a equipe assustavam a todos. Lacerda, a essa altura extremamente visado pelos inimigos, passou a ser escoltado por alguns majores da Aeronáutica, Finalmente, em 5 de agosto de 1954, ele sofreu um terceiro e violento atentado, no qual o major Rubens Vaz, escalado para protegê-lo aquela noite, foi morto com um tiro no coração. Com as investigações levando à guarda pessoal de Getúlio e respingando suspeitas contra seu próprio irmão Benjamim Vargas, o presidente sucumbiu ao “mar de lama’” outra expressão usada por Lacerda – e suicidou-se.

Ao longo da campanha contra a Última Hora e, em última instância, contra Getúlio, o perfil jornalístico de Lacerda adquiriu contornos definitivos. Seu estilo despojou-se da prolixidade e adotou uma postura mais direta e combativa. Seu vasto leque de interesses organizou-se em tomo de um eixo central, a política. No decorrer de toda sua vida, ele nunca se afastaria da Imprensa e, por seu intermédio, continuaria a influir nos rumos do país – passando pelos governos de Kubitschek, Jânio, Jango, pelo golpe de 64 e o regime militar.

No entanto, a eleição para deputado federal, ainda em 1954, marcou o início de sua “carreira’” política que, mesmo exposta, justificada e até mesmo praticada através da Imprensa, levou-o para longe do dia-a-dia das redações. Sua eleição como deputado foi uma decorrência natural da popularidade obtida durante a polêmica contra Getúlio, e não o resultado de um plano preconcebido. Absorvido pela nova função, Lacerda passou a direção da Tribuna a parentes e amigos, vendendo o jornal anos mais tarde.



Senhora gorda - Cassado em 1968 pelo AI-5, Lacerda retirou-se, um tanto a contragosto, para uma vida recolhida. A energia e o vigor que caracterizaram sua trajetória como jornalista e como político esgotaram-se pouco a pouco numa vida intoleravelmente pacata para alguém com seu temperamento. Dedicou-se à editora Nova Fronteira, que havia fundado em 1965, mas sua chama vital jamais brilhou com a mesma intensidade. Anos mais tarde, em seu último contato direto com a Imprensa, nas entrevistas que vieram a constituir o livro “Depoimento”‘, um mês antes de morrer em 1977, Lacerda analisou seu percurso na Imprensa: “A minha combatividade (…) vinha do fato de que o resto da Imprensa ou estava calada ou falava muito baixo. Eu me refiro, por exemplo, à Imprensa do Rio, que era a única que tinha real influência no país inteiro. Aqui é que estava a sede do governo, é que estava a tal caixa de ressonância, como classificou o Getúlio (…) Então, para se levantar contra isso, ou gritava muito alto, muito duro, ou não seria ouvido. Hoje, talvez não houvesse necessidade da mesma combatividade. ”

Assim como o desgostava a política ditatorial daqueles últimos anos, a forma que a Imprensa ia tomando também não lhe parecia recomendável. “A televisão está acabando com a opinião pública brasileira. A televisão, com esses jornais-pílula que dão o mesmo espaço de tempo para uma notícia do fechamento do Congresso e uma senhora gorda que apareceu pesando 200 quilos no Piauí, faz com que a massa do povo ponha as duas coisas em equilíbrio e acabe se interessando muito mais pela senhora gorda de 200 quilos.”

Mesmo no final da vida, a função social e política da Imprensa o preocupava e seu humor afiado ainda se prestava à defesa veemente de seus pontos de vista. Em seu enterro, o ex -presidente Jânio Quadros sentenciou: “Morreu como viveu: pelo coração. Deixemos a história julgá-lo.




REVISTA: Imprensa. Ano VI. n° 66
DATA: março de 1993
PÁGINA: 38-42