O Globo | O mistério do leão rampante

JORNAL: o Globo – Rio de Janeiro
DATA: 11 de junho de 1995
SEÇÃO: 2° Caderno

Shakespeare nas entrelinhas da ficção
|| PAULO ROBERTO PIRES

Na única história contemporânea a Shakespeare em que seu nome é citado, o dramaturgo está ligado ao teatro de forma pouco ortodoxa. Tendo ouvido o convite de uma fã ao ator Ricardo Burgage para que este comparecesse a um encontro amoroso vestido como Ricardo III, Shakespeare se antecipou e, com os figurinos de seu personagem, usufruiu dos “favores” da moçoila. E em defesa dela que sai um certo Valfredo Margarelon no relato “O mistério do leão rampante”, primeiro livro do editor Rodrigo Lacerda, fã incondicional do autor inglês que constrói nas entrelinhas da História sua estréia na ficção.

A história está relatada num documento de época – explica Lacerda, de 26 anos. Inventei o universo da fã e de sua família, além do narrador.
A passagem da História para a ficção se deu, curiosamente, na academia. Insatisfeito com o mestrado de História da USP, quando preparava uma tese sobre Shakespeare, Lacerda resolveu trocar as notas de rodapé e bibliografias pela liberdade ficcional. Mas o livro, escrito em 20 dias e burilado durante um ano, não se esgota no prazer de recontar o passado e brinca o tempo todo com o estilo.

Quis reproduzir em parte a linguagem setecentista, mas isso é impossível e até indesejável diz ele. – Mas da mesma forma que incorporo palavras do século XVII, brinco com os significados e as referências, como se fossem cacos no teatro.

Numa bem cuidada edição apresentada por João Ubaldo Ribeiro – e que marca outra estréia, a da editora Ateliê – “O mistério do leão rampante” se filia, segundo o autor, a uma tendência de brincar com a História vista, por exemplo, no romance “O Chalaça”, de José Roberto Torero, e no filme “Carlota Joaquina”, de Carla Camurati. Apesar de ter escrito seu livro em 1993, Lacerda não reivindica nenhum pioneirismo.
O que está havendo é uma redes coberta da capacidade de brincar com a História – diz. ele. – Está se perdendo o medo de ser politicamente incorreto.

A critica de teatro do GLOBO Bárbara Heliodora, tradutora de Shakespeare e especialista no autor, é uma referência para Lacerda. Depois de acompanhar grupos de estudo dirigidos por ela, o autor diz ter visto o dramaturgo de outra forma.

- Shakespeare era para mim um prazer muito solitário conta ele. – Até o dia que conheci a Bárbara e ela me ensinou que Shakespeare é um prazer compartilhado. Meu livro leva isso às últimas conseqüências.

Bárbara viu ‘em “O mistério do leão rampante”, que será lançado amanhã na livraria Timbre, um tom teatral. Para ela, Lacerda conseguiu construir uma espécie de cenário:
- Rodrigo demonstra um domínio de estilo surpreendente diz Bárbara. – Ele alterou a História, mas seria muito difícil ela ficar tão apaixonada pelo Ricardo III, e o Henrique V que está no livro é mais heróico.