O Estado de S. Paulo | Paixão pelos livros

A maior Invenção humana.

Publicações que abordam o sempre renovado prazer da leitura. Por Aluízio Falcão.

O livrinho é curto e traz na capa impactante fotografia de uma biblioteca londrina, bombardeada em 1940. Nessa foto, ingleses encapotados vasculham estantes que restaram da brutal destruição. Impressionou-me a cena de guerra, mas comprei o pequeno volume também pelo título. A Paixão pelos Livros (Casa da Palavra. 150 págs. R$ 32). Leitura muito agradável dos textos assinados por José Mindlin. Drummond, D’Alembert, Flaubert, Caetano Veloso, Petrarca, Plínio Doyle, John Milton, Momaigne, Benjamin Franklin, Varlam Chalamov, Camilo Castelo Branco, Sarovan e Rodrigo Lacerda. Textos em excesso. Desiguais, é fidelidade, mas todos aceitáveis pois reverenciam cada qual a seu modo um objeto sagrado que resultou para felicidade geral da invenção dos tipos móveis por Gutemberg no século 15.

Aqui estamos no terceiro milênio a perguntar se houve em qualquer época urna revolução tão benéfica e civilizadora quanto a provocada pejo surgimento do livro. Informática? Internet? Ora, façam-me o favor. José Mindlin na página de abertura levanta muito apropriadamente a questão. Não fala como bibliófilo mas como leitor. Diz coisas simples e belas a respeito do poder transformador da leitura.

Mindlin publicou há meses novo e interessante relato sobre a formação do seu famoso acervo: Memórias  Esparsas de uma biblioteca resenhado neste Caderno por Antonio Gonçalves Filho. Na abertura de A Paixão pelos Livros, o autor mantém o estilo conservado e leve – o que nos cativa de imediato, por mais difíceis que as nossas vivências como leitores.

O que nos aproxima de um bibliófilo é o interesse pelos livros e sua mania de guarda-los. O que nos separa? Bem. eu jamais  daria 1.500 dólares por um exemplar da obra de André Thevet, Las Singalaritez de la France Antarticque,como ele fez em Nova York  há 50 anos. Muito menos compraria duas missas manuscritas de Olinda, século 18, ou a edição de 1521 das Ordenações manuelinas. Minhas alegrias são outras. Com franqueza, prefiro Mindlin escritor ao Mindlin colecionador, embora reconheça a utilidade social infinitamente maior deste último.

É pode o folclore literário sobre a Bibliomania. Nele figura, com destaque, ninguém menos que Gustave Flaubert. O francês escreveu um famoso conto aos 15 anos de idade, exatamente com esse título. Bibliomania,  reproduzido em A Paixão pelos livros.

O que nos conta Flauber? O enredo é intenso e a forma admirável. Vou lembrá-lo precariamente, só para motivar o leitor. Havia em Barcelona o livreiro J. Giácomo, certo dia visitado por I outro colecionador, que lhe ofereceu 600 moedas pela raridade  Crônica da Turquia. Embora cheio de amargura. Giácomo  vendeu o seu tesouro. Para confortar o infeliz, disse-lhe o comprador que outro livreiro ali perto, no Muro dos Mouros, dispunha de outra preciosidade, o Mistério de São Miguel, e poderia vendé-lo. Giácomo foi lá e soube que o tal livro estava com o cura da aldeia. Não estava mais, fora a leilão, e acabou nas mãos de outro bibliófilo, justamente Baptisto, o implacável rival de Giácomo. Dias depois a casa desse Baptisto amanheceu em chamas. Giácomo,  arriscando a vida, entrou na casa incendiada e roubou o Mistério de São Miguel. Foi acusado pelo incêndio e segue-se  o melhor da estória, que naturalmente deixo de contar, pois não tenho a pretensão de tirar leitores de Gustave Flaubert.

