O Estado de São Paulo | A dinâmica das larvas
JORNAL: O Estado de São Paulo
DATA:07 de setembro de 1996
“A Dinâmica das Larvas” aposta na farsa
O livro de Rodrigo Lacerda, apresentado como uma “ comédia trágico-farcesca”, põe todo o peso na farsa, deixando o componente trágico apenas como uma intenção.
|| Por Rubens Figueiredo
Queira ou não, o humorista supõe pura .si urna posição de superioridade. Tem a ilusão de que assiste à comédia do mundo de um lugar privilegia-lo, de onde pode desfrutar os absurdos humanos sem se contaminar por eles. É bem verdade que o humor costuma conter alguma dose de auto zombaria. Mas nunca ponto de levar o humorista a abrir mão do direito de julgar o ridículo que enxerga nos demais.
O escritor carioca Rodrigo Lacerda ( nascido em 1969) talvez não chegue a ser propriamente um humorista, mas fez do humor o elemento principal de seus dois livros: O Mistério do Leão Rampante (1995, Prêmio Jabuti), e agora o romance A Dinâmica das Larvas (Ed. Nova Fronteira. 180 págs., RS 17,00). Escritor impetuoso, parece atraído por personagens e acentuadamente caricatos e situações grotescas. Contudo uma tendência mais sutil em seu talento refreia a mão do escritor quanto as cenas dão sinal de que podem ir longe demais. Essa contenção, somada à preocupação de tratar os enredos como parábolas ou fábulas dotadas de algum cunho moral, coloca os livros de Rodrigo Lacerda acima do mero entretenimento literário.
A Dinâmica das Larvas conta a história de dois editores, uma organizadora de concursos literários e um cientista e escritor. Esses quatro personagens giram às cegas, no círculo de suas ambições, de seus sonhos frustrados, de seus delírios. O tipo de humor que Rodrigo Lacerda põe em ação requer que todos os personagens sejam desprezíveis. Tende, assim, a cortar na raiz qualquer possibilidade de identificação, e portanto de compaixão, entre o leitor e o alvo do seu riso. Apresentado como uma “comédia trágico – farsesca”, o romance na verdade põe todo o peso na farsa, deixando o componente trágico antes como uma intenção. Não há dúvida de que A Dinâmica das Larvas é um livro muito bem construído. Sua estrutura, abrangendo toda a ação em uma única noite, lembra uma peça de teatro. Apenas os quatro personagens contracenam: um editor à beira da falência e desiludido da literatura ; um editor universitário, exasperado com a esterilidade da vida acadêmica; uma mulher sem escrúpulos, disposta a manipular o resultado de um concurso literário a fim de favorecer suas ambições de lucro, e um cientista misterioso, de quem os outros três desejam tirar proveito.
A trama se desenvolve com grande habilidade, a medida que os personagens vão, pouco a pouco, revelando seus verdadeiros propósitos, que implicam sem pré a idéia de passar alguém para trás. A cena em que os dois editores e a mulher ambiciosa redigem, a seis mãos, as cláusulas de um contrato leonino para um autor novato é de lato hilariante. Mas quem já se viu na situação de assinar um desses contratos, ao mesmo tempo em querida cena, sentirá um arrepio de horror.
O talento de Rodrigo Lacerda se manifesta com clareza no fato de que a figura predominante do livro, aquela que confere a toda a trama um significado mais amplo do que a mera seqüência de episódios, é justamente o personagem que menos apareço: o excêntrico cientista, apaixonado pelas larvas. Rodrigo Lacerda revela uma aptidão para traçar caricaturas não só do tipos humanos como também de idéias e teorias, o que é bem mais raro. Forjou para seu personagem uma doutrina delirante, embora coerente, nos seus termos, por meio da qual o cientista pretendia revolucionar os critérios de beleza vigentes entre os seres humanos. Qual o conceito de beleza para um réptil ou um inseto?, se pergunta o cientista. Formula então uma tabela que mede o grau de asco na aparência dos animais, segundo o Índice Asquerosômico Autêntico. Chega assim à conclusão de que as larvas constituem a forma mais perfeita de vida.
No final do livro, a demência do cientista, se funde à própria narração e o que o leitor vê, em primeiro plano, são as alucinações do personagem. Desse modo, é a loucura. do cientista que termina por revelar o desespero e o horror subjacentes na degradação dos demais personagens, que até então vinha pintada apenas com as cores do ridículo.
O livro se encerra com um posfácio interessante em que o autor comenta o próprio romance e aponta em que se inspirou para escreve-lo. Mas não estou seguro de que lenha sido uma boa idéia. Creio une um autor deve se justificar no próprio texto do seu livro. Orientar o leitor é subestima-lo e, ao mesmo tempo, arrogar para o escritor uma onipotência que ele não possui, no tocante ã interpretação da sua obra. Rodrigo Lacerda, ao lado de Juremir Machado da Silva, Bernardo Carvalho António Fernando Borges e Braúlio Tavares, vem se destacar uma geração de autores brasileiros que começam a receber o justo reconhecimento. Suas obras têm muito a dizer e suas vozes já não podem deixar de ser ouvidas. Pelo menos por quem se recusa a submergir na banalidade, à semelhança das tão perfeitas larvas, adoradas pelo herói de Rodrigo Lacerda, que vivem sua beatitude enterradas na areia.