Há muito mais para ler nesse lançamento de 14 autores. Cabe também referência especial ao ??? e bem – humorado texto de Rodrigo Lacerda, que lida com as agruras do excesso de livros de quem mora em apartamento.

Contando a chegada triunfante de uma nova estante que resolveu o problema, o escritor viaja pela sua vida. E faz essa reflexão que todos nós, de um jeito ou de outro, já fizemos: “olho para a estante vazia. Lembro-me de todas as estantes que já tive. A laqueada de branco e com bordas arredondadas de quando eu era criança. A de madeira aparente, da adolescência. Lembro – me dos tempos em que não tive estantes, quando vieram as mudanças – de solteiro para casado, de cidade, de Estado, de casa para separado, e então de casado de novo, com a mesma/outra mulher e  - e com as mudanças vieram as caixas de papelão as casa menores, a falta do espaço. Nunca mais vi todos os livros juntos. Até hoje guardo muita coisa no sitio do meu pai. Falando nisso, minha coleção Terramarear continua lá. Terra mar  e ar que nome! Esse supremo prazer, o da estante nova, há muito pedia um bom texto como o de Rodrigo Lacerda.

Guardadora

Falando em bibliomania penso no volume que faz par com aquele de José Midlin em Memórias Esparsas. O de Cristias Antunes, com o titulo de Memórias de Uma Guardadora de Livros, é o relato de uma vida feliz. Desde 1981, ele trabalha na biblioteca e conta, para a nossa inveja, o seu dia-a-dia profissional. Vejo-me à lembrança o que disse Borges: “ Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca.”

Cristina descreve o [ilegível, 1 palavra]  entre com tal expressividade que o texto funciona como um filme em nossa imaginação. [ilegível, 1 palavra] não aparecem os visitantes de sempre      ( jornalista formados, estudante, professores, todos em busca de informações) lá estão apenas três funcionarias, o silencio permite que elas leiam em voz alta, passagens de livros cuja beleza impõe uma espécie de comunhão estética.

As moças mesmo trabalhando exaustivamente criam brincadeiras: “ Com quem você acha que James Joyce vai gosta de ficar na estante?” Decidem entre risos se Lygia Fagundes Telles ficaria com Antonio Candido ou com Rubens Fonseca. Escritores ocupam seu pensamento a toda hora. Elas fantasiam, conversam , discussões, relacionamentos. Quem tem pelo menos um quarto cheio de livros  já experimentou esse devaneio: páginas que se abrem sozinhas, durame a noite e exibem umas para as outras o que possuem de melhor.

Catalogação digital, limpeza, restauro, conservação. regras para consultas, decisões sobre descarte ou aquisição – eis algumas tarefas complexas e prazerosas de quem ali vive praticamente uma “ventura por dia” lidando com a mais bela invenção humana desde que existe civilização. Acompanhando o entusiasmo de Cristina Antunes pejo seu oficio, passamos dizer que a moça tem um emprego que pediu a Deus.

Tudo começou numa curiosa entrevista para a sua contratação, feita pelo  próprio Mindlin, “Você é bibliotecária?’ e eu disse: ‘ Não.’ ‘Você gosta de fazer fichas?’ E eu disse: ‘Não.’ Comecei a sentir que o emprego estava sumindo, ‘Você sabe fazer fichas?’ Eu disse que sabia mais  ou menos, porque  tinha tido alguma experiência no IEB, se bem que lá eu não catalogava, recebia as fichas manuscritas e datilografava. Então ele perguntou: ‘Você, gosta de livros. Eu disse: ‘Adoro’, e ele: ‘Pode sentar porque agora nos  vamos conversar,’”

As, memórias dessa moça guardadora me deram uma certa inveja (venial) de suas alegrias naquelas salas iluminadas pela inteligência do mundo, Recomendar o seu admirável livrinho ao  leitores do Jornal é o mínimo que posso  fazer para redimir-me , dessa cobiça..



JORNAL: O Estado de São Paulo
DATA: 13 de novembro de 2004.
SESSÃO: Caderno